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sexta-feira, 9 de junho de 2017

4 coisas que toda mãe e pai precisam saber sobre febres, gripes e resfriados

Foto do site do Ministério da Saúde

1) A febre pode ser um sintoma positivo. 

"A febre, em princípio, é sempre boa. Ela tem um papel fundamental na dinâmica do nosso sistema imunológico, ativando a liberação de anticorpos e de outras substâncias de defesa que vão permitir ao organismo lidar com possíveis “invasores”. Hoje sabe-se que é esse mesmo calor que inibe o crescimento de bactérias e aniquila os vírus, ou seja, o calor põe tudo no lugar, renova o organismo. Isso já foi amplamente reconhecido pela comunidade científica tradicional. A cultura do medo da febre e a tendência de combatê-la rapidamente instalaram-se em nossa sociedade nos últimos 50 anos em virtude de uma grande estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Considero esta tendência muito nociva para a nossa saúde. Em minha opinião, a febre é um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da nossa individualidade. Essa é a grande tarefa da febre na nossa vida. E não é à toa que a maioria dos episódios febris ocorre do nascimento até os 7 anos."

De acordo com Samir Rahme, ex-presidente da SBMA e médico antroposófico com muitos anos de experiência – muitos deles dedicados à compreensão do papel da febre no equilíbrio de nossos processos vitais.

2) As doenças podem ter origens emocionais necessárias para o crescimento

"Ficar doente e ter febre gera uma desorganização corporal que possibilita a reorganização, ou seja, crescimento. Quando ela tem que fazer a adaptação do seu ritmo biológico individual com sua rotina, ou seja, comportamento social, pode surgir o adoecer. Esse é um dos motivos que faz pensar o porquê das crianças adoecerem quando começam a ir para escola. Será uma experiência grupal aonde a individualidade terá que conviver com a sociabilidade", analisa Cacá em um pequeno artigo sobre as doenças da infância.
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3) Agasalhos e proteção ao frio não previnem doenças

O tempo frio aumenta a incidência de crianças com febre e doenças respiratórias porque é uma condição apropriada para os vírus. Mas o frio em si não causa nenhuma doença. De acordo com Dráuzio Varela:  "A partir dos anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e outras infecções das vias aéreas. Nesses estudos, geralmente realizados nos meses de inverno rigoroso, os voluntários foram divididos em dois grupos: no primeiro, os participantes passavam o tempo resguardados em ambientes com calefação, sem se exporem à neve ou à chuva. No segundo grupo, os participantes eram expostos à chuva, à neve e aos ventos cortantes. Nenhum desses trabalhos jamais demonstrou que a exposição às intempéries aumentasse a incidência de infecções respiratórias. Ao contrário, diversos pesquisadores encontraram maior frequência de gripes e resfriados entre os que eram mantidos em ambientes fechados."


4) Doenças são oportunistas e não gostam de contentamento

Como relata Sônia Hirsch: "Escrevi para minha amiga Lena Peres, médica infectologista, que respondeu: “A melhor recomendação é evitar aglomerações, fazer uma boa hidratação e cultivar o contentamento – virtude que aumenta as defesas do organismo.”
Grande sabedoria!

O ar que circula num ambiente cheio de gente não é mesmo lá grande coisa, e pode sim estar cheio de agentes irritantes para as mucosas do pulmão, além de micróbios de todo tipo e tamanho.

Boa hidratação significa água em quantidade, água que limpa, lava, refresca, ajuda a renovar as células e é essencial à vitalidade de todos os tecidos, inclusive respiratórios.

E o contentamento, bem... O contentamento é simplesmente uma das chaves da vida (...) Gripes acontecem quando o estado geral de cansaço, poluição e muco interno transborda. As mucosas já estão inflamadas. É isso o que dá oportunidade ao pobre do vírus, coisinha ridícula que nem corpo tem, e a bichos maiores e mais ocultos, diria mesmo ocultíssimos, como lombrigas, amebas, giárdias, solitárias, estrongiloides, oxiúros, tricuros, fascíolas e muitos mais, que se estabelecem em qualquer parte de nós e se multiplicam, com larvas que muitas vezes atravessam o delicado tecido do pulmão e coisas piores. Qualquer pneumonia sem causa óbvia obriga a investigar a "síndrome de Loefler", ou: presença de infestação  por helmintos possivelmente afetando o pulmão."

