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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Atitudes pacificadoras para o choro do bebê

No último texto fizemos uma jornada de reflexão acerca do choro do bebê na nossa cultura: entre cólicas e sinais de desconfortos aparentes, passando pelas razões do choro e as oportunidades de criação de vínculo entre pais e filhos, dentro inclusive, das ocasiões de descontentamento. Se manter no papel de adulto talvez seja um dos primeiros e maiores desafios dessa jornada de nascer como mãe e pai.

Hoje pensei em trazer um pouco da minha experiência prática com esse difícil assunto, elencando atitudes pacificadoras:

Consciência de aprendiz
Em primeiro lugar, quero destacar que tenho muito  quer aprender. Nós, os adultos, temos muito o que aprender quando se trata das sutilezas da vida humana em um momento tão singular que é a chegada de uma nova vida ao mundo e a construção de uma nova família. Estamos aprendendo a ser pais , tios ,avós e toda uma constelação de relações humanas a partir do bebe.

No entanto, uma das minhas bases de atuação versa sobre a potência desse estado de aprendizado. Quando nos sabemos aprendizes das situações que vivemos, legitimamos a construção de novos caminhos. E TODOS os caminhos de construção de vínculos entre os bebês e seus pais são verdadeiros. O choro do bebê é uma oportunidade potente nessa visão. Já que na nossa sociedade o choro se configura como forma de comunicação entre o bebe e seus pais.

Carregadores de Pano
Aprendi também que o uso de carregadores de pano são positivos aliados nessas situações. Não só porque resgatam a prática ancestral do contato físico, indispensável para esse bebê e para esse adulto encaminhando para a construção de vínculos. Mas também por terem comprovadamente benefícios pacificadores para as duplas.



Toques e Massagens
Todos caminhos que levam a construção de vínculos que se constroem pela observação e contato físico com o bebe são os mais poderosos em lidar com o choro do começo. Na ótica da proximidade física entre adultos cuidadores e seus bebês, as massagens e toques não podem ficar de fora. A experiência de mães e pais, profissionais de saúde e médicos pediatras comprova. Apesar de tecnicamente muito se falar na massagem como uma forma de "aliviar dores" e "melhorar o intestino" do bebê, cabe lembrar que o contato afetuoso carrega também vantagens de ordem psico-emocional, que norteiam o estar do bebê e do adulto à partir da esfera sensório-motora: uma questão muitas vezes esquecida nas sociedades contemporâneas que gostam de explicações científicas e cognitivas para tudo. Estamos falando de prazer aqui!


Banhos Prazerosos
Por mais incrível que pareça, o bebê não necessita de banhos com finalidades meramente higiênicas. O momento do banho é um momento de cuidado, que o bebê entende como amor. O bebê entende tudo como o amor que ele quer receber. Portanto, o momento do banho pode ser gostoso o prazeroso. Contradizendo a prática atual das banheiras, que coloca o bebê  pequeno muitas vezes de corpinho exposto em um espaço-gravidade estranho de entender, a minha experiência mostra que o banho de chuveiro no colo de pai e mãe ou o banho de balde, muitas vezes aliado à contenção do cueiro, tem resultados efetivos nessa sensação de prazer. Bebês pequeninos normalmente preferem esses banhos. Os bebês mais velhos que gostam de brincar na banheira, experimentar a água e sentem-se felizes em bacias.


Charutinho e contenção
No último texto, refletimos como muitas vezes diante do choro do bebê os adultos se paralisam e tendem a não tomar nenhuma atitude, entrando em uma espiral de desespero que notoriamente não tem benefício nenhum. Eu gosto de lembrar: o bebê é uma pessoa! Ele está ali, presente no momento do choro em seu corpo, mente e sentimentos. O casulo, charutinho e outras espécies de contenção também são atitudes que pacificam esse estado, por promoverem um contorno, por convidarem tanto o adulto como o bebê a sentirem-se presentes, existentes. Além de é claro, comprovadamente aportarem ao bebê a memória intrauterina: um espaço contido, e não e imensidão daqui de fora. Que convenhamos, é apavorante até para os grandes.



Movimento e Chiado

Aliados aos carregadores de pano ou ao colo mater-paterno, estar em movimento com o bebê que chora é também uma atitude pacificadora. É comum, naquele momento de cansaço e paralisia do adulto, que ele se esqueça do ato ancestral de NINAR seu bebê. Vemos cuidadores desesperados que muitas vezes recorrem à uma chupeta por exemplo, antes mesmo de propor uma pequena dança pela sala, ou uma cantiga de ninar. Acho que aqui estamos falando do quanto podemos nos arriscar e nos entregar nas atitudes que promovam vínculo, ao invés de escolher atitudes que possam nos separar. Em combinação com o chiado, suaves canções ou ruídos que promovam uma concentração da dupla para algo além dos seus próprios desesperos, são sempre uma boa ideia.Devo lembrar também que o uso de redes para dormir ou algum tipo de berço que balance como a rede é visto desde as índias brasileiras,passando pelas andinas ate o extremo oriente. Balançar faz parte da cultura mundial de cuidar de bebes.


Amamentação, Sucção e Livre Demanda
Um pediatra americano, como é costume dos americanos, nomeou uma técnica de acalmar o choro do bebê baseada em 5 etapas que em inglês começam com a letra S: Swaddle, Stomach Position, Shush, Swing, Suck. Na ordem, a contenção, a posição lateral ou verticalizada (em oposição a deixar o bebê deitado de costas), chiado, balanço e sucção. Aqui quero pontuar que o instinto de sugar é inerente ao bebê - e é o que garante a sua sobrevivência. A amamentação em livre demanda, ou seja, quando o bebê pede (e ele pede de várias maneiras, não apenas chorando), é uma forte aliada na construção do vínculo, não apenas da saúde e estabelecimento pleno da amamentação. Exatamente porque para além do alimento, o bebê gosta e precisa sugar. Alguns bebês precisam sugar mais, outros bebês encontram seus dedinhos e sugam, e há aqueles que só se confortam no seio materno. Há sempre a opção da chupeta, que é também um recurso legítimo nesse processo. Mas sempre com a consciência de que se trata de um mediador dessa relação física entre mãe e filho, que pode ser muito útil no momento de choro, mas pode também a longo prazo, trazer outras questões para serem observadas depois, quando invariavelmente esse bebê precisar se livrar do hábito de sugar a chupeta. Precisamos também pontuar que a sucção não nutritiva para bebês pequenos pode representar algum prejuízo para o estabelecimento da saúde desse bebê e também para a amamentação. Gosto de pensar que a chupeta é um recurso para os pais. E não para o bebê. Colocando também que é da mulher, a dona desse corpo que não pode ser esquecido da equação, encontrar o limite de ser sugada e quando. Claro, não é tarefa fácil.


Contato visual e conversa
Um bebê chorando normalmente cerra os olhos com força. Fabrica seu próprio som de descontentamento que o deixa longe do contato com o mundo. Ele fica lá, no mundo interno do choro. Se a busca para esse encontro de vínculo passa pelo corpo, não vamos esquecer dos olhos e da visão desse bebê. Minha experiência mostra que quando o bebê sai do estado do choro, seus olhos abrem e ele espera encontrar amor e contato. Isso se dá pelos olhos também, é hora de iniciar uma conversa. Bebês adoram balbucios e adultos que falem sua língua! Vocês vão se surpreender, se tentarem conversar com seus bebês, como eles são capazes de se comunicar de várias formas, que não o choro. Eles franzem as sobrancelhas, arregalam os olhos. Mesmo os pequeninos - a quem não é creditada a felicidade através dos sorrisos, que injustamente são chamados de reflexos - são eficientes em comunicar felicidade. Sorriem sim! Mostram a língua, estalam, falam, imitam as caretas dos adultos e gostam de tudo isso. Pronto, não estão mais chorando.




Arriscar-se nesse caminho de muito contato e, portanto, muito vínculo, na minha opinião é o que mais ajuda. Aprender desde o começo que quando chora, o bebe está te chamando e o que ele quer é você! Talvez o mais difícil aprendizado!

sábado, 5 de setembro de 2015

Babywearing desde quando?

