Mostrando postagens com marcador Maternidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maternidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Cultura e dor

"Cultura são artes elevadas à um conjunto de crenças."
Thomas Wolfe

Culturas e tradições e ciências!

É fácil falar das nossas, gostar daquelas que praticamos, defender aquilo que fizemos com nossos filhos ou o que foi feito conosco. Ou mesmo negá-las, já que em relação aos cuidados com filhos cada geração irá ser influenciada por técnicos da área de saúde que definem o que é cientificamente correto. Afinal nada mais elevado a um conjunto de crenças que a própria ciência!

Caso tivessem contado para uma mãe urbana na cidade de São Paulo na década de 80 que a placenta deve ser enterrada embaixo da roseira, provavelmente ela acharia esse costume muito esquisito. Afinal, não está na sua coleção de riquezas. Esta mulher é construída num ideal de que ela não é bicho e muito menos índia e que portanto, parir naturalmente e amamentar não fazem parte de seu repertório de vida. Sua maior riqueza viria da artificialidade.

Sim, você está vendo um sapato de salto para bebês. Foto Pee Wee Pumps.

Tudo feito pela industria é melhor !
O que ouso chamar da Cultura do Plástico.

Da mesma forma nos espantam as andinas quando colocam o bebê no aguayo e com força e segurança lançam a criança para a vida que existe no infinito atrás das costas da mãe. Uma experiência sensorial indescritível que essa mulher oferece ao seu bebê. Mas em nossa cultura de "cuidado com o pescoço" parece descabido fazer o bebê voar.

Foto Unbolivable


Lá na Nigéria o primeiro banho do bebê quem dá é a avó. É um gesto que representa que a comunidade de mulheres está apoiando a mãe nos cuidados com o recém nascido. "É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança", eles dizem. Muita gente concorda, pouca gente pratica.

Fica difícil de frente da poesia do primeiro banho nigeriano enfrentar o fato de que muitos bebês na contemporaneidade são esfregados com brutalidade pela enfermeira do berçário, que precisa correr logo para preencher uma planilha (lembrando que preencher a planilha fica quase mais importante que o banho) e dar conta de tantos outros bebês e tantos outros relatórios.

Foto: How To Bathe a Newborn

Faz tempo que algumas coisas que acontecem com nossos bebês por aqui deixaram de ser tradição. Jamais seriam arte, apesar de ganhar ares de cultura. Não respeitam conjunto de crenças nenhum, se não a ordem de produção do modelo morto que nos rege. Em tom apocalíptico: o dinheiro (... não consegui resistir) 

Mas falando em dinheiro e nas coisas que ele compra, fora do Brasil as pessoas estranham as lembrancinhas de nascimento. "Como pode a mãe ter que presentear um visitante? Quem merece presentes é ela". Uma estranheza que faz algum sentido.

E exatamente na busca do sentido, descobri que no Paquistão e outros países Islâmicos a nomeação do bebê é um ritual que deve acontecer no seu 7º, 14º ou 21º dia pós nascimento, onde a sua cabecinha é raspada e um animal é oferecido em sacrifício em seu nome.

Foto: Beritawajo

Quando fala "sacrifício" já dá uma estranheza. "Pobre do animal, precisa matar?". Nada à ver com os bebês, mas há quem reclame das galinhas vendidas para sacrifício em rituais religiosos exatamente enquanto mastiga o filé de frango. Cultura tem dessas coisas, quando não é a nossa, dá uma estranheza. Chega a dar aversão!

As índias brasileiras pintam seus bebes de preto e vermelho. Querem vitalizar e afastar os maus espíritos , num ritual de proteção espiritual aos bebês. Nas populações urbanas do Brasil e do mundo, as mulheres vacinam seus filhos. A vacina ganha o poder mágico de proteger os bebês, já que no dia seguinte a vacina uma criança pode andar de metrô ou frequentar o shopping sem medo.

