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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Relato de Pós Parto - Por Fabiolla Duarte

** Por Fabiolla Duarte **

quando no meu pós parto eu passava dias em casa porque o mundo era barulhento e meu bebê ia acordar, fiz muito mal para meu filho, porque fazia mal para mim o isolamento.

quando eu não ia tomar cerveja na Augusta (eu nem gostava de cerveja, mas queria mesmo assim), ou não tirava um dia sem rotina alguma, só para flanar pela cidade como eu gostava, eu fiz muito mal para meu filho, porque fazia mal para mim.

eu demorei um tempo longo para entender a fala do Carlos Eduardo Correa quando veio na visita pós parto me dizer, quando eu perguntei, para não ler livro algum, escrever o meu.

eu li uma porcaria de um livro antroposófico (que não era em nada porcaria. mas foi para mim) que eu usava como roteiro para maternar, porque me sentia caindo em queda livre, altura abissal, como nos pesadelos que tive a gravidez toda.

tornar-me mãe era muito assustador. era um encontro marcado com muitos fantasmas da minha infância.

algum momento larguei o livro, porque ele me disse que eu tinha que parar de amamentar. uma pediatra fulana também disse.

eu tinha calafrios. tremores na cama enquanto tentava decidir o que fazer. decidi sozinha claro, porque o pai do meu filho, ainda (des)companheiro na época, deixou para mim a decisão, já que eu sou a mãe e isso é coisa de mulher.

foi ali que comecei a sacar que maternar é soltar a linha da pipa e arriscar, e afinar a escuta, e uma aventura dentro de si mesmo. não sem angustia, venho tentando essa maternagem sem receita, usando a antena e procurando quem me deixa livre para fazer da minha maternagem um caminho AUTORAL.

tudo isso para dizer que: no Colher de Pau falamos de criação de filhos e filhas também, e muitas vezes as pessoas contam de seu pediatras. eu gosto muito quando escuto que o pediatra é parceiro. não gosto quando escuto que o pediatra gosta de jogar o jogo do medo e do controle. 

Desenho por Sascalia


resumo: 
1) a gente precisa ser feliz e pós parto precisa ser a busca pela leveza. tá muito trágico? reveja alguma escolha. atenda seu bebê e se atenda também. 

2) tenha médicos parceiros. meio antropólogos, meio terapeutas, que sejam humanos, que gostem de gente e que te façam mais perguntas do que te dê respostas.

3) faça parte de um grupo de pós parto. existem de mães, e agora de pais também. no Espaço Nascente tem.

4) comam simples, mas com prazer. curtam seus bebês sem essa porra de smartphone na mão o tempo todo. meu filho tem hoje 6 anos e sei que depois de amanhã terá 10. tô arrasada. e eu não tinha smartphone na época, mas eu vivia nas redes sendo muito ativista. 

amor, parceria e sigamos

#colherdepaufabiolladuarte
#doulafabiolladuarte

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Duas mães: assuntos da maternidade para além do sono ou colo

** Texto por Joana **

Ser mãe é extraordinário. Desde o primeiro dia de gravidez. Tudo muda de assalto e continuamente: o corpo, o lugar social e familiar, a intensidade das emoções, a organização do pensamento. E todas essas transformações são acompanhadas inevitavelmente de muitas dúvidas. 

Diante delas mergulhamos num mundo de informações sobre gestação, parto, amamentação, alimentação, educação... Existe uma infinidade de sites e palpites sobre todos esses assuntos, que prometem responder todas as perguntas e apontar os caminhos certos e principalmente os melhores: Pra que você seja a melhor mãe do mundo, seus filhos sejam perfeitos, geniais e principalmente capazes de ganhar muito dinheiro quando crescerem. Sim, assim que nascem os bebês já tem que ser competitivos!

Bom diante disso, percebemos que não queríamos esse mundo, esses conselhos, essa perspectiva. Então começamos a procurar pessoas, encontros - menos informação e mais troca de experiências. Primeiro encontramos a Caza da Vila, as consultas coletivas de gestantes organizadas pela Betina foram fundamentais para entendermos de forma singular meu processo de gestação. Essa troca criava um espaço possível de exposição das diferenças e semelhanças dos processos, que aos poucos ia gerando um lugar de cumplicidade muito delicado, potente e acolhedor. Éramos o único casal de mulheres do grupo e estranhamente esse dado não fazia assim tanta diferença. Graças a esse espaço consegui a segurança e o apoio necessário para fazer meu parto do jeito que eu queria. Cercada de amor e cuidado. Minha filha nasceu e eu renasci com ela. 

Achamos ingenuamente que o mais difícil tinha passado mas é claro que nossa nova vida tava só começando...

Dois meses depois tive uma mastite, nossa filha perdeu peso e de novo uma enxurrada de informações e conselhos protocolares nos assaltaram. Procuramos o Espaço Nascente e com Cacá reencontramos a escuta, um olhar atento, preciso e afetivo. As crises são muito reveladoras se a gente não foge delas. E de novo se não fosse pela vivencia de um espaço de troca acho que teríamos cedido às fórmulas e perdido a chance de olhar pra gente e pras transformações em curso. 

Agora nossa filha tem um ano e os desafios continuam! Dois meses atrás começamos a experimentar no Espaço Nascente, com Cacá, consultas pediátricas em grupo de famílias constituídas por duas mães. Esses encontros nos fazem pensar no tempo em que os conhecimentos eram passados de mãe pra filha, de avó pra neta, num tempo onde a ciência não era tão tirânica e que a intuição não era sinônimo de ignorância. A experiência da dupla maternidade por ser algo ainda novo, pouco experimentado parece que nos abre uma fresta para as sensibilidades singulares. Estamos apostando nesse caminho.

Fonte da Imagem : Etsy
Parece que este grupo de "mamães e papaias" pode ser um lugar para encontrar essa sensibilidade, um lugar de troca sobre os problemas gerais da infância e os problemas específicos da nossa condição de duas mães. Mas isso nos faz pensar que nem sempre é claro onde está a fronteira que cria as nossas diferenças, se um casal homossexual tem especificidades que merecem ser tratadas num grupo particular, etc. 

Por nossa experiência no encontro, entendemos que a maioria das nossas preocupações da dupla maternidade têm a ver com o futuro das nossas filhas, como elas irão ser recebidas na escola ou pelos amigos. Nossos assuntos específicos têm mais a ver com visibilidade e relação com a sociedade do que com os nossos problemas atuais de alimentação, sono ou colo.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Pediatria e H1N1: Responsabilidade Compartilhada

Nessa semana nos deparamos com o desabafo de uma mãe frente à histeria generalizada sobre o H1N1. 

No depoimento, que você confere abaixo na íntegra, ela invocava a responsabilidade do pediatra (e outros profissionais da área da saúde como o obstetra, por exemplo) não apenas no tratamento de possíveis doenças, ou sugestões de prevenção que envolvam o trabalho das famílias. 

Mas na postura ética de, desde a barriga, zelar por melhores escolhas do ponto de vista da saúde. A responsabilidade pelo melhor cenário possível em termos de saúde do bebê e da criança é compartilhada entre família, profissionais e sociedade, incluindo as políticas públicas de nossos governos.

Não podemos estar mais de acordo: especialmente no que tange o papel do profissional de pediatria no apoio e manejo correto da amamentação - uma vacina natural, gratuita e completa para a saúde do bebê hoje e no futuro.