Uma das perguntas mais freqüentes de mães de recém nascidos é desde quando podem colocar o bebê no carregador. A resposta é: desde sempre.




Nessa imagem vemos uma mãe colocando um bebê de apenas alguns dias num carregador. Ele vai se aninhando na posição vertical, que é considerada pelos profissionais que implementaram o método canguru como a posição ideal. A posição é barriga a barriga com a mãe, pernas abertas, pés fletidos em posição de sapo, amarrado gentilmente contra o corpo do adulto.

O bebê prematuro pode ser mantido o tempo todo nessa posição, pois o adulto é sua encubadora. Num bebê à termo, não existe essa necessiadade, mas não existe contra-indicação para o tempo de colo oferecido.

A ideia é que o binômio mãe e bebê esteja em sintonia o suficiente para que ambos explorem as vantagens do babywearing pelos espaços de tempo que lhes forem confortáveis.

A posição vertical é facilitadora da digestão e evita os refluxos uma vez que os ácidos do estômago permanecem por ali, coisa que quando o bebê é colocado deitado pode ser prejudicial. O costume antigo de "colocar para arrotar" está para além de fazer o ar engolido durante as mamadas sair pela boca do bebê. A posição vertical é recomendada também para a diminuição de gases e possíveis cólicas do recém nascido. 

Uma das maiores vantagens do babywearing sem restrição para recém nascidos é a proximidade ao corpo da mãe e seus impactos positivos na amamentação. O leite humano é altamente calórico, mas de baixa gordura e proteína se comparado por exemplo com o leite de um urso, que pode deixar seus filhotes em uma caverna por longas horas para caçar, graças ao seu leite gordíssimo. Nosso leite seria o equivalente ao leite dos animais como o macaco ou o canguru, animais que carregam seus filhos consigo. 

Com o bebê em contato, o corpo feminino está constantemente liberando ocitocina e fabricando leite, com a descida da prolactina. A mãe também é naturalmente encorajada a perceber os sinais mais sutis do filho, e o bebê recebe leite com mais freqüência. Maior estímulo, maior produção e simbiose dos ritmos naturais dos dois corpos recém separados ditam a tônica do carregar o bebê ao longo dos dias.

O carregador vai permitindo que o corpo do bebê atue em transição entre a mãe e o mundo. 



E até quando o bebê pode ser levado no carregador? A resposta é diametralmente oposta à premissa do texto: até quando mãe e filho quiserem. Não há limite de idade para que uma crianças seja carregada no colo por seus genitores e, ainda que o senso comum insista em frases de efeito sobre "mal acostumar com o colo", não há absolutamente nada na literatura científica que sugira algum tipo de malefício para quem passou a primeiríssima parte da vida suspenso em afeto.


***

No próximo sábado, dia 12/09 acontecerá o lançamento da edição em português do livro Besame Mucho de Carlos Gonzáles. Confira a programação do Espaço Nascente e venha participar!


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Retorno ao trabalho: e o sono do bebê, como fica?


Frequentemente ouvimos mães preocupadas com seu retorno ao trabalho e como será a reação do bebê que dorme sendo embalado ou amamentado. A verdade é que todas as crianças (e todas as mães) vivenciam um período difícil quando precisam separar-se por causa do trabalho. Neste artigo, seguem algumas dicas que levam em consideração o estado emocional de ambos, mãe e filho, para lidar com essa separação. 

Fatos importantes a serem considerados quando o retorno ao trabalho está próximo: 

1) O desenvolvimento do ser humano no primeiro ano de vida é extraordinário, cada fase, uma necessidade. 

O bebê triplica de peso no primeiro ano, se desenvolve em todos os aspectos (motores, cognitivos), começa a andar! Então, não se deve comparar um bebê recém-nascido com um de 4 meses, nem um bebê de 4 meses com um de 1 ano, por exemplos, pois serão praticamente outros bebês. 

Cada fase, uma necessidade: bebê novinho precisa muito de colo, aconchego, contato íntimo, amamentação em livre demanda. É da natureza dos bebês quererem colo de suas mães; na verdade esse é um ótimo hábito que foi desenvolvido em milhares de anos de evolução, pois os bebês que não demandavam atenção faleciam e, por isso, a seleção natural fez com que aqueles que viviam no colo sobrevivessem e esse gene foi passado adiante. Essas necessidades vão diminuindo conforme sua maturidade. 

A dica é aproveitar essa fase inicial, em que temos disponibilidade, e ficar com o bebê no colo, amamentar em livre demanda, sem privar o bebê do carinho e do colo de mãe que ele tanto precisa e tem direito. 

2) Os bebês são inteligentes e têm uma capacidade enorme de adaptação e de distinção de seus cuidadores. 

Eles podem reagir totalmente diferente com a mãe e com a babá ou com a professora do berçário (que eles sabem que não é a mãe). A capacidade e a inteligência dos bebês de distinguir seus cuidadores permite que eles criem modos de interação distintos com eles. Porém, é comum e esperado que o bebê demande sempre mais da mãe, porque sabe que pode, porque confia mais nela. 

Então, o bebê criará laços afetivos com o novo cuidador e eles se entenderão na nova forma de adormecer. E, no final do dia e à noite, de volta aos braços da mãe, o bebê pedirá mais carinho, mais afago, e muito provavelmente pedirá para mamar para adormecer, mesmo que não o faça com o cuidador durante o dia. Afinal de contas estarão com saudades e sabem que mamãe pode oferecer o peito e curtem estar nos braços de sua referência em amor e confiança. 

3) Não compensa promover separação prévia para ‘acostumar’ ou ‘preparar’ o bebê com o retorno ao trabalho. 

Não sofram por antecedência achando que têm de acostumar o bebê desde cedo a adormecer sozinho. Bebês não têm maturidade neurológica e compreensão para tal, então essa é uma expectativa irreal. Eles podem ter vários sentimentos e sensações que os perturbem durante a noite e precisam de nossa ajuda. Bebês demandam a mãe, mesmo no período noturno, e, especialmente, se ficaram longe dela durante o dia. A criança tem em sua mãe o referencial de segurança, estabilidade e afeto. 

Um bebê nunca fica ‘mal-acostumado’ por ter colo, embalo, acalanto, pelo contrário, precisam disso para continuar a se desenvolver. Revisamos isso em meu artigo anterior ‘A natureza do sono dos bebês’ (1). Portanto, não faz sentido promover um afastamento prévio entre vocês ‘pensando no futuro’; isso só acaba gerando sofrimentos desnecessários para ambos, mãe e bebê. Se a criança não tem colo quando pequeno, não tem no futuro, terá quando, então? Se seu marido tem uma viagem planejada para semana que vem, para ficar um bom tempo fora, você, para se acostumar com a ausência dele, já vai se preparando e deixa de dormir na mesma cama que ele, deixa de beijá-lo e de abraçá-lo? Ou faz o oposto e trata de aproveitar ao máximo os últimos dias antes da viagem? 

A questão, portanto, não é fazer o bebê 'se desacostumar' de colo, pois ninguém se desacostuma de uma necessidade física ou psicológica. A questão é, sim, ajudar o bebê a criar confiança em outro cuidador. 

4) "Treinar" ou condicionar o bebê a dormir sozinho vai contra sua natureza, e tem consequências. 

Condicionar o bebê a adormecer sozinho não vai ajudá-lo no próximo período de afastamento entre vocês, pelo contrário. Para ajudá-lo, é necessário que exista acolhimento e apego entre vocês, contínuo e íntimo, assim seu estado emocional vai se fortalecendo, ele se sente acolhido, importante e atendido, e vai lidar melhor com outras situações de separação. 

A maioria de planos de treinamento para bebês oferece o risco de dessensibilização dos sinais enviados, especialmente quando há choro sem consolo envolvido. Em outras palavras, ao invés de ajudar a descobrir o que os sinais enviados pelo seu bebê significam, esses métodos pedem que você os ignore. Nem você nem seu bebê aprendem nada de bom com isso. E, com a separação durante o dia entre vocês pelo retorno ao ao trabalho, a angústia do bebê tende a piorar (2). 