Na esfera das crenças, pode ser mesmo dolorido. Por que precisamos acreditar que não dói?
A circuncisão, dói.
Furar a orelha do bebê, dói.
A mutilação genital das meninas, dói.
Uma faixa apertada sobre a moleira, dói.
Vacinar, dói.

Essa foto é do AliExpress, onde você compra 40 laços por 8 dólares!!!


"Mas colocar o laço com aquela colinha especial não dói, é só enfeite, é carinho, é cultura, é para diferenciá-las dos meninos!Afinal todos estavam me perguntando o nome dele. Não dava para ver que era menina!"

Há dores físicas e dores na alma. Eu prefiro voltar à Thomas na busca do sentido: esse laçarote é arte elevada à um conjunto de crenças? Os furos nas orelhas transmitem amor de geração para geração? As festas na maternidade são vivências de poesia? Ou pode tudo isso - disfarçado de cultura - ser só mesmo pela dor? Pais preferem fazer a circuncisão logo para já resolverem este assunto. Mas e a dor (e o sentido de tudo isso) como ficam? Uma das coisas da vida, as dores sem sentido?

Fica aqui minha reflexão sobre a nossa Cultura do Plástico (fazendo um trocadilho sobre as cirurgias plásticas, e as dores sem sentido hehehe). Estamos tão envolvidos e acostumados com esse olhar sobre a vida e sobre a infância que pode ser nojento ou cruel realizar um sacrifício animal em nome de uma criança que nasce e, ao mesmo tempo, pode parecer natural usar cola no cabelo de bebês.

Ou ainda procedimentos dolorosos estéticos ou que envolvam crenças pseudo-cientificas.

"Cultura são artes elevadas a um conjunto de crenças" - busque as suas artes, seus sentidos, suas crenças. Se não, é só dor mesmo. 




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O que aconteceu com a livre demanda?

Vivemos em bolhas.

Não temos a menor ideia da diversidade que nos cerca, e os algorítimos das redes sociais já foram culpados por esse fato, mesmo que os bairros nos segreguem, as escolas, os muros dos condomínios.

Nas bolhas, os assuntos circulam, e tal e qual como a diversidade de gente, costumam obedecer a mesma lógica dos algoritmos. Em um ano só se fala de sling, no outro da livre demanda, depois de violência obstétrica e ao que parece na nossa bolha de hoje estamos falando de dietas alimentares.



Alimentação é um tema constante da nossa bolha.
Seja ela do filho, como fazer comer o filho, como dar a melhor comida para o filho, onde comprar, como preparar, qual hashtag usar.

Não nos relacionamos mais com os assuntos de um jeito não digital, isso é bem verdade. E talvez por isso as dietas alimentares causam tamanho espanto, não dá para passar desapercebido que seu whatsapp esteja cheio de correntes, seu amigos estejam todos relatando, seu feed de notícia te apresente, e você seja constantemente convidado, por múltiplas pessoas, a conferir o mesmo tema: dietas alimentares.

Não acho que a questão é entrar no mérito do que é bom ou que não é. O certo ou o errado e se o homem do paleolítico comia ou não o grão de arroz. Quero apenas pontuar a surpresa de - depois de um grande avanço na reflexão do bem comer, da comida como fonte de nutrição, prazer, da comensalidade como fator de vínculo - a onda da informação tenha nos trazido para essa lugar de reflexão. O lugar da dieta alimentar como estratégia para conquistas de saúde, estéticas ou bem estar.

O que aconteceu com a livre demanda?

Claro que essa é uma provocação. E existem mais coisas entre o prato de comida e a boca do que sonha nossa vã filosofia. Mas é de se notar que uma após a outra, as dietas alimentares nos tragam de volta para reviver nossas relações com comida. E de alguma forma, com quem nos alimentou.

Acho que estamos falando de infância. De restrições alimentares na infância. De substituição de afeto por comida. De privação que gera abuso. E vocês? Acham que estamos falando apenas de carboidratos e gordura? 




quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Alimentação, Higiene e Sono: quem está cuidando do bebê?

