Mostrando postagens com marcador Amamentação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amamentação. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Especialistas em Aleitamento Materno!

Uma máxima que não cansamos de repetir é que nem todo profissional de saúde da infância (ou gestação e parto) é conhecedor do assunto ou sequer especialista em amamentação. Pelo contrário, no geral, os profissionais são bem pouco formados para o apoio técnico, comportamental e emocional necessários para o sucesso da amamentação.

Pesquisas mostram que quem mais sugere o desmame precoce (e também apos o 1º ano) são os profissionais que mais deveriam dar esse apoio emocional e técnico as dificuldades na amamentação: os pediatras!

- Por não conhecerem outras formas de auxiliar uma mulher que enfrenta dificuldades no aleitamento?
- Por só conhecerem a prescrição de formulas lácteas como estratégia para lidar com as dificuldades iniciais da amamentação e ganho de peso do bebe?

Sei bem o quanto é dada pouca importância, em geral no currículo das faculdades de medicina e das residências médicas em pediatria, já que pouco tempo é dedicado ao tema. Não  conheço muito o currículo de outras graduações em áreas ligadas a assistência ao binômio mãe-bebe, mas imagino que em geral ocorra a mesma escassez de conteúdo ou quando tem, essa formação em manejo clínico de Aleitamento Materno não seja tão valorizada.

É difícil acreditar, mas sim, um neonatologista (parte da Pediatria que cuida dos bebês do nascimento aos 28 dias de vida) pode não ser um especialista em amamentação. Por outro lado, tanto o pediatra como o pediatra neonatologista, têm o poder de receitar formulas lácteas como complemento ou em substituição, quando estas dificuldades aparecem.

Esperamos que isso esteja mudando no Brasil, já que somos reconhecidos como referencia mundial em Aleitamento Materno. Creio que não progredimos mais em um cenário onde muitas vezes, as indústrias de fórmula lácteas tem papel muito importante na formação técnica desses profissionais de saúde.



A Semana Mundial de Aleitamento Materno -SMAM- deste ano tem como tema :

Construindo alianças para proteger o aleitamento materno, pelo bem comum, sem conflitos de interesse.

Muito interessante que se discuta saúde versus conflitos de interesse. Tem sido uma questão cada vez mais presente nas nossas vidas pessoais e profissionais. Temos como sociedade nos perguntado cada vez mais sobre quais são nossos verdadeiros valores e qual melhor caminho a seguir. Como sustentar financeiramente uma campanha pró aleitamento sem depender de indústrias que lucram quando esse aleitamento não dá certo. Seria possível? Novamente fica a pergunta, mas a principio me arrisco a dizer que neste lugar ficam claros os conflitos de interesse.

Por esse motivo estamos buscando novos caminhos!

Em julho, tive o prazer de ministrar um módulo na primeira pós graduação brasileira de especialização em amamentação. Fiquei encarregado de discutir uma miscelânea de temas, como paternidade, casais homoafetivos, aleitamento e internet, volta ao trabalho. Partimos do principio que estávamos numa miscelânea enquanto grupo de trabalho e estudo. Varias profissões, varias cidades representadas, diferentes histórias de vida, muitas possíveis verdades envolvidas.

Tudo muito bonito e muito rico. Conseguimos trocar olhares e opiniões, coexistindo nessas várias possíveis verdades e olhares. Fica aqui um trecho do depoimento da especialista Cynthia Costa Borba, com a promessa de contar mais um pouco sobre essa jornada emancipadora para profissionais de múltiplas áreas rumo à promoção e apoio integral do aleitamento materno! Fica aqui o registro de um processo longo e muito especial dessa turma de especialistas em aleitamento materno.
Parabéns !!!



"Uma parceria de almas entrelaçados por uma única causa, proporcionar para maior gama de bebês possível o melhor alimento do mundo: LEITE MATERNO. Foram dois anos de história, amizades eternas, aprendizado vasto, grandes mestres, novos conceitos, ampliar nossa zona de conforto e uma miscelânea gigante de conhecimento. E como não poderia deixar de ser, o tema do último módulo foi esse: Miscelânea, ministrado pelo querido professor Carlos Eduardo Correa, representando muito bem todas nós, cada qual com sua profissão, cada realidade de trabalho, cada vivência do dia-a-dia construiu as profissionais que somos hoje, e os PRIMEIROS especialista em Aleitamento Materno do Brasil e em cada lugarzinho desse pais temos espalhados hoje um pedacinho de nós, seja em um cidadezinha do interior de São Paulo como Assis ou no Distrito Federal. 
Nossa marca estará lá.

E com isso estamos certos de jamais estarmos sós.
Gratidão eterna por fazer parte dessa turma linda!"



segunda-feira, 24 de julho de 2017

O desmame pertence à mulher e ao bebê, e não ao médico

O assunto que me tocou foi aleitamento materno prolongado.
Hoje estava lendo que uma médica famosa "recomendou que as mulheres não usassem o peito como forma de confortar seus filhos e que o peito fosse oferecido como forma de alimentar as crianças". 

Imediatamente pareceu que essa seria uma boa estratégia da industria do leite artificial, criar uma campanha assim : 

"Aleitamento materno como forma de alimentar (nutrir fisicamente) seu filho e todo malefício que outras funções da amamentação trariam, como causar dependência emocional e, portanto, um filho inseguro! Ha risco para mulheres que amamentam criarem filhos dependentes e inseguros!"

Que confusão imensa esta criada mais uma vez!

Desvalorizar esta corporalidade que está envolvida desde a concepção, gestação e parto, que naturalmente se prolonga através da amamentação é a grande sacada da industria do leite. 

Se for possível desqualificar esse colo que nutre emocionalmente e fisicamente fica mais fácil banalizar a importância do aleitamento materno como estratégia de fortalecimento de vínculos entre a mãe e seu bebe. 

E quando definimos que há uma idade cronológica na qual esta relação prejudica o desenvolvimento da criança, como se as mulheres que não amamentam não passassem pela dificuldade de encorajar o desligamento de seus filhos e de suas conquistas de autonomia simplesmente por não darem o peito. 

Estamos desqualificando este aleitamento.

Foto: Various Brennemens

A outra dificuldade que aparece na formação médica é a idade em que esse aleitamento tem que acabar. Como é frequente encontrar falas de médicos definindo tempos cronológicos para o desmame. 

Aniversario de 1 ano. Presente ? Desmame.

Aniversario de 2 anos. Presente ? Desmame.

Amamentar continua sendo um ato heróico e revolucionário!

É muita pressão contra e o TABU da amamentação prolongada ainda povoa o imaginário das populações urbanas como causa de todos os males da humanidade.

Deixo aqui minha sugestão de que o desmame pertença a mulher e a criança no momento que para um dos 2 ou para ambos não fizer mais sentido. 

Deixo também a reflexão que marcadores cronológicos como 6 meses, 1 ano, 2 anos ou seja la qual for, não deveriam permear a relação desses 2 indivíduos (mãe/ bebê) nas suas singularidades. 

E deixo aqui a sugestão que médicos famosos não deem palpites sobre assuntos tão difíceis e delicados como a qualidade da relação de uma mulher com seu bebê.





terça-feira, 23 de maio de 2017

O Choro do Bebê : Cólicas e tudo mais que podemos revelar

Hoje vamos pensar um pouco sobre o choro do bebê.



Desde que comecei a trabalhar com bebes saudáveis em alojamento conjunto entendi que não bastava treinar a equipe para falar de aleitamento materno. O choro do bebê era o tópico mais importante, pois o que levaria ao uso de chupetas, outros leites, mamadeira ou não acreditar na própria capacidade de amamentar seria o choro do bebê. Portanto conversar sobre como lidar com esse choro e que chorar não significa sempre fome era o nosso desafio. Poder dizer para as mulheres que elas poderiam dar conta do bebê era (e ainda é!!!) nosso maior desafio.

