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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As evidências comprovam o que a gente já sabia: medicar a "cólica" do bebê tem baixa eficiência.

Falamos bastante por aqui sobre o choro do recém nascido.
Esse choro que chora nossas mágoas e cutuca em nós os cantinhos mais profundo das agonias.
Choro que costumamos chamar de "Cólicas do bebe"
Fica subentendido que existe uma dor no intestino do bebe e que seria necessário um remédio para saná-la.



Em nossa constante pesquisa e disposição para nos rever, sempre, recebemos uma atualização importante da área da ciência dentro dessa temática. Que confirma o necessário diálogo sobre a DESMEDICALIZAÇÃO da infância, desde os primeiros dias. Foi publicada na Cochrane uma revisão sistemática sobre os remédios para cólica. 

Antes de falar em conclusões, vamos entender um pouco a Cochrane.
É uma entidade que basicamente trabalha com revisão de artigos científicos. Apura os artigos sob um mesmo tema e oferece os resultados de forma sistemática, uma vez que a ciência, as pesquisas, esse conhecimento está em constante transformação. 


"A Colaboração Cochrane é uma organização internacional que tem por objetivo ajudar as pessoas a tomar decisões baseadas em informações de boa qualidade na área da saúde. É uma organização sem fins lucrativos e sem fontes de financiamento internacionais. Possui grupo diretor (Steering Group), com sede em Oxford, Reino Unido."



Os profissionais de saúde que atuam com base em evidências científicas bem como a população em geral tem muito a ganhar quando conhecedores dessas revisões. Não é à toa, que testemunhando a construção desse novo processo de ser e estar enquanto profissionais de saúde, vemos nos "humanizados" essa constante valsa entre o que é cientificamente comprovado e aquilo que trazemos de nossas culturas, nossas crenças, nossa bagagem humana. Puericultura, Humanidade e Ciência, não à toa também é o que norteia o projeto aqui no Blog do Cacá.

Voltando ao assunto do choro, vejam que interessante a revisão, que saiu em 2016!


Somente fitoterápicos parecem ajudar (um pouco) com as cólicas




O bebê é saudável mas não para de chorar: são as cólicas, que assombram e tiram o sono dos pais, principalmente nos primeiros quatro meses de vida dos filhos. Como aliviar essa dor? 

A Cochrane revisou 18 estudos que testaram diferentes tratamentos para as cólicas dos bebês: medicamentos, remédios baseados em plantas e outras estratégias. As pesquisas comparavam o uso dessas alternativas com placebo, ou seja, um remédio sem efeito, sem que os pais soubessem qual era qual, ou comparavam um remédio com o outro.

O trabalho mostrou que açúcar (sacarose), simeticona diciclomina e cimetrópio parecem não funcionar para as cólicas dos bebês, e que alguns fitoterápicos (medicamentos baseados em plantas) podem reduzir o tempo de choro. A diciclomina pode provocar efeitos adversos. Os fitoterápicos testados eram derivados das plantas Matricaria recutita, Foeniculum vulgare, Melissa officinalis. Porém, a qualidade dos estudos era baixa. As famílias ainda precisam aguardar a realização de mais estudos que possam trazer resultados mais positivos.







Me arrisco a dizer que somente mães, pais, profissionais de saúde comprometidos com a pluralidade desse olhar, dessa dança entre o que é científico e o que é humano parecem ajudar (um pouco) na construção de um contexto mais sadio, afetivo e acolhedor para nossas crianças em seus sentidos choros!

;) 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Atitudes pacificadoras para o choro do bebê

No último texto fizemos uma jornada de reflexão acerca do choro do bebê na nossa cultura: entre cólicas e sinais de desconfortos aparentes, passando pelas razões do choro e as oportunidades de criação de vínculo entre pais e filhos, dentro inclusive, das ocasiões de descontentamento. Se manter no papel de adulto talvez seja um dos primeiros e maiores desafios dessa jornada de nascer como mãe e pai.

Hoje pensei em trazer um pouco da minha experiência prática com esse difícil assunto, elencando atitudes pacificadoras:

Consciência de aprendiz
Em primeiro lugar, quero destacar que tenho muito  quer aprender. Nós, os adultos, temos muito o que aprender quando se trata das sutilezas da vida humana em um momento tão singular que é a chegada de uma nova vida ao mundo e a construção de uma nova família. Estamos aprendendo a ser pais , tios ,avós e toda uma constelação de relações humanas a partir do bebe.

No entanto, uma das minhas bases de atuação versa sobre a potência desse estado de aprendizado. Quando nos sabemos aprendizes das situações que vivemos, legitimamos a construção de novos caminhos. E TODOS os caminhos de construção de vínculos entre os bebês e seus pais são verdadeiros. O choro do bebê é uma oportunidade potente nessa visão. Já que na nossa sociedade o choro se configura como forma de comunicação entre o bebe e seus pais.

Carregadores de Pano
Aprendi também que o uso de carregadores de pano são positivos aliados nessas situações. Não só porque resgatam a prática ancestral do contato físico, indispensável para esse bebê e para esse adulto encaminhando para a construção de vínculos. Mas também por terem comprovadamente benefícios pacificadores para as duplas.



Toques e Massagens
Todos caminhos que levam a construção de vínculos que se constroem pela observação e contato físico com o bebe são os mais poderosos em lidar com o choro do começo. Na ótica da proximidade física entre adultos cuidadores e seus bebês, as massagens e toques não podem ficar de fora. A experiência de mães e pais, profissionais de saúde e médicos pediatras comprova. Apesar de tecnicamente muito se falar na massagem como uma forma de "aliviar dores" e "melhorar o intestino" do bebê, cabe lembrar que o contato afetuoso carrega também vantagens de ordem psico-emocional, que norteiam o estar do bebê e do adulto à partir da esfera sensório-motora: uma questão muitas vezes esquecida nas sociedades contemporâneas que gostam de explicações científicas e cognitivas para tudo. Estamos falando de prazer aqui!


Banhos Prazerosos
Por mais incrível que pareça, o bebê não necessita de banhos com finalidades meramente higiênicas. O momento do banho é um momento de cuidado, que o bebê entende como amor. O bebê entende tudo como o amor que ele quer receber. Portanto, o momento do banho pode ser gostoso o prazeroso. Contradizendo a prática atual das banheiras, que coloca o bebê  pequeno muitas vezes de corpinho exposto em um espaço-gravidade estranho de entender, a minha experiência mostra que o banho de chuveiro no colo de pai e mãe ou o banho de balde, muitas vezes aliado à contenção do cueiro, tem resultados efetivos nessa sensação de prazer. Bebês pequeninos normalmente preferem esses banhos. Os bebês mais velhos que gostam de brincar na banheira, experimentar a água e sentem-se felizes em bacias.


Charutinho e contenção
No último texto, refletimos como muitas vezes diante do choro do bebê os adultos se paralisam e tendem a não tomar nenhuma atitude, entrando em uma espiral de desespero que notoriamente não tem benefício nenhum. Eu gosto de lembrar: o bebê é uma pessoa! Ele está ali, presente no momento do choro em seu corpo, mente e sentimentos. O casulo, charutinho e outras espécies de contenção também são atitudes que pacificam esse estado, por promoverem um contorno, por convidarem tanto o adulto como o bebê a sentirem-se presentes, existentes. Além de é claro, comprovadamente aportarem ao bebê a memória intrauterina: um espaço contido, e não e imensidão daqui de fora. Que convenhamos, é apavorante até para os grandes.



Movimento e Chiado

Aliados aos carregadores de pano ou ao colo mater-paterno, estar em movimento com o bebê que chora é também uma atitude pacificadora. É comum, naquele momento de cansaço e paralisia do adulto, que ele se esqueça do ato ancestral de NINAR seu bebê. Vemos cuidadores desesperados que muitas vezes recorrem à uma chupeta por exemplo, antes mesmo de propor uma pequena dança pela sala, ou uma cantiga de ninar. Acho que aqui estamos falando do quanto podemos nos arriscar e nos entregar nas atitudes que promovam vínculo, ao invés de escolher atitudes que possam nos separar. Em combinação com o chiado, suaves canções ou ruídos que promovam uma concentração da dupla para algo além dos seus próprios desesperos, são sempre uma boa ideia.Devo lembrar também que o uso de redes para dormir ou algum tipo de berço que balance como a rede é visto desde as índias brasileiras,passando pelas andinas ate o extremo oriente. Balançar faz parte da cultura mundial de cuidar de bebes.


Amamentação, Sucção e Livre Demanda
Um pediatra americano, como é costume dos americanos, nomeou uma técnica de acalmar o choro do bebê baseada em 5 etapas que em inglês começam com a letra S: Swaddle, Stomach Position, Shush, Swing, Suck. Na ordem, a contenção, a posição lateral ou verticalizada (em oposição a deixar o bebê deitado de costas), chiado, balanço e sucção. Aqui quero pontuar que o instinto de sugar é inerente ao bebê - e é o que garante a sua sobrevivência. A amamentação em livre demanda, ou seja, quando o bebê pede (e ele pede de várias maneiras, não apenas chorando), é uma forte aliada na construção do vínculo, não apenas da saúde e estabelecimento pleno da amamentação. Exatamente porque para além do alimento, o bebê gosta e precisa sugar. Alguns bebês precisam sugar mais, outros bebês encontram seus dedinhos e sugam, e há aqueles que só se confortam no seio materno. Há sempre a opção da chupeta, que é também um recurso legítimo nesse processo. Mas sempre com a consciência de que se trata de um mediador dessa relação física entre mãe e filho, que pode ser muito útil no momento de choro, mas pode também a longo prazo, trazer outras questões para serem observadas depois, quando invariavelmente esse bebê precisar se livrar do hábito de sugar a chupeta. Precisamos também pontuar que a sucção não nutritiva para bebês pequenos pode representar algum prejuízo para o estabelecimento da saúde desse bebê e também para a amamentação. Gosto de pensar que a chupeta é um recurso para os pais. E não para o bebê. Colocando também que é da mulher, a dona desse corpo que não pode ser esquecido da equação, encontrar o limite de ser sugada e quando. Claro, não é tarefa fácil.