Por Anne Rammi, de sua página no Facebook


"Tô vendo uma postagem de um doutor sobre a relação de boa alimentação e gripe H1N1 sendo ovacionada. Quero dar meus dois centavos sobre o tema:

Muito embora eu não questione que uma boa alimentação é a base de uma boa saúde, e concorde com o doutor que a melhor prevenção para doenças está no prato: Eu tô é cansada da mãe ser responsável sozinha por INCLUSIVE a gripe que o filho pega, porque não foi capaz de oferecer a "comida de verdade".

Quero saber onde estão os pediatras na hora de fazer manejo correto de aleitamento materno ao invés de indicar fórmula cheia de xarope de milho, já que estamos falando de saúde das crianças.

Pediatras, psicólogos e professores: são os primeiros a botar a culpa nas famílias individualmente. Nas mães, em primeiro lugar.

Convenientemente não olham para o problema da obesidade, da nutrição infantil precária, das ameaças à saúde, como responsabilidade da falta de leis (governo), abuso dos anunciantes e leniencia de espaços coletivos (como as escolas particulares, cheias de filosofia e com zero prática): todo mundo lucrando em vender produto porcaria marketado para crianças.

À propósito: os altíssimos índices de cirurgias cesarianas também já se provaram inimigos da saúde da população de crianças, depois das pesquisas de formatação epigenética. Cadê os obstetras para responder por essa questão? Vão dividir com você o preço da feira orgânica?

Esse blá blá blá "faça comida de verdade na sua casa" enquanto o governo acaba com tudo o que conquistamos na rotulagem de transgênicos e esconde agrotóxicos debaixo do seu inhame de cada dia. Faz-me-rir.

Falta profissional que se POSICIONE POLITICAMENTE não para ficar dando pito nas famílias e gerando demandas do impossível, enquanto protegem a classe e o establishment. Falta profissional que queira aumentar a consciência das responsabilidades dos agentes sociais. Todos eles.

Claro, alimente seu filho do mais saudável que for possível. Mas cobre também desses agentes a parte que lhes cabem no caos social que envolve as crianças."



Aproveitamos o ensejo para deixar a recomendação de uma entrevista do Dr. Esper Kallas, infectologista, à respeito da epidemia previsível, porém precoce em 2016, de H1N1.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

O não fazer pode ser tão técnico como o fazer!

Foto: arquivo
Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, pediatra e neonatologista.

Foi mágico em São José dos Campos/SP, um Simpósio de Humanização de Parto e Nascimento.

Pude falar pela primeira vez que a escolha informada de não pingar colírio, de não aspirar bebês e de não dar vitamina k injetável pode ser tão técnica quanto o de fazer. Quem inventou que humanização dos cuidados do bebê é isso?

Socorro! Tem tanta coisa maior.
Será que às pessoas não percebem que a sagração maior está em facilitar a construção de uma família?
Mas vamos lá!
Continuo na luta...

Minha paixão pelos bebês me deu um novo olhar sobre o nascimento. Entendo cada vez mais quantas sensações e emoções surgem para um bebê após o parto e como suas mães podem ficar envolvidas com este início de vida de seus filhos. Mulheres assustadas com suas emoções no pós-parto poderiam ouvir e aprender que o caminho para a construção de vínculo entre os dois pode passar por uma conexão mágica que ira permitir sentir o que seu bebe sente para compreender e ajudar melhor.as vezes nao sao emocoes tao prazerosas
portanto acho que quando surgem emocoes intensas no pos parto surge um forte vinculo entre os dois que merece ser celebrado, quando nao é combatido.
nasce uma mae, nasce um bebe, consagra-se o amor
isso nao é lindo?
irá permitir que seu bebê sinta para compreender e ajudar melhor. Às vezes não são emoções tão prazerosas portanto, acho que quando surgem emoções intensas no pós-parto surge um forte vínculo entre os dois que merece ser celebrado, quando não é combatido.

Nasce uma mãe, nasce um bebê!
Consagra-se o amor! Não é lindo?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A alergia alimentar do João – meu relato

Marcella, Adriano e o João.

Depois que o João nasceu, nosso pediatra disse: “Bebês são muito perebentos, tá? Não se preocupem e nem queiram resolver isso, eles precisam se acostumar ao meio aéreo depois de tanto tempo mergulhados”. Logo vimos o João ficar perebento. E pela aparência, eram as famosas brotoejas. Mas depois veio um ressecamento na pele do rosto. Continuamos tranquilos, achando que aquilo não era nada. Éramos tão sossegados que nos esquecemos de marcar consulta de um mês pra ele. E na de dois meses descobrimos que havia algo errado. 

Cacá olhou pra ele e disse: “Isso está com cara de alergia alimentar”. Hein? Nunca tínhamos ouvido falar nisso. Ele só mamava no peito, muito e sempre, eu jorrava leite, e leite materno não é a coisa mais maravilhosa do mundo pra um bebê? Sim, é. Mas alguma coisa que eu comia e era repassada ao João por meio dele causava esses ressecamentos. E uma dor de barriga que eu já havia classificado como cólica de bebê, coisa normal, e medicado com luftal. Numa ligação, antes dessa consulta, já havíamos perguntado o que fazer e ele sugeriu que eu parasse de ingerir leite e derivados por uns dias. Na ocasião eu parei, por 4 dias, mas pra mim era tão difícil ficar sem meu café com leite de manhã, que isso eu tomava, achando que não faria diferença. 

Na consulta de dois meses, o pediatra nos disse, então, que eu precisava fazer testes com a minha alimentação, excluindo algumas coisas e depois retomando. Que tavez fosse bom começar com leite e derivados ou com algum alimento que eu ingerisse todos os dias, mas também tentar o gluten, os ovos, as castanhas e outros. Explicou que não adiantava eu cortar por apenas 4 dias, nem ingerir em pequenas quantidades. Que algumas alergias não são dose-dependentes, ou seja, são deflagradas mesmo com um pouquinho só do alérgeno. 

Lá fomos nós pra casa, meio assustados, achando tudo aquilo meio estranho. Nunca tínhamos ouvido falar daquilo. Mas comecei com os testes, pelo mamão – única coisa que eu comia todos os dias. Nada aconteceu. João continuava chorando, nervoso, sem conseguir dormir, com a pele super seca. Passei pro leite. Nada (ufa, era meu maior medo a essa altura, eu amo leite e queijos). Farinha branca. Ele pareceu melhorar um pouco. Gluten. Pronto, sentimos uma melhora considerável. Na consulta dos três meses, fomos animados, achando que o problema estava resolvido. Se foi um mês desafiador para pais recém-chegados ao mundo, vocês podem imaginar, então, pra um bebê também recém-chegado, cheio de coceiras (sendo que só descobrimos que coçava depois, quando ele já conseguia levar os bracinhos pra cabeça e pro rosto), dor de barriga, cansaço (porque não conseguia dormir). Eu o levava comigo para todo lugar, no sling, amamentava em livre demanda (como faço até hoje), tentando acalmá-lo. Mas eu também precisava de calma. Estava perplexa com tudo aquilo. E se já era chato escutar na rua as perguntas de gente que nem me conhecia (do tipo: “Nossa, o que ele tem no rosto????”), imaginem passar o dia tentando explicar pras pessoas queridas – visitas, parentes, amigos – o que o João tinha e porque eu não podia comer isso e aquilo. Que não, não tinha nenhum remédio pra ele tomar. Que não, não era melhor dar leite de fórmula. Que não, não existia nenhum exame de sangue definitivo que resolveria a situação. Que não, não era melhor consultar outro pediatra. Que não, aquilo não era normal de bebê recém-nascido e logo ia passar. Eu tinha vontade de chorar a cada pergunta e comentário, e me segurava. Ao menos no começo, eu ainda me segurava. Mas chegou uma hora em que parei de me segurar, porque não dei mais conta. 