Bebês choram. E podem chorar muito! Por muitas vezes nós adultos cuidadores nos vemos ansiosos por uma explicação para a razão de tanto choro, do alto da nossa crença de que choro é sinal de coisa ruim. A justificativa mais aceita para o choro do recém nascido são as cólicas. Seriam aquelas crises de choro inconsolável, onde o bebê demonstra muita irritação, contorce o corpinho. Aceitamos com mais naturalidade o choro do bebê se ele for justificado por algum tipo de dor.

- É dor mesmo, agora eu sei , pois ele esticava as perninhas e se retorcia todo.

Infelizmente é muito difícil definir se é ou quando é dor mesmo. Acho bonito e importante tentar fazer uma leitura mais corporal do bebê, mas contamos com uma grande dificuldade. Geralmente não sabemos muito sobre o bebê.

Conhecemos que um bebe nos seus 2 a 3 meses tem um repertório motor limitado pelas respostas reflexas e não voluntárias. Quero dizer com isso que bebes que se esticam e jogam a cabecinha para traz estão repetindo o que fazem (ou deveriam fazer) no trabalho de parto. Esse movimento está no repertório motor dos reflexos e não da consciência deste bebe.

O que não afirma e não impede que esteja vivendo algum incomodo. Mas nos faz pensar que é um tanto mais difícil observar e relatar o que esta acontecendo nos primeiros meses de vida.

Vamos ler um pouquinho do que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria sobre as cólicas do lactente: 

Cólicas do lactente 

Departamento de Aleitamento Materno da SBP

A cólica do bebê é transitória e aparece geralmente na segunda semana de vida, acabando em torno do quarto mês, em uma criança saudável. A cólica pode durar até três horas por dia e normalmente acontece no final da tarde ou à noite. Além do choro, o bebê fica irritado e agitado.

Como diferenciar o choro por cólica do choro de fome


O bebê chora por diversas razões: fome, frio, sono, calor, dor, incômodos por fralda molhada ou apertada ou até porque quer aconchego e carinho. Com o tempo, a mãe vai aprendendo a identificar o motivo de choro do seu bebê. No entanto, a criança que chora por fome se acalma assim que mama. Isso não acontece quando o choro é por cólica.

Como evitar as cólicas

Tente manter a calma e lembre-se que as cólicas acontecem em um bebê saudável e que vão passar em poucos meses. A ansiedade da mãe não ajuda a acabar com a cólica, mas algumas ações podem amenizar a dor:

- um ambiente tranquilo e uma música suave ajudam a relaxar mãe e filho;
- um banho morno também ajuda a descontrair;
- movimentos nas pernas do bebê, como “pedalar no ar” podem auxiliar a eliminar o excesso de gases;
- massagem na barriguinha do bebê, sempre no sentido horário, mobiliza os gases;
- compressas mornas na barriguinha com toalhas felpudas passadas a ferro têm efeito analgésico (teste antes o calor da toalha em sua própria face).

Porém, o mais importante é ter paciência para acalmar o bebê, aconchegando-o no colo, barriga com barriga, ou apoiado de bruços na extensão do antebraço dos pais.

Oferecer chá ao bebê não acaba com a cólica e pode prejudicar a amamentação. 
Remédios “contra gases” têm pouca eficácia.



Relação entre cólica e dieta materna


As causas das cólicas do primeiro trimestre não são bem conhecidas, mas parecem ter relação com uma relativa imaturidade do bebê; e vão melhorar com seu crescimento, sem deixar sequelas.

A alimentação materna como possível causa da cólica ainda é controversa. A cólica pode ocorrer tanto em bebês amamentados no seio quanto naqueles amamentados com leite de vaca (fórmulas). Entretanto, existe a possibilidade de alguns alimentos (leite de vaca, soja, trigo, nozes) passarem para o leite materno e provocarem cólicas. No entanto, esses alimentos só devem ser retirados da dieta da mamãe caso as cólicas estiverem associadas com outros sintomas gastrintestinais que indiquem alergia alimentar, como a presença de rajas de sangue nas fezes do bebê.

Ao primeiro sinal de sangue nas fezes do bebê, seu pediatra deve ser consultado imediatamente.

E lembre-se, o ideal é prolongar ao máximo o aleitamento materno porque o leite de vaca tem alto poder de causar alergia.



Para mim entendo que a SBP conta que cólica existe e é comum nos primeiros meses e vai passar. Não se desespere pois vai passar!

Nesse momento tive uma percepção de quantas vezes eu tentei em vão dizer que o choro com hora marcada, geralmente final da tarde, começo da noite não deveria ser de dor física, já que dor física não tem horário para acontecer. Será que ajudei ou atrapalhei tentando desfazer o mito da cólica do bebe, e não deixando algo que preenchesse este lugar?

Por mais aceitável que a justificativa de cólica nos acalme como adultos, nem sempre o bebê chora de dor. Bebês choram e podem chorar muito. Ressignificando as experiências do choro e tentando encontrar mais disponibilidade para rever nosso conjunto de crenças podemos observar o choro como forma de comunicação do pequenino humano, que trava sua própria jornada de adaptação à vida extra uterina.

Lendo este texto da SBP que valida a percepção dos pais que se trata de uma cólica e portanto merece compressa quente e massagem senti que poderia me aproximar mais destes pais que devem estar bem assustados com este bebe que chora tanto. Porem me ficaram algumas duvidas como se merece um uso de remédio já que o choro é cólica (sabemos de uma longa lista de remédios utilizados por mães de bebês nos primeiros meses por conta de cólica e que a maioria não terá muita eficiência). Vou então buscar outras referencias sobre o choro do bebe.

Vamos ver um trecho sobre o choro da Enciclopédia sobre desenvolvimento da primeira infância

Qual é sua importância?


O choro é um meio de comunicação importante que os bebês dispõem no início da vida – do nascimento aos 3 meses de idade. Nesse estágio de seu desenvolvimento, os bebês são quase inteiramente dependentes de cuidadores para atender suas necessidades. Consequentemente, o choro na infância pode assumir um papel importante para garantir a sobrevivência, a saúde e o desenvolvimento da criança. 

A quantidade aumentada de choro entre bebês saudáveis no mundo ocidental é atualmente reconhecida em todos os bebês nas primeiras semanas de vida, isto inclui chorar por períodos prolongados de tempo sem nenhuma razão aparente, uma característica praticamente única dos primeiros meses de vida. De fato, não é incomum que um bebê normal chore entre uma e cinco horas por dia, com um pico nos dois primeiros meses de vida.


Em menos de 5% desses bebês existe alguma evidência de doença orgânica que ajude a explicar o aumento de ocorrência de choro. Além disso, o choro prolongado ocorre a despeito da ótima qualidade dos cuidados parentais. Felizmente, depois dos cinco meses diminuem os períodos prolongados de choro inconsolável, o choro torna-se mais intencional e mais relacionado a eventos ambientais.


No entanto, o choro persistente, principalmente quando associado a problemas de sono e de alimentação que persistem depois dos quatro meses, muitas vezes em contextos que envolvem múltiplos fatores de risco psicossocial dos pais, pode ser preditivo de desenvolvimento social e emocional insatisfatório do bebê. 


O que sabemos?