Um estudo recente mostrou que os bebês têm capacidade de prever respostas estressantes. Eles foram divididos em dois grupos, no primeiro as mães interagiam com eles continuamente, enquanto que no segundo bebês foram ignorados por elas por somente dois minutos. Os níveis de cortisol, hormônio do estresse, foram medidos após os experimentos. No dia seguinte, o grupo que foi ignorado teve níveis de cortisol mais elevados do que o grupo controle, provando que eles têm capacidade de antecipar o estresse (3). 

O cortisol em níveis elevados no cérebro do bebê pode ser corrosivo. O cérebro do bebê está em pleno desenvolvimento e a exposição desse hormônio por períodos prolongados impede a conexão entre alguns nervos e provoca a degeneração de outros. É possível que bebês que são submetidos a muitas noites de choro sem consolo sofram efeitos neurológicos prejudiciais que poderão ter implicações permanentes no desenvolvimento neurológico. Para ler um compêndio de artigos científicos sobre o tema cortisol e efeitos no desenvolvimento cerebral, veja a referência 4. 

É preciso ter senso crítico e usar de discernimento quando recebemos conselhos que prometem milagres. Esses métodos de condicionamento envolvem vários riscos; além dos efeitos neurológicos, podem criar uma distância entre você e seu bebê, e ele perde a oportunidade de construir confiança no seu ambiente. 

Algumas dicas práticas para mães preocupadas com retorno ao trabalho: 

- Busca de um novo cuidador: procure um novo cuidador que tenha disponibilidade emocional, que tenha chance de criar um laço afetivo com seu bebê, que tenha empatia e carinho, que o carregue no colo, não o deixe chorar e que o embale para dormir. Não é qualquer pessoa que tem preparo emocional para cuidar, acolher e maternar um bebê. É importante que ele se apegue ao novo cuidador, pois é dependente por natureza e precisa desse vínculo. A dependência natural é um fato biológico, e não resultado do excesso de mimo materno (5). 

Sendo creche, babá, parente ou outro cuidador, lembre-se sempre da disponibilidade emocional como requisito para cuidar de seu filho, pois não é simplesmente suprir suas necessidades físicas, mas é também dar amor, ter interesse e prover o afeto materno na ausência da mãe. Visite várias creches, procure locais onde dão colo, verifique se deixam os bebês o tempo todo em cadeiras, andadores ou outros aparatos. Se for esse o caso, é sinal que estão desprezando a importância do acolhimento emocional no início de vida do bebê que é tão crítico e fundamental para o resto de nossas vidas. 

Para a criança não é suficiente que lhe troquem as fraldas e lhe deem comida. O mais necessário e nobre alimento é o afeto, acompanhado de carinho, prazer e paz (6). 

- Envolvimento de outra pessoa no ritual de sono: encoraje o pai, por exemplo, a participar do ritual de sono do bebê desde cedo. Ele pode dar o banho e fazer uma massagem, por exemplo. Depois dos 3-4 meses, em média, se o bebê sempre adormece no peito, pode-se começar a alternar maneiras de adormecer para que ele não crie uma associação forte de sugar para dormir (7). Essa dica não é obrigatória considerando-se que os bebês têm capacidade de distinguir seus cuidadores (como citado no início do texto) e vai aprender a adormecer de outra forma com quem ‘não tem peitos’. Existem crianças que dormem mamando com suas mães em casa e na escolinha adormecem de outra forma com as cuidadoras, sem problemas. 

- Adaptação gradual: O bebê lidará melhor com essa separação se a adaptação for gradual, assim terá uma chance de criar um apego com o novo cuidador antes de separações longas de sua mãe. Para que o novo cuidador crie um bom apego com ele, criar chances de interação antes de deixá-los sozinhos é importante. 

Recomendo sempre que a mãe vá junto com o bebê e fique com ele no novo ambiente o tempo todo, pelo menos no início. Assim ele vai se familiarizando com o local, mas com a segurança de ainda estar sob os cuidados da mãe. Depois a mãe pode ir se afastando um pouco, gradualmente, enquanto dá a chance de o bebê se apegar à nova cuidadora. Porém, não há receita pronta, é questão de observar a criança e ter sensibilidade. A melhor qualidade que se pode esperar do cuidador é a empatia com o bebê. Novamente, oriente que lhe dê bastante colo, não o deixe chorar, mostre quais são os sinais de sono do bebê, deixe que ele durma as sonecas no colo para dar um consolo afetivo na ausência da mãe. 

- E se o bebê tem ansiedade da separação? 

Nos primeiros meses, a relação mãe e filho é altamente intuitiva, primitiva mesmo. O bebê não sabe que nasceu e acha que o corpo da mãe é continuidade do seu e que o seio que o alimenta e lhe dá carinho e prazer faz parte de um todo ao qual ele pertence. Então, gradualmente e após o sexto mês é que os bebês vão se dando conta de que são outros seres e essa percepção de individualidade fica mais clara e evidente. Assim, progressivamente, vai se estabelecendo o desenvolvimento psicoafetivo, motor, alimentar e cognitivo da criança (6). 

Algumas idéias práticas: 

Pratique separações rápidas e diárias 

Durante seus dias juntos crie oportunidades de expor seu bebê a separações visuais breves, seguras e rápidas (brincar de esconder o rosto e logo reaparecer é ótimo e eles adoram!). Incentive que seu bebê brinque com um brinquedo interessante ou com outra pessoa e, quando ele estiver feliz e distraído com o brinquedo ou com a pessoa, caminhe calma e lentamente para outro quarto. Assobie, cante, murmure uma canção ou fale, de modo que seu bebê saiba que você ainda está por perto, mesmo que não possa vê-la. Pratique essas separações breves algumas vezes ao dia numa variedade de situações diferentes. 

Evite a transferência de colo para colo 

É muito comum passar o bebê do colo de um cuidador para outro. O problema é que cria ansiedade na criança sair da segurança dos braços da mãe e ser fisicamente transferido para os braços de outra pessoa que lhe é menos familiar. Essa separação física é a mais extrema na mente do bebê. Para reduzir essas sensações de ansiedade faça a mudança com seu bebê num lugar neutro, como brincando no chão ou sentado numa cadeirinha, cadeirão de alimentação ou bebê conforto. Peça para o cuidador sentar do lado de seu bebê e interagir com ele, enquanto isso você fala um ‘tchau’ rápido, porém positivo, num tom feliz. Assim que você sair é um bom momento para o cuidador pegar seu bebê no colo, e a vantagem é que o cuidador vai ser colocado na posição de ‘salvador’ e isso pode ajudá-los nessa relação. 

Entenda a ansiedade de separação como um sinal positivo! 

É perfeitamente normal - até maravilhoso - que seu filho tenha esse bom apego e que deseje essa proximidade com você e sua presença constante. Parabéns! Isso é a evidência de que o laço afetivo que você criou desde o início está seguro. Se for o caso, ignore educadamente as pessoas que te dizem o oposto. 

Relaxe em suas expectativas de independência, isso certamente irá ajudar seu bebê a relaxar também e a ter menos ansiedade nos momentos de separação entre vocês (8). 

- Lembre-se, o acolhimento na infância tem resultado positivo na vida adulta! 

Uma pesquisa recente (9) revelou que a afeição maternal dada aos bebês torna-os adultos mais bem preparados para enfrentar os problemas da vida. Cientistas compararam dados das relações de afeto e atenção e desempenho emocional de bebês de 8 meses com suas mães. Essas pessoas foram acompanhadas e testadas aos 34 anos de idade sobre vários sintomas emocionais. Qualquer que fosse o meio social, ficou constatado que os bebês com bom apego emocional aos 8 meses tinham os níveis de ansiedade, hostilidade e mal-estar mais baixos quando adultos. Isto confirma que as experiências na primeira infância têm influências na vida adulta. 

