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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Hoje um dia cheio de tantas emoções...

Imagem: Google 
Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, Pediatra e Neonatologista. 

Hoje um dia cheio de tantas emoções... 

Volto ao encontro com mulheres empenhadas e empoderadas numa maternidade cheia de surpresas que levam a um questionamento saudável. Há, contudo, o perigo quando abrimos o coração de entrar qualquer coisa. Tipo coisa ruim, que não deveria fazer parte. As inúmeras verdades sobre quem deveria ser este bebê, seu bebê, e quem deveria ser esta mãe, sua mãe. E para variar o apego, o aconchego como o grande vilão. É como se cada mulher amorosa escondesse dentro de si uma vila implacável e egoísta que merece castigo e punição. O que será que elas não estão vendo? E vem a balança poderosa desmascarar a verdade. 

Não viu que não engordou o bastante? 

Não ver que este colo agora pode virar uma cascata de incapacidades depois? 

Eu sei qual será seu destino... 

E assim se desconstrói uma família, uma mãe e uma criança que teima em ser fora da média.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Bebês estão sendo superalimentados com leite em pó, diz OMS.


Muitos bebês estão sendo superalimentados nos primeiros meses de vida, segundo um estudo produzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

O estudo da OMS foi feito em seis países, incluindo o Brasil

Novos dados levantados pela organização mostram que as tabelas de crescimento superestimaram o peso que os bebês devem ganhar na fase de crescimento, o que teria levado ao uso excessivo do leite em pó.

Segundo a pesquisa da OMS, que analisou 8.440 crianças em seis países, incluindo o Brasil, as tabelas de crescimento usadas por profissionais da saúde estão erradas.

O resultado mostra que os bebês que são amamentados apenas por leite materno são mais magros e mais altos do que aqueles que tomam leite em pó, mas os cientistas dizem que isso é perfeitamente saudável e é a maneira que os bebês devem crescer.

A OMS descobriu que o peso ideal para bebês de 2 anos ou 3 anos estava de 15% a 20% mais alto nas tabelas de crescimento usadas pela organização.

As tabelas sugerem que crianças de um ano pesem entre 10,2 kg e 12,93 kg, quando na verdade deveriam pesar entre 9,53 kg e 11,79 kg, de acordo com a OMS.

Os pesquisadores dizem que a superalimentação das crianças pode explicar em parte por que a atual geração de adultos é a mais obesa de todos os tempos.

A OMS disse ainda que vai publicar novas tabelas de crescimento até o final do ano.

Dieta

As tabelas atuais de crescimento de crianças são baseadas em estudos feitos com bebês que se alimentavam de leite em pó há mais de 20 anos.

Essas pesquisas sugeriam que os bebês que eram amamentados exclusivamente do leite materno normalmente não cresciam de maneira adequada nos primeiros meses porque ganhavam peso em uma velocidade menor.

Por isso, as mães eram aconselhadas a suplementar a dieta das crianças com leite em pó ou até mesmo trocar a amamentação por completo.

No entanto, nos últimos anos ficou comprovado que o leite materno tem a melhor combinação de nutrientes para o crescimento de uma criança.

Crescimento

"Os novos padrões oferecem uma melhor descrição do crescimento psicológico e estabelecem que a amamentação das crianças é a regra biológica", diz Mecedes de Onis, uma das pesquisadoras da OMS.

Segundo Prakash Shetty, chefe do planejamento nutricional do Fundo para Agricultura e Alimentos das Nações Unidas (FAO), as novas recomendações significam que as calorias ingeridas diariamente pelas crianças devem ser 7% menor do que os níveis recomendados atualmente.

"Se você analisa as necessidades dessas crianças que são alimentadas exclusivamente de leite materno, é possível perceber que elas precisam de menos calorias do que aquelas que se alimentam de leite em pó", diz Shetty.

Ele também afirma que a maneira que a ingestão de calorias é medida deveria ser mudada, inclusive para adultos.

Em vez de ter quantidades diferentes para homens e mulheres, as pessoas deveriam ser aconselhadas de acordo com a energia que elas gastam diariamente.

