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sábado, 12 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Não considero a hipótese de ter papéis definidos dentro de casa"

Por João Carlos

Paternidade e Masculinidade: O título desta reflexão surgiu de um convite do querido Cacá, amigo e pediatra dos meus filhos e de toda a família.

Fico feliz de não ser um especialista em nenhum dos temas, o que me dá a liberdade de escrever uma reflexão na primeira pessoa. Fico ainda mais feliz de viver no século XXI, período em que as “verdades” subjetivas dos outros não precisam mais ser acatadas. O que é masculinidade e paternidade? Certamente a minha experiência se parece com a de muitos e se difere da de tantos outros, e é assim mesmo.

Imagem da revista Elle 


Meu primogênito nasceu quando eu já acumulava 43 anos de vida e onze de casado. Parecia apenas mais uma etapa na vida, na relação, só que não (adoro o século XXI). Aprendi há pouco com a impressionante coach israelense, Shiri Ben-Arzi, o conceito de estado liminar. É um período em que deixamos de ser algo conhecido e ainda não somos algo novo. Uma cerimônia de formatura, o noivado são estados liminares. O estado liminar da primeira gravidez não me preparou em nada para o que veio depois, a paternidade.

Tornar-me pai, processo em que me encontro há cerca de dez anos e no qual devo permanecer até o fim da vida, mudou praticamente tudo na minha vida, desde as pequenas coisas, como ir com menos vontade à mostra de cinema, até as grandiosas, como a forma de pensar a vida, a saúde e a morte. A família tornou-se o centro da minha vida, o principal condicionante da minha agenda. Não precisa ser, é claro, mas para mim foi e é. 

Não creio que exista a forma melhor de ser pai. Ausente, presente, neuroticamente onipresente, cada um propicia um conjunto de experiências a serem depuradas pela prole em meio a outras tantas influências, resultando em um legado que é deles, os filhos, não nosso. Logo, mantenho minha forma de ser, torcendo que o legado seja positivo (seja lá o que for um legado positivo). Em momentos perco as estribeiras, em outros ouço com atenção. Em momentos sou 100% presença, em outros peço que “me deixem trabalhar/conversar/ir ao banheiro.. em paz”.

Ouvi que ser pai/mãe é como jogar vídeo game, cada nova fase é mais difícil que a anterior. Não é a minha experiência. Cada dia tem se tornado mais natural e fácil que o anterior. Às vezes temos que lidar com grandes novidades, nem sempre boas, como correr para um pronto socorro, mas a média é um dia a dia cada vez mais simples e interessante. Ou seja, a paternidade se torna parte da minha forma de ser, junto com a carreira, a vida social, a vida afetiva...

Em parte, tento influenciar a vida de meus filhos, manifestando meus valores em atos e palavras. Eles que se virem para interpretar e formar seus próprios valores. E se forem muito diferentes dos meus? Não sei. Se vier a acontecer, espero ter a serenidade de perceber e conseguir buscar um equilíbrio.

Já a masculinidade, o que diabo é isto? Há tantas masculinidades a nosso redor. Desde o assassino que mata a Dandara a pauladas até a própria Dandara (será que ela concordaria comigo?) Adoro ser como sou, com todas as imperfeições e qualidades que tenho. Nada contra outras formas de ser, mas não considero a hipótese de haver papeis definidos dentro de casa. Se falta comida, vou ao supermercado, compro e faço. Se a Irene está com vontade de cozinhar, desfruto e, eventualmente, elogio a comida. Se nenhum dos dois esta a fim, sempre há lugares para se comer fora de casa. O mesmo pensamento vale para o envolvimento com a educação dos filhos, com a arrumação da casa, com os investimentos, com a alocação de tempo. Em alguns casos é necessário negociar, em outros é recomendável, em outros basta comunicar ao outro, em outros nem comunicar é preciso. Somos indivíduos compartilhando grande parte de nossas vidas.

Ainda há a masculinidade exercida fora da família. Sigo sem me apegar a rótulos e papéis pré-definidos. Para mim, no masculino cabe quase tudo que cabe no feminino, exceto o papel principal na concepção. Se você discorda, ótimo, teremos assunto para longas horas de conversa.

Dito isto, em que a paternidade afetou a masculinidade? Certamente a enriqueceu com experiências novas e marcantes. Exacerbou algumas facetas, como a participação dentro de casa, suavizou outras, como o papel do trabalho na vida, e não mudou a essência.