D.W. Winnicot, um pediatra famoso que depois se tornou psicanalista diz que a capacidade de ser feliz de um ser humano depende, além de todos outros fatores, de um tempo (a infância até os seis anos, mas principalmente o primeiro ano de vida), e de uma pessoa (uma mulher, a mãe). Se a mãe não está presente, outro cuidador que entenda esses conceitos e que atenda as necessidades do bebê se faz necessário. 

É uma responsabilidade sim, de assustar! E é realmente intrigante que pessoas tenham filhos sem saberem nada disso, sem se darem conta da importância desse relacionamento profundo, do vínculo necessário que se forma nesse período, e quando as mães retornam ao trabalho fora de casa colocam cuidadores em seu lugar que somente cuidam da parte física (6). 

- Não ofereça mamadeira e nem desmame seu bebê: Com o retorno ao trabalho, muitas mães se preocupam porque os bebês não aceitam a mamadeira e tentam todo tipo de bicos e leites artificiais diferentes. Às vezes até mesmo o pediatra sugere o desmame. É situação comum bebês que rejeitam veementemente a mamadeira, isso é sinal de inteligência, pois a primeira reação da natureza é mesmo rejeitar outros tipos de alimentação que não o seio materno. 

Na verdade é um erro acreditar que o bebê precisa de uma mamadeira quando você retorna ao trabalho e que você deve acostumá-lo com antecedência. Se você treiná-lo a acostumar-se com uma mamadeira, o que provavelmente acontecerá é um desmame precoce por confusão de bicos. Sempre ouvimos uma história ou outra de bebês que não desmamaram, mas esse risco é grande e não há como prever, então é melhor prevenir e alimentar seu bebê com um copinho. 

Além disso, é preciso citar que, mesmo com a oferta de leite materno ordenhado em uma mamadeira, muitos bebês rejeitam. Dr. González (10) explica esse fenômeno: 

“E a razão é que os bebês não são bobos. Se a mãe não está em casa e a avó vem com uma mamadeira (ou melhor ainda, com um copinho para evitar confusão de bicos), duas coisas podem acontecer. Primeiro, se o bebê não estiver com fome, ele provavelmente não aceitará nada. Ele vai compensar isso quando a mãe retornar. Muitos bebês dormem a maior parte do tempo quando estão distantes das mães, e então vão mamar à noite. A outra possibilidade é, se o bebê estiver com fome (e especialmente se tiver leite materno na mamadeira), ele poderá tomá-la e pronto. E ele deve estar pensando: ‘Bem, ela não está aqui, então é isso que eu tenho que fazer’. Mas se a mãe está em casa e o bebê pode ver e sentir o peito, como ele vai aceitar um copinho ou mamadeira? Ele deve pensar: ‘Minha mãe deve estar louca, ela tem o peito aqui e quer me dar essa geringonça?’ E ele insiste: ‘É o peito ou nada!’ ” 

Se o bebê é novinho e não há possibilidade de ordenha de leite materno, pode-se tentar uma alimentação mista, com a mãe amamentando antes e depois do trabalho e o bebê tomando leite artificial durante o dia. Muitas mães encontram soluções satisfatórias melhores que oferecer leite artificial: algumas levam seus bebês para o trabalho (se o ambiente permite), outras trabalham meio período, algumas conseguem que o bebê seja levado a elas para serem amamentados, outras ordenham e estocam seu leite. Se o bebê já tiver mais de seis meses de idade, pode-se planejar que o bebê se alimente de comida na sua ausência, embora há de se ter cautela se forem os primeiros alimentos. 

A amamentação é parte essencial da vida do bebê até 2 anos no mínimo e auxilia na separação parcial entre mãe e filho quando ela retorna ao trabalho fora de casa. Pode-se planejar ordenha de leite materno e continuação da amamentação nos períodos que mãe e filhos estão juntos. O desmame junto com o retorno ao trabalho pode ser bem traumático para o bebê (10): 

“Quando você sai para o trabalho (ou quando sai com o cachorro), o seu bebê não sabe onde você está e quanto tempo você vai demorar. Ele ficará muito assustado e chorará como se você fosse deixá-lo para sempre. Vai levar alguns anos até que seu bebê seja capaz de ficar longe de você sem chorar e antes que ele entenda que a ‘mamãe vai voltar logo’. Toda vez que você voltar, vai abraçá-lo, amamentá-lo e o bebê pensará: ‘outro alarme falso!’. Mas se você retornar ao trabalho e tentar desmamá-lo abruptamente e ao mesmo tempo, quando você volta do trabalho, o bebê pede para mamar e você recusa, o que o bebê irá pensar? ‘Ela me abandonou porque não gosta mais de mim.’ Esse é o pior momento para o desmame.” 

- Então como fica a alimentação do bebê? Se você volta a trabalhar quando o bebê tiver menos de 1 ano, planeje com antecedência como ordenhar (alugue ou compre uma bomba elétrica), estocar e oferecer o leite materno para o bebê. Veja orientações na referência 11. Use um copinho ou mamadeira-colher para oferecer o leite ordenhado e não mamadeira. Se ele tiver mais de 1 ano, pode alimentar-se de sólidos e mamar quando estiverem juntos. 

- Tenha mente aberta para cama familiar: Alguns bebês passam a mamar à noite com mais frequência para compensar as mamadas perdidas durante o dia quando a mãe volta a trabalha fora. Isso é chamado ‘amamentação em ciclo reverso’ e é um mecanismo de sobrevivência de nossa espécie. Nesses casos, praticar cama compartilhada e amamentar deitada pode ajudar a saciar as necessidade do bebê ao mesmo tempo em que os hormônios da amamentação auxiliam mãe e bebê a adormecerem novamente (12-14). O bebê fica mais tranquilo ao saber que, mesmo passando o dia todo longe da mãe, à noite estará com ela. A proximidade com o corpo materno sintoniza as pautas de sono do bebê com as da mãe e regula o seu nível de excitação, temperatura corporal, o ritmo metabólico, níveis hormonais, ritmo cardíaco, respiração e sistema imunológico, pois o efeito anti-estresse do estreito contato físico libera ocitocina, que fortalece o sistema imunológico do bebê (12-15). 

Nem todas as famílias adotam cama compartilhada por receio de ser difícil conseguir que a criança durma sozinha depois. A reflexão aqui é de que as necessidades mais intensas de proximidade se dão na primeira infância: bebês têm necessidade de proximidade com a mãe (15) e a cama compartilhada responderia a essas necessidades. Mais tarde, seria um outro momento, com o bebê com outra cognição, maturidade e evolução. 

Se a criança dorme longe dos pais à noite, fica longe durante o dia e, principalmente, se o bebê não mama mais no peito (portanto não tem o contato íntimo da amamentação), precisa de alguma compensação afetiva e se beneficiaria da proximidade da cama familiar. O mesmo acontece se o bebê estiver em processo de angústia da separação, que se inicia entre 6-8 meses e vai até 2-3 anos, com altos e baixos. 

Quando os bebês sinalizam que precisam de contato corporal com os pais, mostrar empatia, entender e acolher é excelente, pois a criança que se recusa a dormir pode estar precisando de mais contato corporal com o pai e a mãe. É uma necessidade primitiva da criança ter contato íntimo com a pele do corpo de outra pessoa enquanto adormece, mas isso se choca com todas as regras culturais que exigem que as crianças durmam sozinhas (16). 

- Procure seus direitos de licença maternidade de seis meses, negocie com o chefe, tire férias junto com a licença, adie alguns planos, trabalhe meio período, procure um emprego mais flexível, procure trabalhos que possa fazer em casa. 

Esses dois meses a mais fazem toda a diferença para a criança: a amamentação exclusiva por 6 meses diminui o risco de alergias (17), dermatite atópica (18), asma (19), infecções gastrointestinais (20), doenças contagiosas (21), otite média, infecções respiratórias agudas, gastroenterite, infecções urinárias, conjuntivite e candidíase oral (22). A introdução de alimentos aos 6 meses é feita na hora ideal, quando o bebê já tem capacidade fisiológica para assimilar os alimentos novos (23). Muitos bebês têm reações indesejadas com a introdução de alimentos antes dos seis meses, como prisão de ventre, refluxo, cólicas e é claro que tudo isso atrapalha o sono. Se não tem outra solução, invista na ordenha, estoque e oferecimento de leite materno para o bebê até os 6 meses. Veja na referência 11 como ordenhar e estocar o leite materno e utilize um copinho ou mamadeira-colher para oferecer ao seu bebê. Muitas mães que trabalham podem e devem investir na amamentação exclusiva por 6 meses e esse trabalho todo compensa. 