Uma pessoa que fica o dia todo sentada e não faz qualquer exercício deve consumir menos que 1,7 mil calorias - um número bem menor do que as de 2 mil calorias para mulheres e 2,5 mil para homens recomendadas atualmente.

Uma mudança também aconteceria para uma pessoa que faz muitos exercícios, que deveria passar a consumir cerca de 4 mil calorias por dia.



terça-feira, 18 de setembro de 2012

Curvas do Crescimento

por Dr Carlos Gonzáles : “os que estão com muito baixo peso”
 
Em alguns casos, o problema não começa pelas mamadas "muito curtas", mas pelo peso "muito baixo". No mundo há pessoas de todos os tamanhos, e qualquer manhã, quando vamos comprar pão, cruzamos com pessoas que pesam 50 kg e outras que pesam 100 kg. Você realmente acha que essas pessoas pesavam o mesmo quando tinham 3 meses? Por que é tão difícil aceitar as diferenças no peso dos filhos?

Tenho um bebê de 3 meses que é amamentada. Até agora, ela vinha ganhando peso bem, 200 ou 250 g por semana. Duas semanas atrás, eu a levei ao pediatra e quando ele a pesou só tinha engordado 80 g. Ela nasceu com 3200 g e agora está com 5820 g. A pediatra recomendou uma "ajuda", mas quando eu dou a mamadeira, ela recusa. Também comprei outros bicos, porque ela não aceita a chupeta, ela continua não aceitando, começa a chorar e passa até quatro ou cinco horas sem mamar no peito; tentei colocar no leite um pouco de papinha e dar com a colher, mas ela também não quer. Ela só quer saber de mamar. Mas eu não posso continuar assim, estou preocupada com saúde dela, pois não ganha quase peso e a pediatra diz que ela está abaixo da curva.
 
Abaixo de que curva? De acordo com os gráficos norte-americanos de desenvolvimento, o peso dessa menina está acima da média. Ela ganhou 2620 g em 3 meses, mais de 850 g por mês. A única medida que não está bem é a que mede a paciência da mãe. Quantas horas mais de angústia, quantas idas à farmácia para comprar novas mamadeiras e novos leites, apenas porque alguém interpretou mal um gráfico? Quantas mamadeiras um bebê terá de recusar para mostrar que ele não as quer?

Este exemplo ilustra dois problemas fundamentais: de um lado a interpretação generalizada dos gráficos; de outro, o ritmo de crescimento dos bebês amamentados.

O que é e para que serve um gráfico de peso?

Isto é um gráfico de peso. Totalmente inventado, não tente encaixar as medidas de seu filho nele! Está aqui apenas para explicar o que significam as linhas. Há diferentes gráficos de peso: os americanos (que são recomendados pela OMS para todo o mundo) e os de outros países que decidiram ter gráficos próprios para não ficarem para trás: franceses, ingleses, espanhóis... De qualquer forma, esses gráficos não são iguais e se um pediatra ou uma enfermeira nos lê poderia passar divertidas tardes de domingo comparando-os.

GRÁFICO I
Os números da direita são chamados percentis. O percentil 75 significa que de cada 100 crianças saudáveis, 75 estão abaixo daquela curva e 25 estão acima. Em alguns gráficos, os percentis extremos são 95 e 5 e não 97 e 3.

Outros gráficos não usam percentis, mas médias e desvio padrão. Nesses gráficos aparecem, da base ao topo, cinco linhas que correspondem aos números -2, -1, média, +1, +2 do desvio padrão. Nós pediatras falamos com intimidade sobre esses gráficos, como se fossem parte da nossa família. Então, dizemos coisas como "a altura está em menos um, mas o peso em menos dois". A propósito, dezesseis por cento das crianças saudáveis estarão abaixo do "menos 1", enquanto que dois por cento estarão abaixo do "menos dois".
 
Coloquei no nosso gráfico o peso de três bebês fictícios da mesma idade. Adela está com peso totalmente normal, embora apenas seis por cento das meninas nessa idade pesem mais. Ester, apesar de ter 1,5 kg a menos que Adela, também tem peso normal, mas 85 por cento das meninas da sua idade têm peso maior que o dela. Não há como dizer, de nenhuma forma, que Ester tem "baixo peso" ou com "a curva ruim"". É um erro comum querer que todas as crianças estejam acima da média. Metade das crianças, por definição, estará abaixo do percentil 50.