Mesmo depois de identificarmos o gluten e de eu retirá-lo completamente da minha alimentação, o João piorou novamente. O ressecamento chegou a ponto de tomar as perninhas e bracinhos, além do rosto e da cabeça. Ele era todo vermelho. Não parava de berrar. E num dia assim, de crise, liguei pro Cacá e disse que precisava de um antialérgico urgente praquele momento. Ele me passou Polaramine e uma pomada pra ressecamentos mais sérios. Fui comprar na hora, enquanto pensava que aquilo era reação ao shoyu: eu havia comido nos três dias anteriores. 

Depois de alguns dias, o João melhorou um pouco, mas não sarou. Mesmo sem shoyu. Se antes chegou a dormir três horas seguidas à noite (nunca foi de dormir de dia nesse início), não ficava mais dez minutos de olhinhos fechados. Nem no berço, nem na nossa cama, nem no colo. Só duas coisas o acalmavam um pouco: o peito e um pandeiro que até hoje fica no quarto dele, apesar de não ser exatamente um brinquedo. Detalhe: Polaramine dá muito sono. Cortamos e percebemos que talvez o João estivesse reagindo ao próprio remédio. Seguimos com a medicação antroposófica que também já estávamos administrando e pareceu que ele melhorou um pouco. 

Cacá nos indicou uma médica antroposófica que fazia um exame no cabelo do alérgico e identificava alimentos que estivessem “em excesso” no organismo. E claro, como se tratava de antroposofia, ela dava atenção a questões emocionais de nós três. Pesquisei um pouco a respeito antes de marcar a consulta, que no começo achamos cara – e pensávamos que ainda poderíamos fazer mais testes de alimentação. Ouvi umas duas opiniões a respeito do exame e da médica e decidimos esperar mais um pouco. Mas as coisas só pioravam. Não conseguíamos curtir, porque estávamos sempre com sono, tristes, nervosos. Ouvíamos o João berrar mesmo quando ele estava quieto. Não aguentávamos mais falar do assunto. Não queríamos mais encontrar as pessoas. Eu já começava a ter reações irracionais, como sentir raiva do meu marido por ele ter histórico de alergia – porque eu não tinha, e muitas vezes essa tendência é hereditária. Mas fazia todo o esforço do mundo pra arejar minha cabeça, ia ao Cine Materna com ele, usava e abusava do apoio incondicional da minha mãe (mas até ela duvidava do diagnóstico do João, e ficava quieta na maior parte do tempo porque via como eu ficava arrasada de ter que falar no assunto). 

Marcamos a consulta com a dra. Regina. Saímos de lá com a certeza de que valia muito mais do que ela cobrou. Conversamos muito, falamos de tudo, fomos muito acolhidos. Fizemos o exame e saí de lá com uma lista enorme de restrições alimentares. Carne vermelha, feijões, uva, pêssego, leite e derivados, industrializados e muuuito mais. Apesar da tristeza, eu me sentia firme para tentar cortar tudo aquilo e, depois, voltar aos poucos com alguns itens. Confiei no tratamento, porque ela realmente parecia saber do que estava falando. E sabia. Mas nós sabíamos muito também, e mais, porque éramos os pais dele. E àquela altura não tínhamos essa consciência ainda. 

No mesmo dia liguei pro Cacá pra contar da consulta. E concluí que não valia a pena ficar sem leite e derivados. Eu já tinha certeza de que não era esse o alérgeno e, se pudesse ao menos mantê-lo na lista, sofreria um pouco menos. Ainda assim, eu aprendi a fazer leite de amêndoas e tomávamos, Adriano e eu, com gosto. 

Nos primeiros dias, apesar de já sofrer com as restrições (e de ter que falar pra minha mãe o tempo todo: “não mãe, não posso comer isso”), resolvi aprender com aquilo. Mudar nossos hábitos alimentares, experimentar coisas novas, acrescentar ao nosso cardápio semanal coisas que não consumíamos sempre. Troquei os feijões por lentilha (que eu adoro mas só comia no Ano Novo), o pão por tapioca, os industrializados por frescos. Minha diversão era buscar opções em mercados especializados, tentar adaptar receitas. A fome ainda era grande, por causa da amamentação. Então eu tinha muito que inventar. E minha mãe foi incrível: fez muitas receitas adaptadas para me agradar. Lembro do dia em que ela conseguiu fazer um bolo de chocolate com calda e tudo. Não tinha açúcar, industrializados, glúten (e acho que nem leite). Comi três pedaços, feliz da vida. O Adriano comia o que eu podia comer. Dizia sempre: “Estamos juntos nisso, Má. Vamos lá, vamos jamais era muita coisa de uma vez só. Passou uma semana e o João não melhorou nada. Eu, que já não podia nem ter vida social – porque tinha fome o tempo todo e só podia comer em casa, além de não querer mais falar do assunto com ninguém -, também não podia cozinhar o que mais gostava. Tomar um vinho. E nem assim via meu filho bem. Ninguém dormia. Se não fosse pelas minhas amigas Laura, Natália e Tatiana, que vieram em casa cozinhar pra mim um menu delicioso que eu podia comer – e pela Bianca, que me chamava pra ir na casa dela e fazia um almoço tão gostoso também, dentro da minha dieta – eu não teria tido nada de vida social nessa fase, mesmo. Cheguei a ir numa festinha infantil na qual a única coisa que eu podia consumir era água. 

Liguei pra médica e ela se surpreendeu por ele não ter melhorado nem um pouquinho. Sugeriu mais um medicamento antroposófico (ele já estava tomando vários e nós também). Não me lembro se eu dei, mas acho que não. 

Numa quarta-feira, hora do almoço, estava sozinha com o João. Acho que ele tinha uns três meses e meio, quatro (me perdi completamente nessa conta). Coloquei ele no carrinho para esquentar minha comida e ele começou a berrar. Eu comecei a sentir raiva dele. Ignorei o choro. Continuei esquentando a comida. Comi, com raiva, rápido, sem nem sentir o gosto. Ele berrando. Mandei uma mensagem pro Adriano: “Chega, pra mim não dá mais”. Ele ligou desesperado e disse que estava indo pra casa. Assim que ele entrou, eu saí da cozinha e fui pro quarto. João berrando. Eu estava meio que em um transe. Deitei e cochilei. O Adriano pegou o João e depois entrou no quarto perguntando se podíamos ir no Cacá. Ele tinha ligado lá. Eu não queria nem responder. Por mim, tanto fazia. Naquela hora, senti vontade de morrer. Juro. Era como se eu estivesse amarrada e sem previsão de ser solta. Como se o meu maior sonho, o da maternidade, tivesse se tornado um pesadelo horrível, no qual eu já tinha dificuldades de amar meu filho. Não queria mais acolhê-lo, queria apenas ser acolhida – em algum lugar bem distante dele. Não queria mais amamentá-lo. Não queria mais nada. 

Fui levada pro Cacá. Não tocava no João. Na sala de espera, me joguei no sofá segurando o choro. Assim que ele apareceu, me disse: “Essa é a Fernanda. Vocês podiam conversar”. Era a mãe do Tomás, que também sofria de alergia. Ali trocamos algumas ideias e contatos. Depois nos encontramos e descobri que aquilo era o mais importante para nós: trocar experiências. 