A pediatra húngara Emmi Pikler é mundialmente reconhecida por seu trabalho emancipante e respeitoso com crianças. Um dos pilares de toda a sua práxis - que data do fim da segunda guerra e se estende até os dias de hoje no Instituto Lóczy, coordenado por sua filha e sucessora Anna Tardos - além da livre motricidade, é o poder do vínculo respeitoso entre criança e cuidador.

Para Pikler, o crescimento emancipado da criança acontece apenas dentro de uma área de segurança que ela tem sobre o mundo que a cerca e sobre si mesma. Essa segurança existe à partir das condições ambientais e emocionais.

Não há crescimento sem afeto. E dela não vamos discordar. 

A abordagem Pikler é muito categórica sobre o conceito de segurança afetiva: aos adultos cabe respeitar a criança como uma pessoa completa, com expectativas próprias, com peculiaridades intransferíveis. 

E o desenvolvimento dessa relação de respeito se dá através de nada mais nada menos do que cuidado. Para Pikler, é nos rituais cotidianos de cuidado com o bebê que mora a oportunidade de desenvolvimento de segurança através do afeto e portanto oportunidade de crescimento sadio. 

E vejam que interessante: todo o trabalho base de Emmi Pikler aconteceu com crianças órfãs da guerra. A necessidade de fazer um grupo de crianças muito pequenas superar desafios de forma empoderada era maior do que ficar discutindo se o pai troca as fraldas, se a mãe cozinha com orgânicos e amor e de quem era a função de lavar a roupa.

Não havia pai, não havia mãe. Mas havia quem cuidasse, e através do cuidado muito respeitoso, quase metódico, havia afeto. Fica nítido nesse trabalho que não existe outra forma potente de crescer que não seja através do balanço delicado entre liberdade e segurança. E o meio? Cuidado afetuoso.

Porque estamos contando tudo isso? Pensamos que a abordagem Pikler pode servir de fomento para as reflexões que temos feito atualmente sobre os novos paradigmas familiares. 

Muito temos debatido sobre "papéis" de pais e mães, dentro das novas organizações familiares. Enquanto revemos o jeito que parimos, alimentamos, comemos, compramos, queremos também que as relações familiares sejam equânimes, com possibilidades de vivências verdadeiras para todos. O paradigma da mãe que cuida e do pai que provê já não sustenta tantos núcleos familiares e não contempla necessidades individuais de muita gente.

Um bebê precisa ser trocado de 6 a 8 vezes ao dia. Precisará de embalo para o sono por volta de 6 vezes ao dia nos primeiros meses e diariamente pelo menos até que consiga dormir sozinho, o que pode acontecer apenas no fim da primeira infância. Precisa ser banhado e ter roupas limpas diariamente, por muitos anos. Precisa ser alimentado até 6 vezes ao dia, ou até 12+ vezes, se estiver mamando em livre demanda. À exceção do leite da mãe, todos os cuidados básicos com a vida humana nos primeiros anos podem ser desenvolvidos por qualquer pessoa que lhe tenha afeto. 

No entanto, são tantos paradigmas como esse a serem quebrados, que muitas vezes deixamos de lado o olhar cauteloso para a importância do cuidado básico. Com nossos filhos, conosco, com nossas casas. Nossa geração parece ter estabelecido uma relação milagrosa com as coisas: roupas que se lavam sozinhas, bebês que dormem num passe de mágica, comida que aparece no prato. 

Cuidar de um filho é também estar presente, brincar, contar história, passear. Os filhos são nossa responsabilidade inclusive na hora de pagar a escola, mas não é a isso que se resume a mater-paternidade.

Quantas de nossas questões sobre dificuldades em nossas relações, inclusive com os filhos, estão vindo da falta de um olhar atento, tempo e disponibilidade para o cuidado básico, com eles e com a vida?

Voltando a Pikler, uma preciosa contribuição: o investimento afetivo nos momentos de cuidado alimenta a criança de segurança para se desenvolver melhor e mais independentemente em outros momentos. E isso se resume a alimentação, higiene e sono.