E Laura? Ela está abaixo da última curva e muitas vezes isso se interpreta com "está com baixo peso". Mas atenção: a última linha é a do percentil 3; 3% das crianças saudáveis está abaixo. Essa linha não é uma fronteira que separa as crianças saudáveis das crianças doentes, mas um sinal que diz ao pediatra: "Cuidado, olhe bem a Laura porque provavelmente ela não tem nada, mas pode ser que esteja doente" Como o pediatra distinguirá esses 3% de crianças saudáveis que estão abaixo da linha dos que estão com pouco peso por causa de uma doença? Bem, para isso ele estudou medicina.

Eu tenho insistido muito que vinte e cinco por cento das crianças saudáveis estão abaixo do percentil 25. Porque o gráfico foi feito pesando muitas centenas ou milhares de crianças saudáveis.

Naturalmente, se um bebê nasce prematuro, com síndrome de Down, com alguma cardiopatia grave, ou foi internado durante semanas por causa de uma tremenda diarreia, seu peso já não se usa para calcular a média dos gráficos de peso normal Pela mesma razão, se o seu bebê tem algum desses problemas ou outros similares, seu peso provavelmente não irá se encaixar nesses gráficos. O fato de uma criança com doença crônica (ou que recentemente teve alguma doença aguda) estar com "baixo peso" não é por não comer, mas porque esteve doente. Forçá-lo a comer não vai ajudar a curá-lo; vai apenas fazê-lo sofrer e vomitar.

Agora, adicionamos ao gráfico imaginário mais dois pesos de meninas imaginárias. No topo está a Tâmara; seu peso, como você pode ver, está entre os percentis 90 e 97. Muitos irão dizer que ela está "seguindo a curva".
 
A linha mais abaixo mostra o peso de Marta. Vemos que num determinado momento ela ultrapassou o percentil 50, mas depois ela se aproximou do percentil 10. O que houve com Marta? Provavelmente nada. Claro que se a curva se modificar muito rápida ou abruptamente (de forma muito íngreme), o pediatra deveria olhá-la com carinho para ter certeza de que não há nenhum problema. Mas provavelmente não irá encontrar nada. Simplesmente, porque gráficos de peso não são caminhos para serem seguidos, mas representações matemáticas de um complexo sistema de estatísticas. As curvas e os percentis correspondentes não representam o ganho de peso de uma criança em particular e o ganho de peso de uma criança não tem que seguir nenhuma dessas linhas. O próximo gráfico ilustrará melhor.

GRÁFICO II

Com o propósito de colocar nossa marquinha na história da pediatria, ao invés de usar um gráfico americano ou espanhol, decidi usar um gráfico próprio (o primeiro gráfico virtual, uma vez que foram usados somente pesos de bebês fictícios). Começamos pesando duas meninas durante o primeiro ano e obtivemos as duas linhas grossas.

Calculamos a média dessas duas meninas e obtivemos a linha mais fina que está no meio. Uma dessas meninas começou acima da média e depois passou a ficar abaixo, a outra começou abaixo e depois subiu. Nenhuma delas seguiu a média. Deveríamos dizer que essas meninas têm problemas nutricionais por não terem "seguido a curva"? Claro que não. A média é que não segue a "curva" dessas meninas.

Claro que gráficos de peso não são desenvolvidos usando apenas duas meninas, mas centenas. Pode imaginar como as coisas podem se complicar?