Todos os bebês choram, mas grande parte desse choro é inexplicável. As explicações geralmente atribuídas ao choro do bebê são dor, fome, raiva e tédio. O aumento de choro excessivo inexplicável nos três primeiros meses em bebês que, à exceção disso, são saudáveis, é frequentemente denominado “cólica infantil”. Dependendo da definição, diz-se que a cólica afeta cerca de 10% a 20% dos bebês nessa idade. Uma característica evidente é que a cólica tende a seguir um padrão de aumento nos dois primeiros meses, chegando a um pico em seis semanas, e normalmente diminuindo aos 4 ou 5 meses de vida. No entanto, esse padrão aplica-se a todos os bebês, quer seu choro seja ou não considerado “excessivo”, e é reconhecido atualmente como a “curva normal do choro”. Durante esse período, os surtos de choro podem ocorrer sem razão aparente, são difíceis de acalmar, e muitas vezes duram em média entre 35-40 minutos, ou até duas horas. Ocorrem em geral no fim da tarde ou no início da noite.

Frequentemente, afirma-se que bebês cuja inquietação persiste no decorrer da primeira infância, ou piora depois dos quatro meses, têm temperamento difícil. Pode não ser fácil diferenciar o choro relacionado à cólica infantil do choro relacionado a temperamento difícil. A principal diferença é que, nos episódios de cólica, os surtos de choro diminuem com o tempo, ao passo que em bebês com temperamento difícil, o aumento da inquietação persiste durante a primeira infância e até posteriormente. Embora o choro devido a temperamento difícil possa às vezes ser modificado, essa característica de temperamento é frequentemente estável no decorrer da vida, e tem bases constitucionais e hereditárias.


Consequências positivas:


O choro excessivo nos primeiros meses de vida pode provocar frustração e estresse na família. No entanto, há consequências positivas associadas ao choro. Uma delas é a constatação de que o choro permite aos bebês construir relacionamentos íntimos com as pessoas que respondem mais confiavelmente a suas necessidades. Dessa forma, o choro pode ser fundamental no desenvolvimento de um vínculo emocional ou “apego” em relação a determinado(s) cuidador(es). 


Consequências negativas: 


Muitos estudos sobre bebês que apresentam episódios de cólicas demonstraram de forma convincente que, no longo prazo, não há consequências negativas para os bebês. A maioria dos pais não demonstra conseqüências negativas, mas para alguns persiste uma falta de confiança em suas habilidades como cuidadores e têm maior probabilidade de considerar seus bebês como “vulneráveis”. No entanto, bebês com temperamento difícil têm maior probabilidade de vivenciar diferenças no longo prazo. Bebês inquietos e difíceis de acalmar têm maior probabilidade de aumento de risco de problemas comportamentais na pré-escola, dificuldades de ajustamento na adolescência ou comportamento agressivo e dificuldades de atenção.

A interpretação da mãe sobre o comportamento de choro pode ser afetada pela depressão materna. Quando ocorrem juntos, a depressão materna e o choro excessivo ou devido a cólicas podem afetar as interações pais-bebês, seu relacionamento, e até mesmo os resultados de desenvolvimento da criança. A depressão materna influencia negativamente alguns aspectos do comportamento e do desenvolvimento do bebê, principalmente em relação à dificuldade para acalmar-se, à irritabilidade e ao choro. 


As consequências mais extremas para um bebê que apresenta choro inconsolável são negligência e abuso, especialmente a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome), que por vezes resulta em danos cerebrais ou mesmo morte. 


O que pode ser feito?


O significado do choro inicial muito frequente, excessivo ou devido a cólicas na infância evoluiu: da crença de que era anormal ou indicava doença/disfunção para o reconhecimento de que o choro excessivo é parte normal do desenvolvimento do bebê humano. Os clínicos devem conscientizar-se da importância do choro para os pais, de como pode ser frustrante e de como pode afetar seu relacionamento com seus bebês.

Ao ajudar pais cujos bebês choram excessivamente, devemos garantir-lhes de que a maioria dos bebês que choram muito é normal, e de que o choro imprevisível, inconsolável, em geral desaparece espontaneamente depois das primeiras semanas de vida. Intervenções que visam consolar bebês que choram são apenas parcialmente bem sucedidas e não reduzem os surtos de choro inconsolável. É importante reconhecer também que diferenças no próprio som do choro podem afetar a reação do cuidador. Devemos ser particularmente sensíveis a cuidadores que vivenciam depressão ou outras experiências que podem alterar sua organização perceptual. 

Intervenções e informações de saúde pública devem ser rigorosamente avaliadas antes de serem recomendadas como técnicas para lidar com o choro de bebês. Deve-se tentar criar serviços eficazes, com boa relação custo/benefício, para atender às necessidades de famílias com crianças pequenas. 


Redução da Síndrome do Bebê Sacudido


A Síndrome do Bebê Sacudido é uma resposta extrema ao choro infantil. A redução na incidência dessa síndrome pode ser conseguida por meio de programas educativos de saúde pública oferecidos precocemente, até mesmo antes do nascimento do bebê, na tentativa de aumentar a compreensão dos pais sobre o choro normal, seus padrões na infância, e de que formas a frustração provocada por esse choro pode levar a reações inadequadas como sacudir ou machucar o bebê.


Percebo nesta abordagem uma certa resignação ou aceitação do choro dos bebes no começo da vida como natural. Mas fica uma certa apreensão sobre o risco de permanecer e significar algo mais grave , o que é exatamente a questão dos pais vivendo este momento. Vale a pena reforçar que é natural do bebe pequeno e que o choro não qualifica o cuidado materno e paterno. Vai acontecer independe da qualidade do cuidado. Mas é mais fácil de lidar quando os pais estão mais tranquilos. Novamente não se fala em medicação para lidar com esse choro !

Fica o alerta para sabermos nos afastar caso estejamos muito nervosos para aquela respiração aonde vou recitar o mantra:

- O adulto sou eu !


Laura Gutman tem uma abordagem interessante, do ponto de vista da psicanálise, sobre o choro do bebê: 

"Quando nascemos, esperamos encontrar fora do útero o mesmo conforto e ritmo em que vivemos nos últimos nove meses. Quando nascemos, passamos de um ambiente úmido a um ambiente seco. Muda a temperatura, mudam os sons. Sofremos uma forte mudança de postura, corporal, não estamos mais de cabeça para baixo e enrolados, e sim com as costas apoiadas em algo, sentindo a gravidade e talvez longe do contato corporal com nossas mães. Os bebês esperam estar no refúgio e conforto do corpo materno. A separação do corpo da mãe é uma situação difícil de confrontar. Os seres humanos contam com duas ferramentas indispensáveis para a sobrevivência quando bebês. O primeiro é o instinto de sucção. O outro é o choro, que serve para avisar à nossa mãe, que precisamos dela. Se compreendemos que o bebê não pode fazer nada por si mesmo, aceitaremos que se ele chora é porque precisa ser atendido. A pergunta que podemos fazer é se damos prioridade às necessidades de nossos bebês ou se colocamos em primeiro lugar as nossas próprias necessidades. Tenhamos confiança de que se o bebê recém nascido se sente atendido quando chama, ele vai construindo uma forte segurança interior, que vai facilitar as coisas cotidianas conforme seu desenvolvimento."

Esse talvez seja o texto mais difícil pois nos convida a estar presente no choro e , inclusive o nos observar durante o choro. Exercício este continuo nas funções materno-paternas.

Quando nos dispomos a cuidar de nossos bebês - além de é claro um olhar afetuoso para as necessidades básicas de cuidado, que dependem exclusivamente do adulto, como alimentar o bebê, mantê-lo limpo e amado - precisamos saber que entraremos em contato com as nossas próprias fraquezas e limites. E que o tempo-lugar do choro, do descontentamento aparente do filho, de um suposto sofrimento, pode ser exatamente onde nos encontraremos com elas. O que isso significa? O choro do bebê não será algo a ser resolvido sempre. Em muitas situações, o choro do bebê é algo para ser sentido, vivido. E como todo choro, amparado. Começamos a discutir formação de vínculos, nas suas alegrias e dificuldades.