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pequeno Guia Prático sobre a Bronquiolite e o VSR - Vírus Sincicial Respiratório

Quando o outono chega, as doenças respiratórias passam a ser um tema de atenção para quem tem filhos, especialmente os bebês. Hoje vamos desvendar alguns pontos sobre a bronquiolite, que costuma ser muito frequente nessa época do ano.

O vírus sincicial respiratório (VSR) é um dos agentes dessa infecção aguda nas vias respiratórias superiores, que chamamos geralmente de gripe ou de um quadro viral. Pode afetar os brônquios e os pulmões, que são as vias aéreas inferiores, o que torna o quadro clínico mais grave, principalmente em crianças pequenas. 



Na maior parte dos casos, o VSR é responsável pelo aparecimento de bronquiolite aguda (inflamação dos bronquíolos, que são as ramificações cada vez mais finas dos brônquios que penetram nos pulmões, ate os alvéolos pulmonares, responsáveis pelas trocas gasosas). A bronquiolite acomete especialmente em bebês prematuros, no primeiro ano de vida, e crianças pequenas. Pode acometer outras faixas etárias mas é especialmente mais perigoso conforme mais nova é a criança, ou no caso de ter alguma doença crônica associada, como asma, cardiopatia congênita.

Esse vírus é bastante contagioso e pode-se ter esta infecção mais de uma vez, geralmente de formas mais leves na reincidência. Como outros vírus de "gripe", a maioria das crianças vai ter contato com o vírus ate 3 ou 4 anos de idade. Re-infecções ocorrem durante toda a vida, entretanto o acometimento de vias aéreas inferiores predomina na primeira infecção, principalmente em crianças menores de 2 anos.


O contato entre as crianças é naturalmente uma forma de transmissão do vírus

Transmissão

O VSR penetra no organismo saudável através da boca, do nariz ou dos olhos, e neles pode permanecer por semanas. O período de transmissão começa 4/5 dias antes de aparecerem os sintomas e só termina quando a infecção está completamente controlada.

O contágio se dá pelo contato direto com as secreções eliminadas pela pessoa infectada quando tosse, espirra ou fala e, de forma indireta, pelo contato com superfícies e objetos contaminados (brinquedos, por exemplo), nos quais o vírus pode sobreviver por várias horas.





Sintomas

A maioria das crianças com infecções respiratórias têm apenas sintomas leves, geralmente semelhantes aos sintomas de um resfriado comum. Em geral, é em crianças menores de 2 anos que a infecção pode evoluir para sintomas mais comumente encontrados em bronquiolite. 

Inicialmente, a criança terá um corrimento nasal, tosse leve e, em alguns casos, uma febre. Dentro de 1 a 2 dias, a tosse piora e ao mesmo tempo, a respiração da criança irá tornar-se mais rápida e difícil. Geralmente as gripes e resfriados geram um ruído de tom grave chamado de ronco de transmissão. Na bronquiolite aparece um som mais agudo, chamado de chiado. Fica difícil de mamar e dormir, mesmo sem febre, porque ele está tendo uma dificuldade para respirar.

A bronquiolite compromete a troca de gases e por consequência o aporte de oxigênio da criança, por causa da inflamação do sistema respiratório. Sempre existe a possibilidade de agravamento do quadro necessitando de internação, ou de Terapia Intensiva nos casos mais graves. Mas a maioria não irá necessitar desta forma de cuidados. 

Temos visto os pronto-socorros infantis lotados nessa época do ano e os casos de doenças respiratórias aumentando exponencialmente. Proporcionalmente, também aumentam os números de casos mais graves, e as internações em UTIs. 

As UTIS infantis estão lotadas com bebês que tem necessidade de receber oxigênio, medicação por via intra-venosa, fisioterapia respiratória e cuidados mais invasivos pelo quadro clínico mais grave. Não há necessariamente relação com pneumonia bacteriana nestes casos. Fica claro que nem toda criança acometida por bronquiolite deverá permanecer internada em hospital. Muito menos necessitará de UTI para melhora do quadro.

Quando devo procurar o PS?