O crescimento de crianças de peito

O ganho de peso de Marta, que vimos acima, é bem típico de bebês que mamam no peito. Os gráficos de peso mais comuns foram desenvolvidos há alguns anos, quando muitos bebês tomavam mamadeira, e os que mamavam no peito o faziam só por umas semanas. Atualmente, mais e mais bebês são amamentados durante meses e eles não seguem os antigos gráficos. Vários estudos (1,2) feitos nos EUA, Canadá e Europa mostram que bebês amamentados geralmente ganham peso mais rápido no primeiro mês do que mostram os gráficos, mas depois eles começam a perder velocidade e vão baixando de percentil. Por volta de seis meses eles perdem a liderança que obtiveram com o ganho de peso no primeiro ano, e mantêm até 1 ano um peso "baixo" de acordo com os gráficos antigos. Enquanto estou escrevendo esse livro, a OMS e o UNICEF estão preparando novos gráficos baseados em bebês amamentados, que logo substituirão aos antigos (eles devem estar prontos em 2004, embora já estejam atrasadas há anos). Não se trata de fazer gráficos para bebê de peito e outros diferentes para crianças que tomam mamadeira; os mesmos gráficos serão usados para todos (3). Enquanto isso, muitas mães levarão grandes sustos, porque dirão quando seu bebê tiver dois ou três meses que ele está "caindo" de peso, ou aos oito ou nove meses que seu filho está com "baixo peso" Isso não é verdade, seu bebê está bem.

Por que o crescimento de um bebê amamentado é tão diferente de um que toma mamadeira? Não temos muita certeza, mas em todo caso, não é por falta de alimento. Durante o primeiro mês, quando só tomam leite, bebês amamentados pesam o mesmo ou mais. Entre seis e doze meses, quando tomam papinhas além do leite, bebês amamentados pesam um pouco menos. Se fosse verdade a frase "o peito já não sustenta" (o que é uma grande bobagem uma vez que o leite materno alimenta mais que a mamadeira e mais que as papinhas), a criança ficaria com fome e comeria mais papinha e consequentemente ganharia o mesmo peso do bebê de mamadeira. A diferença é mais profunda; por alguma razão, leites artificiais levam a um padrão de crescimento que não bate com o padrão de crescimento do bebê amamentado.

Na primeira edição deste livro, eu escrevi: "Nós não sabemos quais consequências pode ter esse crescimento excessivo". Agora já sabemos. Muitos estudos (4,5) demonstraram que bebês que foram amamentados por menos de seis meses têm taxas mais altas de obesidade e têm mais chances de apresentar sobrepeso e obesidade entre os 4 e os 6 anos.

Nem todas as crianças crescem no mesmo ritmo
 
Tenho uma filha de 8 meses e nos últimos 4 meses ela não ganhou peso, seu peso durante quatro meses é de 7.450 g e a altura aumentou pouco a pouco até os 71 cm que ela tem agora. O pediatra dela me disse que se ela não ganhar peso esse mês, vai solicitar exames de sangue, para ver se ela está com algum problema; se não é porque é inapetente e ponto.
Comer, come muito pouco. Ela recusa a colher e quando eu a forcei a comer com a colher, ela vomitou tudo. Continuo dando tudo com mamadeira: frutas, papinhas e cereais.


Certamente não é "normal" (no sentido de "comum") que um bebê não ganhe nada de peso entre 4 e 8 meses. Para descobrir se além de pouco comum é também patológico, é preciso considerar outros dados, entre eles os exames que prudentemente pediu o pediatra para ter certeza que o bebê não está doente. Mas se nada for detectado, é melhor esperar pacientemente "é inapetente e ponto". Especialmente nesse caso em que também não é comum pesar tanto aos quatro meses; ela estava praticamente no percentil 95. A altura aos oito é grande, mais que a média.

Todos os exames foram normais e aos 13 meses essa menina estava pesando 8 kg e continuava sem querer comer. Parece que ao invés de manter um lento e constante ganho de peso, ela ganhou todo seu peso nos primeiros 4 meses e depois parou de ganhar.

Existe um ritmo de crescimento especial que geralmente leva os pais à loucura, chama-se "atraso constitucional do crescimento ". É apenas uma variação do normal, não uma doença. São crianças que não seguem nenhum gráfico; elas têm a sua própria curva de crescimento. Elas nascem com peso normal e crescer normalmente durante uns meses. Mas em algum momento entre o terceiro e o sexto mês elas estacionam e começam a crescer lentamente, tanto em peso como em altura. Mas, isso sim, seu peso é adequado a sua altura. O pediatra pode pedir exames, mas tudo estará normal. Eles ficam no limite ou fora dos gráficos por dois anos, mas por volta dos dois ou três anos eles começarão a crescer mais rápido até atingir uma altura final completamente normal e são adultos de estatura mediana. Isso é uma característica hereditária e pode ser muito tranquilizante quando as avós finalmente admitem que o pai ou o tio "também era muito miúdo no início e o pediatra vivia dando vitaminas", mas no final de tudo ele cresceu. Veja um típico exemplo:

Minha filha tem dezoito meses e, felizmente, ainda mama no peito apesar dos comentários negativos de 99% das pessoas. O problema é que desde os 4 meses, quando eu voltei a trabalhar, ela não come bem. Ela começou a perder peso e agora está com 73,2 cm e 8.690 g. Ela fez exames e está tudo normal.