Contato visual e conversa
Um bebê chorando normalmente cerra os olhos com força. Fabrica seu próprio som de descontentamento que o deixa longe do contato com o mundo. Ele fica lá, no mundo interno do choro. Se a busca para esse encontro de vínculo passa pelo corpo, não vamos esquecer dos olhos e da visão desse bebê. Minha experiência mostra que quando o bebê sai do estado do choro, seus olhos abrem e ele espera encontrar amor e contato. Isso se dá pelos olhos também, é hora de iniciar uma conversa. Bebês adoram balbucios e adultos que falem sua língua! Vocês vão se surpreender, se tentarem conversar com seus bebês, como eles são capazes de se comunicar de várias formas, que não o choro. Eles franzem as sobrancelhas, arregalam os olhos. Mesmo os pequeninos - a quem não é creditada a felicidade através dos sorrisos, que injustamente são chamados de reflexos - são eficientes em comunicar felicidade. Sorriem sim! Mostram a língua, estalam, falam, imitam as caretas dos adultos e gostam de tudo isso. Pronto, não estão mais chorando.




Arriscar-se nesse caminho de muito contato e, portanto, muito vínculo, na minha opinião é o que mais ajuda. Aprender desde o começo que quando chora, o bebe está te chamando e o que ele quer é você! Talvez o mais difícil aprendizado!

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Choro do Bebê : Cólicas e tudo mais que podemos revelar

Hoje vamos pensar um pouco sobre o choro do bebê.



Desde que comecei a trabalhar com bebes saudáveis em alojamento conjunto entendi que não bastava treinar a equipe para falar de aleitamento materno. O choro do bebê era o tópico mais importante, pois o que levaria ao uso de chupetas, outros leites, mamadeira ou não acreditar na própria capacidade de amamentar seria o choro do bebê. Portanto conversar sobre como lidar com esse choro e que chorar não significa sempre fome era o nosso desafio. Poder dizer para as mulheres que elas poderiam dar conta do bebê era (e ainda é!!!) nosso maior desafio.

Bebês choram. E podem chorar muito! Por muitas vezes nós adultos cuidadores nos vemos ansiosos por uma explicação para a razão de tanto choro, do alto da nossa crença de que choro é sinal de coisa ruim. A justificativa mais aceita para o choro do recém nascido são as cólicas. Seriam aquelas crises de choro inconsolável, onde o bebê demonstra muita irritação, contorce o corpinho. Aceitamos com mais naturalidade o choro do bebê se ele for justificado por algum tipo de dor.

- É dor mesmo, agora eu sei , pois ele esticava as perninhas e se retorcia todo.

Infelizmente é muito difícil definir se é ou quando é dor mesmo. Acho bonito e importante tentar fazer uma leitura mais corporal do bebê, mas contamos com uma grande dificuldade. Geralmente não sabemos muito sobre o bebê.

Conhecemos que um bebe nos seus 2 a 3 meses tem um repertório motor limitado pelas respostas reflexas e não voluntárias. Quero dizer com isso que bebes que se esticam e jogam a cabecinha para traz estão repetindo o que fazem (ou deveriam fazer) no trabalho de parto. Esse movimento está no repertório motor dos reflexos e não da consciência deste bebe.

O que não afirma e não impede que esteja vivendo algum incomodo. Mas nos faz pensar que é um tanto mais difícil observar e relatar o que esta acontecendo nos primeiros meses de vida.

Vamos ler um pouquinho do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria sobre as cólicas do lactente: 

Cólicas do lactente 

Departamento de Aleitamento Materno da SBP

A cólica do bebê é transitória e aparece geralmente na segunda semana de vida, acabando em torno do quarto mês, em uma criança saudável. A cólica pode durar até três horas por dia e normalmente acontece no final da tarde ou à noite. Além do choro, o bebê fica irritado e agitado.

Como diferenciar o choro por cólica do choro de fome


O bebê chora por diversas razões: fome, frio, sono, calor, dor, incômodos por fralda molhada ou apertada ou até porque quer aconchego e carinho. Com o tempo, a mãe vai aprendendo a identificar o motivo de choro do seu bebê. No entanto, a criança que chora por fome se acalma assim que mama. Isso não acontece quando o choro é por cólica.

Como evitar as cólicas

Tente manter a calma e lembre-se que as cólicas acontecem em um bebê saudável e que vão passar em poucos meses. A ansiedade da mãe não ajuda a acabar com a cólica, mas algumas ações podem amenizar a dor:

- um ambiente tranquilo e uma música suave ajudam a relaxar mãe e filho;
- um banho morno também ajuda a descontrair;
- movimentos nas pernas do bebê, como “pedalar no ar” podem auxiliar a eliminar o excesso de gases;
- massagem na barriguinha do bebê, sempre no sentido horário, mobiliza os gases;
- compressas mornas na barriguinha com toalhas felpudas passadas a ferro têm efeito analgésico (teste antes o calor da toalha em sua própria face).

Porém, o mais importante é ter paciência para acalmar o bebê, aconchegando-o no colo, barriga com barriga, ou apoiado de bruços na extensão do antebraço dos pais.

Oferecer chá ao bebê não acaba com a cólica e pode prejudicar a amamentação. 
Remédios “contra gases” têm pouca eficácia.



Relação entre cólica e dieta materna


As causas das cólicas do primeiro trimestre não são bem conhecidas, mas parecem ter relação com uma relativa imaturidade do bebê; e vão melhorar com seu crescimento, sem deixar sequelas.

A alimentação materna como possível causa da cólica ainda é controversa. A cólica pode ocorrer tanto em bebês amamentados no seio quanto naqueles amamentados com leite de vaca (fórmulas). Entretanto, existe a possibilidade de alguns alimentos (leite de vaca, soja, trigo, nozes) passarem para o leite materno e provocarem cólicas. No entanto, esses alimentos só devem ser retirados da dieta da mamãe caso as cólicas estiverem associadas com outros sintomas gastrintestinais que indiquem alergia alimentar, como a presença de rajas de sangue nas fezes do bebê.

Ao primeiro sinal de sangue nas fezes do bebê, seu pediatra deve ser consultado imediatamente.

E lembre-se, o ideal é prolongar ao máximo o aleitamento materno porque o leite de vaca tem alto poder de causar alergia.



Para mim entendo que a SBP conta que cólica existe e é comum nos primeiros meses e vai passar. Não se desespere pois vai passar!

Nesse momento tive uma percepção de quantas vezes eu tentei em vão dizer que o choro com hora marcada, geralmente final da tarde, começo da noite não deveria ser de dor física, já que dor física não tem horário para acontecer. Será que ajudei ou atrapalhei tentando desfazer o mito da cólica do bebe, e não deixando algo que preenchesse este lugar?

Por mais aceitável que a justificativa de cólica nos acalme como adultos, nem sempre o bebê chora de dor. Bebês choram e podem chorar muito. Ressignificando as experiências do choro e tentando encontrar mais disponibilidade para rever nosso conjunto de crenças podemos observar o choro como forma de comunicação do pequenino humano, que trava sua própria jornada de adaptação à vida extra uterina.

Lendo este texto da SBP que valida a percepção dos pais que se trata de uma cólica e portanto merece compressa quente e massagem senti que poderia me aproximar mais destes pais que devem estar bem assustados com este bebe que chora tanto. Porem me ficaram algumas duvidas como se merece um uso de remédio já que o choro é cólica (sabemos de uma longa lista de remédios utilizados por mães de bebês nos primeiros meses por conta de cólica e que a maioria não terá muita eficiência). Vou então buscar outras referencias sobre o choro do bebe.

Vamos ver um trecho sobre o choro da Enciclopédia sobre desenvolvimento da primeira infância

Qual é sua importância?


O choro é um meio de comunicação importante que os bebês dispõem no início da vida – do nascimento aos 3 meses de idade. Nesse estágio de seu desenvolvimento, os bebês são quase inteiramente dependentes de cuidadores para atender suas necessidades. Consequentemente, o choro na infância pode assumir um papel importante para garantir a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança. 

A quantidade aumentada de choro entre bebês saudáveis no mundo ocidental é atualmente reconhecida em todos os bebês nas primeiras semanas de vida, isto inclui chorar por períodos prolongados de tempo sem nenhuma razão aparente, uma característica praticamente única dos primeiros meses de vida. De fato, não é incomum que um bebê normal chore entre uma e cinco horas por dia, com um pico nos dois primeiros meses de vida.


Em menos de 5% desses bebês existe alguma evidência de doença orgânica que ajude a explicar o aumento de ocorrência de choro. Além disso, o choro prolongado ocorre a despeito da ótima qualidade dos cuidados parentais. Felizmente, depois dos cinco meses diminuem os períodos prolongados de choro inconsolável, o choro torna-se mais intencional e mais relacionado a eventos ambientais.


No entanto, o choro persistente, principalmente quando associado a problemas de sono e de alimentação que persistem depois dos quatro meses, muitas vezes em contextos que envolvem múltiplos fatores de risco psicossocial dos pais, pode ser preditivo de desenvolvimento social e emocional insatisfatório do bebê. 


O que sabemos?


Todos os bebês choram, mas grande parte desse choro é inexplicável. As explicações geralmente atribuídas ao choro do bebê são dor, fome, raiva e tédio. O aumento de choro excessivo inexplicável nos três primeiros meses em bebês que, à exceção disso, são saudáveis, é frequentemente denominado “cólica infantil”. Dependendo da definição, diz-se que a cólica afeta cerca de 10% a 20% dos bebês nessa idade. Uma característica evidente é que a cólica tende a seguir um padrão de aumento nos dois primeiros meses, chegando a um pico em seis semanas, e normalmente diminuindo aos 4 ou 5 meses de vida. No entanto, esse padrão aplica-se a todos os bebês, quer seu choro seja ou não considerado “excessivo”, e é reconhecido atualmente como a “curva normal do choro”. Durante esse período, os surtos de choro podem ocorrer sem razão aparente, são difíceis de acalmar, e muitas vezes duram em média entre 35-40 minutos, ou até duas horas. Ocorrem em geral no fim da tarde ou no início da noite.

Frequentemente, afirma-se que bebês cuja inquietação persiste no decorrer da primeira infância, ou piora depois dos quatro meses, têm temperamento difícil. Pode não ser fácil diferenciar o choro relacionado à cólica infantil do choro relacionado a temperamento difícil. A principal diferença é que, nos episódios de cólica, os surtos de choro diminuem com o tempo, ao passo que em bebês com temperamento difícil, o aumento da inquietação persiste durante a primeira infância e até posteriormente. Embora o choro devido a temperamento difícil possa às vezes ser modificado, essa característica de temperamento é frequentemente estável no decorrer da vida, e tem bases constitucionais e hereditárias.