Às vezes, diante do choro do bebê, esquecemos de executar as atividades mais simples. Um colo extremamente cuidadoso, palavras de carinho. Olhar nos olhos, oferecer o peito. Os pensamentos em busca de uma explicação para o choro ou uma solução para sair desse tempo-lugar de desconforto podem agir no sentido oposto desse amparo. E o bebê sente, e quanto mais desconfortável estiver, mais chora. E quanto mais chora, mais confirma a sua dor e a minha impotência e assim, estamos num imenso ciclo vicioso de frustração e dor.

Se mesmo alimentado, cuidado, amado e atendido o bebê segue a chorar, talvez seja momento de nos perguntarmos: o que EU estou sentido? Ao invés de tentar decifrar o bebê. E poder se afastar para se fortalecer para voltar com mais serenidade e confiança. "O adulto sou eu".

A chegada de um bebê na vida dos adultos revelará essas possibilidades de reencontro com nossas próprias necessidades, prioridades e frustrações além das deles próprios. Vamos lembrar que eles choram também o nosso choro, aquele que acreditamos, por ser ruim, não deixamos sair. A mágica seria conseguir compassar esses tempos e desejos, dos adultos e bebês, de forma afetuosa. 

Quando se trata de choro, do bebê ou do nosso próprio, estamos dispostos a apenas deixar sair e amparar? Qual o papel dos bons pais? Construir um mundo ao redor das crianças sem choro (ou sofrimento) ou ampara-los nas suas dificuldades acreditando na capacidade que cada um traz de lidar com as situações da vida ? Essa será a eterna (ou terna?) pergunta :

- Quando é hora de dar colo ou quando esta na hora de agir?

E vamos nos inventando e reinventando a cada dia nesta continua Jornada que é ser Pai e ser Mãe!

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mães adotivas podem amamentar!

Amamentação com uso de translactador

É muito importante para as mulheres que pretendem adotar crianças, principalmente as recém nascidas, saber que há a possibilidade de amamentá-las.

Como em toda situação de amamentação ao seio, os benefícios são incontáveis tanto para a mãe quanto para o bebê.

No processo de adoção, os bebês que aguardam suas mães normalmente são alimentados por seus cuidadores provisórios através de mamadeiras, não tendo tido a chance de mamar ao peito. Um bebê que chega aos braços de sua mãe, podendo estabelecer o vínculo com ela, através do contato físico, calor e aconchego que a amamentação proporciona, poderá lidar melhor e superar as questões importantes, como a rejeição da mãe biológica ou adaptação à essa nova experiência afetiva. Encarar de forma natural essa prerrogativa é um bom começo para abrir oportunidades de cura e vínculo afetivo sólido entre esse bebê e sua mãe.

O contato com o seio materno norteia o bebê e a mãe na expressão de afetividade mútua, qualificando o vínculo como físico, quando ele não ocorreu pela gestação e pelo parto.

Rituais dispensáveis, no entanto nem por isso não importantes nessa relação sólida de afeto mútuo.

A amamentação em situação de adoção pode ser olhada com esse aspecto ritualístico, e acho bastante interessante que a gente possa ajudar essas duplas na construção de suas novas histórias. Já atendi mulheres que foram bastante disponíveis, e tanto o percurso como os resultados são sempre maravilhosos.

Quando se tem a previsão de quando o bebê vai chegar, podemos trabalhar com preparo da mama, usando calor, massagens e uma medicação que ajude a induzir produção, observando o poder do aspecto ritualístico também para a chegada de um filho que não virá pelas vias naturais do corpo materno, mas nem por isso precisa ser afastado dele.

Quando o bebê e a mãe já estão juntos,  pode ser utilizado um sistema de alimentação conhecido como Translactador. É um reservatório de leite com uma sonda que conectada ao mamilo, oferece a possibilidade do bebê sugar seio da mãe e receber leite a través da sonda. Como para qualquer processo de amamentação, a sucção do bebê é estímulo que pode ser suficiente para haver produção de leite.

Chamamos isto de Lactogenese.

Translactadores: modelos de sistema de alimentação com reservatório e sonda



No começo, proponho uma equipe. Acredito que esse trabalho não deva ser feito por uma pessoa só. Acredito nesse suporte de mais profissionais. Eu conto com as parceiras Andrea e Ione da Bioamamentar no espírito de equipe interdisciplinar criando uma rede de apoio para essas mulheres.

Também pode ser uma grande aliada, alguém da área de psicologia, para dar um suporte emocional. A mãe adotiva precisa de apoio para encontrar nas situações antes da chegada do bebê seus próprios rituais de preparo, coisas que em uma situação de maternidade biológica, podem ser construídas através da gestação e parto: momentos de passagem importantes entre a vida pré e pós chegada daquele bebê.

A enfermeira especialista em aleitamento materno, pode ser uma excelente profissional para o suporte técnico do sistema de alimentação complementar, o translactador, além da preparação das mamas.

A presença de uma fonoaudióloga também é de grande valia, e pode ajudar o bebê a conquistar novas posições buco-maxilo-faciais, provavelmente condicionadas ao tempo de alimentação artificial, e reverter a pega para o modelo necessário ao seio da mãe.

A pediatria ajuda nesse processo todo avaliando o crescimento e desenvolvimento desse bebê. Claro que outros profissionais que tenham esse olhar holístico para a maternidade como construção vital entre duas pessoas, e não meramente como um evento resultado de "ter filhos", podem ser também muito valiosos: como Doulas, grupos de apoio de mães puérperas e outros: tratando tanto essa mãe como esse bebê com a naturalidade e carinho que suas histórias únicas e especiais merecem. 



Quando se fala de amamentação pós adoção, não temos como proposta que a criança fique no aleitamento materno exclusivo. Estamos propondo uma estratégia de formação de vínculo de mãe-filho. Se o aleitamento acontecer, é um ganho maravilhoso, mas não é esse o objetivo.

O objetivo é que esse contato físico e emocional entre mãe e bebê aconteça. Para além da amamentação ao seio, é recomendado que esses corpos se encontrem através do uso de slings, contato pele a pele, massagens afetuosas como a shantala, banhos juntos. Tudo para favorecer o reconhecimento dessa nova história de amor.

Existem instituições, ONG’s, que são de pais que adotaram crianças que ajudam pais na situação de espera para adoção, e quando a adoção acontece, formar/deixar nascer/ criar vínculo. São pessoas que vivenciaram essa historia, que ajudam outras pessoas, através de orientações e apóio, como é o caso do Projeto Acolher.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Amamentação: Precisamos falar de prazer

Quando observamos a Amamentação sob a luz da ciência nos deparamos com impressionantes dados sobre a superioridade nutricional do leite materno, sobre o favorecimento do desenvolvimento cognitivo do bebê amamentado, sobre os benefícios para a saúde da mãe e todo o rol de proteção e prevenção também para a saúde do bebê.

As descobertas acerca da composição do leite, processos fisiológicos de sua produção, tipos de leite perfeitamente elaborados para cada situação de cada bebê são surpreendentes. É tecnologia de ponta, essa coisa de amamentar. 

Tanto que não há fórmula no mundo que chegue perto dessa qualidade, por mais avançada que seja a indústria. E sobre isso, todos nós lactivistas, nunca iremos discordar. As campanhas dos órgãos públicos ficam focados em difundir este conceito : Benefícios do aleitamento para a mãe, o bebe e a sociedade !