 
Aos dezoito meses, de acordo com os gráficos americanos antigos, uma meninas no percentil 5 deveria ter 8.920g e 76 cm. Entretanto, para uma menina de 73cm, o peso está acima do percentil 25. Ela foi ao endocrinologista e o hormônio do crescimento está normal. Então, tudo que se tem a fazer é esperar alguns anos.

Logicamente, uma criança que cresce tão devagar come ainda menos que as outras crianças.


(1) Dewey, K. G. et al. Growth of breast-fed infants deviates from current reference data: a pooled analysis of US, Canadian, and European data sets.Pediatrics 1995; 96: 495-503.
(2) WHO Working Group on Infant Growth. An Evaluation of Infant Growth. Document WHO/NUT/94.8, OMS, Geneva, 1994.
(3) Dewey, K. G. Growth patterns os breastfed infants and the current status of growth charts for infants. J Hum Lact 1998; 14: 89-92.
(4) Von Kries, R. et al. Breast feeding and obesity: cross sectional study. BMJ 1999; 319: 147-50.
(5) Grummer-Strawn, L. M. and Mei, Z. Does breastfeeding protect against pediatric overweight? Analysis of longitudinal data from the Centers for Disease Control and Prevetion Pediatric Nutrition Surveillance System.
Pediatrics 2004; 113: ee81-86.

NOTA DO TRADUTOR: Os novos gráficos da OMS foram lançados em 2007.

Do livro Mi niño no me come de Carlos González

Tradução: Fernanda Hack e Luciana Freitas
Revisão: Luciana Freitas
 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Meu relato de amamentação

Especial para mães cujos bebês não se encaixam nas curvas de peso!

Aviso aos leitores: esse texto é sobre minhas experiências e minhas verdades. Como li certa vez nas palavras de um monge budista: “não há verdade que mereça esse nome que não seja a que vem de dentro”.

Meu nome é Graziela e sou farmacêutica homeopata e terapeuta floral. Me orgulho de não ser vacinada e de praticamente nunca ter feito uso de drogas químicas (medicamentos alopáticos) para qualquer alteração no meu estado de saúde. Minha filha nasceu de parto natural, em casa após uma gestação tranquila regada com muita meditação, prática de ioga, terapia floral e muito, muito estudo sobre a melhor forma de trazê-la ao mundo. Nunca sequer questionei minha decisão de ter um parto sem intervenções: minha confiança na minha natureza de fêmea feita para a maternidade sempre foi maior do que qualquer medo ou dúvida que pudesse ter.

Sobre amamentação, achava que sabia tudo que importava: que não havia mulher sem leite e que era balela o papo do leite fraco. Lia mensagens de alguma mulheres com dificuldades mas achava que se tratava de despreparo, falta de confiança, e até um pouco de preguiça eu confesso! Tinha a mais absoluta certeza que bastava a vontade de amamentar, colocar o bebê no peito e pronto a mágica estava feita! Aliás, tinha o sonho e a pretensão de ajudar a abastecer algum banco de leite (tinha até as instruções e uma lista dos bancos guardada). É, não foi bem assim que aconteceu...

Carina nasceu pesando 3,575kg. Depois de 4 dias apresentava uma perda de 395g. Se não me engano foi aí a primeira vez que ouvi falar de complemetação. Ao que parece o leite ainda não havia descido... levei um pequeno susto mas nada a ponto de me perturbar. Ao contrário de muitas mulheres não estava tendo grandes dificuldades: o peito só doeu um pouquinho nos primeiros dias, o leite não empedrou, não tive febre, o peito não rachou (passava uma pomada feita pela minha mãe também farmacêutica com azeite, mateiga de cupuaçu e báslamo do peru – o ó). Depois de três dias já estava de volta ao 3,275kg e agora o leite descia de fato. Tudo calmo e tranquilo, até que...