Fica aqui a reflexão: como está a nossa disposição para o cuidado básico afetuoso para com nossos filhos? E para apimentar um pouquinho: como é a disposição para o cuidado básico geral da nossa existência - desde a casa que sujamos até a comida que comemos? Estamos olhando para esses momentos como algo integrado à vida, e portanto importantes, ou estamos fugindo dos cuidados para exercer apenas uma parte do pacote de ser adulto?





 Neste sábado no Espaço Nascente temos a Roda de Pais, com o tema Tirania X Autoridade 
A roda de Pais é uma proposta de tempo e lugar para debater questões da paternidade contemporânea, mediada pelo Cacá e a dupla do BebêGrafia, Victor Farat e Rodrigo Bueno.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

6 sites carinhosos com a infância.

Vocês reconhece o papel de influência da internet nas questões relacionadas à infância? 

De acordo com uma pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a internet, junto com o Pediatra ou profissional de saúde e outras mães que já passaram pelas mesmas experiências, formam as maiores fontes de informação para pais e mães da atualidade.

Então faz-se necessário sempre questionar a fidedignidade das suas fontes no mundo digital. Sabemos que muitas iniciativas, inclusive jornalísticas, atuam muitas vezes com financiamento de marcas que podem apresentar algum conflito com seus valores. Por exemplo, se você optou por amamentar, não é sábio procurar informações sobre filhos e maternidade em sites de empresas que fabricam leite artificial.

O mesmo vale por exemplo, se proteção da infância é um valor para a sua família. Hoje resolvi recomendar cinco sítios virtuais que tratam de temas variados da infância e que são boas fontes para reflexão e informação de pais e mães. Aproveitem!


É um projeto completo de registro da infância por todos os cantos do Brasil. Selecionei aqui a parte que vem mantendo vivas as brincadeiras tradicionais, tão importantes para crianças de qualquer tempo ou lugar. 




É um movimento surgido na internet e feito por mães que discute a publicidade infantil e seus malefícios. Atualmente, essas mães participam das esferas políticas, levando a voz das mães e crianças para audiências no legislativo que decidem nossas políticas para a infância.  Um excelente lugar para ampliação de consciência sobre a proteção da infância, além de formação para a cidadania.



Nem sempre é necessário um textão ou longos vídeos para promover reflexões e mudanças profundas. O Armandinho é um personagem carismático que coloca a criança em lugar de protagonista frente aos dilemas do mundo atual. Simples e impactante.




Um blog detalhado sobre alternativas de brincadeiras para pais e filhos de todas as idades. Desde sugestões de coisas para fazer juntos até reflexões do porque nós adultos temos dificuldades na entrega para o brincar. 




O Catraquinha é fruto de uma parceria entre o Instituto Alana e o Catraca Livre. Funciona como um portal de curadoria, pescando muitas referências interessantes e progressistas do nosso universo, que são divididas em abordagens como Cuidar, Defender, Família e Economia.




Além de matérias interessantes sobre a mater-paternidade contemporânea, o guia tem trazido muitas dicas de atividades gratuitas em São Paulo. Vale conferir!!




segunda-feira, 20 de junho de 2016

Século XXI - A odisséia das novas famílias

Ter um papel em uma família. De filho, de pai, de primeira ou segunda mãe, é sempre uma jornada por um céu misterioso. Somos colocados constantemente em confronto com nosso universo particular, nossas gênesis. Ao passo que construímos novas pontes para o infinito da vida humana quando nos relacionamos com quem amamos. A reflexão sobre quem somos (e se gostamos de quem somos) ganha uma nova dimensão e nos faz perguntar se estou sendo o adulto que gostaria de ser como exemplo. Não importa se na qualidade de pai ou mãe ou tio. Mas na qualidade de ser humano e cidadão.