Consequências positivas:


O choro excessivo nos primeiros meses de vida pode provocar frustração e estresse na família. No entanto, há consequências positivas associadas ao choro. Uma delas é a constatação de que o choro permite aos bebês construir relacionamentos íntimos com as pessoas que respondem mais confiavelmente a suas necessidades. Dessa forma, o choro pode ser fundamental no desenvolvimento de um vínculo emocional ou “apego” em relação a determinado(s) cuidador(es). 


Consequências negativas: 


Muitos estudos sobre bebês que apresentam episódios de cólicas demonstraram de forma convincente que, no longo prazo, não há consequências negativas para os bebês. A maioria dos pais não demonstra conseqüências negativas, mas para alguns persiste uma falta de confiança em suas habilidades como cuidadores e têm maior probabilidade de considerar seus bebês como “vulneráveis”. No entanto, bebês com temperamento difícil têm maior probabilidade de vivenciar diferenças no longo prazo. Bebês inquietos e difíceis de acalmar têm maior probabilidade de aumento de risco de problemas comportamentais na pré-escola, dificuldades de ajustamento na adolescência ou comportamento agressivo e dificuldades de atenção.

A interpretação da mãe sobre o comportamento de choro pode ser afetada pela depressão materna. Quando ocorrem juntos, a depressão materna e o choro excessivo ou devido a cólicas podem afetar as interações pais-bebês, seu relacionamento, e até mesmo os resultados de desenvolvimento da criança. A depressão materna influencia negativamente alguns aspectos do comportamento e do desenvolvimento do bebê, principalmente em relação à dificuldade para acalmar-se, à irritabilidade e ao choro. 


As consequências mais extremas para um bebê que apresenta choro inconsolável são negligência e abuso, especialmente a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome), que por vezes resulta em danos cerebrais ou mesmo morte. 


O que pode ser feito?


O significado do choro inicial muito frequente, excessivo ou devido a cólicas na infância evoluiu: da crença de que era anormal ou indicava doença/disfunção para o reconhecimento de que o choro excessivo é parte normal do desenvolvimento do bebê humano. Os clínicos devem conscientizar-se da importância do choro para os pais, de como pode ser frustrante e de como pode afetar seu relacionamento com seus bebês.

Ao ajudar pais cujos bebês choram excessivamente, devemos garantir-lhes de que a maioria dos bebês que choram muito é normal, e de que o choro imprevisível, inconsolável, em geral desaparece espontaneamente depois das primeiras semanas de vida. Intervenções que visam consolar bebês que choram são apenas parcialmente bem sucedidas e não reduzem os surtos de choro inconsolável. É importante reconhecer também que diferenças no próprio som do choro podem afetar a reação do cuidador. Devemos ser particularmente sensíveis a cuidadores que vivenciam depressão ou outras experiências que podem alterar sua organização perceptual. 

Intervenções e informações de saúde pública devem ser rigorosamente avaliadas antes de serem recomendadas como técnicas para lidar com o choro de bebês. Deve-se tentar criar serviços eficazes, com boa relação custo/benefício, para atender às necessidades de famílias com crianças pequenas. 


Redução da Síndrome do Bebê Sacudido


A Síndrome do Bebê Sacudido é uma resposta extrema ao choro infantil. A redução na incidência dessa síndrome pode ser conseguida por meio de programas educativos de saúde pública oferecidos precocemente, até mesmo antes do nascimento do bebê, na tentativa de aumentar a compreensão dos pais sobre o choro normal, seus padrões na infância, e de que formas a frustração provocada por esse choro pode levar a reações inadequadas como sacudir ou machucar o bebê.


Percebo nesta abordagem uma certa resignação ou aceitação do choro dos bebes no começo da vida como natural. Mas fica uma certa apreensão sobre o risco de permanecer e significar algo mais grave , o que é exatamente a questão dos pais vivendo este momento. Vale a pena reforçar que é natural do bebe pequeno e que o choro não qualifica o cuidado materno e paterno. Vai acontecer independe da qualidade do cuidado. Mas é mais fácil de lidar quando os pais estão mais tranquilos. Novamente não se fala em medicação para lidar com esse choro !

Fica o alerta para sabermos nos afastar caso estejamos muito nervosos para aquela respiração aonde vou recitar o mantra:

- O adulto sou eu !


Laura Gutman tem uma abordagem interessante, do ponto de vista da psicanálise, sobre o choro do bebê: 

"Quando nascemos, esperamos encontrar fora do útero o mesmo conforto e ritmo em que vivemos nos últimos nove meses. Quando nascemos, passamos de um ambiente úmido a um ambiente seco. Muda a temperatura, mudam os sons. Sofremos uma forte mudança de postura, corporal, não estamos mais de cabeça para baixo e enrolados, e sim com as costas apoiadas em algo, sentindo a gravidade e talvez longe do contato corporal com nossas mães. Os bebês esperam estar no refúgio e conforto do corpo materno. A separação do corpo da mãe é uma situação difícil de confrontar. Os seres humanos contam com duas ferramentas indispensáveis para a sobrevivência quando bebês. O primeiro é o instinto de sucção. O outro é o choro, que serve para avisar à nossa mãe, que precisamos dela. Se compreendemos que o bebê não pode fazer nada por si mesmo, aceitaremos que se ele chora é porque precisa ser atendido. A pergunta que podemos fazer é se damos prioridade às necessidades de nossos bebês ou se colocamos em primeiro lugar as nossas próprias necessidades. Tenhamos confiança de que se o bebê recém nascido se sente atendido quando chama, ele vai construindo uma forte segurança interior, que vai facilitar as coisas cotidianas conforme seu desenvolvimento."

Esse talvez seja o texto mais difícil pois nos convida a estar presente no choro e , inclusive o nos observar durante o choro. Exercício este continuo nas funções materno-paternas.

Quando nos dispomos a cuidar de nossos bebês - além de é claro um olhar afetuoso para as necessidades básicas de cuidado, que dependem exclusivamente do adulto, como alimentar o bebê, mantê-lo limpo e amado - precisamos saber que entraremos em contato com as nossas próprias fraquezas e limites. E que o tempo-lugar do choro, do descontentamento aparente do filho, de um suposto sofrimento, pode ser exatamente onde nos encontraremos com elas. O que isso significa? O choro do bebê não será algo a ser resolvido sempre. Em muitas situações, o choro do bebê é algo para ser sentido, vivido. E como todo choro, amparado. Começamos a discutir formação de vínculos, nas suas alegrias e dificuldades.

Às vezes, diante do choro do bebê, esquecemos de executar as atividades mais simples. Um colo extremamente cuidadoso, palavras de carinho. Olhar nos olhos, oferecer o peito. Os pensamentos em busca de uma explicação para o choro ou uma solução para sair desse tempo-lugar de desconforto podem agir no sentido oposto desse amparo. E o bebê sente, e quanto mais desconfortável estiver, mais chora. E quanto mais chora, mais confirma a sua dor e a minha impotência e assim, estamos num imenso ciclo vicioso de frustração e dor.

Se mesmo alimentado, cuidado, amado e atendido o bebê segue a chorar, talvez seja momento de nos perguntarmos: o que EU estou sentido? Ao invés de tentar decifrar o bebê. E poder se afastar para se fortalecer para voltar com mais serenidade e confiança. "O adulto sou eu".

A chegada de um bebê na vida dos adultos revelará essas possibilidades de reencontro com nossas próprias necessidades, prioridades e frustrações além das deles próprios. Vamos lembrar que eles choram também o nosso choro, aquele que acreditamos, por ser ruim, não deixamos sair. A mágica seria conseguir compassar esses tempos e desejos, dos adultos e bebês, de forma afetuosa. 

Quando se trata de choro, do bebê ou do nosso próprio, estamos dispostos a apenas deixar sair e amparar? Qual o papel dos bons pais? Construir um mundo ao redor das crianças sem choro (ou sofrimento) ou ampara-los nas suas dificuldades acreditando na capacidade que cada um traz de lidar com as situações da vida ? Essa será a eterna (ou terna?) pergunta :

- Quando é hora de dar colo ou quando esta na hora de agir?

E vamos nos inventando e reinventando a cada dia nesta continua Jornada que é ser Pai e ser Mãe!

sábado, 5 de setembro de 2015

Babywearing desde quando?

Uma das perguntas mais freqüentes de mães de recém nascidos é desde quando podem colocar o bebê no carregador. A resposta é: desde sempre.




Nessa imagem vemos uma mãe colocando um bebê de apenas alguns dias num carregador. Ele vai se aninhando na posição vertical, que é considerada pelos profissionais que implementaram o método canguru como a posição ideal. A posição é barriga a barriga com a mãe, pernas abertas, pés fletidos em posição de sapo, amarrado gentilmente contra o corpo do adulto.

O bebê prematuro pode ser mantido o tempo todo nessa posição, pois o adulto é sua encubadora. Num bebê à termo, não existe essa necessiadade, mas não existe contra-indicação para o tempo de colo oferecido.

A ideia é que o binômio mãe e bebê esteja em sintonia o suficiente para que ambos explorem as vantagens do babywearing pelos espaços de tempo que lhes forem confortáveis.

A posição vertical é facilitadora da digestão e evita os refluxos uma vez que os ácidos do estômago permanecem por ali, coisa que quando o bebê é colocado deitado pode ser prejudicial. O costume antigo de "colocar para arrotar" está para além de fazer o ar engolido durante as mamadas sair pela boca do bebê. A posição vertical é recomendada também para a diminuição de gases e possíveis cólicas do recém nascido. 

Uma das maiores vantagens do babywearing sem restrição para recém nascidos é a proximidade ao corpo da mãe e seus impactos positivos na amamentação. O leite humano é altamente calórico, mas de baixa gordura e proteína se comparado por exemplo com o leite de um urso, que pode deixar seus filhotes em uma caverna por longas horas para caçar, graças ao seu leite gordíssimo. Nosso leite seria o equivalente ao leite dos animais como o macaco ou o canguru, animais que carregam seus filhos consigo. 

Com o bebê em contato, o corpo feminino está constantemente liberando ocitocina e fabricando leite, com a descida da prolactina. A mãe também é naturalmente encorajada a perceber os sinais mais sutis do filho, e o bebê recebe leite com mais freqüência. Maior estímulo, maior produção e simbiose dos ritmos naturais dos dois corpos recém separados ditam a tônica do carregar o bebê ao longo dos dias.