- Lidando com a separação: entenda a reação do bebê e mostre empatia (apesar do cansaço): sua volta ao trabalho e afastamento é algo bem complicado para um bebê, porque é você a mãe dele, você é insubstituível da forma que você é para seu filho. Outros cuidadores irão criar vínculos afetivos com seu bebê, mas a mãe tem outro peso. Entenda a amamentação em ciclo reverso como uma forma de compensação afetiva. Entenda e acolha as necessidades do bebê (que são simples, mas são intensas, de muito contato íntimo, colo, peito). Esse acolhimento é essencial para o desenvolvimento de sua autoestima no futuro. 

O padrão de sono do bebê com outro cuidador pode mudar e essa mudança pode interferir no sono noturno. O bebê cansado (caso não tire boas sonecas na escolinha, por exemplo) está secretando mais cortisol, que causa agitação fisiológica, irritação e dificuldades de adormecer. A exaustão é contraproducente com o sono, pois quanto mais exausto, mais lutará contra o sono e mais acordará à noite. Se as sonecas estão muito curtas na escola é comum que o sono noturno também seja influenciado. Orientar as cuidadoras a esticarem as sonecas, explicar a importância das sonecas durarem pelo menos 1 hora para serem restauradoras, usar algum barulho estático ao fundo para ajudar nas sonecas são atitudes que você pode tomar. 

Dra. Andréia K. Mortesen, neurocientista 

Publicado originalmente no Guia do Bebê, do UOL, em 9/11/2010 




terça-feira, 2 de abril de 2013

Cocô do bebê pode trazer mensagem importante sobre sua saúde

As fezes comunicam sobre como está o funcionamento do organismo

por Amanda Dias Almeida

Cuidar de um bebê exige atenção a todos os detalhes. E o cocô pode ser um dos mais importantes. “Através da eliminação seu filho comunica sobre como está o funcionamento do organismo,” afirma o pediatra Luigi Massaro. É o caso das intolerâncias alimentares, que, geralmente, se manifestam nesse momento. “Fezes muito líquidas ou de coloração diferente do amarelo-esverdeado sinalizam algum desequilíbrio. Esbranquiçadas podem ser sinal de problema no fígado ou de alguma doença hereditária. Já a presença de sangue ou pus é um alerta e é preciso consultar um profissional”, explica Massaro.

As fezes estão diretamente relacionadas com a ingestão de alimentos. Por isso, bebês que mamam exclusivamente no peito tendem a seguir um determinado padrão de eliminação que é diferente dos que tomam algum tipo de complemento ou que já consomem comida sólida. “O leite materno é totalmente aproveitado pelo organismo do bebê, o que explica alguns deles ficarem até 6 dias sem fazer cocô sem sofrerem de constipação”, explica o médico.

Até o segundo mês, aproximadamente, é normal o bebê evacuar de três a oito vezes por dia. A cor varia de amarelo a esverdeado, é pastoso ou pode apresentar grumos. A partir de um mês e meio até três se forma a ampola retal e a eliminação pode demorar um pouquinho mais para acontecer. Mas, só depois do sexto mês é que as fezes começam a endurecer, mas isso não significa cocô duro, ressequido ou em bolinhas. Nesses casos, pode significar falta de ingestão de líquidos. “Não fazer cocô por até 3 dias é totalmente normal, depois disso requer observação”, orienta o pediatra.

Segundo o médico, é preciso prestar atenção no conjunto de sinais que o bebê está dando antes de se preocupar. A obstrução abdominal vem acompanhada de barriga inchada e falta de apetite. “Se o bebê está mamando é porque está absorvendo os nutrientes e, naturalmente, sente fome. Se não está eliminando um dia ou outro é porque não está sobrando nada para ser eliminado”, esclarece o especialista. A soltura de gases também é um indicativo de que tudo está bem.




quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cólica: a “dor de parto” do bebê

 

Um relato sobre como lidamos com as cólicas do pequeno Miguel
Por Michelle Prazeres*


Miguel começou a ter cólicas com três semanas de vida. O comportamento era característico: pernas se mexendo freneticamente, choros sem fim, irritação, mamadas interrompidas, sono que não vinha nunca. Todos os dias, pontualmente às 18h, a crise começava. E pontualmente às 23h ela ia embora. 

Durante as crises, eu e o papai Fernando fazíamos de tudo: mudávamos as posições, fazíamos bolsa de água quente, dávamos banho, tentávamos entreter o pequeno... nada funcionava. Só o relógio. Quando dava a hora de terminar, ela passava.

Passamos uma semana bem desesperada. E lembro que o desespero aumentou quando ouvi do Cacá: “Quem descobrir a causa e uma cura para a cólica do bebê, fica milionário”. O bebê passa por estas dores, porque seu organismo está se adaptando ao mundo humano. Neste sentido, seria como as dores do parto para as mães. Uma dor necessária, um rito de passagem. Segundo o próprio Cacá, quando sai da barriga, o bebê sai de um estado de divindade e precisa virar humano. Achei linda esta explicação. Mas na hora da dor de cabeça e do cansaço por conta das crises, a gente só queria que tivesse um remedinho...

Tentamos a funchicórea. Tomei regularmente, a cada quatro horas, diariamente, até as crises passarem. Mas sabia que toda tentativa de medicamento era mais no sentido de me tranqüilizar, por sentir que estava fazendo o que podia, do que efetivamente para fazer algum efeito no pequeno Miguel. Cheguei também a oferecer o dedo mindinho para sucção, que o acalmava. Por alguns segundos, até a crise voltar a falar mais alto...

Conexão: alimento, contato e comunicação

O que buscamos como solução tem a ver com o modo como pensamos a dor em nossa sociedade. Em geral, não buscamos o motivo da dor e a enxergamos como um sintoma que deve ser calado, curado. Mas a dor quer nos dizer algo. E a arte de lidar com as dores é justamente a de entender o que ela quer nos dizer. Lembro de ter lido no livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, uma psicóloga argentina fantástica, sobre as dores e seus motivos.

As dores de cólica não nos diziam, mas nos gritavam que precisávamos nos comunicar com nosso filho, estabelecer diálogo com ele, nos conectarmos. Buscamos então, uma conexão menos pragmática e mais emocional conosco mesmos e com nosso bebê.

Nos demos conta de que durante o primeiro mês de vida do Miguel, ficamos dando conta de demandas. Trocas, banhos, dormidas, mamadas: tudo era encarado como algo a ser resolvido. Nos demos conta de que estávamos vivendo uma experiência muito racional com a chegada do bebê, preocupados, claro e sempre, com o bem estar dele e com sua saúde. Eu e Fernando tivemos que fazer o exercício de nos vincularmos ao nosso bebê, nos conectando também com nosso lado mais “selvagem”, com nossa experiência emocional.

E para isso, precisávamos de tempo. Tempo sozinhos com nosso filho. E especialmente tempo JUNTO com o bebê.

Então, mudamos a sintonia. Começamos a encarar cada um destes momentos (que eram das “demandas”) como instantes de interação, vivência e conexão com nosso filho. E buscamos viver nossa vida com o menor grau de intervenções externas possível.

Optamos por um “pacote” que pensamos que ia nos ajudar neste sentido. Em lugar de deitar ele no berço, no carrinho ou no bebê conforto para dormir, mantivemos ele em nosso colo sempre que possível. À noite, estamos até hoje na cama compartilhada; passamos a usar os carregadores (slings) durante boa parte do dia, inclusive dentro de casa; aumentamos as vezes em que damos banhos de balde ou mesmo banhos de bacia, banheira e chuveiro, mas banhos com o intuito de relaxar o bebê e nos aproximar dele, não necessariamente banhos de higiene.