Mas temos observado que quando as discussões sobre amamentação são encabeçadas pela "superioridade do leite" e outros tantos benefícios, perdemos a chance de debater, e em especial de VIVER, aspectos humanos desse processo, transformando o ato de amamentar em uma meta a ser atingida e o próprio leite em um produto. "A escolha pelo melhor". 

Mas quem irá praticar este aleitamento ? Conhecemos as necessidades desta produtora de leite materno? Sequer ela existe? Tem medos, fantasias ou uma historia de vida? Estamos interessados em conhecer esta mulher?

Ilustração por Paulien Maria
Tratar esta questão de aleitamento na forma de que é o melhor para todos, faz de nós consumidores, apenas. Não estamos falando de indivíduos e das possibilidades de encontro entre um bebê e sua mãe. Não estamos falando da vida humana pulsante que queremos e acreditamos ver num recém nascido e numa mulher que acaba de se descobrir mãe. É bastante possível que ela conheça todos estes benefícios de amamentar, mas será que ela confia na sua capacidade e está em condições de viver com potência este papel?

Amamentação sob a luz da humanidade é acima de tudo um lugar no tempo-espaço de descoberta ou continuidade de PRAZER para os dois principais envolvidos, mãe e bebê. Nunca deveria ser "vendido"como obrigação, como uma necessidade extrema. Quando conseguimos olhar para este tema como uma oportunidade de encontro mútuo, como uma possibilidade de viver uma experiencia de prazer entre a mulher e seu bebê, poderemos melhor ajuda-la a conseguir superar as imensas dificuldades que irão aparecer durante esta jornada.

Muita coisa contribui para a amamentação não acontecer. Tem muito para não dar certo. mas enquanto sobrecarregarmos as mulheres com mais esta obrigação, tarefa, função, mais distantes estamos de atingir um lugar aonde mãe e bebê vivam com prazer e alegria este encontro tao especial e mágico.

Precisamos repensar a forma de falar sobre aleitamento materno !
Precisamos falar desse encontro e de prazer!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Amamentação: a última fronteira do corpo mulher


**Por Anne Rammi** 

A minha contribuição para a #Smam2016 é uma reflexão. 
Amamentação não é índice de qualidade de maternagem. Nem tampouco está na categoria "alimentação" - muito embora tenha também essa função e ninguém vá questionar a superioridade nutricional do leite materno. 

Amamentação não é um exercício de amor, e não se trata de abnegação e generosidade, ainda que seja uma experiência única de aprendizado sobre exatamente isso: entrega. E quem amamenta sabe o tanto de amor que pode rolar ali. É realmente avassalador, mas amamentação não tem nada à ver com isso. Não mesmo. 

Acho que quando escolhemos focar nesses aspectos adjacentes, criamos uma cortina de fumaça que esconde um cenário macro, dolorido e por isso ignorado: amamentação hoje se trata do resgate do poder que as mulheres têm (ou deveriam ter) sobre seus próprios corpos. Amamentação é uma pauta tão feminista que até as feministas tem dificuldade de enxergar seu potencial revolucionário de emancipação do corpo. 

Corpo. Corpo. Corpo.





Tudo o que diz respeito ao corpo da mulher - e a quantidade de violência patriarcal que sofre desde que nasce - precisa ser enxergado como o contexto para as vivências da maternidade. Se não, estamos fadados aos avanços a passos de tartaruga, regulados por aquilo que o mercado deixa. Haja visto o tanto que se fala em "benefícios do leite materno" até nas campanhas de marketing dos produtos substitutos a ele. Se a indústria de substitutos do leite materno ainda não faliu, estamos fazendo isso errado, nós as lactivistas. 

Minha contribuição para a #Smam2016 é essa.
Olhar para o desagradável. Olhar por baixo do tapete para onde se varrem as sujeiras. Sexo, prazer, gestação, parto, e tudo o que cabe entre uma coisa e outra, tem relação indissociável com a última fronteira do corpo de mulher: amamentar. 

Amamentação é a última fronteira dos corpos mulheres. Dos corpos que a elas nunca pertenceram. Faz sentido porque é difícil? 

Do brinquinho dolorido e faixa na cabeça para adornar bebês meninas, passando por toda a repressão sexual da infância. Perseguição por modelos inatingíveis de beleza e rituais torturantes para encaixe no padrão. Não vamos esquecer que muitas, se não todas nós, sofremos abusos sexuais. E algum tipo de violência maior ou menor, dessa ordem. Nosso trabalho vale menos. Nosso corpo, vale nada, e querem até legalizar (com carteira assinada) a prostituição. 

Masturbação, orgasmos, sexo, prazer, não são nem mencionados como parte natural da vida de mulher nenhuma. E não há direito de escolha sobre gravidez, uma vez que se gestante, está sacralizado aquele corpo, ainda que tenha vindo do prazer de alguém, do corpo de alguém, do sexo de alguém. 



Estamos envenenadas desde a primeira menarca (que ai, como odiamos) por anticoncepcionais que nunca despertaram a preocupação de ninguém. É natural que nos cortem a barriga e interrompam nossas gestações para tirar um bebê de lá de dentro: que sofre ameaça, do próprio corpo que o abriga. Placenta ruim, quadril ruim, dilatação ruim. O corpo que não presta, se ousar trabalhar em parto, escapa do corte na barriga mas leva no períneo, e uns sopapos talvez. E depois costuram tudo, para não estragar o parquinho de alguém.

Amamentação não é sobre amor, nem sobre escolha. Porque é sobre lidar com essa bagagem toda aí, carregada no corpo. Porque é sobre lidar com esse corpo, que agora precisa ser habitat de outro corpo. O seio é habitat do bebê sim. Tem problema se não amamentar, tem problema SIM. Não que signifique que aquela mãe não é boa - afinal amamentação não é índice de qualidade de maternagem, já passamos dessa fase. Mas significa, se houve o desejo de amamentar e ele não se concretizou, que aqueles corpos sucumbiram em alguma instância à violência que sofreram. 

Os corpos não esquecem. 

Amamentação é isso, um acontecimento que não se separa de todas as vivências daquele corpo mulher. Persistir, amamentar, jorrar o fluido do corpo que alimenta é resistência feminina. É o choro transmutador de lágrimas do corpo, em leite. 


Imagens das obras do artista Sidney Amaral 

Em tempo: desejo de não amamentar, escolha informada verdadeira por não amamentar, assim como por não gerar, não gestar ou não parir é igualmente, um exercício de poder que a mulher faz sobre seu corpo e somos todos à favor disso. Mas não vamos achar que mulheres que - frente à toda violência que carregaram em seus corpos desde que nasceram, às investidas das indústrias, incapacidade dos profissionais, ausência de estrutura social e ameaças à saúde do filho - não amamentaram seus filhos o fizeram por escolha. 

Isso não é escolha tá bom? Tá bom.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Siaparto 2016 - Nascimento e Humanidade



Na terceira edição do Siaparto, Cacá teve espaço de destaque para falar das práticas recorrentes dentro da sala de parto. Muito embora as recomendações baseadas em evidências científicas para o nascimento de bebês normais há muito tempo já apontem que o melhor a se fazer é não fazer nada, ainda estamos caminhando na árdua luta de espalhar a informação, e especialmente, sensibilizar profissionais da área sobre essas condutas.