Com 18 dias resolvi começar o acompanhamento homeopático da minha pequena. Não havia nada errado, mas como homeopata sei que quanto mais conhecimento o médico tem a respeito de seu paciente mais assertivo ele é no momento de medicar e mais rapidamente o organismo volta ao equilíbrio. Não consigo imaginar um jeito melhor de estabelecer esse vínculo do que começando no berço! E aí veio a surpresa: A Carina havia perdido peso: estava com 3,250kg. A primeira suspeita foi de infecção urinária e não vou me ater aqui à complexidade de colher urina de um bebê de menos de um mês. O que importa é que a hipótese foi descartada. Bom, então talvez eu estivesse fazendo alguma coisa errada: oferecia o peito e depois de algum tempo (não olhava para o relógio para ver quanto), quando ela soltava achava que já tinha esvaziado aquele e oferecia o outro. Naquele dia fiquei sabendo sobre leite anterior (o leite magro, cheio de imunoglobulinas mas de baixa caloria) e leite posterior (com mais gordura, sem gosto - eu experimentei - e mais difícil de sugar). Fui embora disposta a corrigir o erro e ver tudo entrar no eixos. Voltei no dia seguinte ao consultório e... nada! Nem 1g!!! Mais instruções, mais expectativa. No dia seguinte mais uma pesagem e nada de novo. Foram 5 dias de pesagem sucessivas e só 10g de ganho. O "normal" é cerca de 30g por dia...

A essa altura a médica, super incentivadora da amamentação, também já estava falando em complemento. E eu estava pirando: meu parto foi uma reafirmação de quem eu sou, das minhas crenças e daquilo ao qual dedico minha vida de trabalho. Dar leite artificial para minha filha era uma descontrução muito grande. Fugi do consultório, pedi socorro na lista de amamentação e para minha terapeuta floral. O apoio que recebi foi fundamental para me colocar no eixo de novo, em especial das outras mulheres que me relataram experiências parecidas com a nossa (e bem sucedidas). Passados alguns dias a médica veio nos ver em casa e fizemos nova pesagem. Ela havia ganho 70g em três dias, o que tanquilizou um pouco os ânimos.

EXISTEM MIL MANEIRAS DE MAMAR...

...INVENTE A SUA!

Só voltei ao consultório mais de um mês depois. Tudo na minha filha me dizia que ela estava bem: era um bebê ativo, suas funções fisiológicas estavam em perfeito funcionamento e quando se punha a chorar esbanjava energia: a vizinhança inteira a conhecia pelo choro, o que para mim era um indício muito claro de que ela não estava passando por nenhuma privação! Na nova pesagem ela estava com 3,680kg. Um ganho de pouco mais de 100g mais de 2 meses depois do nascimento. A pediatra estava preocupada, me pediu para voltar em 15 dias. E apesar de nesse meio tempo a pequena ter engordado mais 110g ela não estava convencida. Ainda recomendava a complementação.

Foi nessa fase que a família também entrou em ação. Começaram os telefonemas de parentes preocupados pois a Carina estava muito pequena, ninguém via meu peito cheio, eu sofria de um problema genético: nenhuma das mulheres mais próximas a mim teve êxito na amamentação. Sei que a preocupação era legítima, sei que a intenção era ajudar. Mas ninguém ali tinha conhecimento profundo sobre o assunto e acabou que as intervenções foram extremamente tóxicas e prejudiciais ao nosso processo. Nos momentos mais difíceis corri para a Matrice, e novamente e sempre o apoio das mulheres Maternas foi fundamental. Uma dica das mais preciosas que recebi que abro parênteses para comentar foi a de tirar o leite e derivados da minha alimentação. Eliminou completamente os gases estomacais que estavam se tornando tão constantes que a pequena em alguns momentos desistia de mamar - era um arroto a cada três sugadas...