Além disso, fizemos um curso de shantala e começamos a fazer as massagens diariamente. Isso tudo sem contar, claro, a amamentação, estabelecida desde o começo por nós como um ritual de amor e de carinho da família. Na hora da troca, buscávamos contato com o corpo do bebê (no frio de São Paulo, isso demandou um investimento em um aquecedor...) e, sem pressa, interagíamos, brincávamos com as partes do corpo, pezinhos, mãozinhas, barriga... isso fez com que nossa experiência ficasse mais deliciosa. Passamos a curtir nosso filho e não mais a encará-lo como um serzinho que demandava de nós todo o tempo. Passamos a brincar com ele, a interagir, a nos conectarmos com ele e entre nós, na nossa família.

Hoje, fazemos a leitura de que nosso filho, com as crises de cólica, além de se adaptar ao mundo dos humanos, nos dava um recado. O de que precisávamos chegar mais perto. Ficar mais juntos. Sentir nosso calor. Um do outro. Ele o nosso e nós o dele também.

O Cacá nos advertiu também de que o comum, quando temos qualquer problema com o bebê, é nos afastarmos e procurarmos uma solução externa para o problema, seja ela uma mamadeira, uma chupeta ou um remédio, entre outras coisas.

Nós vimos que a solução está o mais dentro de nós possível: no peito, no colo, na voz, no cheiro, no calor. A nossa solução estava na nossa permissão para deixarmos de lado o controle, nos entregarmos à experiência da maternidade/paternidade e entrarmos em contato com nosso lado mais selvagem, mais puro, mais próximo do nosso filho. E de experimentarmos isso juntos.

Claro que não existe fórmula. E que outras crises de cólica virão. E eu não sou a pessoa que vai ficar milionária porque descobriu a solução e a causa das dores. Mas se posso deixar um recado a partir de nossa experiência eu diria para mamães e papais conversarem com seus filhos, buscarem entender o que as dores querem dizer. E buscarem estar a sós, a família, para encontrar, dentro de cada um e em contato com o outro, um estado de harmonia. Este estado deve fazer do bebê um ser humano mais feliz, mais tranqüilo e mais confortável para chegar a este mundão.


* Michelle e Fernando são pais de Miguel Prazeres Gameiro, que nasceu de parto normal humanizado em São Paulo, na maternidade São Luiz, no dia 28/04/2011, às 22h59, pesando 3kg735g e medindo 51cm, depois de 21 horas de Trabalho de Parto ativo. Era a 39ª semana de gestação pela ultrassonografia e a 40ª pela DUM.
 
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Espaço Nascente oferece consultas em grupo sobre cuidados com bebês

A ideia é tirar dúvidas de gestantes, pais e mães recentes e oferecer demonstrações práticas de cuidado relacionadas às principais questões e inseguranças que chegam à família junto com o bebê recém-nascido.
 
Cólicas, choros indecifráveis, pintinhas aqui e acolá, trocas de fralda, banhos... a rotina de um recém-nascido é cercada de mistérios e de um clima de (re)conhecimento. Junto com um bebê, nasce uma mãe, nasce um pai e nasce uma família. Os primeiros dias, os primeiros meses são recheados de dúvidas e questões que muitas vezes parecem pequenas aos de fora, mas que para os recém-pais são gigantes. Isso vai desde as manchinhas na pele, os pelos pelo corpo às primeiras tosses e engasgos. A chegada de um novo ser é um evento que carrega muitas informações e moções.
 
Pensando nisso, e de forma inovadora, o Espaço Nascente a partir de setembro passa a oferecer consultas em grupo para gestantes e acompanhantes, mães, pais e casais com bebês. “Nossa intenção é criar um ambiente acolhedor para esta família recém-formada, que precisa de informação e atenção para se sentir mais segura no cuidado com o seu filho”, explica o pediatra e coordenador-geral do espaço, Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá.
 
Segundo ele, que é idealizador da atividade, o objetivo é entender a situação de cada família, acolhê-la e promover um reconhecimento para a criação e manutenção do vínculo tão necessário neste momento. “Este vínculo acontece pela emoção, pela pele, pelo toque, pelo banho prazeroso, pelo aleitamento, pelo colo. E é destas coisas que vamos conversar”, informa.
 
O fundamental, para Cacá, é que o sintoma seja compreendido para que a família saiba lidar com ele e não para calá-lo ou mascará-lo. “A principal questão ara um bebê recém-nascido é o choro. Vamos entender este choro e saber lidar com ele. Porque bebês choram. Mas o choro é um sintoma, e a causa dele é que é muito particular. Em grupo, falaremos do choro. Com cada família, buscaremos as diversas formas de como lidar com ele”, explica.
 
São dois tipos de encontros. Um primeiro grupo (de preparo para o nascimento) atenderá gestantes (e acompanhantes), casais e famílias no pós-parto até 6 meses. Um segundo grupo (de atendimento em puericultura) será focado ara pais e mães de bebês de 6 meses a um ano de idade.
 
Os encontros serão semanais e terão duas horas de duração. A ideia é que cada encontro possa trazer ao grupo uma contribuição a respeito de algum aspecto da maternidade / paternidade recente e as necessidades de um recém-nascido: comida, conexão, comunicação e carinho, mas também que possam tirar dúvidas corriqueiras, com demonstrações práticas, como banhos, trocas de fralda, limpeza de umbigo, etc.
 
Cada encontro contará com a participação de um convidado, para tratar de temas centrais, como amamentação, uso de carregadores, banhos e massagem e aspectos psicológicos.
 
 
Inscrições e informações: Espaço Nascente
Rua Grajau, 599 - São Paulo
 (11) 3672-6561 / (11) 2548-6383     

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

E se pudéssemos viver num mundo melhor?


E se pudéssemos ser mais felizes?

E se todos

fossem felizes

para sempre?


Como pediatra e neonatologista, acompanho todos os dias as pessoas acreditando nisso, investindo nesse lindo sonho e tendo filhos. Filhos que esperamos que possam ser pessoas melhores, maiores e cada vez mais felizes. Filhos que possam viver num mundo melhor, mais amoroso, harmonioso e equilibrado. Afinal, a esperança de vivermos outra realidade nos motiva e

nos ajuda a buscar construir uma condição melhor que beneficie a todos. Um mundo respeitoso e amoroso, onde possamos apreciar suas belezas, colher seus frutos, nadar nas suas águas, respirar seu ar puro e compartilhar estas delícias com nossos filhos e amigos sem precisarmos viver a fobia de que este seja o último minuto.

Como pais, como educadores ou, ainda, como pediatras, temos a rara e grande possibilidade de mostrar às nossas crianças como cuidar deste mundo e como nos cuidarmos. O espírito de cuidador garante ao ser humano uma habilidade maior de ser cuidador de si, podendo ser capaz de se alimentar, manter-se saudável, procurar seus amores, se dar prazer. E o que é esperado de uma boa educação é que possamos ajudar as crianças a desenvolverem este espírito de amor-próprio e amor pelo outro, que lhe garanta condições de encontrar este estado especial de bem-estar. Um bom exemplo disso é no momento em que introduzimos os alimentos aos nossos filhos. Nas populações mais antigas, as mulheres mastigam e dão os alimentos retirados da própria boca para seus flhos. Há tanto carinho em preparar esses alimentos para que seus filhos consigam saboreá-los, e devemos lembrar que, para uma criança, os alimentos são percebidos como pedaços do mundo que são engolidos. Como se cada cor, cada textura, cada temperatura proporcionasse uma incrível viagem sensorial refletindo um ensinamento que podemos ser amorosos conosco e com os alimentos, respeitando o que colocamos para dentro de nós, tendo prazer em nos alimentarmos – como seres que vivem e sobrevivem graças à Terra, que nos dá alimentos, água e ar, sendo que se aprende a amar e respeitar o lugar onde vivemos para que possamos alcançar nossas mais nobres metas como humanos.