Essas reflexões são para lembrar que existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Roda de Pais

Na roda de pais percebo que há um lugar interno lembrado da infância de delicadeza e sensibilidade tão mal aceito na vida de um homem adulto. Através de um bebê, reencontrar este lugar pode não ser fácil, já que no processo de educação que cada um desses meninos viveu havia uma proibição para essas duas condições. fica difícil achar a possibilidade de ser leve e autoridade ao mesmo tempo. as memorias que trazemos de uma educação onde nada se explica , não pode porque não pode, atravessa a experiencia de lidar com uma criança muito verdadeira nas suas emoções.

Não cai bem educar um filho para sensibilidade muito menos para delicadeza. Delicadeza e sensibilidade "não são coisas de homem".

Muitos viveram uma violência em se mostrar delicados e sensíveis, como se isso definisse qualquer sexualidade. 

Qual tem sido o nosso olhar para a formação do pai, ou do pai em potencial? Se estamos clareando nossa consciência sobre a problemática da maternidade compulsória para meninas, podemos observar quais outros arquétipos estamos impondo também aos meninos. Heroísmo e agressividade certamente. Essa confusão sobre o que é coisa de menino ou de menina. Quem pode chorar. Quem pode experimentar seu corpo pela masturbação. Quem é essa criança vista como frágil quando evita disputas por brinquedos.

Este documentário põe luz em algumas questões sobre as máscaras sob as quais estamos construindo as noções de "masculinidade". 





Maternidade Lésbica

Na roda de maternidade lésbica percebo que é mais importante se preparar para as questões que a criança lidará por ser filh@ de duas mães do que para as questões ligadas a maternidade em si. As mulheres trazem uma consciência de que as preocupações ordinárias da maternidade não são para elas a única preocupação. Precisam se preparar internamente para lidar com questões sociais.

"Entendemos que a maioria das nossas preocupações da dupla maternidade têm a ver com o futuro das nossas filhas, como elas irão ser recebidas na escola ou pelos amigos. Nossos assuntos específicos têm mais a ver com visibilidade e relação com a sociedade do que com os nossos problemas atuais de alimentação, sono ou colo."

Há que se pontuar categoricamente que uma educação inclusiva para as crianças precisa partir do princípio de que "questões" da maternidade não são universais. Estamos contemplando o maior número de mães possível nos nossos discursos ou agimos de forma excludente quando delineamos "o que é ser mãe" à partir da vivência de um grupo exclusivo? Existe um modelo certo ? Existe errado ? Não deveria ser uma questão de amor?




Leia nesse link mais histórias sobre as famílias de dupla maternidade

Exercício de gerar e manter a vida

Uma mãe uma vez  relatou que ao descobrir que seu filho era gay respondeu que precisava de um tempo. Não de um tempo para lidar com a sexualidade dele. E sim para encontrar um lugar interno para lidar com as pessoas e as situações que viriam à partir desta nova descoberta. Ela queria se preparar para o mundo, no qual seria mãe de um rapaz gay.

O exercício consciente da mater - paternidade está também na habilidade de reinventar-se à partir dos filhos. À partir do exercício criativo que começa ao gerar vida e ao auxiliar em mantê-la, pode-se encontrar internamente as possibilidades do novo que nos moverá para outros lugares inesperados. E muitas vezes tão desejados.

---


O que se ganha é poder relembrar momentos da sua própria história e resignificá-los, através das demandas que surgem da colisão desses universos. Mães, pais e filhos. Todo um complexo de planetas, corpos celestes e super novas. Ligados pelas mesmas estrelas.

via GIPHY

segunda-feira, 10 de junho de 2013

"Nós supervalorizamos a independência"