O carregador vai permitindo que o corpo do bebê atue em transição entre a mãe e o mundo. 



E até quando o bebê pode ser levado no carregador? A resposta é diametralmente oposta à premissa do texto: até quando mãe e filho quiserem. Não há limite de idade para que uma crianças seja carregada no colo por seus genitores e, ainda que o senso comum insista em frases de efeito sobre "mal acostumar com o colo", não há absolutamente nada na literatura científica que sugira algum tipo de malefício para quem passou a primeiríssima parte da vida suspenso em afeto.


***

No próximo sábado, dia 12/09 acontecerá o lançamento da edição em português do livro Besame Mucho de Carlos Gonzáles. Confira a programação do Espaço Nascente e venha participar!


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Retorno ao trabalho: e o sono do bebê, como fica?


Frequentemente ouvimos mães preocupadas com seu retorno ao trabalho e como será a reação do bebê que dorme sendo embalado ou amamentado. A verdade é que todas as crianças (e todas as mães) vivenciam um período difícil quando precisam separar-se por causa do trabalho. Neste artigo, seguem algumas dicas que levam em consideração o estado emocional de ambos, mãe e filho, para lidar com essa separação. 

Fatos importantes a serem considerados quando o retorno ao trabalho está próximo: 

1) O desenvolvimento do ser humano no primeiro ano de vida é extraordinário, cada fase, uma necessidade. 

O bebê triplica de peso no primeiro ano, se desenvolve em todos os aspectos (motores, cognitivos), começa a andar! Então, não se deve comparar um bebê recém-nascido com um de 4 meses, nem um bebê de 4 meses com um de 1 ano, por exemplos, pois serão praticamente outros bebês. 

Cada fase, uma necessidade: bebê novinho precisa muito de colo, aconchego, contato íntimo, amamentação em livre demanda. É da natureza dos bebês quererem colo de suas mães; na verdade esse é um ótimo hábito que foi desenvolvido em milhares de anos de evolução, pois os bebês que não demandavam atenção faleciam e, por isso, a seleção natural fez com que aqueles que viviam no colo sobrevivessem e esse gene foi passado adiante. Essas necessidades vão diminuindo conforme sua maturidade. 

A dica é aproveitar essa fase inicial, em que temos disponibilidade, e ficar com o bebê no colo, amamentar em livre demanda, sem privar o bebê do carinho e do colo de mãe que ele tanto precisa e tem direito. 

2) Os bebês são inteligentes e têm uma capacidade enorme de adaptação e de distinção de seus cuidadores. 

Eles podem reagir totalmente diferente com a mãe e com a babá ou com a professora do berçário (que eles sabem que não é a mãe). A capacidade e a inteligência dos bebês de distinguir seus cuidadores permite que eles criem modos de interação distintos com eles. Porém, é comum e esperado que o bebê demande sempre mais da mãe, porque sabe que pode, porque confia mais nela. 

Então, o bebê criará laços afetivos com o novo cuidador e eles se entenderão na nova forma de adormecer. E, no final do dia e à noite, de volta aos braços da mãe, o bebê pedirá mais carinho, mais afago, e muito provavelmente pedirá para mamar para adormecer, mesmo que não o faça com o cuidador durante o dia. Afinal de contas estarão com saudades e sabem que mamãe pode oferecer o peito e curtem estar nos braços de sua referência em amor e confiança. 

3) Não compensa promover separação prévia para ‘acostumar’ ou ‘preparar’ o bebê com o retorno ao trabalho. 

Não sofram por antecedência achando que têm de acostumar o bebê desde cedo a adormecer sozinho. Bebês não têm maturidade neurológica e compreensão para tal, então essa é uma expectativa irreal. Eles podem ter vários sentimentos e sensações que os perturbem durante a noite e precisam de nossa ajuda. Bebês demandam a mãe, mesmo no período noturno, e, especialmente, se ficaram longe dela durante o dia. A criança tem em sua mãe o referencial de segurança, estabilidade e afeto. 

Um bebê nunca fica ‘mal-acostumado’ por ter colo, embalo, acalanto, pelo contrário, precisam disso para continuar a se desenvolver. Revisamos isso em meu artigo anterior ‘A natureza do sono dos bebês’ (1). Portanto, não faz sentido promover um afastamento prévio entre vocês ‘pensando no futuro’; isso só acaba gerando sofrimentos desnecessários para ambos, mãe e bebê. Se a criança não tem colo quando pequeno, não tem no futuro, terá quando, então? Se seu marido tem uma viagem planejada para semana que vem, para ficar um bom tempo fora, você, para se acostumar com a ausência dele, já vai se preparando e deixa de dormir na mesma cama que ele, deixa de beijá-lo e de abraçá-lo? Ou faz o oposto e trata de aproveitar ao máximo os últimos dias antes da viagem? 

A questão, portanto, não é fazer o bebê 'se desacostumar' de colo, pois ninguém se desacostuma de uma necessidade física ou psicológica. A questão é, sim, ajudar o bebê a criar confiança em outro cuidador. 

4) "Treinar" ou condicionar o bebê a dormir sozinho vai contra sua natureza, e tem consequências. 

Condicionar o bebê a adormecer sozinho não vai ajudá-lo no próximo período de afastamento entre vocês, pelo contrário. Para ajudá-lo, é necessário que exista acolhimento e apego entre vocês, contínuo e íntimo, assim seu estado emocional vai se fortalecendo, ele se sente acolhido, importante e atendido, e vai lidar melhor com outras situações de separação. 

A maioria de planos de treinamento para bebês oferece o risco de dessensibilização dos sinais enviados, especialmente quando há choro sem consolo envolvido. Em outras palavras, ao invés de ajudar a descobrir o que os sinais enviados pelo seu bebê significam, esses métodos pedem que você os ignore. Nem você nem seu bebê aprendem nada de bom com isso. E, com a separação durante o dia entre vocês pelo retorno ao ao trabalho, a angústia do bebê tende a piorar (2). 

Um estudo recente mostrou que os bebês têm capacidade de prever respostas estressantes. Eles foram divididos em dois grupos, no primeiro as mães interagiam com eles continuamente, enquanto que no segundo bebês foram ignorados por elas por somente dois minutos. Os níveis de cortisol, hormônio do estresse, foram medidos após os experimentos. No dia seguinte, o grupo que foi ignorado teve níveis de cortisol mais elevados do que o grupo controle, provando que eles têm capacidade de antecipar o estresse (3). 

O cortisol em níveis elevados no cérebro do bebê pode ser corrosivo. O cérebro do bebê está em pleno desenvolvimento e a exposição desse hormônio por períodos prolongados impede a conexão entre alguns nervos e provoca a degeneração de outros. É possível que bebês que são submetidos a muitas noites de choro sem consolo sofram efeitos neurológicos prejudiciais que poderão ter implicações permanentes no desenvolvimento neurológico. Para ler um compêndio de artigos científicos sobre o tema cortisol e efeitos no desenvolvimento cerebral, veja a referência 4. 

É preciso ter senso crítico e usar de discernimento quando recebemos conselhos que prometem milagres. Esses métodos de condicionamento envolvem vários riscos; além dos efeitos neurológicos, podem criar uma distância entre você e seu bebê, e ele perde a oportunidade de construir confiança no seu ambiente. 

Algumas dicas práticas para mães preocupadas com retorno ao trabalho: 

- Busca de um novo cuidador: procure um novo cuidador que tenha disponibilidade emocional, que tenha chance de criar um laço afetivo com seu bebê, que tenha empatia e carinho, que o carregue no colo, não o deixe chorar e que o embale para dormir. Não é qualquer pessoa que tem preparo emocional para cuidar, acolher e maternar um bebê. É importante que ele se apegue ao novo cuidador, pois é dependente por natureza e precisa desse vínculo. A dependência natural é um fato biológico, e não resultado do excesso de mimo materno (5). 

Sendo creche, babá, parente ou outro cuidador, lembre-se sempre da disponibilidade emocional como requisito para cuidar de seu filho, pois não é simplesmente suprir suas necessidades físicas, mas é também dar amor, ter interesse e prover o afeto materno na ausência da mãe. Visite várias creches, procure locais onde dão colo, verifique se deixam os bebês o tempo todo em cadeiras, andadores ou outros aparatos. Se for esse o caso, é sinal que estão desprezando a importância do acolhimento emocional no início de vida do bebê que é tão crítico e fundamental para o resto de nossas vidas. 

Para a criança não é suficiente que lhe troquem as fraldas e lhe deem comida. O mais necessário e nobre alimento é o afeto, acompanhado de carinho, prazer e paz (6). 

- Envolvimento de outra pessoa no ritual de sono: encoraje o pai, por exemplo, a participar do ritual de sono do bebê desde cedo. Ele pode dar o banho e fazer uma massagem, por exemplo. Depois dos 3-4 meses, em média, se o bebê sempre adormece no peito, pode-se começar a alternar maneiras de adormecer para que ele não crie uma associação forte de sugar para dormir (7). Essa dica não é obrigatória considerando-se que os bebês têm capacidade de distinguir seus cuidadores (como citado no início do texto) e vai aprender a adormecer de outra forma com quem ‘não tem peitos’. Existem crianças que dormem mamando com suas mães em casa e na escolinha adormecem de outra forma com as cuidadoras, sem problemas. 

- Adaptação gradual: O bebê lidará melhor com essa separação se a adaptação for gradual, assim terá uma chance de criar um apego com o novo cuidador antes de separações longas de sua mãe. Para que o novo cuidador crie um bom apego com ele, criar chances de interação antes de deixá-los sozinhos é importante. 

Recomendo sempre que a mãe vá junto com o bebê e fique com ele no novo ambiente o tempo todo, pelo menos no início. Assim ele vai se familiarizando com o local, mas com a segurança de ainda estar sob os cuidados da mãe. Depois a mãe pode ir se afastando um pouco, gradualmente, enquanto dá a chance de o bebê se apegar à nova cuidadora. Porém, não há receita pronta, é questão de observar a criança e ter sensibilidade. A melhor qualidade que se pode esperar do cuidador é a empatia com o bebê. Novamente, oriente que lhe dê bastante colo, não o deixe chorar, mostre quais são os sinais de sono do bebê, deixe que ele durma as sonecas no colo para dar um consolo afetivo na ausência da mãe. 