Falar em sustentabilidade, para mim, é falar de uma situação de independência do ser humano e, ao mesmo tempo, de convívio pacífico e solidário. Vivemos num grupo que deve ser capaz de compartilhar essas coisas tão simples e preciosas que garantem a vida. Por isso, é fundamental na educação de uma criança ensinar o respeito à Terra e aos homens, como condição básica da nossa sobrevivência – sobrevivência com qualidade, com prazer.

Os cuidados ensinados como lavar o corpo são outro bom exemplo. Só é possível por uma experiência deliciosa de deixarmos o convívio com o ar e partirmos para o mundo das águas. A imersão é uma experiência regressiva uterina prazerosa por si e, quando acompanhada de um toque amoroso cedido pelos pais e cuidadores, pode ser um dos melhores momentos do dia. Banhos feitos em balde para recém-nascidos proporcionam uma leveza corporal na água que trazem imediatamente a memória corporal da vida intrauterina. Quanto prazer para este bebê!

Poder viver em paz com o ar, a terra, o fogo e a água. Tão simples, tão especial e, muitas vezes, tão difícil. Quando os cuidadores apresentam um mundo de belezas e respeito ao poder desses quatro elementos, com certeza a vida dessa criança poderá ser mais fácil e gostosa. A magia está em poder lidar com habilidade com eles todos. E é natural que as crianças queiram explorá-los e conquistá-los.

O respeito dos valores que constroem as condições para que possamos fazer opções o tempo todo em nossas vidas. Está aí a impressão que os pais podem oferecer para que seus filhos possam optar pelo que lhes será melhor. E será melhor quando se sentirem bem, fizerem opções que lhes tragam uma relação harmoniosa com o lugar que habitam e com as pessoas que dividem esse mesmo espaço. Percebo nesta possibilidade de trazer valores amorosos para seus filhos a transmissão do ensinamento de esperança que suscitou nos pais o desejo de gerar filhos, completando nesses o ciclo de gratidão e respeito pela vida, seja sua, de seus filhos, de seres vivos e de seu planeta.

Então são amor e respeito que sustentam os valores que projetam esse amor e respeito a outras pessoas, a forma de ganhar a vida, a Terra, na qual vivemos, e reflete em nós como uma grande experiência dadivosa que completa o ciclo da vida e do amor.

Como educadores, como pais, como pediatras, quando ensinamos uma criança a escovar os dentes, manter a torneira fechada e só abri-la quando for usar a água, ao mesmo tempo estamos podendo ensinar que esta escovação pode ser um carinho na sua boca, um gesto de cuidado com seus dentes e um respeito à natureza pelo não desperdício de água.

Isso tudo é muito importante; cada passo deste processo é tão importante quanto o outro.

E acho que devemos ficar felizes por termos esta imensa oportunidade de participarmos ativamente na construção deste tão sonhado mundo melhor. E que todos possam viver felizes para sempre....

— Carlos Eduardo de Carvalho Corrêa

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Conviver com cães evita infecções em bebês

AFP/Arquivo / Michel Gangne
Passar o dia ao lado de um animal ajuda no fortalecimento do sistema imunológico, diz estudo.
O estudo sugere que ficar perto de um cachorro que passa parte de seu dia ao ar livre fortaleceria o sistema imunológico
As crianças que convivem com cães têm menos chances de apresentar alguns tipos de infecções nos ouvidos ou problemas respiratórios do que aquelas que não têm bichos de estimação, segundo um estudo divulgado nesta segunda-feira (9).

O estudo, publicado na revista americana Pediatrics, não especifica os motivos do resultado, mas sugere que ficar perto de um cachorro que passa parte de seu dia ao ar livre fortaleceria o sistema imunológico da criança em seu primeiro ano de vida.
Os gatos também ofereceriam este tipo de proteção para os bebês, mas o efeito seria menor do que com os cães.
O estudo incluiu 397 crianças, com entre nove e 52 semanas, na Finlândia. Durante um ano, elas foram levadas pelos pais para análises de sua saúde.
A conclusão dos médicos foi de que os bebês que convivem com gatos ou cães têm 30% menos chances de apresentar sintomas de infecções respiratórias - que incluem tosse, rinite e febre -, enquanto quase metade provavelmente não sofrerá infecções de ouvido.
"As crianças que tiveram contato com cães e gatos em casa ficaram significativamente mais saudáveis durante o período de estudo", destacam os médicos do Hospital Universitário Kuopio na Finlândia.
A diferença mais notória foi observada entre as crianças que convivem com um cachorro dentro de casa por seis horas ao dia, contra aquelas que não têm bichos de estimação ou os colocam para fora de casa.

"Apresentamos uma evidência preliminar de que ter um cão pode ser benéfico contra infecções no trato respiratório durante o primeiro ano de vida", destaca o estudo.
"Consideramos que o contato com animais ajudaria a amadurecer o sistema imunológico, levando a uma resposta imunológica mais tranquila e a uma breve duração das infecções", destaca.
O resultado foi significativo, inclusive depois que os cientistas descartaram outros fatores influentes, como não ter sido amamentado, ficar em creche, ser criado por fumantes ou por pais com asma, ou conviver com outras crianças.
Além de ter menos infecções nos ouvidos e infecções respiratórias, os bebês que vivem com cães tendem a precisar de menos tratamentos com antibióticos na comparação com aqueles que vivem em casas sem mascotes.
Estudos anteriores demonstraram resultados diversos, desde aqueles que apontaram que ter bichos de estimação não representa nenhum benefício às crianças até os que afirmam que o contato com animais ofereceria proteção contra resfriados e doenças estomacais.
Mas os autores do estudo na Finlândia destacam que sua análise se diferencia por ter concentrado exclusivamente o primeiro ano de vida e não inclui a presença de outras crianças.
Fonte: http://saude.ig.com.br/alimentacao-bemestar/2012-07-10/conviver-com-caes-evita-infeccoes-em-bebes.html


sexta-feira, 27 de abril de 2012

O conceito do continuum - a importância da fase do colo

A antropóloga americana Jean Liedloff estudou a tribo venezuelana dos Yequana e defende que para conseguir um desenvolvimento físico, mental e emocional ótimo, o ser humano e especialmente um bebê, necessita o tipo de experiências às quais a nossa espécie se adaptou durante uma longa evolução. Para uma criança são: constante contato físico com seu cuidador desde o nascimento, dormir com os pais até deixar de fazê-lo por vontade própria, amamentação a livre demanda, ser levado constantemente nos braços ou de maneira que possa observar a atividade do adulto, ter cuidadores que respondam aos seus sinais imediatamente sem julgá-la e finalmente, sentir que cumpre as expectativas dos pais, que é bem-vindo e digno. Segundo Liedloff, as crianças cujas necessidades "continuum" forem satisfeitas crescerão com maior auto-estima e serão mais independentes.

Nos dois anos e meio que morei entre os índios da idade da pedra na selva sul-americana – não consecutivos, mas sim em cinco expedições distintas com muito tempo entre elas para refletir – cheguei a compreender que a natureza humana não é o que nos fizeram acreditar. Os bebês da tribo Yequana, longe de precisarem de paz e tranquilidade para dormir, tiravam uma soneca tranquilinhos enquanto os homens, mulheres ou crianças que os carregavam dançavam, corriam, andavam ou gritavam. Todas as crianças brincavam juntas sem brigar ou discutir e obedeciam aos mais velhos no mesmo instante e de bom grado.
A essa gente nunca lhes passou pela cabeça a idéia de castigar uma criança e, no entanto, seu comportamento não deixa entrever permissividade nenhuma. Nenhum moleque faz escândalo, interrompe os outros ou espera que um adulto lhe mime. Aos quatro anos, contribuíam mais com as tarefas do lar que davam trabalho elas mesmas.

Os bebês nos braços quase nunca choravam e era fascinante comprovar que não agitavam os braços e as pernas, não arqueavam as costas nem flexionavam as mãos e os pés. Permaneciam sentados nos slings ou dormiam encostados nos quadris do seu cuidador, desmentindo deste modo a crença de que os bebês precisam mover-se e flexionar as extremidades para exercitar-se. Também observei que não regurgitavam a não ser que estivessem muito doentes e que também não tinham cólicas. Quando se assustavam nos primeiros meses de engatinhar, não esperavam que ninguém acudisse correndo, ao invés disso, iam sozinhos em direção à mãe ou cuidador em busca dessa sensação de segurança antes de seguir com suas explorações. Inclusive sem supervisão, nem os menorzinhos se machucavam.