Feliz dia dos pais

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Solitário, como um menino"

Por Thiago Cascabulho

A paternidade é um mundo...
Mas, definitivamente, um fato.
Um jato que mirando o céu, descontrolado,
Volta-se para o outro lado, o seu,
E em ti penetra de dentro para dentro.
Assim uma paternidade cresce no meu centro.
Gestaciono-a solitário, como um menino
A esconder a bola sob a camiseta...
O que ela espera de mim e eu dela?
Nada além da banal liberdade
A qual desfrutam as borboletas amarelas.

Arte de Susan Spiritus

segunda-feira, 20 de março de 2017

Crianças francesas apanham dos pais

Crianças apanham dos pais em todos os lugares do mundo, não é só na França. A ideia de que se pode ensinar limites e respeito através de castigo físico (principalmente para meninos) é comum. Se mostrar mais forte e causar dor ou sofrimento nas crianças: quando nos vemos no limite é isso que permeia o imaginário dos adultos no mundo todo. E às vezes não é só na imaginação. 

Constitui-se um modelo de preparação para a vida e para o mundo:

- Aprender a apanhar desde muito cedo, para perder o medo da dor! Reforço aqui : isso acontece principalmente para os meninos! Parece natural que adultos possam bater em seres socialmente incapazes e manipuladores.

Mas hoje não estamos propondo pensar aqui neste ou naquele modelo de criação.

A provocação de hoje vem na crista da onda, o que me parece estar mais na moda :
O de valorizar comportamentos "maduros" em gente pequena. E consequentemente elogiar os pais desses mini adultos! Enquanto uma legião de adultos passa pela vida sem reconhecer que uma das tarefas mais difíceis de gente grande é a busca - contínua e coletiva - pela maturidade. 

Ou seja: a maioria de nós não sabe o que é maturidade e busca conquistar "esta idade" com o tempo! Uma aquisição natural para determinada idade. A maturidade não é uma consequência, muito menos uma herança. É na melhor hipótese uma conquista!

Nessas últimas semanas foi divulgada uma notícia que trata da naturalização da agressão contra crianças, em países que muitas vezes servem de inspiração de conduta. Conduta nos melhores padrões de civilidade (segundo os que ditam boas condutas!). Como seria bom para nossa consciência limitada poder usar o filho de troféu, mostrando para a sociedade o exemplar trabalho que fazemos, quando aquela criança cumpre na tenra idade os protocolos que se exigem dela, não é mesmo? Que seres civilizados nos mostramos quando exibimos uma família sem conflitos! Todos exercendo sua tolerância e pseudo-potência diante do espetáculo que é estar em grupo. E minha família sabendo se portar!

Mas basta um piti em público para que se escancare aos olhos de todos a nossa suposta falência: meu filho não me obedece, então eu sou um pai ou mãe incompetente. Então eu falhei. Sou Impotente!

Na sociedade do produto, é inaceitável que nossos frutos deponham contra nós. É urgente que usemos - e naturalizemos - artifícios quaisquer para passar a imagem que queremos: adultos! sob controle! bem sucedidos! bons pais e mães! maduros! Embutidos do senso comum do que é maturidade! Sujeitos geralmente insatisfeitos e ansiosos ou deprimidos ou os três!

Mas somos maduros? Enquanto indivíduos ou coletivamente? Maturidade existe?

Todos aqui crescemos dentro das bolhas de privilégios que favoreceram nossas conquistas pessoais, como se fosse apenas mérito nosso, o lugar em que nos encontramos agora. Esquecemos que, a busca pela maturidade, pela consciência, é uma vivência processual, contínua, e jamais estaria exemplificada como forma de produto. 

Não é um sinal de falência ter filhos "mal educados". Ao contrário pode ser o primeiro sinal de que a salvação esta próxima! (hehehe)

Sinal de alerta é quando violentar os filhos fica banalizado. Vítimas da falta de maturidade dos pais e acima de tudo, da sociedade. Sinal de falência, é na idade adulta, não termos ainda acordado para a necessidade de um contínuo e coletivo processo de aprimoramento da nossa condição humana!

Essas crianças "mal educadas" que dão piti e incomodam vivem o estado de liberdade que fomos também ensinados a cercear. E quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor, não é assim? Alguém que apanha, aprende a bater, alguém que bate, aprende a normalizar a violência.

Não existe educação de crianças para a maturidade, assim como não existe educação libertadora que coíba a manha de uma criança. As francesas podem não fazer manha, mas isso é sinal de falência social, cultural, global. É claro que se pudermos nos liberar do peso que nos foi imposto  por uma educação exageradamente conservadora já teremos dado um enorme passo.