Desde 2005, o Ministério da Saúde  reitera que “Com os RN normais, nada mais deve ser realizado além de enxugá-los, aquecê-los, avaliar as suas condições e entregá-los às suas mães para estabelecer um contato precoce e íntimo. As manobras de reanimação devem ser realizadas apenas em situações necessárias, sendo desaconselhável empregar estes procedimentos de forma rotineira.” Corroborando a ideia da não intervenção sem necessidade, estão também em alinhamento os textos da organização Mundial de Saúde e da Academia Americana de Pediatria. Em todos os casos, a premissa básica é: entregar o bebê saudável à mãe.

                              

O atendimento humanizado ao Recém Nascido no Brasil é lei. A portaria 371 de 2014 preconiza o contato imediato com a mãe, clampeamento tardio do cordão e estímulo ao aleitamento, além de recomendar que os procedimentos de rotina como pesagem e medições antropométricas e profilaxias sejam postergados.

Mesmo assim, o cenário de recepção ao recém nascido ainda aplica condutas invasivas e dolorosas, como aplicação sistemática de colírio, massagens vigorosas em busca de vitalizar bebês, vacinas e aspirações, em detrimento a aspectos naturais e inestimavelmente mais importantes, como a amamentação na primeira hora, contato pele a pele e o imediato reconhecimento de mãe e bebê. 




  "Minha grande questão atualmente sobre a recepção ao recém nascido normal é o não fazer. Me interesso em observar, e à partir da observação, a confirmação, que a vida começa nesse espaço onde não fazemos nada."

No Siaparto, a reflexão de Cacá se ampliou para todos os profissionais presentes, mostrando a possibilidade de humanização na prática, com seu jeito afetuoso peculiar. Uma palestra de extrema importância, para nos lembrar sempre que a ciência não pode se perder da humanidade.



“Entendo por HUMANIZAÇÃO o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.

Antônio Cândido













terça-feira, 10 de maio de 2016

Padecer no Paraíso? Sai Fora!

Cada vez mais tenho visto bebês nascidos de parto normal e/ou natural usando complemento alimentar com dias de vida. Mulheres que conseguem parir após 1 ou até 2 cesáreas com bebês desmamados com apenas um mês porque não ganhavam peso. Mulheres que queriam amamentar, mas decidiram que não conseguiram em poucas semanas.

Que empoderamento é esse que morre rápido assim? Algo errado está acontecendo.

Eu sempre disse que atendimento neonatal humanizado não é uma técnica. Mas parece que continua sendo visto assim: basta não pingar colírio e não aspirar o bebê que esta tudo resolvido! "Pronto, foi humanizado!"

E então chega o pós parto e a abordagem humanizada se esvai na primeira dificuldade. A abordagem humanizada no pós parto tem contribuído para a construção de vivências plenas entre mães e filhos e fortalecimento da mulher, ou tem obedecido o status quo, que a coloca no papel eterno de incapaz?

Por favor me digam - onde está o favorecimento do empoderamento da mulher no puerpério? Qual é o papel do profissional de saúde à partir do nascimento do bebê? Cadê a escuta destes pediatras? 

Dar colo no pós parto deve ser coisa de doula pós parto, só pode!

Se cada vez que uma mulher pedisse uma cesárea durante seu parto ela fosse prontamente atendida, será que teríamos tantos partos naturais? Se cada pequena intercorrência no processo fosse imediatamente administrada com intervenção cirúrgica, o que seria do modelo humanizado?

Os grandes avanços no modelo de atendimento ao parto estão também incluem o pacto que se contrói durante o pré-natal. Que é baseado em muita ESCUTA.

Assim como no parto, o empoderamento da mulher no pós parto depende da possibilidade dela acreditar na sua capacidade. Assim como no parto, a mulher tem que querer e sentir-se capaz de amamentar. Assim como o parto é o aleitamento materno. Depende do querer e sentr-se capaz. E depende da atuação ativa da mulher em combinação com competência técnica e muita escuta por parte da equipe.

Quem acha que parto e aleitamento são eventos distintos não entendeu o processo histórico que interfere na condição de ser mulher e mãe. Construiu-se a ideia de que a mulher moderna "não é capaz de parir e amamentar". Parto e amamentação sofreram forte impacto da teoria da defectibilidade feminina inerente. Ou seja, a larga ideia de que mulheres são incapazes de nascença.

Isso sem dúvida favoreceu as indústrias que oferecem soluções para cada uma das incapacidades que criaram. Criam o veneno e vendem o antídoto, não é assim?

Video Obra de Alfredo Duke - Making Mother Mary


Os discursos de simpatia ao pós parto que reforçam a ideia de que "coitada, essa fase é tão difícil" só fazem colaborar com a teoria da incapacidade. A sociedade, a medicina e até mesmo a família, na minha opinião, não ajudam em nada (a mulher) quando atuam nesse discurso. Ajudam outras forças.

Empatia é compreender o pós parto como um evento natural, assim como as dores de parto, e acreditar na capacidade da mulher em viver isso e passar para uma nova fase. E não um apoio fragilizante, um culto ao "coitadismo". Para apoiar uma mulher no puerpério eu preciso compreender e aceitar suas delicadezas e dificuldades sim, mas também ter a certeza que apesar de difícil, é uma fase natural. E as mulheres podem lidar com isso.

Na lógica da amamentação como continuum do processo de parto, de trazer à luz uma nova vida, sabemos também que mulheres que tiveram cesáreas podem amamentar e mulheres que tiveram parto natural podem não amamentar. Todas as conjunturas são possíveis, e se estendem depois para a criação dos filhos. Se serão amamentados prolongadamente ou não, se irão cedo ou tarde ou nunca para a escola, e qual escola, se a família retomará suas atividades profissionais ou buscará mais momentos de convívio. 

Tudo é possível, e no meu ponto de vista, tudo é bom. Contanto que sejam vivências que nascem do empoderamento, das escolhas informadas. Desde que sejam vivências emancipantes para todos os envolvidos.

E é aí que o puerpério carece de observação cuidadosa: estamos fortalecendo a emancipação dessa filha que se transforma em mãe dentro das experiências múltiplas do rito de passagem, que inclui gestação, parto, puerpério e também amamentação? Ou a estamos convidando para o papel de vítima?

Olhamos essa mulher como alguém frágil, insegura e delicada ou como alguém vivendo um processo natural?

Para mim o papel do profissional que atua no parto e no pós é esse: fortalecer a emancipação através do caminhar junto. Oferecendo escuta e informação, mas respeitando suas decisões. E jamais duvidando da capacidade dessa mulher de lidar com o que se apresenta.

A incapacidade inerente da mulher moderna se apoia sem dúvida na glorificação do sofrimento da mães. Essa é a abordagem arquetípica da mãe na sociedade judaico-cristã. Mãe é "aquela que padece no paraíso". Simbolicamente, alguém emocionalmente destruída, mas que não aparenta. Um paradoxo. Na hora de acumular todas as funções da casa ela é uma super mãe, na hora de aleitar a cria, uma coitada que sofreu muito com a falta de leite. Esse perfil de mãe/mulher é extremamente útil para uma sociedade machista e consumista, que gosta de comprar a solução para os problemas, enquanto mantém sob controle a força de trabalho da mulher, alienando-a da construção de sua própria história e varrendo para baixo do tapete as questões que nos lembrem que: mães são humanas, e não símbolos de pureza e glória. 

Nem coitadas, nem heroínas. 

Penso que as mães são plenamente capazes de lidar com qualquer fase do processo de maternidade, assim como são os bebês. A abordagem humanizada é para olhar humanos. O profissional, a sociedade e a família ajudam no caminho para o empoderamento quando oferecem colo e apoio para as decisões, simples assim.