Nem todo quadro viral precisa de atenção médica urgente. Podemos observar alguns sinais que diferem a bronquiolite das gripes comuns, antes de tomar a decisão de procurar um pronto socorro:
  • Chiado: as crianças com bronquiolite costumam apresentar um chiado cada vez que expiram o ar.  O chiado é um tom agudo, como um apito, diferente do ronco de transmissão.
  • Batimento de asas nasais: as narinas da criança abrem a cada respiração. Isso é um recurso fisiológico do do organismo para aumentar a entrada de ar, mas é indício de dificuldade respiratória.
  • Afundamento de Fúrcula: No final do pescoço/começo do tórax, aparece um afundamento cada vez que a criança inspira. Outro indício de que o corpo está se esforçando para puxar mais ar.
  • Costelas aparentes: Os ossinhos da costela aparecem quando a criança respira, outro sinal relacionado ao esforço para respirar.
  • Frequência respiratória: um parâmetro objetivo de mal estar é contar a frequência respiratória da criança sem febre e de preferência em repouso. 

Como contar a frequência respiratória: observe o abdome da criança deitada e identifique o ciclo completo da respiração (inspiração e expiração). Esse é um movimento. Marque um minuto no relógio, e conte quantas vezes a criança realiza o movimento respiratório. Pode também fixar a inspiração OU a expiração para contar. Caso a barriguinha esteja subindo pode contar quantas vezes a barriga sobe.

A frequência respiratória acima da indicada na tabela da OMS, pode indicar a necessidade de procurar um PS. Essa avaliação deve ser eita sem febre, pois com febre a criança pode ter aumento de frequência respiratória.




Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico específico do Vírus Sincicial Respiratório (VRS) e outros vírus respiratórios é realizados através da coleta de secreção respiratória. O melhor material para coleta é o lavado nasal. Entretanto podem ser utilizados swab nasal ou de orofaringe. 

A medição de oxigênio da criança ajuda a avaliar a gravidade do caso, indicando a necessidade ou não de internação e do uso de oxigênio .

O raio-x de tórax não é um exame específico para bronquiolites mas poderá indentificar uma pneumonia ou outro quadro pulmonar que não seja bronquiolite.

Tratamento

Não há tratamento específico pois se trata de um quadro viral.

Como para qualquer doença respiratória, as inalações com soro fisiológico costumam ser bem indicadas, mesmo sem medicação, por atuarem diluindo a secreção que se forma no sistema respiratório, hidratando as vias. 

Se você não tem um inalador em casa, o vapor do banho pode ser também uma forma de nebulização. Geralmente não ira sozinho resolver em caso de bronquiolites.

Outra forma de manter as vias hidratadas é a aplicação direta de soro nas narinas do bebê, além de fazer a remoção de muco acumulado nesta região.

Pode ser uma boa medida protetiva e de tratamento a limpeza do muco acumulado, usando-se sugadores e aspiradores nasais, que existem em vários modelos no mercado

Tanto o uso de soro nasal, inaladores e sucção de vias respiratóprias podem ser dificultados pela criança que tende a resistir a estes procedimentos. Mas acredito que o conforto que eles trazem depois justifica seu uso.



Se for identificado broncoespasmo, que é o estreitamento agudo das vias aéreas (normalmente identificado pelo chiado), o tratamento deve ser mais invasivo e com uso de medicações mais fortes. Pode ser o caso de fisioterapia respiratória e uso de anti-inflamatórios e broncodilatadores. Na situação de dificuldade de oxigenação ou nos casos de crianças de maior risco para complicações a internação pode ser a melhor opção.

A fisioterapia respiratória feita por profissionais capacitados auxilia na redução de internações para bronquiolites e pneumonias e eu recomendo sempre que se tratar de quadros respiratórios mais importantes.

É natural que crianças doentes tenham perda de apetite, sendo um dos primeiros sinais de melhora a volta do apetite. Portanto oferecer alimentos geralmente mais preferidos pela criança alem de ser uma fofice necessária, pode auxiliar na aceitação.

Líquidos calóricos como água de coco e sucos também podem ser oferecidos.

Vacina para o VSR (Palivizumabe)

Palivizumabe é um anticorpo monoclonal específico contra o vírus sincicial respiratório. Não é exatamente uma vacina, pois não estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos.

