Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cocô com hora marcada

Quem tem algum contato com os pequeninos conhecem suas necessidades constantes de cuidado básico. Atenção com seu ritmo, alimentação, descanso e higiene são conteúdos intrínsecos à primeiríssima infância, tão importantes quanto brincar, relacionar-se com o colega, construir as bases para o desenvolvimento sadio.Grandes desafios para os pais .

No entanto, quando observamos o contexto escolar, nos deparamos muitas vezes com propostas massificantes e potencialmente perigosas: vocês já ouviram falar de desfralde coletivo?

Imagem encontrada no Pinterest

Não cansamos de repetir que cada criança é única e que um acompanhamento presente de suas necessidades e particularidades é a base para esse crescimento? Como pode então uma escola propor que todas as crianças sejam obrigadas a usar o banheiro - o que implica em aquisição de um controle fisiológico que é impossível de forjar, o controle de esfíncteres - no mesmo tempo? Na mesma "idade escolar"? Como supor que fazer aniversario de 2 anos transforme uma criança em outra criança ?

Isso fala para muito além de uma prática prejudicial à criança. Isso se trata de um profundo desconhecimento social, que ecoa com muita força nos espaços coletivos, do que é ser criança. Isso se trata, em última instância, de uma profunda falta de respeito. Um abuso sem precedentes.

Mas ora, como farão os profissionais da educação infantil, cuidando de quarenta crianças ao mesmo tempo se cada uma delas tiver um horário diferente, uma necessidade diferente. Pois é. Como farão? 

Me surpreende - mas nem tanto - que os problemas sejam resolvidos repassando para os mais fracos todo o ônus. Quer dizer que para viabilizar a rotina massificada da escola infantil estamos propondo, de novo, desrespeitar a criança? Li comentários de alguns sobre essa questão do desfralde dizendo:
- Coitadas das educadoras(funcionarias da creche) que tem que então trocar fraldas de crianças ate 5 anos !!! Tentei ser solidário ao comentário mas realmente me pareceu que a educadora coitada era mais criança que a própria criança neste caso.Coitad@ ?Que lugar ocupa este adulto? Esta nesse lugar de adulto de cuidar de uma criança com suas peculiaridades e é vista como coitada ?

Já não basta que tenham nascido fora de trabalho de parto muitas vezes por cirurgias mal indicadas, fora de seu tempo de maturação. Já não basta que lhes tenha sido negado o direito ao seio materno imediatamente ao nascer, que tenham sido picados, medidos, sugados e cutucados sem necessidade. Já não basta que tenham ficado horas chorando nos bercinhos aquecidos. Não basta que tenham sido obrigadas a mamar na hora que era conveniente para os adultos, para os profissionais de saúde envolvidos inclusive. Não basta que tenham ficado amarrados em carrinhos e cadeirinhas para não dar trabalho. Também não basta que tenham decidido que exatamente aos seis meses deveriam estar prontos para comer. Já não basta que não tenham sido jamais respeitados em seus desejos básicos de fome, de sono, de movimento. 

Vamos também corroborar que tenham prazo para aprender a fazer xixi e cocô no vaso?

Na prática, por mais bizarro que isso possa parecer, nosso conhecimento coletivo sobre infância e direitos é muito parco e recente, e por isso essas sandices tomam proporções aumentadas. 

Até poucos séculos a criança era apenas um adulto mal formado, alguém que ainda não estava pronto, alguém que precisa de muita ajuda de alguma boa alma caridosa para superar o estorvo de não ser grande. Políticas públicas para a infância, são coisas extremamente atuais. Infelizmente, numa retomada conservadora do nosso atual cenário, estamos vendo que os paradigmas para a educação infantil vem acompanhando esse ideário medieval, anulando as tímidas conquista. Por exemplo, existe no governo atual a ideia de que a primeira dama - por sua característica supostamente solidária e benevolente - será a "embaixadora" dos projetos sociais para crianças pequenas.

Cena do videoclipe Another Brick in The Wall de 1979 - crítica ao sistema de educação massificado

Ou seja: não se trata mais de conhecer, investigar, estudar e aplicar políticas multidisciplinares para um grupo da população. Se trata de colocar uma boa moça para "ajudar". É essa mentalidade, de que crianças não são cidadãos de direito, e sim coisinhas esperando para crescer, que valida  práticas absurdas, como o desfralde coletivo, e tantas outras.A boa moca por sua vez precisa ser poupada da criança mais lenta ,no seu ritmo natural, pois coitada da boa moca .