- E se o bebê tem ansiedade da separação? 

Nos primeiros meses, a relação mãe e filho é altamente intuitiva, primitiva mesmo. O bebê não sabe que nasceu e acha que o corpo da mãe é continuidade do seu e que o seio que o alimenta e lhe dá carinho e prazer faz parte de um todo ao qual ele pertence. Então, gradualmente e após o sexto mês é que os bebês vão se dando conta de que são outros seres e essa percepção de individualidade fica mais clara e evidente. Assim, progressivamente, vai se estabelecendo o desenvolvimento psicoafetivo, motor, alimentar e cognitivo da criança (6). 

Algumas idéias práticas: 

Pratique separações rápidas e diárias 

Durante seus dias juntos crie oportunidades de expor seu bebê a separações visuais breves, seguras e rápidas (brincar de esconder o rosto e logo reaparecer é ótimo e eles adoram!). Incentive que seu bebê brinque com um brinquedo interessante ou com outra pessoa e, quando ele estiver feliz e distraído com o brinquedo ou com a pessoa, caminhe calma e lentamente para outro quarto. Assobie, cante, murmure uma canção ou fale, de modo que seu bebê saiba que você ainda está por perto, mesmo que não possa vê-la. Pratique essas separações breves algumas vezes ao dia numa variedade de situações diferentes. 

Evite a transferência de colo para colo 

É muito comum passar o bebê do colo de um cuidador para outro. O problema é que cria ansiedade na criança sair da segurança dos braços da mãe e ser fisicamente transferido para os braços de outra pessoa que lhe é menos familiar. Essa separação física é a mais extrema na mente do bebê. Para reduzir essas sensações de ansiedade faça a mudança com seu bebê num lugar neutro, como brincando no chão ou sentado numa cadeirinha, cadeirão de alimentação ou bebê conforto. Peça para o cuidador sentar do lado de seu bebê e interagir com ele, enquanto isso você fala um ‘tchau’ rápido, porém positivo, num tom feliz. Assim que você sair é um bom momento para o cuidador pegar seu bebê no colo, e a vantagem é que o cuidador vai ser colocado na posição de ‘salvador’ e isso pode ajudá-los nessa relação. 

Entenda a ansiedade de separação como um sinal positivo! 

É perfeitamente normal - até maravilhoso - que seu filho tenha esse bom apego e que deseje essa proximidade com você e sua presença constante. Parabéns! Isso é a evidência de que o laço afetivo que você criou desde o início está seguro. Se for o caso, ignore educadamente as pessoas que te dizem o oposto. 

Relaxe em suas expectativas de independência, isso certamente irá ajudar seu bebê a relaxar também e a ter menos ansiedade nos momentos de separação entre vocês (8). 

- Lembre-se, o acolhimento na infância tem resultado positivo na vida adulta! 

Uma pesquisa recente (9) revelou que a afeição maternal dada aos bebês torna-os adultos mais bem preparados para enfrentar os problemas da vida. Cientistas compararam dados das relações de afeto e atenção e desempenho emocional de bebês de 8 meses com suas mães. Essas pessoas foram acompanhadas e testadas aos 34 anos de idade sobre vários sintomas emocionais. Qualquer que fosse o meio social, ficou constatado que os bebês com bom apego emocional aos 8 meses tinham os níveis de ansiedade, hostilidade e mal-estar mais baixos quando adultos. Isto confirma que as experiências na primeira infância têm influências na vida adulta. 

D.W. Winnicot, um pediatra famoso que depois se tornou psicanalista diz que a capacidade de ser feliz de um ser humano depende, além de todos outros fatores, de um tempo (a infância até os seis anos, mas principalmente o primeiro ano de vida), e de uma pessoa (uma mulher, a mãe). Se a mãe não está presente, outro cuidador que entenda esses conceitos e que atenda as necessidades do bebê se faz necessário. 

É uma responsabilidade sim, de assustar! E é realmente intrigante que pessoas tenham filhos sem saberem nada disso, sem se darem conta da importância desse relacionamento profundo, do vínculo necessário que se forma nesse período, e quando as mães retornam ao trabalho fora de casa colocam cuidadores em seu lugar que somente cuidam da parte física (6). 

- Não ofereça mamadeira e nem desmame seu bebê: Com o retorno ao trabalho, muitas mães se preocupam porque os bebês não aceitam a mamadeira e tentam todo tipo de bicos e leites artificiais diferentes. Às vezes até mesmo o pediatra sugere o desmame. É situação comum bebês que rejeitam veementemente a mamadeira, isso é sinal de inteligência, pois a primeira reação da natureza é mesmo rejeitar outros tipos de alimentação que não o seio materno. 

Na verdade é um erro acreditar que o bebê precisa de uma mamadeira quando você retorna ao trabalho e que você deve acostumá-lo com antecedência. Se você treiná-lo a acostumar-se com uma mamadeira, o que provavelmente acontecerá é um desmame precoce por confusão de bicos. Sempre ouvimos uma história ou outra de bebês que não desmamaram, mas esse risco é grande e não há como prever, então é melhor prevenir e alimentar seu bebê com um copinho. 

Além disso, é preciso citar que, mesmo com a oferta de leite materno ordenhado em uma mamadeira, muitos bebês rejeitam. Dr. González (10) explica esse fenômeno: 

“E a razão é que os bebês não são bobos. Se a mãe não está em casa e a avó vem com uma mamadeira (ou melhor ainda, com um copinho para evitar confusão de bicos), duas coisas podem acontecer. Primeiro, se o bebê não estiver com fome, ele provavelmente não aceitará nada. Ele vai compensar isso quando a mãe retornar. Muitos bebês dormem a maior parte do tempo quando estão distantes das mães, e então vão mamar à noite. A outra possibilidade é, se o bebê estiver com fome (e especialmente se tiver leite materno na mamadeira), ele poderá tomá-la e pronto. E ele deve estar pensando: ‘Bem, ela não está aqui, então é isso que eu tenho que fazer’. Mas se a mãe está em casa e o bebê pode ver e sentir o peito, como ele vai aceitar um copinho ou mamadeira? Ele deve pensar: ‘Minha mãe deve estar louca, ela tem o peito aqui e quer me dar essa geringonça?’ E ele insiste: ‘É o peito ou nada!’ ” 

Se o bebê é novinho e não há possibilidade de ordenha de leite materno, pode-se tentar uma alimentação mista, com a mãe amamentando antes e depois do trabalho e o bebê tomando leite artificial durante o dia. Muitas mães encontram soluções satisfatórias melhores que oferecer leite artificial: algumas levam seus bebês para o trabalho (se o ambiente permite), outras trabalham meio período, algumas conseguem que o bebê seja levado a elas para serem amamentados, outras ordenham e estocam seu leite. Se o bebê já tiver mais de seis meses de idade, pode-se planejar que o bebê se alimente de comida na sua ausência, embora há de se ter cautela se forem os primeiros alimentos. 

A amamentação é parte essencial da vida do bebê até 2 anos no mínimo e auxilia na separação parcial entre mãe e filho quando ela retorna ao trabalho fora de casa. Pode-se planejar ordenha de leite materno e continuação da amamentação nos períodos que mãe e filhos estão juntos. O desmame junto com o retorno ao trabalho pode ser bem traumático para o bebê (10): 

“Quando você sai para o trabalho (ou quando sai com o cachorro), o seu bebê não sabe onde você está e quanto tempo você vai demorar. Ele ficará muito assustado e chorará como se você fosse deixá-lo para sempre. Vai levar alguns anos até que seu bebê seja capaz de ficar longe de você sem chorar e antes que ele entenda que a ‘mamãe vai voltar logo’. Toda vez que você voltar, vai abraçá-lo, amamentá-lo e o bebê pensará: ‘outro alarme falso!’. Mas se você retornar ao trabalho e tentar desmamá-lo abruptamente e ao mesmo tempo, quando você volta do trabalho, o bebê pede para mamar e você recusa, o que o bebê irá pensar? ‘Ela me abandonou porque não gosta mais de mim.’ Esse é o pior momento para o desmame.” 

- Então como fica a alimentação do bebê? Se você volta a trabalhar quando o bebê tiver menos de 1 ano, planeje com antecedência como ordenhar (alugue ou compre uma bomba elétrica), estocar e oferecer o leite materno para o bebê. Veja orientações na referência 11. Use um copinho ou mamadeira-colher para oferecer o leite ordenhado e não mamadeira. Se ele tiver mais de 1 ano, pode alimentar-se de sólidos e mamar quando estiverem juntos. 

- Tenha mente aberta para cama familiar: Alguns bebês passam a mamar à noite com mais frequência para compensar as mamadas perdidas durante o dia quando a mãe volta a trabalha fora. Isso é chamado ‘amamentação em ciclo reverso’ e é um mecanismo de sobrevivência de nossa espécie. Nesses casos, praticar cama compartilhada e amamentar deitada pode ajudar a saciar as necessidade do bebê ao mesmo tempo em que os hormônios da amamentação auxiliam mãe e bebê a adormecerem novamente (12-14). O bebê fica mais tranquilo ao saber que, mesmo passando o dia todo longe da mãe, à noite estará com ela. A proximidade com o corpo materno sintoniza as pautas de sono do bebê com as da mãe e regula o seu nível de excitação, temperatura corporal, o ritmo metabólico, níveis hormonais, ritmo cardíaco, respiração e sistema imunológico, pois o efeito anti-estresse do estreito contato físico libera ocitocina, que fortalece o sistema imunológico do bebê (12-15). 

Nem todas as famílias adotam cama compartilhada por receio de ser difícil conseguir que a criança durma sozinha depois. A reflexão aqui é de que as necessidades mais intensas de proximidade se dão na primeira infância: bebês têm necessidade de proximidade com a mãe (15) e a cama compartilhada responderia a essas necessidades. Mais tarde, seria um outro momento, com o bebê com outra cognição, maturidade e evolução. 

Se a criança dorme longe dos pais à noite, fica longe durante o dia e, principalmente, se o bebê não mama mais no peito (portanto não tem o contato íntimo da amamentação), precisa de alguma compensação afetiva e se beneficiaria da proximidade da cama familiar. O mesmo acontece se o bebê estiver em processo de angústia da separação, que se inicia entre 6-8 meses e vai até 2-3 anos, com altos e baixos. 