Será que sua natureza humana é diferente da nossa? Algumas pessoas assim o creem, mas evidentemente só existe uma espécie humana. Que podemos aprender, então, da tribo Yequana?

Antes de tudo, podemos tentar compreender o poder educativo do que eu chamo da “fase do colo”, que começa no momento do nascimento e termina quando o bebê começa a mover-se, quando pode afastar-se do seu cuidador e voltar quando queira. Essa fase consiste, simplesmente, em que o bebê tenha contato físico durante as 24 horas com um adulto ou criança mais velha.

A princípio, vi que essa experiência tinha um efeito extraordinariamente benéfico para os bebês, que não eram tão difíceis de tratar. Seus suaves corpinhos se adaptavam a qualquer postura que fosse cômoda para quem o levasse. Em contraposição a esse exemplo, vemos a incomodidade dos bebês que, com sumo cuidado, dormem no berço ou no carrinho. Bem agasalhados, se encontram lá jogados e rígidos, com o desejo de abrigar-se a um corpo vivo e em movimento: o lugar que lhes corresponde por natureza. Um corpo, em definitivo, que pertence a alguém que acreditará no seu choro e aliviará o seu anseio com braços afetuosos.

Por quê nossa sociedade é tão incompetente? Desde a infância, nos ensinam a não acreditar nos nossos instintos. Condicionados para desconfiar do que sentimos, nos persuadem para que não acreditemos no choro de um bebê que diz: “ Me pega no colo!”, “Quero estar com você!”, “Não me deixe!”. Em lugar disso, recusamos a idéia da resposta natural e seguimos os preceitos da moda que são ditados pelos “especialistas” no cuidado infantil. A perda da fé em nossa experiência inata nos leva a pular de um livro a outro, à medida que vão fracassando todas e cada uma das modas passageiras.

É essencial entender quem são os verdadeiros especialistas. O segundo especialista em cuidado de bebês reside no nosso interior, assim como em cada ser vivo que, por definição, deve saber como cuidar de sua cria. É claro que o maior especialista é o próprio bebê, programado durante milhões de anos de evolução para demonstrar seu temperamento com sons e gestos quando gosta do cuidado que recebe. A evolução é um processo de perfeição que “afinou” nosso comportamento com uma precisão magnífica. O sinal do bebê, a compreensão deste por parte dos que o rodeiam e o impulso a obedecê-la formam parte do caráter da nossa espécie. Nosso intelecto presunçoso demonstrou-se mal preparado para advinhar as autênticas necessidades do bebê. A pergunta costuma ser: “Devo pegar o bebê quando chora?”, “Devo deixar chorar um pouco antes de pegâ-lo?” ou “Deveria deixar que chore para que saiba quem manda e não se torne um tirano?”.

Nenhum bebê concordará com essas imposições. De forma unânime nos fazem saber através de gestos e sinais que não querem que lhes façamos dormir e lhes ponhamos no carrinho. Como essa opção não foi muito defendida na civilização ocidental atual, a relação entre pais e filhos acabou marcada por essa confrontação.

O jogo se centrou em como fazer o bebê dormir no berço, mas nunca se debateu se é preciso respeitar ou não o choro do bebê. Apesar de que o livro de Tine Thevenin, The Family Bed (A Cama Familiar), entre outros, abriu a brecha com o tema de que as crianças durmam com seus pais, não se abordou com claridade suficiente o princípio mais importante: “Atuar contra a natureza como espécie conduz irremediavelmente à perda do bem-estar”.

Então, uma vez que compreendamos e aceitemos o princípio de respeitar as expectativas inatas, poderemos descobrir com exatidão quais são essas expectativas. Em outras palavras, saberemos o que é que a evolução nos acostumou a experimentar e sentir.

A Função Educativa

Como cheguei à conclusão de quão importante é a fase do colo para o desenvolvimento de uma pessoa? A primeira coisa que vi foi como era feliz essa gente nas florestas da América do Sul com seus bebês penduradinhos no corpo e, pouco a pouco, fui relacionando esse fato tão simples com a qualidade de vida. Mais tarde, cheguei a certas conclusões a respeito de como e por quê é essencial o contato contínuo com o cuidador na fase pós-natal do desenvolvimento.

Por um lado, parece que a pessoa que carrega o bebê (normalmente a mãe durante os primeiros meses e depois uma criança de 4 a 12 anos que devolve o bebê à mãe para que esta lhe alimente) está servindo de base para as experiências posteriores. O bebê participa passivamente nas corridas, passeios, risadas, bate-papos, tarefas e brincadeiras do cuidador que o carrega. As atividades, o ritmo, as inflexões de linguagem, a variedade de vistas, noite e dia, a variação de temperatura, secura e humidade, além dos sons da vida em comunidade, formam a base para a participação ativa que começará aos seis ou oito meses, com o arrasto, a engatinhada e depois o passo. Um bebê que passou todo esse tempo deitado no berço, olhando o interior de um carrinho ou o céu, terá perdido a maior parte dessa experiência essencial.

Devido à necessidade que a criança tem de participar, é muito importante que os cuidadores não fiquem olhando pra ele ou perguntando constantemente o que querem, mas sim que deixem que eles mesmos tenham vidas ativas. De vez em quando, não podemos resistir a dar-lhes um monte de beijos, no entanto, uma criança que está acostumada a ver passar a vida agitada que levamos se confunde e se frustra quando nos dedicamos a contemplar como ele vive a sua. Um bebê que não fez mais que contemplar a vida que vivemos, se submerge na confusão se lhe pedimos que seja ele quem a dirija.

Parece que ninguém se deu conta da segunda função essencial da experiência da fase do colo, inclusive eu mesma, até meados da década de 60. Esta experiência dota os bebès de um mecanismo de descarga do excesso de energia que não são capazes de fazer por si mesmos. Nos meses anteriores a poder mover-se sozinhos, acumulam energia mediante a absorção do alimento e a luz solar. É então quando o bebê necessita o contato constante com o campo energético de uma pessoa ativa que possa descarregar o excesso de energia que nenhum dos dois utiliza. Isso explica porque os bebês Yequana estavam tão relaxados e porque não ficavam rígidos, davam chutes ou arqueavam as costas.

Para oferecer uma experiência ótima nesta etapa temos que aprender a descarregar nossa energia de maneira eficaz. Podemos acalmar mais rapidamente um bebê correndo com ele, dançando ou fazendo o que seja para eliminar o excesso de energia próprio. Uma mãe ou pai que tem que sair de repente para buscar alguma coisa não precisa dizer: ”Fica com o bebê que vou correndo até a loja”. O que tenha que sair que leve o bebê. Quanto mais ação, melhor.

Bebês e adultos experimentam tensões quando a circulação de energia nos seus músculos não flui bem. Um bebê cheio de energia acumulada não descarregada está pedindo ação: uma volta pela sala dando pulinhos ou uma dança agitada. O campo de energia do bebê aproveitará imediatamente essa descarga do adulto. Os bebês não são as pessoinhas frágeis que costumamos tratar com luvas de seda. De fato, se neste estágio de formação tratamos a um bebê como se fosse frágil, acabará acreditando que é fraco de verdade.

Como pais, podemos conseguir a destreza para comprender o fluxo de energia do nosso filho. No processo, descobriremos muitas mais maneiras de ajudá-lo a manter o suave tônus muscular do bem-estar ancestral e de proporcionar-lhe a calma e o conforto que necessita para sentir-se confortável nesse mundo.
Publicado originalmente na revista Mothering, edição do inverno de 1989 
Leitura:
- Continuum Concept, The – Liedloff, Jean. Perseus Books (1986).

http://www.continuum-concept.org/
Tradução de Bel Kock-Allaman