Quem pode usar o palivizumabe: recém-nascidos pré-termo com menos de 29 semanas de idade gestacional devem fazer uso durante o primeiro ano de vida; aqueles nascidos entre 29 e 32 semanas de gestação, até o sexto mês de vida; e portadores de doenças cardíacas e pulmonares nos dois primeiros anos de vida.

Prevenção

Por se tratar de contágio por vírus através das secreções da pessoa contaminada em contato com as mucosas, a melhor forma de prevenção é a higiene. Muito embora saibamos que no dia a dia das crianças, especialmente daquelas que frequentam escolas e que tem contato com outras crianças, seja bastante improvável que se consiga evitar completamente o contato com o vírus, adotar uma rotina de lavar as mãos e a face com sabão comum e alguma frequência pode ser uma boa ideia. 

Além disso é recomendado que as escolas e seus gestores estejam atentos para o aparecimento do VSR em suas unidades, comunicando as famílias de possíveis casos.

É sempre bom lembrar que estar em lugares fechados com pouca circulação de ar pode ser mais perigoso que estar ao ar livre mesmo no frio.Portanto, janelas abertas e brincadeiras ao ar livre são bons amigos das crianças no outono.

As estações mais secas do ano, como o outono e inverno, costumam contribuir para o aumento dos casos, e piora dos quadros. Portanto, a umidificação do ambiente pode ser uma medida de proteção. Uma toalha molhada no quarto ou uma bacia com água costumam ser boas ideias para aumentar a umidade do ar, e manter o sistema respiratório mais hidratado.

O leite materno é um fator de proteção para a saúde das crianças em qualquer idade e para qualquer doença. Assim, sempre cabe reforçar a importância da amamentação no sentido da prevenção e minimização das doenças da infância.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Estações onde desembarcam as gripes


Por Sonia Hirsch

A leitora me escreve, muito aflita, sobre seu temor de vacinar a filha contra a gripe. "Na escola estão recomendando, mas minha filha é saudável, e eu não sei se devo..."

Lembro logo de um outono, dois anos atrás, que trouxe dias lindos e limpos e também o medo da pneumonia "atípica". Os jornais abriam manchetes sobre (felizmente poucos) casos fatais. Mais de dez laboratórios já estavam pesquisando remédios e vacinas. Cada um de nós acompanhou atentamente a evolução dos fatos, e também dos boatos, que não são confiáveis mas dão muito assunto.

Ficava assim combinada a vida: a qualquer momento podemos sofrer a invasão de um poderoso inimigo. Será? Melhor não. Mas como não?

Escrevi para minha amiga Lena Peres, médica infectologista, que respondeu: “A melhor recomendação é evitar aglomerações, fazer uma boa hidratação e cultivar o contentamento – virtude que aumenta as defesas do organismo.”

Grande sabedoria!

O ar que circula num ambiente cheio de gente não é mesmo lá grande coisa, e pode sim estar cheio de agentes irritantes para as mucosas do pulmão, além de micróbios de todo tipo e tamanho.

Boa hidratação significa água em quantidade, água que limpa, lava, refresca, ajuda a renovar as células e é essencial à vitalidade de todos os tecidos, inclusive respiratórios.

E o contentamento, bem... O contentamento é simplesmente uma das chaves da vida.

Para começar, se há contentamento não há medo. E se não há medo, qual é o problema? Um vírus, por pior que seja, jamais será significativo para a pessoa que está bem. Como disse a doutora, tudo pode ser apenas uma questão de estar com as defesas em ordem. Em se tratando do ser humano, defesa quer dizer zilhões de pequenas células espalhadas por todo o corpo, prontas a neutralizar a ação de qualquer micróbio; mas quer dizer também pensamentos e sentimentos positivos, que reafirmam a confiança na vida e não dão espaço para ansiedade.

Em psicologia é sabido que certas pessoas têm perfil de vítima. Saem à rua tão convencidas de que podem ser assaltadas que atraem o assaltante. Se forem visitar alguém que está com gripe, saem espirrando. “Ué”, alguém vai dizer, “mas isso é comum, gripe pega!”

Pega quem? Quem está predisposto a ser pego, ora essa. E também não pega assim de uma vez. Vai encostando, dá uma indisposição, uma vontade de se enfiar na cama, um friozinho, uma leve dor de garganta – e aí é que se vê quem comanda o barco. “É na tempestade que se conhece o timoneiro”, diz o ditado. Se o corpo está dando todos os sinais de que precisa descansar, e a gente não descansa, está querendo gripe.