Quando os bebês sinalizam que precisam de contato corporal com os pais, mostrar empatia, entender e acolher é excelente, pois a criança que se recusa a dormir pode estar precisando de mais contato corporal com o pai e a mãe. É uma necessidade primitiva da criança ter contato íntimo com a pele do corpo de outra pessoa enquanto adormece, mas isso se choca com todas as regras culturais que exigem que as crianças durmam sozinhas (16). 

- Procure seus direitos de licença maternidade de seis meses, negocie com o chefe, tire férias junto com a licença, adie alguns planos, trabalhe meio período, procure um emprego mais flexível, procure trabalhos que possa fazer em casa. 

Esses dois meses a mais fazem toda a diferença para a criança: a amamentação exclusiva por 6 meses diminui o risco de alergias (17), dermatite atópica (18), asma (19), infecções gastrointestinais (20), doenças contagiosas (21), otite média, infecções respiratórias agudas, gastroenterite, infecções urinárias, conjuntivite e candidíase oral (22). A introdução de alimentos aos 6 meses é feita na hora ideal, quando o bebê já tem capacidade fisiológica para assimilar os alimentos novos (23). Muitos bebês têm reações indesejadas com a introdução de alimentos antes dos seis meses, como prisão de ventre, refluxo, cólicas e é claro que tudo isso atrapalha o sono. Se não tem outra solução, invista na ordenha, estoque e oferecimento de leite materno para o bebê até os 6 meses. Veja na referência 11 como ordenhar e estocar o leite materno e utilize um copinho ou mamadeira-colher para oferecer ao seu bebê. Muitas mães que trabalham podem e devem investir na amamentação exclusiva por 6 meses e esse trabalho todo compensa. 

- Lidando com a separação: entenda a reação do bebê e mostre empatia (apesar do cansaço): sua volta ao trabalho e afastamento é algo bem complicado para um bebê, porque é você a mãe dele, você é insubstituível da forma que você é para seu filho. Outros cuidadores irão criar vínculos afetivos com seu bebê, mas a mãe tem outro peso. Entenda a amamentação em ciclo reverso como uma forma de compensação afetiva. Entenda e acolha as necessidades do bebê (que são simples, mas são intensas, de muito contato íntimo, colo, peito). Esse acolhimento é essencial para o desenvolvimento de sua autoestima no futuro. 

O padrão de sono do bebê com outro cuidador pode mudar e essa mudança pode interferir no sono noturno. O bebê cansado (caso não tire boas sonecas na escolinha, por exemplo) está secretando mais cortisol, que causa agitação fisiológica, irritação e dificuldades de adormecer. A exaustão é contraproducente com o sono, pois quanto mais exausto, mais lutará contra o sono e mais acordará à noite. Se as sonecas estão muito curtas na escola é comum que o sono noturno também seja influenciado. Orientar as cuidadoras a esticarem as sonecas, explicar a importância das sonecas durarem pelo menos 1 hora para serem restauradoras, usar algum barulho estático ao fundo para ajudar nas sonecas são atitudes que você pode tomar. 

Dra. Andréia K. Mortesen, neurocientista 

Publicado originalmente no Guia do Bebê, do UOL, em 9/11/2010 




sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Colo dos pais condiciona emoções do bebê


Contato carinhoso diminui problemas como ansiedade e até depressão
POR MINHA VIDA - UOL

Desde cedo, a sensação que ele desperta é do maior acolhimento, proporcionando conforto e segurança capazes de aliviar sofrimentos, estimular a delicadeza e a troca sincera de afeto. O carinho dos momentos em que a criança passa no colo da mãe e do pai permanece na memória para a vida a toda, mesmo que esta recordação não apareça com imagens na lembrança - trata-se de uma sensação armazenada na memória do corpo e que funciona como um analgésico poderoso para os momentos difíceis ao longo da vida.
 
Um estudo feito pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Havard (Estados Unidos) descobriu que bebês e crianças que tinham esse tipo de contato com os pais eram adultos mais protegidos contra ansiedade e doenças como depressão. Os resultados foram publicados no periódico The Harvard University Gazette. Os benefícios, no entanto, são bem mais numerosos do que você pode imaginar quando fecha os olhos e esquece tudo redor para abraçar o seu filho bem juntinho, os especialistas revelam tudo.

Deixa o bebê tranquilo

Os bebês sentem-se em casa no colo da mãe ou do pai, pois ainda guardam uma semelhança com a sua posição e proteção intrauterina. "Isso ajuda a diminuir o choro e deixar o bebê menos estressado, principalmente no caso de um recém-nascido que precisa passar um tempo na UTI (e longe da mãe) logo ao nascer", diz a pediatra e neonatologista Camila Reibscheid, do Hospital São Luiz, em São Paulo. "Dar colo para o bebê durante a noite também pode ajudá-lo a ter um sono melhor e mais tranquilo."

Melhora a digestão

Segundo o pediatra Vanderlei Wilson Szauter, do Hospital e Maternidade São Cristóvão, em São Paulo, o bebê fica mais tranquilo no colo da mãe, e isso faz com que todas as funções fisiológicas funcionem melhor. "Os movimentos intestinais da criança são impulsionados com o calor do corpo da mãe, fator que pode inclusive prevenir as cólicas", afirma.

Alivia as cólicas

Se o bebê começar a sofrer com cólicas, uma das alternativas é colocá-lo para amamentar ou então apenas mantê-lo junto do corpo. "O calor do colo aquece a barriga do bebê e relaxa sua musculatura, diminuindo a dor", afirma a pediatra Camila.

Melhora o desenvolvimento dos sentidos

A proximidade com a mãe ou com o pai faz com que o bebê desenvolva com mais facilidade suas funções cognitivas e os sentidos como visão, audição e tato. "Ouvir os batimentos cardíacos e a voz da mãe ou do pai, sentir a pele da e manter o contato visual faz com que a criança exerça seus sentidos, que se desenvolvem com mais facilidade", diz Camila Reibscheid.

Diminui qualquer tipo de dor

Uma pesquisa feita pelo Departamento de Pediatria da Unifesp e publicada no periódico da Universidade constatou que o colo da mãe pode diminuir a sensação de dor que o bebê sente em intervenções doloridas, como uma vacina.

"Isso acontece porque existe uma área do cérebro que é ativada quando se recebe carinho, liberando descargas elétricas aptas a diminuir a sensação de dor", afirma o pediatra Vanderlei. "O simples contato com a pele da mãe já pode ajudar a atenuar qualquer sensação dolorosa."

Ajuda no desenvolvimento de bebês prematuros

De acordo com os especialistas, é muito comum em hospitais existir o método "mãe canguru" ou "pele a pele" para bebês prematuros, que precisam ficar na UTI. Nesse sistema, os pais podem entrar na UTI e entrar em contato com o bebê que está dentro da incubadora, tocando na pele da criança pelo tempo acordado com o médico. "Se o bebê estiver em condições clínicas estáveis, os pais poderão fazer a posição canguru, que consiste no bebê ficar em contato direto com o peito nu do pai ou da mãe", explica a pediatra Camila. "Isso ajuda a acelerar o metabolismo do bebê, contribuindo para o seu crescimento e ganho de peso, tão importantes para o bebê prematuro." 

Previne doenças no futuro

"O colo faz com que a criança se sinta mais segura de si, mais acolhida, e é essa segurança que vai fazer com que ela amadureça mais rápido", afirma a pediatra Camila. De acordo com a especialista, dar colo para o bebê e para a criança mostra que ela está cercada de proteção. "Isso faz com que ela amadureça e crie coragem para encarar a própria vida no futuro sem medo ou insegurança", diz. De acordo com os pesquisadores de Harvard, o estresse precoce resultante da separação e da falta de colo causa mudanças no cérebro infantil, tornando-os adultos mais suscetíveis a doenças como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.  

Fonte: http://aleitamento.com/noticias/conteudo.asp?cod=1723
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cólica: a “dor de parto” do bebê

 

Um relato sobre como lidamos com as cólicas do pequeno Miguel
Por Michelle Prazeres*


Miguel começou a ter cólicas com três semanas de vida. O comportamento era característico: pernas se mexendo freneticamente, choros sem fim, irritação, mamadas interrompidas, sono que não vinha nunca. Todos os dias, pontualmente às 18h, a crise começava. E pontualmente às 23h ela ia embora. 

Durante as crises, eu e o papai Fernando fazíamos de tudo: mudávamos as posições, fazíamos bolsa de água quente, dávamos banho, tentávamos entreter o pequeno... nada funcionava. Só o relógio. Quando dava a hora de terminar, ela passava.

Passamos uma semana bem desesperada. E lembro que o desespero aumentou quando ouvi do Cacá: “Quem descobrir a causa e uma cura para a cólica do bebê, fica milionário”. O bebê passa por estas dores, porque seu organismo está se adaptando ao mundo humano. Neste sentido, seria como as dores do parto para as mães. Uma dor necessária, um rito de passagem. Segundo o próprio Cacá, quando sai da barriga, o bebê sai de um estado de divindade e precisa virar humano. Achei linda esta explicação. Mas na hora da dor de cabeça e do cansaço por conta das crises, a gente só queria que tivesse um remedinho...

Tentamos a funchicórea. Tomei regularmente, a cada quatro horas, diariamente, até as crises passarem. Mas sabia que toda tentativa de medicamento era mais no sentido de me tranqüilizar, por sentir que estava fazendo o que podia, do que efetivamente para fazer algum efeito no pequeno Miguel. Cheguei também a oferecer o dedo mindinho para sucção, que o acalmava. Por alguns segundos, até a crise voltar a falar mais alto...

Conexão: alimento, contato e comunicação

O que buscamos como solução tem a ver com o modo como pensamos a dor em nossa sociedade. Em geral, não buscamos o motivo da dor e a enxergamos como um sintoma que deve ser calado, curado. Mas a dor quer nos dizer algo. E a arte de lidar com as dores é justamente a de entender o que ela quer nos dizer. Lembro de ter lido no livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, uma psicóloga argentina fantástica, sobre as dores e seus motivos.

As dores de cólica não nos diziam, mas nos gritavam que precisávamos nos comunicar com nosso filho, estabelecer diálogo com ele, nos conectarmos. Buscamos então, uma conexão menos pragmática e mais emocional conosco mesmos e com nosso bebê.