Imagem: Public Domain Photos


Existe educação de si mesmo. Quando eu proponho a busca pela emancipação dos meus próprios sentimentos e práticas cotidianas, com foco na ampliação de vivências humanas - que passam por querer se jogar no chão e gritar até que alguém te pegue no colo e diga que tudo vai ficar bem, independente da idade que seu calendário natal aponta - eu me educo, e demonstro em mim essa busca. A tal maturidade !

Sem necessidade de bater em meu filho, para calar nele tudo aquilo que não aguento em mim.
Reflexo em mim de uma surra permanente neste pseudo civilizado adulto que quero ser!

Essa é uma baliza esquecida, e usada de forma tão equivocada, nas relações de todo tipo: respeito.

Da mesma maneira, respeito não se ensina, se pratica. O maior desafio na educação para o respeito, para a dignidade, para a maturidade e para a cidadania é deixar-se participar do ciclo de conquistas individuais e coletivas, em prol desse bem comum.

Diminuir a distância entre o que se fala e o que se faz, encontrando os pontos de convergência entre nossa bagunça interna e o caos que nos cerca. Esse é o exercício da vida adulta, que deveria estar longe de buscar nas crianças, seus índices de sucesso. É tudo muito difícil e pode demandar uma energia que não dispomos neste momento (ou não achamos dispor). 

Encontrar em nos mesmos esta borda, esse limite já é sinal de muita maturidade!


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Como ser pai do meu filho tendo sido filho do meu pai

Homens sem filhos, quando decidem que um dia os terão, ou são surpreendidos quando descobrem que serão pais, imaginam que um dia dobrarão essa barreira do desconhecido, se dividem geralmente em dois grupos distintos.

Ou questionam tudo que lhes foi feito na infância, sonhando com uma renovação plena do papel de pai e com filhos idílicos (que só poderiam ser mesmo filhos da falta de realidade), ou concordam cegamente com seus modelos de pai. Simplesmente não questionam. Não param para pensar nisso. Principalmente quando sua história como filho, tem um pai ausente.Principalmente numa sociedade que não enxerga a paternidade como algo importante e muito bom de ser vivido.Quando a sociedade concorda que o importante é a MÃE !

A consciência de que é preciso saber transitar entre os papéis de pai e filho, inclusive quando se é pai sendo filho e filho sendo pai, é algo que só acontece em algum momento, estranhamente, de ser pai e filho.Quando ao nascer seu filho você se depara com esse novo papel : Sou pai agora !

Confuso?

Oras: ser pai do meu filho é ser filho do meu pai ao mesmo tempo. Existem momentos em que eu, como pai, questiono o que me foi feito como filho. Quem era meu pai ? Quem serei eu como pai? Esse sou eu, sendo pai e sendo filho. E há momentos em que acato tudo o que meu pai disse, porque agora filho, tenho eu. Me perco na diferenciação entre eu e meu pai. Entro em conflito com as minhas memórias, pois ha magoas do filho guardadas. Mas talvez agora seja tempo de acolhe-las e tentar curá-las. E consigo atingir dentro de mim a lucidez de ser pai que foi possível ao meu. Esse sou eu, sendo filho e sendo pai.

Transitamos, quando os filhos nascem, para um outro lugar, e a ideia de que abandonamos o antigo é às vezes motivo de confusão de sentimento: essa bagagem carregaremos para sempre, de ter sido filho de alguém que enquanto era pai, também foi filho de alguém. Transmiti-se a cada geração um modelo familiar de "Pai", os homens da família. E na busca do próprio modelo teremos que conhecer este legado familiar para poder absorver e romper com ele. O difícil de conhecê-lo é que geralmente é uma lembrança de magoa ou dor ou ainda de ser superior.

Questionar e acolher o passado na vida presente. Sim e não. Pai e filho.
São essas as dicotomias que precisamos aprender a lidar com saúde. Com alegria!
É isso que faz da gente melhores pais para nossos filhos, por perdoar nosso pai. Ao fazer isso podemos perdoar nossos erros. É isso que faz da gente filhos melhores para nossos pais, por humanizar nosso filho, humanizamos nossas relações parentais. Deixamos uma herança mais leve!

Esse documentário é sobre como somos preparados para crescer como homens nesta sociedade. Não é apenas sobre a sexualidade masculina, mas principalmente sobre o cidadão homem, o ser humano homem e a solidão de ser homem!
A pergunta é: Sou um cara legal comigo?
As outras são mais fáceis de responder!