Na consulta, eu não falava. Até que, depois de alguma pergunta do Cacá, eu disse que não ligava pra mais nada. Ele me olhou sério e falou que era melhor eu buscar terapia. Que aquele discurso era depressivo e que eu precisava me cuidar. Falou pra eu parar com a dieta, devagar, reinserindo os alimentos aos poucos na minha rotina e observando as reações do João. Mas o glúten eu não retomaria. E nos mandou pra praia. 

Adriano ligou pro irmão dele, João Claudio, que nos emprestou a casa. Até hoje acho que ele nem imagina o quanto aquilo foi importante pra nós! Foram 4 ou 5 dias de alívio. O João seguia sem dormir (àquela altura só havia um jeito de dormirmos um pouco: nos revezando a madrugada toda, cada hora um com o João no braço), mas eu comi um brigadeiro. Olhamos o mar, ficamos em silêncio, falamos um monte, nos lembramos o quanto nos amávamos. O quanto desejamos aquele bebê, o quanto estávamos aprendendo com aquilo tudo. Tínhamos certeza da nossa força. Sabíamos que não tínhamos recebido aquilo tudo à toa. Era, certamente, porque dávamos conta de suportar. E pensávamos: tem tanta coisa pior… 

Infelizmente, a volta pra São Paulo era necessária. O Adriano, que tem sua empresa própria, já não trabalhava direito havia meses. E precisava estar presente. Estávamos bem melhores, mas o primeiro dia em São Paulo já foi mais difícil de novo. 

Mas era muita coisa de uma vez só. Passou uma semana e o João não melhorou nada. Eu, que já não podia nem ter vida social – porque tinha fome o tempo todo e só podia comer em casa, além de não querer mais falar do assunto com ninguém -, também não podia cozinhar o que mais gostava. Tomar um vinho. E nem assim via meu filho bem. Ninguém dormia. Se não fosse pelas minhas amigas Laura, Natália e Tatiana, que vieram em casa cozinhar pra mim um menu delicioso que eu podia comer – e pela Bianca, que me chamava pra ir na casa dela e fazia um almoço tão gostoso também, dentro da minha dieta – eu não teria tido nada de vida social nessa fase, mesmo. Cheguei a ir numa festinha infantil na qual a única coisa que eu podia consumir era água. 

Liguei pra médica e ela se surpreendeu por ele não ter melhorado nem um pouquinho. Sugeriu mais um medicamento antroposófico (ele já estava tomando vários e nós também). Não me lembro se eu dei, mas acho que não. 

Numa quarta-feira, hora do almoço, estava sozinha com o João. Acho que ele tinha uns três meses e meio, quatro (me perdi completamente nessa conta). Coloquei ele no carrinho para esquentar minha comida e ele começou a berrar. Eu comecei a sentir raiva dele. Ignorei o choro. Continuei esquentando a comida. Comi, com raiva, rápido, sem nem sentir o gosto. Ele berrando. Mandei uma mensagem pro Adriano: “Chega, pra mim não dá mais”. Ele ligou desesperado e disse que estava indo pra casa. Assim que ele entrou, eu saí da cozinha e fui pro quarto. João berrando. Eu estava meio que em um transe. Deitei e cochilei. O Adriano pegou o João e depois entrou no quarto perguntando se podíamos ir no Cacá. Ele tinha ligado lá. Eu não queria nem responder. Por mim, tanto fazia. Naquela hora, senti vontade de morrer. Juro. Era como se eu estivesse amarrada e sem previsão de ser solta. Como se o meu maior sonho, o da maternidade, tivesse se tornado um pesadelo horrível, no qual eu já tinha dificuldades de amar meu filho. Não queria mais acolhê-lo, queria apenas ser acolhida – em algum lugar bem distante dele. Não queria mais amamentá-lo. Não queria mais nada. 

Fui levada pro Cacá. Não tocava no João. Na sala de espera, me joguei no sofá segurando o choro. Assim que ele apareceu, me disse: “Essa é a Fernanda. Vocês podiam conversar”. Era a mãe do Tomás, que também sofria de alergia. Ali trocamos algumas ideias e contatos. Depois nos encontramos e descobri que aquilo era o mais importante para nós: trocar experiências. 

Na consulta, eu não falava. Até que, depois de alguma pergunta do Cacá, eu disse que não ligava pra mais nada. Ele me olhou sério e falou que era melhor eu buscar terapia. Que aquele discurso era depressivo e que eu precisava me cuidar. Falou pra eu parar com a dieta, devagar, reinserindo os alimentos aos poucos na minha rotina e observando as reações do João. Mas o glúten eu não retomaria. E nos mandou pra praia. 

Adriano ligou pro irmão dele, João Claudio, que nos emprestou a casa. Até hoje acho que ele nem imagina o quanto aquilo foi importante pra nós! Foram 4 ou 5 dias de alívio. O João seguia sem dormir (àquela altura só havia um jeito de dormirmos um pouco: nos revezando a madrugada toda, cada hora um com o João no braço), mas eu comi um brigadeiro. Olhamos o mar, ficamos em silêncio, falamos um monte, nos lembramos o quanto nos amávamos. O quanto desejamos aquele bebê, o quanto estávamos aprendendo com aquilo tudo. Tínhamos certeza da nossa força. Sabíamos que não tínhamos recebido aquilo tudo à toa. Era, certamente, porque dávamos conta de suportar. E pensávamos: tem tanta coisa pior… 

Infelizmente, a volta pra São Paulo era necessária. O Adriano, que tem sua empresa própria, já não trabalhava direito havia meses. E precisava estar presente. Estávamos bem melhores, mas o primeiro dia em São Paulo já foi mais difícil de novo. 

Algumas passagens da história estão bem confusas na minha cabeça. Não me lembro exatamente quando fomos a uma terapeuta específica fazer nossa constelação familiar – um método que muito nos impressionou e que nos fez tratar de questões essenciais que certamente muito tinham a ver com a alergia do João. Também não me lembro quando ele começou a melhorar, nem quando me dei conta de que o glutamato monossódico, que está presente no shoyu e causava alergia no João, estava presente em vários outros temperos prontos que, por mais que não entrassem em minha casa, eram usados em restaurantes e bares onde, a certa altura da dieta, eu já podia comer. E claro, na casa das pessoas. Também não me lembro quando exatamente decidimos que eu não ia mais amamentar e que tentaríamos dar um leite específico para alérgicos – decisão imediatamente revista quando o pediatra disse: “Mas se não sabemos nem identificar tudo o que causa alergia nele, vamos trocar o seu leite por um cheio de química?”. Por mais estranho que pareça, mesmo no meio daquele furação, eu senti um certo alívio por não ter essa saída. Na real, eu queria muito continuar amamentando. 

O que sei é que, quando o João fez seis meses, muita coisa mudou. Ele já estava bem melhor e era hora de começar a introdução alimentar. Isso tudo era motivo pra muita alegria: eu havia conseguido chegar aos 6 meses de amamentação exclusiva e feito o melhor pro meu filho e pra mim, com isso; por conta disso, já começaria uma fase em que eu poderia ter mais tempo pra mim, porque ele logo não precisaria mais mamar tanto assim; seria um prazer enorme oferecer comida pra ele, vê-lo experimentar os legumes; eu contaria, a partir de então, com a ajuda da Marly, que o Adriano contratou para cuidar do João de segunda a sexta. 

Terapia começada, esquema montado, vida nova. Ainda não dormíamos, mas criamos coragem para tentar fazer o João dormir no berço de novo – e não só porque não aguentávamos mais dividir o espaço com aquele bebezão (que, com tudo isso, nunca teve problemas de ganho de peso), mas porque eu sofria de dores terríveis nas costas e percebemos que, com o peito por perto, ele nem sequer queria cochilar. Não foi imediato, mas logo ele se acostumou novamente a dormir no berço e o sono durava bem mais do que quando estava entre nós. 