Crianças precisam de toque e atenção
Em tradução livre por Mamatraca

A prática americana do "deixa chorar" pode levar à mais medos e lágrimas quando as crianças atingem a fase adulta, de acordo com dois pesquisadores da Harvard Medical School.
Ao invés de deixar seus bebês pequenos chorando, os pais deveriam mantê-los próximos, consolar suas lágrimas e levá-los junto para suas camas, onde podem se sentir seguros, dizem Michael L. Commons e Patrice M. Miller, pesquisadores do departamento de Psiquiatria. 
A dupla examinou modelos de criação de filhos nos Estados Unidos e em outras culturas e diz que a amplamente divulgada prática Americana de colocar bebês para dormir em camas separadas, ou quartos separados dos pais, e não responder prontamente aos seu choro pode levar a incidentes de stress pós traumático e síndrome do pânico quando essas crianças atingem a idade adulta.
O stress precoce resultante da separação causa mudanças no esquema cerebral dos bebês pequenos que faz com que os futuros adultos se tornem mais suscetíveis à stress, dizem Commons e Miller.
"Pais precisam reconhecer que deixar os bebês chorando sem necessidade pode causar danos permanentes," diz Commons. "Altera o sistema nervoso, causando uma sensibilidade maior à futuros traumas."
O trabalho desses pesquisadores é único porque tem uma abordagem multi disciplinar, examinando as funções cerebrais, aprendizado emocional em bebês pequenos e diferenças culturais, de acordo com Charles R. Figley, diretor do instituto de Traumatologia na Flórida State University, e editor do "The Journal of Traumatology".
"É muito incomum, mas extremamente importante encontrar esse tipo de relatório multidisciplinar e interdisciplinar que que aborda as diferenças interculturais na resposta emocional das crianças, e suas habilidades para lidar com stress, incluindo stress pós-traumático." diz Figley
Figley diz que o trabalho dos pesquisadores de Harvard ilumina um caminho para estudos futuros, e pode ter implicações para um leque de práticas: desde os esforços parentais para estimular o desenvolvimento intelectual em bebês pequenos até a circuncisão.
Commons é palestrante e pesquisador do Medical School's Department's Of Psychiatry desde 1987 e membro do Department's Program in Psychiatry and the Law.
Miller é uma pesquisadora associada do mesmo programa desde 1994 e professora assistente de psicologia na Salem State College desde 1993. Mestra e Doutora em desenvolvimento humano pela Graduate School of Education.
O casal diz que as práticas americanas de cuidado com crianças são influenciadas pelo medo de que elas se tornem dependentes. Mas insistem que os pais estão no caminho errado: contato físico e conforto farão crianças mais seguras e mais aptas a desenvolverem relacionamentos adultos quando elas finalmente estiverem por conta própria.
"Nós super valorizamos a independência de forma que há efeitos colaterais muito negativos," diz Miller.
Ambos ganharam atenção em Fevereiro, quando apresentaram suas ideas no encontro anual da American Assiciation for the Advancement of Science's, na Philadelphia.
Commons e Miller, usando dados que Miller compilou, contrastou o modo americano de cuidado de infantes com outras culturas, em especial os Gusii do Kenya. Mães Gusii dormem com seus bebês e respondem prontamente ao seu choro. Mães Gusii ficaram contrariadas com o tempo que levava à mães americanas para atenderem ao choro de seus bebês, quando assistiram à videos expostos pelos pesquisadores.
O jeito que somos criados desde o nascimento dá cores à nossa sociedade. Americanos em geral não gostam de ser tocados, e orgulham-se de sua independência à ponto de isolamento, mesmo quando passam por momentos de stress ou dificuldade.
Apesar do senso comum de que bebês deveriam aprender a permanecer sozinhos, Miller diz que muitos pais "roubam," mantendo o bebê no mesmo quarto que eles, pelo menos no início. Depois disso, à partir do momento que aprendem a se locomover é natural que os próprios bebês procurem por si só os pais para segurança.
Pais e mães não deveriam se preocupar com esse comportamento como sendo algo negativo, ou ter medo de tratar bebês como bebês, dizem os pesquisadores. Pais precisam se sentir livres para dormir com seus filhos, carregá-los no colo, mantê-los por perto, e oferecer conforto imediato ao seu choro.
"Há outras formas de crescer e ser independente sem ter que passar por esse tipo de trauma." diz Commons. "Meu conselho é manter as crianças seguras, para que aprendam a escolher os riscos que querem correr quando crescerem."
Além de medo da dependência, a dupla confirma que outros fatores ajudaram a formar esse modelo de criação, incluindo o medo de que crianças em criação apegada interferem na vida sexual dos pais, e o medo dos médicos de que pais poderiam por exemplo sufocar seus filhos durante a prática de cama compartilhada. Em adição à isso, o crescente  progresso financeiro das famílias ajudou a criar casas com mais cômodos, com finalidade exclusiva de separar as crianças dos pais.
O resultado, dizem Commons e Miller, é uma nação que não gosta de cuidar pelas próprias crianças, uma nação violenta marcada por relacionamentos frouxos e distantes.
"Eu acho que há uma resistência real nessa cultura do cuidado à criança,"diz Commons. "Mas punição e abandono nunca foram formas de criar pessoas cuidadosas e independentes."