Nesse sábado, na Roda de Pais do Espaço Nascente falaremos de Heranças!
Venha contar sua historia ou apenas ouvir as histórias.
Venha perceber que são varias possíveis histórias.
Venha correr o risco conosco de poder mudar essa história !
Venha !


Ilustração Rodrigo Bueno 


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Julgue Menos, Pense Mais, Dialogue Bastante


Uma mãe mexe no celular sentada na cadeira de um aeroporto enquanto seu bebê dorme em cima de um pano estendido no chão.

O chão do aeroporto pode ser mesmo um lugar muito sujo e inóspito para um bebê recém nascido. É realmente uma tragédia contemporânea o tempo que os adultos passam olhando para telas, e a distância emocional que isso anda ocasionando para as relações. Não há dúvida que os adultos precisam ser constantemente convidados a olharem seus bebês como pessoas completas, cheias de desejos e direitos que muitas vezes são ignorados e subtraídos. E nem vamos discutir o quanto um colo de mãe é saudável e desejável para bebês pequenos. Todas essas premissas são reais e corretas.

O que não é muito correto é, baseado nas premissas, traçar um julgamento moral de uma mulher, uma pessoa, apenas através da interpretação de uma imagem. O que a fotografia não conseguiu capturar é que aquela mãe estava há 48h no aeroporto, tentando voltar para casa sozinha com a filha, depois de passar por uma série de cancelamentos de vôos e tentar inutilmente auxílio na companhia aérea. A foto também não dava conta de dizer que ela também havia dormido no chão, e havia se levantado minutos antes, pegando o celular exatamente para tentar resolver o problema. A fotografia não conseguia registrar, enfim, nada que não fosse uma imagem passível de interpretação parcial de um evento cotidiano de um aeroporto.



Um grande grupo de pais conversa em um grupo de apoio para paternidade em torno de uma única criança que brinca na cena.

É fato que homens que tem filhos tem mais oportunidades de desenvolver seu projetos pessoais, do que mulheres que tem filhos, e isso se deve ao fato de que mulheres são mais responsabilizadas pelos cuidados com a criança. No geral, as mães são as cuidadoras principais, e nossa cultura insiste em colocar o pai como um ajudante com menor responsabilidade. De modo que, sim, é fato, se compararmos uma roda de mães a uma roda de pais, veremos um número maior de crianças na primeira, e, ainda, se compararmos as atividades pessoais que mães e pais de filhos pequenos desempenham, veremos que o segundo grupo sempre tem mais oportunidades de saírem sem os filhos do que o primeiro grupo. Todas essas premissas são fatos reais, e corretos.

O que não é muito correto é desqualificar a paternidade de alguns homens, baseado apenas no fato de que eles não estavam com os filhos no momento do registro que virou público. Pois o que a fotografia não conseguiu capturar é que havia mais quatro crianças na sala. Não conseguiu contar também a jornada agreste da esmagadora maioria dos homens que ali estavam, lutando contra sentimentos de abandono e violências variadas que sofreram na infância, por seus próprios pais, para através do diálogo tentarem fazer melhor, para os filhos. A foto também não contava do número de órfãos de pais naquela sala e nem tampouco tinha o poder de registrar o esforço individual que cada um daqueles homens fazia para sair da zona de conforto do futebol e da cerveja com os amigos, da zona da brutalidade e aspereza que é reservada aos homens, para abrir espaço emocional e lidar com questões em um grupo de iguais.



Não vou insistir que não julguemos. Fazer um julgamento é algo essencial para tecer uma consciência crítica sobre as coisas, algo que por sua vez é fundamental para reorganizar nossa existência, melhorar e fazer o bem. Poder viver um lugar aonde possam coexistir um juiz ,um promotor e um advogado,em linguagem figurada ,que dialoguem sobre a questão sem que um atropele os demais. Podendo perceber com mais clareza a questão observada, a partir dos 3 olhares.

Há também muito perigo em insistir que "não julguemos" uma vez que existe pouca disponibilidade para o debate democrático. O pedido de que não se julgue, pode ser ao mesmo tempo um silenciamento à crítica, e convenhamos, há muito o que se criticar quando falamos da vida adulta contemporânea. 