Se, ao contrário, a gente respeita o que está sentindo e descansa, toma um caldinho quente, se agasalha, corta os excessos e fica contente por poder fazer isso, em pouco tempo tudo vai bem de novo. Foi dada ao organismo a oportunidade de se auto-regular, e ele agradece.

Alimentação pobre em nutrientes e rica em gorduras, laticínios, açúcar, produtos químicos, álcool e toxinas; stress, falta de sono, falta de atividade física, falta de afeto e outras emoções nutritivas; e exagero nas temperaturas artificiais, como o ar-condicionado gelado, tudo isso nos desregula. Ainda mais no outono, cujo ar mais seco favorece gripes, tosses, resfriados. Um vento fresco sopra de repente e pede sempre um casaquinho ou uma écharpe para não entrar pelos ombros e atingir o interior do corpo. É hora de colocar mais uma colcha na cama, e meias de algodão para dormir com os pés quentinhos.

Gripes acontecem quando o estado geral de cansaço, poluição e muco interno transborda. As mucosas já estão inflamadas. É isso o que dá oportunidade ao pobre do vírus, coisinha ridícula que nem corpo tem, e a bichos maiores e mais ocultos, diria mesmo ocultíssimos, como lombrigas, amebas, giárdias, solitárias, estrongilóides, oxiúros, tricuros, fascíolas e muitos mais, que se estabelecem em qualquer parte de nós e se multiplicam, com larvas que muitas vezes atravessam o delicado tecido do pulmão e coisas piores. Qualquer pneumonia sem causa óbvia obriga a investigar a "síndrome de Loefler", ou: presença de infecção por helmintos possivelmente afetando o pulmão.

Na medicina tradicional chinesa o outono é a estação dos pulmões, que dão ritmo e ordem à vida – ou depressão e melancolia, se estiverem fracos e sem energia. Reina a força de Metal, que tem a ver com tesouros e colheitas. Estação muito boa para concentrar os esforços, concluir processos e... tratar dos vermes, já que pulmões e intestinos trabalham juntos. O inverno é a estação dos rins e da bexiga, que podem ser energizados com caldos quentes, raízes como cenoura, nabo daikon e bardana, uma camiseta regata por baixo de qualquer roupa, uma faixa de algodão, lã ou seda em torno dos rins. Não é a melhor época do ano para frutas e saladas, menos ainda para sucos.

Outono e inverno são tempos de maturidade. A capacidade de realização do ser humano se apresenta como tranquilidade, paz, confiança nos processos de renovação da natureza. A gente olha para dentro e reconhece quem é. Faz o que tem que fazer e fica contente. Pronto.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Olhe esse vento nas costas, menino!



Por Drauzio Varella

Cuidado com a friagem, meu filho! Minha avó falava assim. A sua, provavelmente, também. Acho que todas as avós do mundo tiveram essa preocupação com os netos. Acostumados a considerar sábios os conselhos que chegaram até nós pela tradição familiar, também insistimos com nossos descendentes para que se protejam da friagem e dos golpes de vento, sem nos darmos conta de que fica estranho repetirmos tal recomendação ingênua em pleno século 21.

Se friagem fizesse mal, a seleção natural certamente nos teria privado da companhia de suecos, noruegueses, canadenses, esquimós e de outros povos que enfrentam a tristeza diária de viver em lugares gelados.

A crendice de que o frio e o vento provocam doenças do aparelho respiratório talvez seja fácil de explicar. Sem idéia de que existiam vírus, fungos ou bactérias, nossos antepassados achavam lógico atribuir as gripes e resfriados, que incidiam com maior frequência no inverno, à exposição do corpo às temperaturas mais baixas.

É possível que a conclusão tenha sido reforçada pela observação de que algumas pessoas espirram e têm coriza quando expostas repentinamente às baixas temperaturas, sintomas de hipersensibilidade (alergia) ao frio, que nossos bisavós deviam confundir com os do resfriado comum.