Padecer no Paraíso?
Sai Fora!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"Eu chorei amamentando"

Minha mãe sempre contou, com ares dramáticos, como eu mastigava seu peito ao invés de sugar, fazendo seus mamilos sangrarem. Desmamada, diz ela, recusei mamadeira e chupeta. Tomo pingado no copinho desde que aprendi a pegar e levar à boca. “Você era a sensação na padaria”. 

Sempre vi graça nessa história. Até engravidar. 

O Tomé nasceu no hospital em um lindo parto humanizado. Mas ali, na sala de parto, ele não mamou. Tentou, chegou a pegar o peito, mas não parava de chorar. Eu até fiz piada: pode reclamamar, filho. Reclamame, temos todo o tempo do mundo para você. Mas não rolou. No primeiro dia inteiro ele não mamou. À noite, ele vomitou mecônio e a enfermeira veio me acalmar. “Ele tem uma grande reserva de energia, fique tranquila, amanhã vai ficar tudo bem”. 

No dia seguinte veio a Andrea Santos, consultora de amamentação, fazer visita. Ela viu a pega dele, ensinou umas posições, ele mamou bastante e ficamos todos felizes. Foi um dia de mamação, conexão e emoção. Na manhã seguinte, eu estava deitada, com o Tomé estatelado em cima de mim, meio mamando meio dormindo, quando uma maldita enfermeira entrou no quarto e saiu me dando o maior sabão: "Quanto tempo faz que ele tá assim? Você não foi o-rien-ta-da? Seu filho tá te fazendo de chupeta! São 20 minutos de cada lado e depois ber-ço."

Eu estava em outro planeta e aquilo me deixou zonza. Não entendi nada, não entendi que poderia estar fazendo alguma coisa errada. Fiquei amuada. Ah se fosse hoje... eu teria tocado ela do quarto na porrada. Mas naquele momento eu estava meio desfeita, meio dissolvida, sei lá. Voltamos pra casa e um dia depois o leite desceu. Era uma sexta-feira e a Andrea veio em casa ver como estava as coisas. Estava tudo bem, Tomé mamando direito, leite à vonts, sem empedrar, uma beleza. O Tomé se revelou um mamão. Mamava por muito tempo e várias vezes, intervalos curtos, uma intensidade enfim. E as palavras da enfermeira ficaram ressoando em algum canto da minha cabeça. 

Meu filho estaria me usando? 

Fonte da Imagem: Etsy


Sorte que o Cacá ligou e perguntou como estávamos. Conversamos um monte, contei da enfermeira, ele falou falou, falou e eu achei que tinha feito as pazes com a decisão de amamentar em livre demanda. Mas meu peito começou a rachar. E tudo começou a ficar muito penoso. Eu pensava na cena que a enfermeira estragou, o Tomé estatelado em mim, eu totalmente relaxada, e não conseguia imaginar como aquilo tinha acontecido. Agora, amamentar era uma coisa que fazia com que meu corpo ficasse tenso, todo retorcido. Era algo que eu tentava encerrar logo. “Vai, acho que ele terminou”, e tirava o menino do peito. E ele reclamava. E eu voltava ele pro peito um pouco de má vontade, um pouco com pena, me sentindo um pouco culpada e um pouco usada. Tudo muito confuso. 

Na segunda-feira, pela primeira vez eu chorei amamentando. Então fui ver a Andrea. Ela olhou a mamada e chegou à conclusão que a pega estava errada. O meu temor se concretizou: assim como eu-bebê, o Tomé estava mascando meu mamilo. (Minha mãe, que no geral é ótima, super respeitosa e entendeu bem seu papel e vó e tal, mandou uma puta bola fora quando eu contei pra ela. Disse: “Háááá, puxou a mãe. Viu como é?”. Eu senti como se o Tomé estivesse servindo para ela se vingar da dor que eu causei nela. Fiquei puta, xinguei ela e falei, com o claro intuito de magoar, que ela não tinha me amamentado porque não tinha informação e não insistiu. Estávamos as duas erradas, é claro. Normal, acontece.) 

Enfim, a Andrea ensinou um jeito de ensiná-lo a mamar: ele ficava de cavalinho e eu empurrava o queixo dele para trás em todas as mamadas. Foi assim durante uma semana. A coisa foi se acertando, veio a consulta de um mês e ele tinha perdido peso para chuchu. O Cacá acalmou a gente e disse: deixa ele pendurado no seu peito. Ele deve estar querendo compensar os dias em que você regulou as mamadas por conta da dor. E assim foi, o bichinho passou a ficar pendurado em mim. “Alimentação permanente”, meu marido dizia, achando graça e fazendo carinho. Eu aprendi (ou melhor, achava que tinha aprendido) a fazer ouvido mouco para as “perguntas-palpites”, aquelas que disfarçam um julgamento. 

“Mas por que ele não mama normal? Por que fica sentado? Por que ele mama tanto? Você precisa regular os horários dele, se não ele vai tomar conta da sua vida! Seu peito não machuca? Mamando desse jeito, ele vai acabar esfolando seu mamilo.” 

Segunda-feira

A lua-de-leite durou uma semana. Na segunda-feira eu acordei com mastite. Com a queda na resistência, a candidíase mamária, que sempre esteve por ali, mas moderada, atacou com força total. No meio da manhã, eu explodi. Chorei que nem bebê, gritando. O meu marido ligou pro consultório do Cacá e protagonizou uma das conversas que viraram piada aqui em casa. 

- A Helô está chorando muito, não parou de chorar a manhã inteira, queria ver se a gente conseguia um encaixe. (silêncio) 
- Hãn? (silêncio) 
- Não, Helô é a mãe. 

A dor era tanta que eu não cogitava dar o peito pro Tomé. Mas era tanta que eu não sentia medo de que ela ficasse mais intensa. Então me fechei no quarto com um copo esterilizado e ordenhei os dois peitos, entreguei o copo pro meu marido e pedi que ele desse o leite pro Tomé. Foi outro marco. Ele ficou emocionado de poder alimentar o filho, ou apaimentar como eu prefiro. Chamou para a si a responsabilidade de dar leite pro Tomé sempre que eu estivesse cansada ou dolorida, e isso foi fundamental nos dias que seguiram. 

Fomos ao consultório do Cacá e ele e a Andrea confirmaram que era mastite, deram remédios e a recomendação: repouso total. Eu estava tão cansada, dolorida e fragilizada que repousei totalmente. Um detalhe: na semana anterior, eu tinha lido o livro da Laura Gutman e estava com ele na cabeça. Tinha achado ele meio over. Faço análise há dez anos e nutro (ou nutria) um pouco de preguiça dessa abordagem meio quase mística. 

Pois bem. 

Fonte da Imagem: Etsy


Terça-feira 

Dia de grupo de amamentação no Espaço Nascente, que eu frequentei por algumas semanas, religiosamente. Nesta semana o Cacá ia conduzir a conversa. E tinha pedido pra eu ir pra ver como a mastite estava. Eu fiquei o tempo inteiro ali quieta, à beira das lágrimas. Estava exausta e frustrada. O Cacá me perguntou, no meio de todo mundo, como estava minha situação. Contei a história e pela primeira vez notei que era tudo num peito só. O Cacá chamou a atenção para uma leitura possível, nem lembro da onde, de que cada lado do corpo simboliza um ramo da família, um lado é do pai e o outro da mãe. 

Eu voltei pra casa e enfiei na cabeça que ia decifrar esse enigma. O meu marido estava dando conta de cuidar da casa, de mim e do Tomé, então eu me permiti ficar quieta e mergulhar. Vou tentar descrever aqui a linha de pensamentos, é uma brisa, meio papo de maluco, mas vamos lá. 