Por outro lado eu comia tudo o que diziam que dava leite. Canjica, mingau de aveia (feito com água de ameixa), salada de escarola crua, um tal de pirão de fubá e galinha caipira pra mulher parida do qual não posso nem lembrar o cheiro - o frango já não fazia parte do meu cardápio há algum tempo... O resultado disso foi que eu, que havia ganho apenas 12kg na gestação e que em 15 dias já havia eliminado 9 voltei a engordar: um total de 18kg...

O que de fato fez alguma diferença? Tomar cerca de 5L de água ao dia. Aí sim senti meu peito encher. Mas em relação ao peso, muito pouco impacto. Mas agora não era porque não tinha leite, e sim porque o leite era fraco! Cheguei a ouvir de médicos da família (que são otorrinos) que ela teria deficiências auditivas devido ao baixo peso. Sim, nessa hora as pessoas esquecem a diferença entre baixo peso e desnutrição! Meu marido mede 1,69m e pesa (depois de ter engordado com o casamento) 60kg. Eu brigo com a balança desde os 8 anos de idade e nesse período ouvi um dos comentários mais dolorosos de toda a minha vida: que eu não queria complementar a amamentação pois tinha medo que minha filha fosse gorda (só faltou a pessoa dizer: "como você")! Ok, sei que o número de células adiposas que vamos carregar vida afora se formam na primeira infância, mas daí a achar que eu valorizaria isso mais do que a saúde da minha filha...

Nesse ponto tomei também outra decisão importante. Resolvi trocar de pediatra, e voltar ao pediatra que atendeu meu parto e que é considerado especialista em amamentação. Além da pressão da família por uma segunda opinião achava que não era justo colocar a colega homeopata em tamanha saia-justa: ela não se sentia segura em nos acompanhar da maneira que eu estava conduzindo o processo. Ao procurar o novo pediatra, em momento algum tive a intenção de tranferir a ele a responsabilidade sobre minhas decisões. Queria alguém que olhasse o quadro sem preconceitos, tivesse sensibilidade suficiente para perceber o desenvolvimento que estava além da curva de pesoXaltura e que tivesse tranquilidade suficiente para nos acompanhar. E aqui preciso dizer: para isso o Dr.Cacá é o cara!

Ele foi muito claro comigo: menos de 10% da população brasileira tinha uma curva como a da Carina. Pra quem tem uma dessa em casa (eu cheguei a fazer uma xerox mas nunca preenchi), ela estava naquela temida área vermelha, lá embaixo (quase encostando na linha de baixo). A altura também estava abaixo (não tanto quanto o peso). Mas no mais ela apresentava um desenvolvimento perfeitamente normal. Foi nesse dia que descobri que ela já brincava - pra mim bebês até começar a engatinhar sómamavam, faziam cocô, choravam e dormiam... Perguntei se ele topava nos acompanhar e a resposta foi algo como "vambora!"! Chegamos a falar em tentar tirar o leite com uma bomba elétrica (eu já havia tentado duas manuais sem sucesso) mas no final da consulta ele achou que isso poderia me deixar mais neurótica se de repente eu tivesse dificuldade. Pela força das circunstâncias dei um desconto para o "mais"....

Bom, aqui a Carina estava com 3 meses e pouco e não havia ganho ainda 1kg desde o parto. Aliás, isso só aconteceu do quarto para o quinto mês. E ela usou roupas de recém-nascida até os 6 meses. Hoje quando vejo as fotos entendo porque as pessoas na rua me perguntavam se ela era prematura... Mas na época isso quase me enlouquecia. E eu tinha que recorrer as minhas lições de homeopatia, que enfatizam a INDIVIDUALIDADE como única referência para a saúde. As curvas são médias coletadas sabe-se-deus em que tipo de população, levando-se em conta quais viéses. Servem para dar uma idéia, mas usá-las como verdade suprema é um erro. Minha filha é prova disso.

Mas por ironia do destino foi justamente no congresso de homeopatia do qual participei quando a Carina estava com 5 meses é que "apanhei" mais. Fui questionada à exaustão por colegas que não se convenciam de que não iriam me convencer a complementar a amamentação. Também insistiam muito na introdução de alimentos. Tempos difíceis.