Nos demos conta de que durante o primeiro mês de vida do Miguel, ficamos dando conta de demandas. Trocas, banhos, dormidas, mamadas: tudo era encarado como algo a ser resolvido. Nos demos conta de que estávamos vivendo uma experiência muito racional com a chegada do bebê, preocupados, claro e sempre, com o bem estar dele e com sua saúde. Eu e Fernando tivemos que fazer o exercício de nos vincularmos ao nosso bebê, nos conectando também com nosso lado mais “selvagem”, com nossa experiência emocional.

E para isso, precisávamos de tempo. Tempo sozinhos com nosso filho. E especialmente tempo JUNTO com o bebê.

Então, mudamos a sintonia. Começamos a encarar cada um destes momentos (que eram das “demandas”) como instantes de interação, vivência e conexão com nosso filho. E buscamos viver nossa vida com o menor grau de intervenções externas possível.

Optamos por um “pacote” que pensamos que ia nos ajudar neste sentido. Em lugar de deitar ele no berço, no carrinho ou no bebê conforto para dormir, mantivemos ele em nosso colo sempre que possível. À noite, estamos até hoje na cama compartilhada; passamos a usar os carregadores (slings) durante boa parte do dia, inclusive dentro de casa; aumentamos as vezes em que damos banhos de balde ou mesmo banhos de bacia, banheira e chuveiro, mas banhos com o intuito de relaxar o bebê e nos aproximar dele, não necessariamente banhos de higiene.

Além disso, fizemos um curso de shantala e começamos a fazer as massagens diariamente. Isso tudo sem contar, claro, a amamentação, estabelecida desde o começo por nós como um ritual de amor e de carinho da família. Na hora da troca, buscávamos contato com o corpo do bebê (no frio de São Paulo, isso demandou um investimento em um aquecedor...) e, sem pressa, interagíamos, brincávamos com as partes do corpo, pezinhos, mãozinhas, barriga... isso fez com que nossa experiência ficasse mais deliciosa. Passamos a curtir nosso filho e não mais a encará-lo como um serzinho que demandava de nós todo o tempo. Passamos a brincar com ele, a interagir, a nos conectarmos com ele e entre nós, na nossa família.

Hoje, fazemos a leitura de que nosso filho, com as crises de cólica, além de se adaptar ao mundo dos humanos, nos dava um recado. O de que precisávamos chegar mais perto. Ficar mais juntos. Sentir nosso calor. Um do outro. Ele o nosso e nós o dele também.

O Cacá nos advertiu também de que o comum, quando temos qualquer problema com o bebê, é nos afastarmos e procurarmos uma solução externa para o problema, seja ela uma mamadeira, uma chupeta ou um remédio, entre outras coisas.

Nós vimos que a solução está o mais dentro de nós possível: no peito, no colo, na voz, no cheiro, no calor. A nossa solução estava na nossa permissão para deixarmos de lado o controle, nos entregarmos à experiência da maternidade/paternidade e entrarmos em contato com nosso lado mais selvagem, mais puro, mais próximo do nosso filho. E de experimentarmos isso juntos.

Claro que não existe fórmula. E que outras crises de cólica virão. E eu não sou a pessoa que vai ficar milionária porque descobriu a solução e a causa das dores. Mas se posso deixar um recado a partir de nossa experiência eu diria para mamães e papais conversarem com seus filhos, buscarem entender o que as dores querem dizer. E buscarem estar a sós, a família, para encontrar, dentro de cada um e em contato com o outro, um estado de harmonia. Este estado deve fazer do bebê um ser humano mais feliz, mais tranqüilo e mais confortável para chegar a este mundão.


* Michelle e Fernando são pais de Miguel Prazeres Gameiro, que nasceu de parto normal humanizado em São Paulo, na maternidade São Luiz, no dia 28/04/2011, às 22h59, pesando 3kg735g e medindo 51cm, depois de 21 horas de Trabalho de Parto ativo. Era a 39ª semana de gestação pela ultrassonografia e a 40ª pela DUM.
 
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Por que deixar chorar até que se durma realmente funciona? - ou "CÉUS! PARI O DARTH VADER!"

 

A mãe passou 9 meses sonhando com a chegada do filho, preparando o ambiente para recebê-lo. Comprou um berço lindo, seguro e confortável, pronto para aquecê-lo quando chegasse, onde ele dormiria como anjo em suas sonecas diurnas e no longo e profundo sono noturno. Providenciou um pijaminha quentinho, que o ajudaria a dormir mais relaxado. Ganhou CDs de músicas para bebês, que sonhava em colocar para embalar o sono da cria.
Ela sonhava com uma rotina pós-nascimento linda: banhos de sol todos os dias (já reparou como nos sonhos não chove?), mamadas frequentes e abundantes, brincadeirinhas fofas, beijos, abraços, muito amor, o banhinho de fim de tarde, o pijaminha quentinho, o embalar para dormir, a música tranquila, a mãe cantando uma suave canção de ninar enquanto embala docemente seu bebê que, aos poucos, fecha os olhinhos e simplesmente dorme. Sonho perfeito: o bebê relaxa, dorme, tranquilo e feliz, até o dia seguinte, enquanto sua mãe aproveita o horário noturno para um tratamento de beleza, um retoque nas unhas, um livrinho bacana, um filme divertido, um estudo mais profundo ou um chamego com o companheiro.
Então, enfim, chegou o bebê.
E, junto com o bebê, chegou a vida real, pra acabar com tudo.
Tchau, sonho, um beijo pra você!
Por que raios a vida insiste em se meter nos nossos sonhos?! Nunca dá muito certo isso.

E então os planos não saem bem como o esperado e, de repente, o bebê não quer dormir.
Ele simplesmente quer ficar acordado com sua mãe, em seu colo quente e confortável, porque, afinal, ela é seu porto seguro e ele ainda não sabe que depois do dormir vem o acordar, que o devolverá a mãe que o sono levou. Ele sabe, apenas, que "DORMIU = SEPAROU".
Com a recusa do bebê em dormir, lá se foi para a Terra do Nunca o sonho feliz de Pollyanna.
Polly - vou chamá-la carinhosamente, porque acredito que ela habite em quase todas nós, ainda que se esconda bem - começa a se questionar sobre o que está fazendo de errado.
Será que mamou demais?
Será que mamou de menos?
Será que é a fralda?
Cólicas?
Coceira?
Dor em algum lugar?
Ansiedade?
Será um "bebê high need"? - não gosto muito desse nome, mas voilá.
"O que está acontecendo com meu filho?!"
Então, aquela amiga super experiente em assuntos de maternidade, ao saber que o filho de Polly não quer saber de dormir no horário e na rotina estabelecida (no sonho), que não quer saber de se comportar e de aceitar a rotina da família, prepara sua voadora, pega impulso, sai correndo e PÁ!, acerta em cheio, com os dois pés, o peito cheio de leite de Polly. E dispara (sem nem que alguém tenha pedido sua opinião): "Polly, amiga, meus filhos dormiam a noite IN-TEI-RI-NHA! Isso é MANHA, minha filha. Você precisa ensinar esse menino a dormir!".
E então, Polly se sente ainda pior...
Outras amigas, na tentativa de ajudá-la (todo mundo quer ajudar), também palpitam: "Polly, amiga, esse menino está te manipulando! Está de manha, de birra! Você não pode ceder, com o risco de estar criando um pequeno tirano".
Além de se sentir culpada e de pegar trauma da palavra "amiga" dita logo após seu nome, Polly entristece...
Puxa vida, com que facilidade seu bebezinho se transformou de um bebê normal em um manipulador de adultos! Será mesmo seu filho um pequeno tirano? Um serzinho perverso? Que usa de manhas e artimanhas para manipulá-la? Que fica confabulando sobre qual a melhor estratégia para manipular a tonta da mãe?
Polly entra em crise:
"Céus! Terei parido Darth Vader?!"
Polly se deprime...
Passa a achar que seu filho não é "como os demais", afinal "os demais" (os de suas amigas) dormem a noite toda. De duas uma: ou ela está fazendo alguma coisa errada mesmo, ou terá que admitir: pariu o rei do lado negro da força. Um bebê indisciplinado, manhoso, birrento, manipulador.

Polly então começa a busca por aprender a fazer o filho dormir. E descobre que existem algumas técnicas divulgadas em livros que GARANTEM que o bebê dormirá facilmente em poucas noites.
Polly ouve e lê alguns comentários sobre esses livros, gente dizendo que "Funcionou! É um milagre!", enche-se de esperança, o compra, lê e começa a "domar o seu bebê", no melhor estilo "Como domar o seu dragão".
Então ela aprende que tudo bem deixar seu bebê chorar até aprender a dormir porque, afinal, "por trás de um filho que dorme tranquilo, há uma mãe que dorme tranquila". Polly já tinha ouvido algumas mulheres falando sobre os prejuízos de se deixar chorar para que se "aprenda" a dormir. Gente que pesquisava sobre o assunto e que sabia da existência de muitos trabalhos científicos comprovando os prejuízos do choro como forma de treinamento. Mas Polly não as conhece, como pode dar ouvidos a gente que não conhece?

"E essa história de ciência, vocês vão me desculpar, mas isso não serve pra cuidar de filho, não. E olha: até aquela grande revista já mostrou que não tem problema deixar criança chorar. Até parece que essa mulherada vai saber mais que essa revista, né? Estou tranquila, estou respaldada, vou continuar com meu plano. Afinal, o doutor pedí diz aqui no livro que é infalível e minha amiga disse que funciona, que é um milagre!".

Então Polly começa a colocar em prática o método de treinamento.
Mas aí acontece algo pelo qual ela não esperava: ela não se sente bem.
Não se sente bem porque aquilo, para ela, não parece natural.
Não faz sentido, considerando seus próprios valores, fazer um bebê "aprender" com base no choro. Porque o choro, oras, é um sinalizador de que algo não está bem! Como ignorá-lo? Ler é uma coisa, fazer é outra. Dói em seu coração saber que seu bebê está chorando na tentativa de mostrar que precisa dela, e ela não o atender.
Então Polly decide abandonar as regras ditadas e seguir seu coração.
Vai até o berço, olha para seu filho e sente: não, você não é Darth! Vem com a mamãe, Luke!
O pega com carinho, o aninha em seus braços, junto ao seu peito, e dá seu colo a ele. E então, Luke para de chorar...
Luke queria o colo da mãe, a presença física da mãe, seu calor e as batidas do seu coração. Nesse momento, Polly percebe que, ainda que Luke não durma no horário que ela havia planejado, nem da maneira como havia pensado, uma coisa valiosa acontece: ela está tranquila com sua decisão.
 