Comecei pensando na história que abre esse relato. Sangue com leite. Isso tinha transformado a amamentação em uma coisa “nojenta” na minha cabeça. Leite com sangue, que nojo. Fui me entregando para essa ideia do nojo e percebi que sentia um incômodo quando escorria leite do meu peito - sentia nojo do meu leite jorrando. Comecei a tentar retraçar minha relação com meu peito e me lembrei que quando eles começaram a brotar, na adolescência, meu pai fazia uma “piada” que me deixava desconfortável: ele chamava meus peitinhos de “espinhas inchadas”. Espinha tem pus. Era leite, sangue e pus. 

Quando eu fui me levantar para receber uma amiga, senti uma dor absurda na virilha. Era um abcesso gigante. Na verdade eram dois, enormes e interligados. Pensei: meu corpo está me dizendo pra eu ficar quieta, deitada. Era impossível andar. Ouvi o recado e fiquei deitada por três dias (levantava só pra tomar banho). E me deixei levar pelas sensações que aquelas descobertas sobre a minha relação com o meu peito despertavam em mim. Fiquei triste triste triste, por perceber como meu corpo não tinha sido muito bem elaborado na minha cabeça adolescente. Fiquei angustiada, porque o meu peito doía demais e eu não conseguia pegar o Tomé no colo. Fiquei frustrada, porque amamentar deveria ser bom. Fiquei desmontada, porque tudo era desconforto. E fiquei entregue aos cuidados do meu marido, que me acalmava e me acolhia. Em algum momento, cheguei no meu limite e decidi: se até a semana que vem isso não resolver, vou parar de amamentar. É melhor ele tomar leite artificial e poder ser ninado, do que tomar leite materno mas não ter colo materno. 

Sexta-feira 

O Rafa tinha uma reunião de manhã. Ficamos sozinhos, eu e o Tomé. Eu só conseguia andar se afastasse muito a perna, tipo hipermanca. Fui assim até o banheiro trocar o Tomé pela manhã. E o abcesso rompeu. Não vou descrever, só digo que foi muito forte e era muito... sangue e pus. Foi doido e doído. Eram exatamente as coisas que vieram à minha cabeça quando eu tentei achar os meus obstáculos. Eu chorei de emoção e alívio. Sem a dor do abcesso, eu consegui perceber que não sentia mais a dor da mastite (afinal, estava tomando antibiótico e analgésico). E a dor da candidíase também havia melhorado. E meu espírito era outro. Tiramos o fim de semana para descansar os três bem juntos e recompor a harmonia da família. Finalmente eu consegui sentir prazer em amamentar e me entregar às longas mamadas. Finalmente - e graças ao muito apoio, muito apoio mesmo - eu consegui me entregar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"Quinze minutos em cada peito a cada três horas"

A Livre demanda é uma necessidade fisiológica do amamentar.

Mas de onde surgiu a ideia de que os bebês tem hora e quantidade certa para mamar?

Não podemos ignorar o fato de que a regulação do tempo de mamada de um bebê ou a hora que ele precisa ser alimentado tem estreita relação com a indústria de leites artificiais - e não com a amamentação natural.

Há quase um século a indústria de leites artificiais começou a fabricar substitutos ao leite materno - "alimentos" infantis que variaram de leites de vaca condensados, à farinhas engrossantes chegando hoje às fórmulas ultra tecnológicas - e a cultura em torno da amamentação hoje ainda se pauta pelos paradigmas que essa indústria criou. 

Profissionais de saúde infantil nem sempre são especialistas em amamentação, e podem estar reforçando esses paradigmas que favorecem em primeiro lugar a cultura da fórmula, em detrimento de bebê e mãe.

"Quinze minutos em cada peito a cada três horas" - essa só pode ser uma recomendação para um processo de lactação massificado, onde supostamente o profissional de saúde saberia calcular a quantidade de nutrientes, o tipo de absorção, o tempo de digestão e o volume que um bebê precisa. Impossível saber exatamente quanto o bebê está mamando quando está no peito.



O leite da mãe é um organismo vivo. Ao longo da mamada, o bebê não recebe um único tipo de leite - isso ocorre apenas no leite industrializado, que possui uma única fórmula do começo ao fim, em todas as latas.

No seio da mãe, o bebê demanda com sucção em diferentes intensidades, leva diferentes tipos de anticorpos. Pode estar mamando uma vacina biológica natural para uma gripe que pegaria. Pode estar mamando aquele leitinho que vai ajudar a combater uma infecção. Como saberemos estimar o quanto, o como e o quando esse bebê vai mamar? 

Não saberemos.

Para além do combustível para a saúde do bebê, o leite materno, a sucção e o colo da mãe representam prazer e satisfação para um bebê, especialmente recém nascidos, nesse momento sensível e peculiar que é a chegada à vida. Como é que os profissionais que praticam as recomendações rígidas de horário esperam satisfazer as necessidades de um ser humano que experimenta pela primeira vez sensações como frio, calor, fome, medo. Bebês não passam pelas coisas com hora marcada, assim como nós.

Fica claro que é uma recomendação pautada pela indústria, que acima de tudo prefere e precisa que os bebês mamem o mínimo possível. Só não declaram que preferem que os bebês não mamem, porque felizmente há leis que coíbem algumas práticas abusivas que levam ao desmame.




Quando o bebê cresce e se inicia a introdução alimentar, os mesmos profissionais que recomendam horário fixo para as mamadas, sugerem data limite para começar a comer. Para todos: exatamente no dia que completar seis meses. Sem observar os sinais, sem proporcionar a exploração sensorial do alimento, sem permitir um encontro prazeroso com a comida. Bebês e mais bebês, amarrados com data marcada em seus cadeirões, com colheres mágicas que os abastecem sem sujeira!


Seguindo nessa onda, o mesmo grupo vai sugerir que "agora que come já pode desmamar". Contrariando as evidências incorruptíveis de que o leite materno e a amamentação seguem oferecendo proteção à saúde mental, física e emocional para a criança e para a mãe - enquanto estiver bom para os dois. O curioso é que, para o desmame à partir da alimentação, o argumento mais utilizado é a independência do bebê.

Autonomia do bebê.
Respeito à liberdade da criança.

Mas ora, um bebê que desde os primeiros dias segue horários fixos, não tem suas necessidades fisiológicas atendidas se elas acontecerem fora do prazo estipulado pelos adultos, é alimentado com data marcada, cardápio marcado, local marcado... Teve por acaso algum tipo de respeito em autonomia ou liberdade?

Por que de repente essas questões viram argumentos?

A resposta é bem pragmática: porque interessa à indústria. Aquela, que determinou a cultura da amamentação em hora marcada precisa dessa "autonomia fictícia" de crianças bem pequenas, porque o ciclo de vida de um produto que competia com a amamentação (leite em pó por exemplo) já está chegando ao fim e é preciso levar esse pequeno consumidor ao próximo ítem da linha: papinhas. 

As indústrias tem um produto alimentício "adequado" para todas as fases da vida de um ser humano. Da amamentação ao fim da vida.  Dos 0 aos 100 anos. E o marketing dessas empresas sabe exatamente como, através da cultura, publicidade e interferência na formação dos profissionais, ir levando o consumidor fidelizado à marca a depender, querer e precisar cada vez mais daquela indústria.

Esse é o negócio deles.


E qual é o nosso negócio? Como pais, mães, cuidadores de bebês e crianças, pediatras focados em humanidade e não em comércio?

Questionar os paradigmas, olhar atentamente para mães e bebês como universos exclusivos, complexos. Acreditar no processo fisiológico do corpo feminino, acreditar no leite materno. E nos empoderar através de informação e prática que de fato favoreçam nossas necessidades e liberdades.