Não custa lembrar que para o sistema social em que vivemos é extremamente importante que os seres humanos nasçam e cresçam sob o estigma do controle de outro alguém. O desfralde coletivo, tal qual as outras práticas absurdas na infância trabalha para esse projeto de mundo opressor e indigno.

Por favor, respeitem as crianças como os seres humanos que são. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A Receita da Família Feliz

A receita da mater-paternidade romantizada:

- pegue um casal apaixonado
- misture com um desejo de ter um filho
- salpique com a expectativa de que essa será a melhor experiência da vida
- jogue numa noite perfeita de amor
- cozinhe adicionando a crença de que esse filho representa o melhor do que há em cada um dos pais
- sirva regado de ilusão de que tudo será perfeito

Já sabemos que esse bolo não cresce!

Romantizar o processo de ser pai e mãe de alguém, como se fosse apenas seguir uma receita de felicidade já descrita nos livros, pode render boas fotos no instagram, mas na prática coloca as pessoas em um estado de frustração e vazio. 

Ter filhos é adicionar ainda mais um ingrediente - completamente instável e quem sabe até desconhecido - à uma comida agridoce para a qual nunca houve, nem nunca haverá, receita: relacionamentos. 

Imagem daqui


A ideia de que somos metades de laranjas procriando para gerar gomos ainda mais saborosos de nós mesmos sustenta uma boa parte dos embates familiares: tentando espremer no outro algo que é melhor para mim, ignoramos a oportunidade de experimentar o néctar do melhor em nós mesmos.E o melhor que ha no outro, que eu desconheço. A necessidade do controle as vezes nos leva a não conviver com o mistério. O inesperado que nem sempre é o idealizado por mim. As vezes melhor, muito melhor!

E a grande receita é a des-receita: os melhores ingredientes para a minha vida familiar são aqueles que eu tenho, do jeito que são, ou aqueles que eu idealizo - mas que de fato não estão na minha prateleira? Quando imagino o seu melhor , este melhor é para você ou para mim ?

A expectativa sobre o outro, sobre aquilo que queríamos que ele fosse, para dar cabo dessa receita que não existe, apaga toda a possibilidade de encontrarmos a melhor versão de nós mesmos. A sua incapacidade de ser o meu melhor, confirma a minha incapacidade ?

Que gosto teria esse bolo se estivéssemos todos doando nossos sabores originais? E mais: se tivéssemos a consciência que, humanos que somos, mudamos o tempo todo sobre aquilo que podemos contribuir? Que tal poder enxergar com mais clareza minhas próprias expectativas ?
O ótimo é inimigo do bom ou o bom é inimigo do ótimo ?

Ora fubá, ora água, ora sal - nenhum de nós estará isento a comer um pouco de caroço no angu. 
E é gostoso assim, podem apostar. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Amamentação: a última fronteira do corpo mulher


**Por Anne Rammi** 

A minha contribuição para a #Smam2016 é uma reflexão. 
Amamentação não é índice de qualidade de maternagem. Nem tampouco está na categoria "alimentação" - muito embora tenha também essa função e ninguém vá questionar a superioridade nutricional do leite materno. 

Amamentação não é um exercício de amor, e não se trata de abnegação e generosidade, ainda que seja uma experiência única de aprendizado sobre exatamente isso: entrega. E quem amamenta sabe o tanto de amor que pode rolar ali. É realmente avassalador, mas amamentação não tem nada à ver com isso. Não mesmo. 

Acho que quando escolhemos focar nesses aspectos adjacentes, criamos uma cortina de fumaça que esconde um cenário macro, dolorido e por isso ignorado: amamentação hoje se trata do resgate do poder que as mulheres têm (ou deveriam ter) sobre seus próprios corpos. Amamentação é uma pauta tão feminista que até as feministas tem dificuldade de enxergar seu potencial revolucionário de emancipação do corpo. 

Corpo. Corpo. Corpo.