Faltavam cerca de 10 dias para a Carina completar 6 meses quando meu carro quebrou no Ipiranga (moro em Perdizes). Era hora do almoço e eu estava longe da minha filha. Quando finalmente consegui chegar minha mãe havia dado uma pêra para ela. Foi quando cedi. Comecei a introdução. Sem regras, sem pressa, e sem restringir nem um pouquinho a amamentação: se ela queria mamar e era hora do almoço, o mamar era prioridade. Não cheguei à perfeição dos 6 meses exclusivos como ansiava, mas dadas as circusntâncias fui longe, muito longe.

Algumas pessoas podem pensar que pra mim foi mais fácil: sou profissional de saúde, ainda mais da área alternativa. Mas para os desavisados: acima de tudo sou mãe de primeira viagem. A minha insistência, minha teimosia foi pautada pela minha certeza de estar fazendo o melhor para ela, mas essa certeza foi extremamente questonada e pressionada ao longo de 6 meses. Se estou certa ou não, só um futuro longínquo vai dizer. O que posso dizer, agora corujando um pouquinho, é que o desenvolvimento intelectual da minha filha deixa a todos preplexos. Amante da música, recita o "pato pateta" inteiro desde 1 ano e meio. Já reza para o anjo da guarda e com menos de 1 ano e 11 meses canta "como é grande o meu amor por você" (cantava pra ela desde o útero), além de já saber calçar os sapatos. O peso? Agora está um pouquinho acima da curva, assim como a altutra. É uma magrela de coxas grossas. Quando se enquadrou? Não tenho muita certeza, acho que lá pelo oitavo mês. Sumi do consultório quando ela estava com 9 meses e só voltei com 1 ano e 10m para trocar uma idéias com o queridíssimo Dr.Cacá.

E a Carina ainda mama no peito. Livre demanda, inclusive nas madrugadas (quase 2 anos sem dormir uma noite inteira - porque nas raríssimas vezes que a pequena não acordou para mamar eu acordei mais vezes que o usual para ver se estava tudo bem). Só agora começo a colocar algumas regrinhas, como não mamar andando pela rua pois ela está pesada e já não aguento mais carregá-la (engraçado, devido às Carina com 4 meses e 12 dias (e menos de 4,5 Kg)minhas lutas com a balança meu peito já era caído antes e achava que ia ter vergonha de amamentar em público - mas virei a rainha do peito-de-fora pelas ruas de Perdizes)...

Mas é tudo explicado, e ela já é capaz de entender as restrições. Quando me perguntam até quando vou amamentar digo que pelo menos até os dois anos, como recomendado pela OMS (embora a maioria considere exagero é difícil arrumar argumentos para contestar a OMS...). E depois? Não sei, vamos ver juntas.

Amamentar para mim vai muito além de alimentar, de doar anticorpos. É um ato de amor, é um ato de doação de alma, de criar um vínculo de afeto e segurança que esse serzinho vai levar pela vida afora. Embora tenha sido um começo difícil, passaria por tudo novamente pois não há nada no resultado que me faça questionar se valeu ou não a pena. Quando olho para minha filha hoje, o único arrependimento é não ter me informado mais para enfrentar a tempestade com mais tranquilidade. Espero sinceramente que meu relato sirva para tranquilizar outras mães e seus familiares, e que tire um pouquinho do peso das costas daquelas que ousam assumir a responsabilidade de nadar contra a corrente.

Não vou nunca cansar de dizer (e agradecer) que o relato e o apoio de outras mães foi fundamental para que eu chegasse até onde cheguei. A terapia floral também foi uma pedra muito importante nessa construção, assim como os cuidados incríveis do Dr.Cacá. Também não poderia deixar de agradecer à minha própria mãe, que embora não tenha conseguido nos amamentar ficou firme do meu lado, aguentou muita pancada da família e dos amigos da área da saúde e filtrou o quanto pode para que as preocupações gerais não chegassem a mim, mesmo estando ela mesma bastante insegura.

Para as que gostam de números seguem abaixo os que tenho. Deixo ainda meu contato pessoal para que aquelas que precisarem se sentirem à vontade em me procurar: pra trocar idéias, desabafar, pedir um colo:

gragarbi@hotmail.com

E muito leite para todas!


Graziela Garbi, em 14/03/2011