Mas vamos usar nosso julgamento para o discernimento e não para inferir, por puro desejo de controle do outro, sanções àqueles que julgamos. Não é assim que se faz justiça e nem é assim que se emite opinião. Sejamos gentis e inteligentes. Há uma diferença enorme entre opinar e desqualificar. Entre julgar e punir. Entre provocar reflexão ou procurar culpados. É necessário pensar, criticar, atuar intelectualmente e acima de tudo, dialogar democraticamente.Para viver isto ha necessidade de empenho diário. De exercitar internamente esta atitude, o que sabemos não ser fácil.

A vivência da democracia é essa: o exercício da convivência respeitosa, sem sanções injustas, com aquilo que julgamos ser errado no outro. Vamos fazer um esforço para tratar os outros do jeito que gostaríamos de ser tratados, mesmo que seja nos comentários das fotos nas redes sociais.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Paternidade ativa: o melhor presente de dia dos pais

Num momento que se discute as relações entre o masculino e o feminino como relação de poder. Mulheres e homens vivendo um conflito. Gente vivendo um conflito entre o masculino e o feminino.

Num momento em que vivemos uma olimpíada em que dois casos de tentativa de estupro vem à tona, numa cidade recém marcada por uma história de extrema violência contra a mulher. Somos todos vítimas. Vítimas da nossa sexualidade. 

Uma sexualidade que define o que temos que ser e o que fazer.
Neste momento vamos reviver o emblemático festejo de um dos papéis do masculino sagrado pouco reverenciado e pouco sacralizado. 

O Dia dos Pais !

O mercado de consumo se organiza pelas efemérides. As datas comemorativas representam muitas vantagens para o mercado de consumo, pois geram argumentos de venda à partir das relações humanas de afeto, ou manifestações expressivas da cultura.

A oportunidade de viver troca de afetos reais e não de presentes fica esquecida em meio a um grande estímulo ao consumo. É mais significativo demonstrar carinho dando um presente que dando um abraço. Um evento cultural como o carnaval que pertence a todos passa a ser controlado por alguns que visam lucrar com ele. Uma comemoração de algo a celebrar se transforma num clichê de shopping center.

Print da pesquisa de imagem do google

Reparem: saltamos de um dia especial para outro. Começa com "à volta às aulas" e depois o carnaval. Logo vem a páscoa, dia da mulher, dia das mães, dia dos namorados, festa junina e entram as férias (excelentes oportunidades para campanhas de viagem de avião). 

Dia das avós, dia dos amigos e  as caixas de e-mail nesse momento já estão lotadas de sugestão de que? Presentes para o dia dos pais. 

É surpreendente o quanto as relações humanas estão traduzidas por relações de consumo, e datas que seriam marcos de nossa resistência, registros de nossa história ou homenagens reais ao que amamos estejam esvaziadas de significado e substituídas por: Compre mais! Dê presentes! Demonstre seu amor dando um presente!

Chega a ser uma grande ironia - em um momento onde a paternidade necessite de espaço grande de discussão perante a sociedade - que presente seja sinônimo daquilo que mais nos faz falta:
presença. 

Ser presente e estar presente deveriam ser os temas a se discutir nesta celebração. Quanta falta faz a uma família a participação mais ativa de um pai! 

Mães, em seu dia, já articulam muito bem o que precisam, para além das quinquilharias mundanas das propagandas de televisão. Equidade social, igualdade salarial, licença maternidade adequada, apoio à amamentação, fim da violência obstétrica, para citar apenas algumas das causas levantadas todos os anos, quando se comemora o dia especial das mulheres que têm filhos.

E os homens que tem filhos ?
Do que precisam os pais? Certamente não de mais camisas e gravatas, ou máquinas especiais de fazer café com cápsulas em formatos inovadores.
Precisam acreditar que podem cuidar! Precisam acreditar que tem o que dar e que nessa troca vão ganhar muito!

Pais precisam de mais presença.
E menos presente.

Precisam entender que o papel de provedor financeiro não satisfaz as necessidades de sua família. Nao é de um membro que se responsabilize unicamente pelas finanças a maior necessidade, embora tenha sua importância. 

É de um membro que tenha um lugar mais amoroso e participativo no dia a dia. De alguém que possa dar colo, acolher a noite um filho, principalmente quando doente, alguém que possa amparar seu filho nas suas dificuldades e medos. Um pai que tenha um colo fofo sem com isso ser menos masculino!

O masculino tem sido repensado cada vez mais na sua pseudo autoridade desmedida e se tem procurado um novo lugar para esse homem que quer poder viver sua delicadeza e fragilidade sem ter compromisso com um único arquétipo de guerreiro feroz. "O destruidor"!