Tudo o que diz respeito ao corpo da mulher - e a quantidade de violência patriarcal que sofre desde que nasce - precisa ser enxergado como o contexto para as vivências da maternidade. Se não, estamos fadados aos avanços a passos de tartaruga, regulados por aquilo que o mercado deixa. Haja visto o tanto que se fala em "benefícios do leite materno" até nas campanhas de marketing dos produtos substitutos a ele. Se a indústria de substitutos do leite materno ainda não faliu, estamos fazendo isso errado, nós as lactivistas. 

Minha contribuição para a #Smam2016 é essa.
Olhar para o desagradável. Olhar por baixo do tapete para onde se varrem as sujeiras. Sexo, prazer, gestação, parto, e tudo o que cabe entre uma coisa e outra, tem relação indissociável com a última fronteira do corpo de mulher: amamentar. 

Amamentação é a última fronteira dos corpos mulheres. Dos corpos que a elas nunca pertenceram. Faz sentido porque é difícil? 

Do brinquinho dolorido e faixa na cabeça para adornar bebês meninas, passando por toda a repressão sexual da infância. Perseguição por modelos inatingíveis de beleza e rituais torturantes para encaixe no padrão. Não vamos esquecer que muitas, se não todas nós, sofremos abusos sexuais. E algum tipo de violência maior ou menor, dessa ordem. Nosso trabalho vale menos. Nosso corpo, vale nada, e querem até legalizar (com carteira assinada) a prostituição. 

Masturbação, orgasmos, sexo, prazer, não são nem mencionados como parte natural da vida de mulher nenhuma. E não há direito de escolha sobre gravidez, uma vez que se gestante, está sacralizado aquele corpo, ainda que tenha vindo do prazer de alguém, do corpo de alguém, do sexo de alguém. 



Estamos envenenadas desde a primeira menarca (que ai, como odiamos) por anticoncepcionais que nunca despertaram a preocupação de ninguém. É natural que nos cortem a barriga e interrompam nossas gestações para tirar um bebê de lá de dentro: que sofre ameaça, do próprio corpo que o abriga. Placenta ruim, quadril ruim, dilatação ruim. O corpo que não presta, se ousar trabalhar em parto, escapa do corte na barriga mas leva no períneo, e uns sopapos talvez. E depois costuram tudo, para não estragar o parquinho de alguém.

Amamentação não é sobre amor, nem sobre escolha. Porque é sobre lidar com essa bagagem toda aí, carregada no corpo. Porque é sobre lidar com esse corpo, que agora precisa ser habitat de outro corpo. O seio é habitat do bebê sim. Tem problema se não amamentar, tem problema SIM. Não que signifique que aquela mãe não é boa - afinal amamentação não é índice de qualidade de maternagem, já passamos dessa fase. Mas significa, se houve o desejo de amamentar e ele não se concretizou, que aqueles corpos sucumbiram em alguma instância à violência que sofreram. 

Os corpos não esquecem. 

Amamentação é isso, um acontecimento que não se separa de todas as vivências daquele corpo mulher. Persistir, amamentar, jorrar o fluido do corpo que alimenta é resistência feminina. É o choro transmutador de lágrimas do corpo, em leite. 


Imagens das obras do artista Sidney Amaral 

Em tempo: desejo de não amamentar, escolha informada verdadeira por não amamentar, assim como por não gerar, não gestar ou não parir é igualmente, um exercício de poder que a mulher faz sobre seu corpo e somos todos à favor disso. Mas não vamos achar que mulheres que - frente à toda violência que carregaram em seus corpos desde que nasceram, às investidas das indústrias, incapacidade dos profissionais, ausência de estrutura social e ameaças à saúde do filho - não amamentaram seus filhos o fizeram por escolha. 

Isso não é escolha tá bom? Tá bom.

terça-feira, 22 de março de 2016

Sim e Não: limites e relação

O bebê nasce e os palpites nascem juntos:

- Cuidado com o colo!
- Vai ficar viciado em colo e mimado para o resto da vida!

Dá-se o peito e ouvimos:
- Está mamando de novo ? 
- Não pode ser fome!!

Mas se o bebê chorar no colo de alguém é prontamente devolvido:

- Deve estar com fome.
- Cadê a chupeta desta criança?

Se dorme junto com os pais, aí tá lascado:

-Vai ficar mal acostumado e nunca vai sair da sua cama. Melhor não. 