João demorou muito para dormir uma noite inteira. E mesmo quando isso aconteceu, foram apenas 5 seguidas: foi só viajarmos no Natal e no Reveillon que ele voltou ao ritmo anterior. Vimos que, ao contrário do que havíamos planejado (nota mental: não dá pra planejar o comportamento de um outro ser, gente rs), o João só dormia com silêncio absoluto, escurinho, peito e no quartinho dele. Ok, filho. Faremos assim então, pra você aprender a dormir. 

Ele aprendeu (mas ainda acorda, uma ou duas vezes, dependendo da fase). Hoje, ainda não temos coragem de levá-lo pra viajar. Mas logo tentaremos. A introdução alimentar foi um sucesso e ele é um comilão. Reagiu à banana, ao ovo e a leite e derivados – coisas que, se eu consumo, não causam nada a ele pelo meu leite. Um mistério? Sim. Alergia é assim mesmo, e sinceramente, não queremos nem saber porque. No começo, fizemos como na preparação para o parto: lemos de tudo, conversamos com muita gente, pesquisamos pra valer. Com o tempo, percebemos que precisávamos relaxar, também. Que não existem respostas prontas pra tudo na vida. E a libertação: que não precisamos dessas respostas todas. A situação, hoje, já está sob controle. Então, se ele reage a algo, simplesmente não damos mais. Daqui a um tempo testamos novamente. E pronto. 

Eu já como gluten. João não reage mais, mas percebi que eu fico bem melhor sem. O plano é fazer “desintoxicações” quando eu sentir necessidade, porque cortar da vida já é um passo mais difícil que não quero dar agora. Nossos hábitos alimentares, que já eram bons, melhoraram muito. Sou a louca do rótulos, olho tudo o que tem em um produto antes de comprá-lo. E aprendemos um monte com isso. Somos mais leves (eu emagreci um monte, inclusive) e sinto um orgulho imenso quando vejo meu guerreirinho comendo o pratão de abobrinha, bifum, batata, peixe, lentilhas, couve, cenoura e tudo o mais que colocarmos. Ele come muito bem. 

Não demos vacinas até hoje, decisão super tranquila, e só o tratamos com homeopatia (mas até aqui foi só um resfriado e umas febrinhas de dente). Não posso nem imaginar o que poderia ter acontecido com o João se ele tivesse sido vacinado nas primeiras horas de vida, como acontece com a grande maioria dos bebês. E defendo, também por isso, a vacinação a partir dos 6 meses de idade (é o tempo que temos para conhecer melhor nossos bebês e entender do que eles precisam nesse começo de vida). 

São muitas as lições que tivemos até aqui. O João já tem um ano e parece que vivemos dez. Somos pais muito mais seguros. Tenho a sensação de ser inabalável. E a certeza de que as melhores pessoas para entenderem do que o João precisa somos nós. Mas de que, pra chegarmos nisso, precisamos ter em nosso caminho o apoio do melhor pediatra desse mundo (sim, ele é, temos certeza ), que nunca nos deu uma resposta pronta. Agradeço muito a ele por isso. 

E as conexões e conclusões que fazemos sobre tudo o que passamos são constantes. Tenho certeza de que, ouvindo os relatos de mais pais, isso acontecerá mais e mais vezes. Que riqueza ser mãe de um bebê alérgico. Não achei que um dia fosse dizer isso. 

Marcella 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Relato de amamentação: Elisa, mãe do Dudu (hoje com 1 ano e 5 meses)

Foto: Julia Moreira

"Só posso falar da amamentação através da minha experiência, que aconteceu neste momento a minha vida, com este filho. Assim, posso dizer que tem sido uma experiência maravilhosa e um tanto desafiadora. Não encontrei, como muitas, grandes dificuldades no aleitamento. Foram, no entanto, necessários grandes esforços de adaptação para acompanhar as transformações. Transformações, na verdade, de vida, que vêm com a maternidade. Amamentação, aliás, no início se confunde muito com a própria maternagem.

Perceber que meu filho não era mais parte de mim mesma, que não habitava mais meu corpo por dentro, mas ainda dependia completamente dele pelo lado de fora foi um desses aprendizados. Despedir-me da imagem que eu tinha, de um bebê que mamaria e dormiria em seu cantinho foi um dos primeiros. Entender que o cantinho dele era eu, era meu peito, foi na verdade um alívio. Sinto que foi quando aceitei que a vida mudou, e quando pude permitir que essa mudança tomasse conta do meu ser.

Logo senti que mamar não era só leite, era o jeito que eu tinha de dar amor que era melhor recebido pelo meu filho. Naquele momento a necessidade dele era de aconchego, de ser acolhido do lado de fora como estava lá dentro, até que estivesse preparado pra mais que isso. Fui perdendo meus preconceitos, me revendo. Percebi que essa fase de amamentação é como um parênteses no resto da vida normal. Sabem as fases do desenvolvimento, tão faladas na psicanálise? Então, é como se fosse uma outra fase, que só conhece quem passou por ela. Coisa meio estranha mesmo, o foco muda, se você deixar.

O peito, meu peito, deixou de ser tão privado. As lindas lingeries da lua de mel deram lugar a esquisitos sutiãs com janelinhas para amamentar. E a doação era quase total. Cansava? Sim, às vezes era cansativo, mas encontrava onde recarregar as energias – num banho quentinho, num abraço gostoso (nos raros momentos de braços livres, meus e do meu marido).

Toda a plenitude da gravidez foi dando lugar a um lindo relacionamento que se construía.

E os aprendizados do pós parto também foram ficando ultrapassados e a vida demandava novos ajustes. Fui percebendo que eu já não era tudo na vida do meu filho, e tive que aceitar que em poucos meses meu peito já não era mais tudo o que ele queria pôr na boca – como assim, eu aqui disponível e você prefere esse brinquedo?? Resisti bravamente a mamadeiras e chupetas, porque os entendia como substitutos impostos e desnecessários, já que eu tinha deixado minhas outras atividades para cuidar do meu filho. Mas agora era ele que queria ir pro mundo. Tudo bem, vamos lá então.

Assim tem sido, cada avanço de uma vez. O peito ainda está disponível, mas cada vez menos solicitado. Já não dorme sempre mamando, nem sempre pede para mamar quando precisa de consolo.

Respeitar seu tempo foi fundamental, e isso só foi possível ao olhar para ele. Olhar no fundo e para ele, ele mesmo. Procurando me segurar, pra conseguir ver quem era cada um de nós.

Sua primeira palavra, aos 9 meses, foi “mama”. Mamãe ou mamar? Não sei, nem sei se tinha muita diferença na época. Hoje, com quase 1 ano e meio tem, e muita. Mamar é importante, mas tem tantas outras coisas neste universo de mãe e bebê! Hoje se alguém me pergunta até quando vou amamentar, digo que não sei. Tanto faz se é a mãe, a melhor amiga ou uma desconhecida na rua (sim, nas raras vezes em que ele ainda pede pra mamar em público, acontece de alguém vir fazer perguntas íntimas como essa!), a resposta é a mesma: não sei, não sei mesmo.