Aquela velha história de "o caminho escolhido tem um coração?"...
E por trás de uma mãe tranquila com sua decisão, há, com certeza, um bebê tranquilo.
Polly, então, passa a rever o seu percurso e chega à conclusão de que o erro estava no sonho. Porque embora fosse um sonho lindo, ele pecava em um ponto: desconsiderava totalmente o próprio bebê e sua personalidade. Em nenhum momento se pensou que aquele bebê não conhecia a rotina do lar onde ele chegou, como acontece exatamente com todos os bebês. Ele poderia se adaptar. Ou não. E o fato de se adaptar rapidamente não o torna um super bebê expert pró-master versão uploaded. Ou, ao contrário, o fato de não se adaptar não faz dele um bebê-problema.
Ele apenas é assim. Não quer dormir, quer ficar com a mãe, quer colo. Eu o entendo: colo de mãe é mesmo coisa boa demais.
Mas como é que fica aquele papo de que deixar chorar até que durma funciona mesmo?
Se funciona?
Claro que funciona!
Funciona sim.
E eu vou te explicar porque funciona.
Para isso, façamos algumas analogias.
  1. Um amigo seu pede para que você faça um grande favor a ele, coisa que vai demandar tempo, esforço e deixar suas próprias coisas de lado para ajudá-lo. Você faz de bom grado. Terminada a tarefa, seu amigo dá tchau e vai-se embora, sem sequer agradecê-la ou abraçá-la. Qual a chance de você ajudá-lo novamente?
  2. Você conquista uma grande vitória no trabalho, chega em casa animada, feliz, e compartilha com seu companheiro a sua alegria. Conta tudo, nos mínimos detalhes. Assim que termina de contar, seu companheiro diz: "Dá um passinho pro lado, por favor? Tá passando Palmeiras e Santos". Qual a chance de você fazer a mesma coisa no dia seguinte, e no outro, e durante toda a semana?
  3. Uma amiga querida combina de te ligar para um café, já que faz tempo que quer te reencontrar. Ela liga uma vez, liga duas, liga três, liga quatro, liga cinco, mas você nunca pode. Qual a chance dela continuar tentando?
  4. Um aluno de 8 anos, em meio à aula, cria coragem e levanta a mão para fazer uma pergunta à professora. Ele pergunta e, na sequência, a professora vira as costas e continua falando sobre o que estava falando antes. Qual a chance dessa criança perguntar novamente?
  5. Você votou em um candidato político. Durante seu mandato, ele foi condenado pela justiça, teve seu impeachment decretado e ficou sem poder se candidatar por anos, por ter roubado uma imensa quantia de dinheiro que era destinada para projetos que ajudariam a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos brasileiros. Qual a chance de você votar nele novamente? (Ok, Brasil, pule para a próxima questão, não precisa responder...)

Ok. Acho que deu pra entender a semelhança em todos esses casos, não?
Sabe por que a chance de que esses mesmos comportamentos aconteçam novamente é mínima?
Porque aconteceu o que chamamos de EXTINÇÃO do comportamento.
A extinção de um comportamento acontece quando uma resposta deixa de ser reforçada, ou seja, quando há OMISSÃO do reforço. No caso do aluno de 8 anos que fez uma pergunta, por exemplo, o reforço para que ele continuasse participativo e interessado seria a professora ter dedicado atenção e empatia para responder ao seu questionamento. Como o reforço não aconteceu, então aquele comportamento tende a ser EXTINTO. Ou seja, é um procedimento eficaz para obter a diminuição gradual de algo. "Ahhh, olhaí! Viu?! Então, se eu quero que meu filho pare de chorar e aprenda a dormir, o processo de EXTINÇÃO do comportamento, por meio de não acalentá-lo, não pegá-lo no colinho, está certo mesmo! Ele vai parar de chorar e, enfim, irá dormir!".
Calma, amiga, ainda não terminamos. É preciso saber tudo sobre o processo...

Volte aos exemplos de 1 a 5 e responda: o que terá sentido aquela pessoa cujo comportamento não obteve resposta e que, provavelmente, também será extinto?

Como essa pessoa se sentiu? O que sentiu no momento em que a resposta que ela esperava que acontecesse, não aconteceu? É bom esse sentimento? Ele dá origem a boas coisas?

Como você se sentiu quando seu amigo não te agradeceu ou abraçou e como ficou sua relação com ele depois?

Como você se sentiu quando seu companheiro ou companheira não te deram o retorno emocional que você esperava nesse momento importante da sua vida? Será que rolou um DR depois?

Como será que sua amiga se sentiu - ou se sente - sabendo que você não consegue destinar um tempo a ela?

Como se sentiu o gurizinho de 8 anos quando a professora virou as costas à sua dúvida?

Como você se sentiu quando o seu candidato te roubou, e aos seus amigos, e aos seus filhos, e àqueles que passam dificuldades?
Não. Não são bons sentimentos...

Essa é a dimensão do problema.
Se deixar chorar funciona? Claro que funciona. Um comportamento realmente se extingue quando a resposta esperada não vem. Quando um bebê chora por algumas horas, por alguns dias, querendo o colo da mãe e a mãe, porque está colocando em prática um método que promete salvá-la, não dá aquilo que o bebê pede, ele tende a parar de chorar mesmo.
Agora, como será que ele se sente? O que te faz crer que a frustração e chateação que você sente quando não recebe resposta é diferente da dele?
Onde entra a Regra de Ouro nessa relação? Aquela, que sugere que tratemos os outros da maneira como queremos ser tratados (sádicos, vão dar uma voltinha agora, essa pergunta não é para vocês).

Os métodos baseados na extinção do comportamento realmente são válidos. Quase sempre.
Mas será mesmo que devem ser utilizados sempre, como um "guia"?
Pollyana não conseguiu. Ela se sentiu ferida por imaginar que os sentimentos do seu filho também poderiam estar sendo feridos.

Nesse método baseado em tentar extinguir o comportamento de chorar daquele bebê, podem acontecer alguns problemas, totalmente previstos pela teoria psicológica.

Um exemplo: se a mãe decidiu (mesmo que ela mesma esteja sofrendo com isso) ignorar o choro, ou não pegá-lo no colo, deixando o bebê chorar até que durma, mas o pai não conseguiu, ou a avó, ou a amiga, ou qualquer pessoa por perto que se sentiu aflita com o choro, e essa pessoa invadiu o quarto e pegou a criança no colinho, PREVEJA O EFEITO DISSO. A criança sabe que pode ser acalmada por um colinho, a família sabe que pode acalmar o bebê com o colinho, e o bebê sabe quem deu e quem não deu o colinho. E se você acha que, assim, está criando um tirano: desculpe, mas não é ele quem está no lado negro da força. Não acho muito coerente demonizar as crianças quando somos nós quem estamos negando acolhimento para que "aprendam o que queremos que aprendam, com base no nosso sonho ilusório".

Outra questão: a própria teoria afirma que, em algumas situações, pode ser cruel privar aquele indivíduo da atenção da qual precisava - e o CHORO é uma dessas situações. Porque o choro é um claro sinalizador de que algo não vai bem, indica dor, sofrimento emocional ou outra necessidade. Se uma criança está chorando e já é possível dialogar com ela, então que façamos isso. Mas um bebê tem no choro sua principal forma de comunicação. Não parece muito razoável que os ensinemos a deixarem de se comunicar quando precisam de algo, não é?

Uma última questão: o método da extinção do comportamento apresenta mais um ponto delicado. O processo de extinguir um comportamento (em nosso caso, o choro que antecede o dormir sozinho) pode produzir agressividade. Ah vá, que ninguém te contou?!

Por agressividade não estamos considerando somente a violência em si, mas a amplificação do comportamento que se quer extinguir. Ou seja: se o bebê foi deixado chorando, com a esperança de que, omitindo o acolhimento físico, ele vá se acostumar e finalmente dormir, esteja preparada para o fato de que ele pode, SIM, chorar ainda mais, no lugar de simplesmente dormir. Essa é uma situação prevista pela teoria.

É isso.
Se o método funciona?
Claro que funciona.
Ele para de chorar por extinção do comportamento e, com o tempo, dorme sem chorar - ainda que sua mãe não o embale - por condicionamento. A mãe o condicionou a isso. E ele não chora mais quando colocado para dormir sozinho porque aprendeu que não adianta chorar que sua mãe não vai pegá-lo no colo. Se alguém te disse que o que ele aprendia era "a dormir", te enganaram...
As teorias psicológicas não são mera teorização. Nossos comportamentos cotidianos, dos mais simples aos mais complexos, podem ser explicadas por elas.
Mas há que se ter sempre em mente os resultados das escolhas.
Sempre.

Não é ético ignorar uma parte do processo apenas porque ele não é tão bonito quanto você esperava que fosse. Também não adianta fingir que não existe.

O ideal é conhecer a fundo tudo, para que se possa escolher.
Polly não nasceu sabendo ser mãe - assim como todas as suas amigas. E as amigas das amigas.

Mas Polly preferiu ouvir seu coração que, de certa forma, é muito mais coerente com o que acontece no íntimo do seu bebê. Polly pegou para si a RESPONSABILIDADE de ser guiada por seu sentimento em relação ao filho. E pegar para si a responsabilidade disso é assumir os riscos inerentes. Porque uma coisa é dizer: "Mas eu só fiz o que o livro mandou" e outra bem diferente é dizer: "Sim, eu fiz porque eu quis, porque assim senti que devia fazer". Ainda assim, para Polly, foi muito mais tranquilizador do que simplesmente seguir um método que - SIM! - funciona.

Às custas de que? Aí é outra história. Que não é todo mundo que quer contar não...

Hoje, Polly e Luke (ou Padmé) vivem mais conectados. Luke sabe que, na hora de dormir, pode contar com o colinho de sua mãe.

Ainda que ele não durma do jeito que ela sempre sonhou...


E quem disse que nossos sonhos contêm aquilo do que realmente precisamos para sermos felizes?
Afinal, é na vida - e não no sonho - que vivemos.
Cuidado você deve ter, com fórmulas e métodos que salvadores se dizem. E também com os que, de manipuladores, as crianças chamam .
Já diria Mestre Yoda.

Fonte: http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/09/por-que-deixar-chorar-ate-que-se-durma.html