Como bons pais estaremos sempre questionando: quando permitir e quando negar? Quando é sim e quando é não? 

Dizer SIM para os nossos filhos muitas vezes parece agredir adultos condicionados a ouvir NÃO nas suas próprias vidas.

Na lógica de educação vigente, muitos NÃOS seriam a fórmula secreta de melhorar esses pequenos projetos de nós mesmos, enquanto a mal educação mora em dizer sim para tudo. 

Mas sabemos que essa conversa se trata (SIM!!) de aprender a respeitar o outro mas acima de tudo, a descobrir seus próprios limites e superar dificuldades. Muito mais do que "bem educar" ou "mal educar" transitar amorosamente entre sim e não é um exercício de cultivar boas relações consigo mesmo e com o entorno. 



Num mundo em que o bebê nasce e cresce ouvindo NÃO exclusivamente como sinalizador de limites (e é dos pais a tarefa única de ser o porta voz dessa ação) essa oportunidade fica prejudicada. Negar a necessidade do outro é também demolir a noção de limites de sobre si mesmo. 

Como ele aprenderá a respeitar o meu NÃO se não conhece o meu SIM? E mais: como conhecerá seus próprios limites, se atua pelos meus? 

Queremos amorosamente criar filhos menos esgoístas e mais sensíveis às necessidades dos outros. Queremos educá-los para o respeito ao não do outro, mas com garantia de que viverão o SIM também para seus desejos. 

Só conseguiremos isto através das relações amorosas (conosco e com o outro).

Olhar para os limites como algo inseparável das relações humanas: esse é o caminho para conviver bem com diálogo entre sim e não, entre eu e você, entre nós e o mundo. 



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Humanidade e Superação

Gosto muito de escrever mas ando percorrendo o caminho da falta de convicções para tal. Me sentindo num impasse da vida , em que as ideias vem contraditórias e sem certezas. Desde que assumi que não há verdades e sim opiniões sobre os caminhos a seguir ficou bem difícil me posicionar, por parecer Caetano dizendo isto ou aquilo. Ou não.

São tantas certezas que encontro no caminho pessoal e profissional, tanta gente liberta do medo da dúvida, que ando me sentindo solitário em caminhar a trilha da incerteza. Do talvez. Do nem sempre.
Me encontrei com Deus, me encontrei nesta linha de pensamento, me encontrei neste sentimento, superei dificuldades, me superei.

E aí? Para onde se vai depois da superação?
Acabou? Estou pronto ?

Aliás, superação parece a palavra correta da vez, mas que para mim significa um ato contínuo. Superar deveria ser o que todos diriam todos os dias por viverem este dia.
Quem disse que a superação está em um lugar? Está num acontecimento? A superação está num encontro com um eu melhor e maior que provavelmente irá nos predispor a novas questões? Novas dificuldades? Nova necessidade de superação?

Ou não? 

E aqueles que não superaram isto ou aquilo estão piores?
É tanta avaliação de valor, melhor ou pior, que a confusão fica enorme. Palavras perigosas que constroem castas de certos e errados e fazem todos viverem um papel fictício de "ganhadores e perdedores".

E novamente, o amor e a compaixão se esvaem, sangram e morrem. Pela natureza da compaixão não há quem ganhe ou perca e muito menos pela lei do amor. Não sejamos super heróis de nós mesmos e muito menos heróis para o mundo.

Sejamos bons humanos com defeitos e qualidades. A vida não deveria ser vista da ótica do certo ou errado e sim da emoção que cada momento carrega. A amorosidade é misteriosa e envolve dizer sim e não, mesmo que isto não agrade. Mesmo assim, aproxima as pessoas.
As torna reais.
As faz humanas. 

Colagem de Diego Maxx

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Quando a Amamentação "não dá certo"

Em plena Semana Mundial da Amamentação vemos pelos diversos canais de informação para mães e pais tudo sobre a importância do Leite Materno.