Estamos caminhando para que a amamentação deixe de ser uma necessidade, deixe de ser uma realidade. Procurando sentir nosso tempo. O meu, o dele, não sei se esses tempos vão coincidir. Mas sei que esse tempo é nosso, de nós dois, não maior nem menor do que o estabelecido por quem quer que seja. Considero que sou uma pessoa saudável, de bom senso, que saberia pedir ajuda se estivesse difícil. Como também sei que não teria conseguido sem o apoio de todo um círculo – marido, família, profissionais, mães-colegas. Amamentação envolve sim o resto do mundo – mas o lugar deles é do lado de fora da dupla, deixando apenas que ela exista e flua, sem intromissões sem convite.

Ah, e sobre as lingeries, sim, elas foram resgatadas do fundo de uma gaveta por meses esquecidas, e agora coexistem com os sutiãs de janelinha. Porque em mim também coexiste o ser mãe e o ser mulher, de uma forma integrada."


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Amamentar...

Arquivo: Lauriza e Alexandre

Nosso filho Alexandre teve restrição de crescimento e nasceu com 2.550 kg no dia 16 de novembro de 2011. Logo procuramos um pediatra para acompanhá-lo e encontramos um homeopata bastante recomendado, até famoso na mídia, que me ensinou a amamentar com hora marcada, 10 minutos em cada peito.

Mesmo pesquisando muito sobre amamentação, não entendi o que realmente era correto, mas como confiei nesse médico, segui sua orientação e amamentei dessa forma. Coloquei um despertador e a cada 2 horas Alexandre mamava. Era difícil e desgastante, parecia fugir do natural, que seria amamentar quando ele pedisse. Senti que ele sugava devagar, muitas vezes dormia antes de completar os 10 minutos, mas achei que era normal, não tinha experiência nenhuma.

Voltamos ao mesmo pediatra após 7 dias e descobrimos que nosso filho engordou apenas 30 gramas, o normal seria engordar esses 30 gramas em 1 dia. A primeira coisa que o médico fez, antes mesmo de saber se a amamentação estava correta, foi receitar plasil para mim e um leite artificial na mamadeira para nosso bebe.

Achei um absurdo e fiquei muito preocupada, pensei não ter leite suficiente e busquei todas as 'possibilidades' para aumentar a sua produção, desde tomar água de coco até comer rapadura e todas as dicas que vemos por ai. 

Sempre fomos totalmente contra alimentos artificiais, principalmente dos leites em pó feitos de gordura vegetal hidrogenada, 100% artificiais. Não queria que nosso filho apenas engordasse, queria que se desenvolvesse de forma saudável e jamais usasse uma mamadeira, já tinha me informado sobre isso e sabia o quanto seria prejudicial.

Antes de estar convencida de questionar o tratamento urgente desse médico, meu marido já decidiu que não seguiríamos a prescrição. Todo esse desespero o bebê sentia, não dormíamos a noite, passávamos o dia pensando e muito perdidos. Não confiamos no tratamento, mas nosso bebê continuava pequeno, abaixo da linha mais baixa das curvas de crescimento, com todos os riscos assustadores e simplesmente não tínhamos alternativa. Continuamos pesquisando e para nossa salvação encontramos o blog do Dr. Cacá.

Explicamos nosso caso e ele nos atendeu já no dia seguinte e apesar de ser um encaixe, o Cacá e a Andréa nos acolheram por várias horas, com tranquilidade e atenção, sem pressa e com real interesse de nos entender.

De repente tudo fez sentido, antes éramos nós contra a opinião médica e de todos ao nosso redor. A partir de então, era um médico nos dando a segurança que tanto precisávamos para fazermos o que nós, como pais, sentíamos ser o certo. 

O Dr. Cacá, diferente do outro pediatra, segurou nosso filho com atenção, conversando, olhando nos olhos e nos convenceu pela primeira vez que nosso filho era normal. A Andrea acompanhou a amamentação com tanto carinho e atenção, me deixando tão segura, tranquila e em paz, que o Alexandre mamou como nunca.

Saímos de lá em paz e confiantes.

Alexandre mamava quando e quanto queria, livre demanda, naturalmente.

Passou a dormir na nossa cama, sentia mais segurança, dormia melhor e consequentemente mamava muito mais. Comecei a usar o Sling, só deixava ele de fralda dentro da minha blusa, pele a pele, assim ficamos mais ligados um ao outro. Participamos do grupo de amamentação com a Andrea e aprendemos muito trocando experiências com outros pais. Segui todas as suas dicas e 1 mês depois voltamos para pesar o Alexandre que engordou 800g!
 
São tantas coisas que temos a agradecer ao Cacá e à Andrea, que nem conseguiríamos escrever aqui. Antes o nosso sofrimento era enorme, eu amamentava tensa, não conseguia me alimentar bem, era só medo e angustia. Nunca esqueço quando o Cacá percebeu meu desespero e disse que também é prazeroso ser mãe.  Desde que me tornei mãe, eu não sabia o que isso realmente significava até esse momento. Senti-me segura pela primeira vez com meu filho. Sabia que tudo daria certo. Foi muito importante ter alguém que me transmitisse essa segurança e tranquilidade. 
 
Alguém que atendeu nosso filho e não mais um bebê que estava abaixo das curvas. O peso de nosso filho ainda estava abaixo da curvatura, mas aumentava gradativamente, porém nunca mais sentimos a mesma insegurança. Entendemos que essa era a curva dele. Alexandre era muito agitado, se mexia bastante, tentava se arrastar, virava no berço desde os primeiros dias no hospital. Queimava muita caloria e até hoje, mesmo comendo de tudo, além da amamentação, com 1 ano de idade é assim. Se mexe o tempo todo, inclusive quando mama, pula, engatinha por todo lado, na piscina e na banheira bate pernas e braços o tempo todo. É acima de tudo, uma criança alegre, corada, vivaz, inteligente e podemos dizer com toda certeza, um bebê saudável e feliz. 
 
A natureza é perfeita, somos o resultado evolutivo que deu certo, mas às vezes precisamos que alguém nos olhe nos olhos e nos diga o óbvio para podermos seguir com segurança e tranquilidade.
 
Se alguém estiver passando por uma situação parecida e precisar conversar, pode entrar em contato conosco.
 
 
Lau e Paulo



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desmame Noturno

Foto: Luana e a Felipa de 1 ano (Arquivo)
Nosso desmame noturno (meu e da Felipa)
 
Felipa nunca foi um bebe que dormia muitas horas seguidas, sempre mamou muito, de dia e de noite, mas com uns três meses começou a dormir umas 4 a 6 horas seguidas. Isso durou até os cinco meses quando de repente ela começou a acordar de hora em hora.
 
Aí comecei a pesquisar sobre o sono dos bebês, já que estava muito difícil passar as noites todas em claro e trabalhar no dia seguinte.
 
Li muito conversei com muita gente e no começo achei que era fase, que podia ser os dentes, que podia ser salto... Sei lá, mas os meses passavam e ela continuava acordando de hora em hora.
 
Com uns 8 meses ela começou a não querer mais nem ir pro berço, aí resolvemos tirar o berço! Compramos um colchão de casal e ela passou a dormir lá. Só isso já ajudou bastante, já que podia ficar do lado dela nos dias mais difíceis, mas ainda assim eu precisava dormir, estava muito cansada e com a imunidade no pé.
 
Quando entramos de ferias eu e meu marido decidimos tentar o desmame noturno. Detalhe, já havíamos tentado uma vez, mas não deu certo. Ela chorou muito e desistimos. Acho que nenhum de nós estávamos prontos.
 