Imagem daqui
Esse papel social equivocado não condiz com a necessidade de um homem insatisfeito com seu lugar.
Esse homem que cuida e que dá colo é uma necessidade do homem contemporâneo. É sua possível nova realidade !

Se tornar pai e viver uma paternidade ativa pode ser transformador e libertador numa sociedade machista. Todos ganham com isso. 

As mulheres em viverem relações construídas a partir do companheirismo. Os filhos por conhecerem seus pais, não por serem pais biológicos, mas por serem pais presentes e reais. Os homens por não viverem uma máscara de agressiva disposição a falta da capacidade de amar e por poder ter compaixão. A sociedade que começa a aprender a se relacionar de forma menos violenta.

O que podemos festejar nesse dia dos pais é ter um pai que faça parte de fato do dia a dia da sua família de forma mais leve. Menos engravatado e formatado para matar um leão por dia!

Menos comércio e mais celebração!
Menos presentes e mais presença!
Para que ninguém possa ser vítima!
Feliz todos os Dias dos Pais!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Papel de pai

Vamos direto ao ponto:  se uma pessoa nunca estará plenamente preparada para ser mãe, também não está para ser pai.

Não é difícil achar um homem que só se depara com uma fralda depois do momento que tem filhos. Muitos sequer tiveram um bebe no colo alguma vez na vida. Um recém nascido parece um ser de outra galáxia para a maioria.

Esse cenário é mais raro de encontrar no caso das mulheres, cuja socialização para a maternidade acontece desde cedo. A cultura em torno do ser mãe coloca homens e mulheres que escolhem ter filhos, muitas vezes, em lugar de desigualdade. Que não é boa para nenhum dos dois. 

Ainda que essa seja uma área que necessite de muito debate - acerca das liberdades de escolha da mulher e toda a opressão que a socialização pode oferecer para as mulheres principalmente - olhamos hoje para o homem. O papel do pai na construção das novas famílias. O significado que este homem dará a sua nova condição de pai.

Inclusive como uma forma de propor o inevitável confronto: quantos pais conhecemos que literalmente passaram a vida sem nunca ter sido o cuidador principal de seus próprios filhos?  Alguns até que não participaram dos cuidados e da educação de seus filhos.

É evidente que para uma fatia - ainda tímida, mas expressiva - da paternidade, esse lugar de afastamento dos cuidados básicos, provisão de recursos financeiros  e último recurso na hora da "disciplina" não serve mais.

Pai não é mais ajudante de mãe.
Mas há um papel para ele definido? 
Ele sabe que papel pode ocupar ?

A nova geração de homens que tem filhos está procurando espaços de participação ativa, reflexão e empoderamento. Saber que não esta sozinho e que outros homens estão nesta mesma situação já e tranquilizador. Alguns homens sentem-se muito solitários ao se tornarem pais e não tem onde compartilhar suas angústias. 

No último fim de semana nos reunimos com  pais - para abrir esse debate. 




Por iniciativa dos queridos Rodrigo Bueno e Victor Farat (autores do livro Bebegrafia) realizamos um encontro com a presença de mais de 30 pais.




Como uma forma de mediar o debate, formaram-se grupos de discussão a respeito das nossas heranças, nossos medos e nossos desafios e alegrias.


Vocês acreditam que o grupo sobre alegrias não se formou no início? 
Evidenciou de imediato o quão importantes são as outras questões. 


Falou-se das historias de cada um como filhos. Do desafio de romper com modelos. Das dúvidas em se tornar um homem doméstico. Das dificuldades de administrar isso tudo em parceria com sua mulher. De como lidar com o choro sem ter peito. De uma infinidade de situações difíceis que passamos a viver a partir do nascimento de um filho.


Não era nosso objetivo definir o que é paternidade, mas perceber que o grande desafio está dentro de cada um, em seus múltiplos contextos. 

Ficou claro para mim que passamos por um turbilhão de emoções que expõe as magoas que cada um traz da sua história pessoal de ser filho. E que poder reconhecer estas mágoas nos aproxima de curá-las. De perdoar .

O perdão é a porta por onde deve-se passar para que cada um possa ser o pai que quer ser.

Sem esteriótipos. Sem modelos.
Podendo apenas ser pai. 

Faremos outros encontros para os pais aqui com o mesmo propósito. Um espaço de trocas e de reconhecimento mútuo da difícil e deliciosa tarefa de crescer como homens com filhos.