Para engrossar o coro em não mais que um parágrafo, é evidente que o leite da própria mãe é o melhor alimento para o bebê. Na verdade, o leite materno é o único alimento infantil que existe, e tem garantido a sobrevivência das espécies mamíferas nos últimos milênios de evolução. Ele contém tudo o que o bebê precisa, em termos de nutrição e proteção. De modo que os esforços da informação para o aleitamento materno estão há muitos anos focados em desmistificar ideias ultrapassadas como "leite fraco", "leite aguado", "não sustenta" e outras mitologias criadas pela indústria, que sempre quis esse filão crescente e eterno do mercado: bebês e crianças.

Mas hoje quero discutir uma outra questão sobre amamentação: às vezes, ela "não dá certo". E as aspas nessa frase são propositais e importantes.

Caminhando pelas redes na Smam, veremos milhares de relatos de sucesso. A campanha desse ano, inclusive, aborda uma etapa ainda mais distante dos desafios iniciais do processo de amamentação: se a mulher já venceu a batalha de fazer "dar certo" ela agora tem que se preocupar em como seguir amamentando, mesmo voltando a trabalhar. Um lugar de debate e um ponto de ação importantíssimos, afinal do ponto de vista da saúde pública, os benefícios da amamentação estão para além dos quatro parcos meses de licença maternidade. A própria OMS recomenda dois anos ou mais. E a Smam vem para trazer esse olhar, para a mulher que já venceu os desafios iniciais e precisa agora conciliar a vida toda com a amamentação. Tarefa hercúlea.



Mas na mesma medida, há tantos outros relatos de insucesso. Muitas pessoas tem se manifestado com afeto em acolhimento às mães que não amamentaram. E uma escuta ativa dos casos de insucesso vai nos revelando os mesmos motivos que os especialistas na área e os ativistas pela amamentação apontam com insistência. Quando a amamentação não dá certo, pode ter certeza que houve:

Falta de profissionais especializados: sabemos que a grande maioria dos profissionais de saúde que atendem mães e bebês no pós parto imediato simplesmente não é especialista em amamentação. Desde as orientações erradas sobre a pega até recomendações obsoletas como as mamadas com tempo cronometrado ou em horários específicos, vemos relatos de práticas ruins por parte desses profissionais, que certamente influenciaram no insucesso dos processos de lactância. Sabemos da delicadeza e interdependência dos fatores quando o assunto é amamentação. Uma orientação errada, mesmo que na maior boa vontade, pode acarretar consequências cada dia mais desastrosas, como é o caso da pega. Essa é uma realidade dura, mas que vem sendo encarada de frente pelos projetos de apoio à amamentação na criação e implementação de programas de formação profissional.

Excesso de oferta de produtos substitutos ao leite materno: "o médico já deixou o leite artificial prescrito na maternidade, caso precisasse" é uma frase usada em mais casos do que podemos imaginar. Ela está de fato ligada à primeira razão dessa lista. Os profissionais, ou por despreparo, ou por terem-se deixado levar pelas informações de mercado da indústria, fazem prescrições de leite artificial muitas vezes de forma irresponsável. "Se precisar" é uma grande armadilha. Uma mulher recém parida, muitas vezes em um atendimento nada humano, com milhares de hormônios em ebulição e todas as questões emocionais que envolvem um pós parto imediato não pode ter uma prescrição de complemento assim genérica. O mesmo vale para o apelo à chupeta "só para acalmar o bebê", ou o uso de bicos de silicone "para ele pegar melhor". Esses produtos são todos causas reais de desmame em bebês. 

Vigilância Sanitária em fiscalização da Norma Brasileira que regulamenta o marketing de produtos que oferecem riscos à amamentação


Desconhecimento da prática da amamentação enquanto cultura: muitas mulheres contam que sucumbiram ao processo porque os bebês não dormiam, ou mamavam toda hora. Narram estados de esgotamento e aflição, um desejo de retornar à vida "como era antes". Estando muito desconectadas da amamentação enquanto cultura, nos assustamos de fato com o nível de dedicação que ela exige. E muitas vezes somos cobradas para "retomar" o papel que exercíamos antes dos filhos. Despreparadas, aceitamos. Isso é bastante compreensível uma vez que a transmissão da cultura da amamentação - de avó para neta, de mãe para filha, de vizinha para amiga - está interrompida ha algumas décadas. Poucas de nós, fomos, inclusive, amamentadas. Não temos sequer memória celular do processo. 