Antes de começar o processo li umas 10 vezes as mensagens de uma amiga, que me contou como foi o desmame deles e então elaboramos o nosso plano, pensamos como seria, quais as expectativas, quem faria o que e começamos... Acho que o mais importante foi estar certa de que é isso queríamos  e de que seria melhor pra todo mundo, inclusive pra  Felipa. Eu repetia pra mim mesma e pra pequena o tempo todo. Isso é bom, é um aprendizado necessário, tem um objetivo e você consegue dormir a noite toda. Decidimos que o melhor pra gente seria: ela dorme as 20h e não sou eu que coloco ela na cama, pois estou trabalhando, então, decidimos que no começo como era eu estava de férias colocaria ela pra dormir (mama e dorme no peito), toda vez que acordasse até as 23h0 eu  daria peito, depois disso, até as 6h, meu marido que iria consola-la e peito só depois das 6h. As três primeiras noites meu marido pegava no colo e ninava, nas 3 seguintes, só abraçava e depois só conversava sem tocar muito... A idéia era ir distanciando cada vez mais, para que ela entendesse que não precisava da gente pra pegar no sono toda vez que acordava.
 
Algumas noites foram difíceis, ela chorou bastante, mas sempre acompanhada, sempre consolada. Nunca tivemos duas noites ruins seguidas, então fomos ganhando confiança. Até que ela começou a dormir a noite toda.
 
Durante o processo, tivemos algumas interferências e regredimos um pouco, uma porque ela ficou doente e outra porque meu marido ficou internado, mas assim que a coisa acalmava retomávamos o processo.
 
Hoje ela dorme às 20h, mama às 23h (dormindo mesmo) e acorda às 7h ou 8h. Quando eu saio às 6h dou mama pra ela dormindo, quando não tenho que trabalhar ela acorda e vem engatinhando até o nosso quarto. 
 
Apesar do medo do desmame, hoje sei que valeu muito a pena. Estamos todos descansados e ela mais disposta e sorridente do que nunca.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Amamentar sozinha? Yes, we can!


Por Mariana Lettis, mãe do Esteban.

Amamentação prolongada, mãe sozinha também pode!

A Semana Mundial de Aleitamento Materno, SMAM 2012, está chegando e queria compartilhar meu relato de amamentação prolongada. Espero inspirar outras mães que também não tem companheir@, a que confiem no seu corpo – a gente consegue!

Meu menino tem 3 anos e meio, e até hoje ele mama. Durante a semana, só para dormir, se ficar doente, febril, a demanda aumenta para madrugada adentro, dia afora. No dia a dia, ele acorda 7:20hs já na porta da escola – levo ele dormindo no carrinho ou no sling se está chovendo, toda manhã, já que a porta da escolinha fecha pontualmente às 7:40hs.

Nos finais de semana ele aproveita o fato de acordamos juntos mais tarde para mamar de manhã, durante a preguicinha na cama. Isso não impede que ele tome um belo café da manhã com fruta, pãozinho integral com requeijão (sim, nós amamos requeijão), leite, cereal.

Mamar nunca foi problema para o pequeno se adaptar na creche, embora eu tenha sofrido muita pressão por parte das profissionais, para quem por fim consegui mostrar que a amamentação não era motivo de dependência emocional negativa. Também entreguei para elas a cartilha da OMS sobre alimentação infantil de 0 a 2 anos, para avaliarem na reunião pedagógica, junto a outros materiais, e então consegui ganhar respeito e confiança das funcionárias. Hoje, elas elogiam a conduta do pequeno e o fato dele ainda mamar. Até a diretora confessou que ela mesmo mamou até os 6 anos de idade. Acho que ainda consigo que elas promovam a amamentação prolongada!

Nunca tive muito leite, apenas o suficiente, meus peitos vazaram apenas uma vez. Se não fosse pela força que o pediatra nos deu, a confiança que nos transferiu, ensinar-nos o ‘mamasutra’, o que é livre demanda, eu não teria conseguido superar as pressões externas e teria dado complemento (a curva de crescimento do pequeno sempre foi limítrofe). O grupo de apoio à amamentação e o grupo de pós-parto, foram importantes também. O primeiro, para compartilhar experiências com outras mães que também queriam amamentar, ter a visão das minhas “pares” – muitas sofriam com as indicações desnecessárias de complemento pelos profissionais que as acompanhavam -, e para trocar dicas práticas. O segundo, para perceber que não é o fato de ter um companheiro que nos garante o apoio às nossas decisões de amamentar, de querer dormir coladas nas nossas crias para não ter que levantar da cama a noite toda, e que às vezes o fato de estarmos sozinhas nos faz com que nos tornemos mais práticas para resolver as situações, e que tudo flua segundo a nossa intuição, porque não temos ninguém ‘do contra’ por perto (um salve aos pais paternos que se entregam junto à arte da criação).

Por fim, consegui manter os 6 meses de aleitamento exclusivo. Não foi fácil. Tudo o que conseguia fazer em casa nos primeiros meses (tomar banho, ir ao banheiro, lavar louça, lavar roupa, ler um livro, descansar) era com o pequeno no sling e mamando! Quando ele dormia, varias vezes eu tentava dormir junto, para poder produzir mais leite. Bebia muita água, pois fazia calor, e chá gelado da mamãe ajudava a refrescar e na produção. Recorri muitas vezes às marmitas, porque não tinha tempo de cozinhar para mim. Os amigos eram o exército de salvação, se não vinham nos visitar, lá íamos de sling e cuia pra casa deles. Distrair, sair da “neura” da rotina dentro de casa, me fazia sentir mais tranqüila e relaxar da mamação toda, que acontecia em todo lugar. O Cinematerna era nossa saída romântica, ele mamando no escurinho e dormindo placidamente, toda terça-feira era nosso dia de filme e terapia com as “comadres”. Não foi à toa que a experiência nos fez ganhar uma irmã gêmea, pro pequeno e pra mim!

Voltar ao trabalho não foi nada fácil, mas tive a sorte dele já ter começado com a introdução de alimentos. Disciplinadamente, no horário do almoço, aproveitava para ordenhar, já um mês antes comecei a produzir um estoque no freezer. Conseguia tirar apenas 100ml por dia, e o pequeno sempre se recusou a mamá-los. O pediatra sugeriu então misturar o leite em duas papinhas (50ml e 50ml) salgada ou de frutas: banana, aveia, abacate, rendiam duas mamadas até chegar do serviço. Claro que tinha sucos e papinhas sem o meu leite no meio… à noite ele se esbaldava no peito, nem consigo lembrar quantas vezes acordava, ou ele se servia sozinho. Quando começou a escolinha (a vaga saiu quando ele tinha mais de um ano), para a hora das merendas, todo dia levava leite de grãos, que produzia uma vez por semana e congelava nos mesmos vidrinhos que usei para armazenar o leite materno. Já não conseguia mesmo “ordenhar” nem aqueles 100ml. Ele bebia, na mamadeira que pra ele era um copo diferente, porém igual ao de todos os coleguinhas, mas nessa altura já não atrapalharia a sua preferência pelo peito da mamãe.

Meu filho só começou a ingerir leite de vaca com mais de um ano e meio de idade. Hoje, por uma preferência dele, já toma os preparados da escola na caneca, no café e lanche, como meninão grande que ele é. Tem os mais diversificados gostos alimentares: desde pimentão cru até os tradicionais salgadinhos que aprendeu a comer na festa dos aniversariantes do mês. Consegui segurar a onda com refrigerantes até os 2 anos. Mesmo não comprando em casa, ele consome nas festas, mas sempre tem preferência por sucos, ufa! Come de tudo o que estiver bem temperado. E acho que esse gosto pela diversidade de alimentos tem tudo a ver com o fato de ter e estar mamando. Já que os gostos dos alimentos maternos se imprimem no leite.