Confiantes na perspicácia de suas observações, as gerações que nos precederam transmitiram a crença de que friagem e golpes de ar provocam doenças respiratórias, restringindo a liberdade e infernizando a vida de crianças, adolescentes e até dos adultos:

– Não beba gelado, filhinho! Não apanhe sereno! Não saia nesse frio, minha querida, vai pegar um resfriado! Agasalhe essa criança; ela pode ficar gripada. Feche a janela, olhe esse vento nas costas! Descalço no chão frio? Vá já calçar o chinelo!

Crescemos obedientes a essas ordens. Quanto calor devemos ter sofrido no colo de nossas mães enrolados em xales de lã em pleno verão? Quantos guaranás mornos fomos obrigados a tomar nos aniversários infantis? Para sair nas noites frias, quantas camadas de roupa tivemos de suportar? Quantas vezes interromperam nossas brincadeiras porque começava a cair sereno?

A partir dos anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e outras infecções das vias aéreas.

Nesses estudos, geralmente realizados nos meses de inverno rigoroso, os voluntários foram divididos em dois grupos: no primeiro, os participantes passavam o tempo resguardados em ambientes com calefação, sem se exporem à neve ou à chuva. No segundo grupo, os participantes eram expostos à chuva, à neve e aos ventos cortantes.

Nenhum desses trabalhos jamais demonstrou que a exposição às intempéries aumentasse a incidência de infecções respiratórias. Ao contrário, diversos pesquisadores encontraram maior frequência de gripes e resfriados entre os que eram mantidos em ambientes fechados.

Numa cidadezinha do interior da Holanda, na segunda metade do século XVII, um dono de armarinho chamado Antoni Leeuwenhoek, que tinha como distração estudar lentes de aumento, montou um aparelho que aumentava o tamanho dos objetos. Por uma curiosidade particular, dessas que costumam mudar os rumos da ciência, Leeuwenhoek, em vez de usar seu microscópio rudimentar para ampliar coisas pequenas, como patas de mosquitos, olhos de mosca ou buracos de cortiça, conforme faziam os ingleses naquela época, procurou as invisíveis. Examinou uma gota de chuva, a própria saliva, uma gota de seu esperma e ficou estarrecido com o que seus olhos viram.

Relatou assim suas descobertas: “No ano de 1675, em meados de setembro (…) descobri pequenas criaturas na água da chuva que permaneceu apenas alguns dias numa tina nova pintada de azul por dentro (…) esses pequenos animais, a meu ver, eram 10 mil vezes menores do que a pulga-d’água, que se pode ver a olho nu”.

Mais de 300 anos depois da descoberta dos micróbios, ainda continuamos a atribuir à pobre friagem a causa de nossas desventuras respiratórias. Convenhamos, não fica bem! Esquecemos que resfriados e gripes são doenças causadas por vírus e que sem eles é impossível adquiri-las. Aceitamos passivamente que o sereno faz mal quando cai em nossas cabeças e que o vento em nossas costas nos deixa doentes, sem pensarmos um minuto na lógica de tais afirmações. Qual o problema se algumas gotas de sereno se condensarem em nosso cabelo? E o vento? Por que só quando bate nas costas faz mal? Na frente não?

Gripes, resfriados e outras infecções respiratórias são doenças infecciosas provocadas por agentes microbianos que têm predileção pelo epitélio do aparelho respiratório. Quando eles se multiplicam em nossas mucosas, o nariz escorre, tossimos, temos falta de ar e chiado no peito. A presença do agente etiológico é essencial; sem ele podemos sair ao relento na noite mais fria, chupar gelo o dia inteiro ou apanhar um ciclone nas costas sem camisa, que não acontecerá nada, além de sentirmos frio.

A maior incidência de infecções respiratórias nos meses de inverno é explicada simplesmente pela tendência à aglomeração em lugares com janelas e portas fechadas para proteger do frio. Nesses ambientes mal ventilados, a proximidade das pessoas facilita a transmissão de vírus e bactérias de uma para outra.

A influência do ar condicionado na incidência de doenças respiratórias, entretanto, não segue a lógica anterior. A exposição a ele realmente favorece o aparecimento de infecções respiratórias agudas, mas não pelo fato de baixar a temperatura do ambiente (o ar quente exerce o mesmo efeito deletério), e sim porque o ar condicionado desidrata o ar e resseca o muco protetor que reveste as mucosas das vias aéreas. O ressecamento da superfície do epitélio respiratório destrói anticorpos e enzimas que atacam germes invasores, predispondo-nos às infecções.