Mitologias: existe um sem fim de justificativas para o fim dos processos de amamentação. Muitos e muitos deles são carregados de mitos. Mitos apenas. Como por exemplo "ninguém na minha família produz leite" ou o mais famoso de todos "meu leite era fraco". Nas minhas escutas dos casos em que a amamentação não deu certo, cheguei a ouvir gente dizendo que parou de amamentar porque o bebê soprou dentro do peito, ele se encheu de ar e o leite secou. Precisamos de muita lucidez e conexão com nossos corpos, resgate dos processos femininos e paciência para desmistificar essas fantasias.



Falta de apoio social: É nessa temática que se encontra a campanha da Smam desse ano. O apoio social, tanto em forma de políticas públicas para o coletivo, como um simples copo de água vindo de alguém que zela pelo bem estar da mulher e do bebê em fase de amamentação é um ponto crítico também nos processos de desmame precoce ou insucesso completo da amamentação. Os relatos são categóricos sobre os espaços diminutos para a mulher que amamenta. Em casa, muitas vezes cuidando de outras demandas e com pouca possibilidade de conectar-se com os filhos. Nas ruas, sofrendo assédio moral quando colocam os seios de fora, na sociedade moldada pelos interesses do patriarcado de erotizar o corpo feminino. Nas empresas, sem condições básicas para a manutenção da prática, como horários flexíveis, salas de ordenha, licenças maternidade inteligentes e outros modelos de acolhimento necessários. 

Fatores atribuídos à fisiologia: Por mais que saibamos que fisiologicamente pouquíssimas mulheres seriam incapazes de amamentar, é natural que mães narrem que não tinham leite de verdade. Simplesmente não o produziam. Vítimas do cenário orquestrado pelas condições acima, não é de se surpreender que o estresse e a falta de acolhimento atuem na produção do leite, convenhamos. Vemos ainda, casos como "eu não tinha bico" ou "meu bebê não sabia pegar" e um dos mais citados "eu fiz redução de seio, não poderia amamentar mesmo" usados como determinantes dos casos de insucesso na amamentação. Mas é inevitável lembrar que uma conjuntura favorável: profissionais especializados, apoio social irrestrito e cultura de amamentação fortalecida reduziria radicalmente a quantidade desses relatos. Portanto, olhar apenas para a fisiologia como fator isolado responsável pelas histórias de desmame nos impede de ampliar a consciência para o fato de que tudo poderia ser diferente, caso estivéssemos amparadas.



Quando a amamentação não dá certo a primeira coisa que temos que ter em mente é que a responsabilidade não está em apenas um fator. Muito menos, no potencial, amor, dedicação e capacidade de uma mãe. Quando a amamentação não dá certo, temos que ter clareza que todo um coletivo é responsável e atuante. E dessa forma, para além de medir a entrega ou vontade de uma mãe, observar também o contexto em que ela e o bebê estavam inseridos. Mães que não amamentaram (e lamentam por isso) podem sem dúvida dividir esse peso com seu entorno. Sua família, seus chefes, seu governo, seus médicos. Essa é uma movimentação madura e serena, como exigirão de nós todas as atividades de nosso maternar. É preciso saber articular o que é do indivíduo e o que é do entorno, fazendo um eterno jogo de vai e vem, para colocar luz sobre nossas próprias histórias, e assim, honrá-las.

Quando a amamentação não dá certo, se a história é honrada, os desafios encarados de frente, sem projeções ou culpas que inebriam a mente e o coração a lucidez pode abrir portas para o novo: chegamos até onde alcança o olhar. Olhando para frente, uma história de insucesso inspira outra de sucesso. Serve de experiência. Pode ser usada de apoio. Pode motivar outras boas práticas e busca de realizações nas infinitas experiências de ser mãe. A amamentação é o comecinho da jornada.

Essa experiência está para além de seus benefícios, muito embora esse texto comece falando deles. Amamentar não é garantir benefícios, e não amamentamos para ter vantagem de nada. Amamentar é sem dúvida uma experiência do SER MULHER. De superação de obstáculos e muitas vezes de sucumbir a eles. E seguir em frente. Essa ótica une todas nós e nos fortalece enquanto mulheres, em luta por espaço, direitos e cultura feminista. Mesmo quando a amamentação não dá certo.

Texto especial de Anne Rammi para o Blog do Cacá