Se está sendo fácil toda essa experiência? Não, não é… padeço cansaço crônico até hoje! Se já pensei em desistir? Não, claro que não. Não sei se o pequeno será o meu filho único, e sou das mulheres que vivem cada fase com intensidade e entrega. De fato, eu adoro o ditado que diz: “se está na chuva é pra se molhar”. Por fim, mergulhei por completo! Satisfação garantida!

Fonte: http://www.mamiferas.com/blog/2012/08/amamentar-sozinha-yes-we-can.html

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Amamentação

Carla Brandão e o seu filho Lucas de 3 anos
O Lucas nasceu sorrindo em 07/01/2009, numa tarde de quarta-feira, de parto natural. A mamãe e o papai se prepararam muito para este momento.
O Lucas queria muito nascer. As contrações começaram de manhãzinha e, à tarde, ele já estava fora da barriga. A mamãe não precisou tomar anestesia e o papai cortou o cordão umbilical.

Depois disso, o Lucas veio direto para o colo da mamãe, onde foi aconchegado no peito. Ele encaixou a boquinha no peito, mas não chegou a sugar.
Após este momento sublime, veio à notícia de que o Lucas é uma criança incomum. Observou-se que ele tem uma preguinha na mão esquerda, os olhinhos puxados e dedinhos dos pés um pouquinho separados e, então, uma surpresa: a síndrome de down.

A mamãe e o papai levaram um susto, pois não sabiam dessas características. Mas, o pediatra neonatologista percebeu que o Lucas, além de não ser cardíaco, tem um bom tônus muscular e indicou a estimulação precoce.
Naquela madrugada, o Lucas foi levado à UTI em razão de uma baixa respiratória. A mamãe estava decidida a amamentar e descia do quarto do hospital para a UTI de três em três horas para amamentar o bebê.

No dia seguinte, a mamãe sentiu a apojadura. Os peitos estavam muito inchados e quentes e o leite começava a empedrar...
Para aliviar, o pediatra neonatologista encaminhou a mamãe para o banco de leite do hospital e orientou a ordenha para evitar o empedramento. Também ensinou o “shake das africanas” e uma técnica das japonesas para fluir o leite.

No banco de leite, a mamãe aprendeu a usar a máquina elétrica para ordenha, que veio a ser muito útil mais tarde.
O Lucas permaneceu cinco dias na UTI, os três primeiros por conta da baixa respiratória e dois em razão de icterícia. De três em três horas, a mamãe ia até a UTI e dava de mamar. Ele demorava meia hora em cada peito, mamava dormindo e sugava muito fraquinho...

Depois de uma hora na sessão mamada com o Lucas, a mamãe ia ao banco de leite e ficava meia hora (quinze minutos em cada peito) para tirar o leite na máquina elétrica e evitar o empedramento.
Passados os cinco dias, que pareceram a eternidade para a mamãe e o papai, o Lucas saiu da maternidade pesando mais ou menos três quilos e meio. Em casa, a mamãe percebeu que o bebê não chorava. Ele não pedia para mamar e era muito dorminhoco. Então, a mamãe adotou a mesma rotina da maternidade: oferecia a mamada a cada três horas e o bebê ficava meia hora em cada peito.

Passada uma semana, o pediatra veio em casa pesar o bebê e, surpresa: o Lucas tinha perdido peso. Estava com aproximadamente dois quilos e novecentos. A mamãe ficou muito abalada, pois levantava, mesmo de madrugada, de três em três horas para dar de mamar, achava que o bebê estava mamando, mas ele tinha perdido peso! Não conseguia entender. O mais alarmante é que, nesta semana, o leite quase secou, porque não estava mais utilizando o banco de leite da maternidade.
Então, o pediatra indicou uma fonoaudióloga muito atenciosa, que veio até em casa e percebeu que o Lucas tinha dificuldade para sugar o seio. Provavelmente, na UTI da maternidade, as enfermeiras deram mais complemento do que a mamãe podia imaginar e por isso ele tinha ganhado peso no hospital. Registre-se que o pediatra orientou que não fosse introduzido bico ao bebê na UTI. Ele tomava o complemento em copinho, para não ter a facilidade da mamadeira e possibilitar a amamentação natural.

A fonoaudióloga ensinou a mamãe a ensinar o Lucas a mamar. Ela trouxe o seguinte material: uma seringa descartável (sem a agulha), um cateter e micropore, além do telefone da empresa para o aluguel da máquina elétrica de ordenha.
Funcionava assim:
1) Primeiro, a mamãe tirava o leite da máquina. Então, colocava o leite nas seringas e reservava. No início, como o leite da mamãe quase secara, só era retirado, por meio da ordenha, 12 ml. Nesta fase, foi dado complemento ao bebê, para que totalizasse, pelo menos, 30 ml. Paralelamente, a mamãe tomou: um remédio chamado Equilid, água de algodoeiro, além do chá da mamãe da Veleda. E, é claro, mais de quatro litros de água por dia.
2) Depois, a mamãe acordava o Lucas, o que demorava quase uma hora, pois ele era muito dorminhoco mesmo. Tirava a roupinha de dele e rolava de um lado para o outro, até ele acordar. Quando ele acordava, era embrulhado num lençolzinho para se organizar.

3) Aí, era montado o aparato na mamãe. O cateter era preso com o micropore na auréola do peito da mamãe. Então, o bebê era trazido para perto, mas não ficava na posição tradicional, que era muito difícil para ele. Ele era colocado de lado, como se fosse uma bola no braço de um jogador de futebol americano, e ficava apoiado em travesseiros. Após, uma das avós ou o papai sempre ajudavam a mamãe: encaixavam a seringa com o leite no cateter e ficavam segurando e empurrando o êmbolo no ritmo do bebê, até ele conseguir mamar tudo.
Portanto, o bebê tinha que sugar como se estivesse mamando do peito. A rotina foi muito cansativa para a mamãe, principalmente no início, porque o Lucas demorava uma hora para acordar, uma hora para mamar e, ainda, tinha a meia hora de ordenha, o que resultava em duas horas e meia. Só restava meia hora para a mamãe ou dormir, ou comer ou tomar banho, mas isso não difere muito da rotina de qualquer bebê recém-nascido, que demanda muito da mãe.

À medida que o tempo passava, as coisas melhoravam. A mamãe conseguia ordenhar cada vez mais leite. (Uma dica: é mais rápido quando se aluga a máquina para ordenhar os dois peitos de uma só vez, em vez de meia hora, dispende apenas quinze minutos). O Lucas crescia e acordava mais fácil. Até que, com quatro meses, ele começou a conseguir sugar o peito sem a seringa. E, aí, adivinhem o que aconteceu, ele realmente aprendeu a mamar!
Portanto, as crianças, mesmo as incomuns (ou como alguns preferem, especiais) aprendem e aprendem de tudo, basta ensinar.
E esta foi à primeira lição do Lucas: ele aprendeu a mamar.
A mamãe e o papai realmente acreditam que ele nasceu forte e com bom tônus muscular porque foi respeitado o tempo de nascimento dele. Uma cesária agendada poderia tê-lo prejudicado muito.

O Lucas mamou até um ano de idade, quando ele próprio passou a não querer mais o peito. Faz fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional desde que tinha um mês de idade. Hoje, com três anos, frequenta uma escola comum e está começando a dizer as primeiras palavras. Mamar no peito ajudou muitíssimo o desenvolvimento da fala, além de deixar o Lucas com as feições do rosto mais bonitas.