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bebês dormem em caixa de papelão na Finlândia

Bebês de todas as classes sociais dormem em caixas de papelão na Finalândia
Há 75 anos, todas as mulheres grávidas na Finlândia recebem um kit de maternidade do governo. O kit inclui uma caixa com roupas, lençóis e brinquedos, e a ideia é que a própria caixa seja usada como cama durante os primeiros meses de vida do bebê.

Muitos acreditam que o kit ajudou a Finlândia a alcançar uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo.

É uma tradição com origem na década de 1930, e desenvolvida para dar a todas as crianças na Finlândia um começo de vida igual, independente da classe social.

O kit de maternidade é um presente do governo, e está disponível para todas as gestantes.

Ele contém macacões, um saco de dormir, roupas de inverno, produtos de banho para o bebê, assim como fraldas, roupas de cama e um pequeno colchão.

Com o colchão no fundo, a caixa torna-se a primeira cama do bebê. Muitas crianças, de todas as classes sociais, têm seus primeiros cochilos dentro da segurança das quatro paredes da caixa de papelão.

Acompanhamento pré-natal para todos

As mães podem escolher entre receber a caixa, ou uma ajuda financeira, que atualmente é de 140 euros (390 reais), mas 95% optam pela caixa, pois vale muito mais.

A tradição começou em 1938, mas inicialmente o sistema só estava disponível para as famílias de baixa renda. Mas isso mudou em 1949.

"A nova lei diz que para receber o kit ou o dinheiro, as gestantes têm que visitar um médico ou uma clínica pré-natal municipal antes do quarto mês de gestação," disse Heidi Liesivesi, que trabalha no Kela, o Instituto de Seguro Social da Finlândia.

Na década de 1930, a Finlândia era um país pobre e a mortalidade infantil era alta - 65 em 1.000 bebês morriam. Mas os números melhoraram rapidamente nas décadas que se seguiram.

Mika Gissler, professora do Instituto Nacional para Saúde e Bem-Estar em Helsinque, acredita que o kit de maternidade e os cuidados pré-natal para todas as mulheres introduzido na década de 1940, um sistema de seguro de saúde nacional, e um sistema central da rede hospitalar na década de 1960 foram fundamentais para reverter essa situação.

As mães mais felizes do mundo

Aos 75 anos de idade, o kit é agora uma parte estabelecida do rito finlandês de passagem para a maternidade, unindo gerações de mulheres.

"É fácil saber em que ano os bebês nasceram, porque as roupas do kit mudam um pouco a cada ano. É bom comparar e pensar: 'Ah, aquele menino nasceu no mesmo ano que o meu'", diz Titta Vayrynen, de 35 anos, mãe de dois filhos pequenos.

Para algumas famílias, o conteúdo da caixa seria inviável se não fosse gratuito.

"Um relatório publicado recentemente dizia que as mães finlandeses são os mais felizes do mundo, e na hora eu pensei na caixa. Somos muito bem cuidados pelo governo, mesmo agora, que alguns serviços públicos sofreram pequenos cortes", diz ela.

O conteúdo da caixa mudou muito ao longo dos anos, refletindo a mudança dos tempos.

Símbolo de igualdade

"Os bebês costumavam dormir na mesma cama que os pais, e foi recomendado que esse costume acabasse", disse Panu Pulma, professor de História Finlandesa e Nórdica da Universidade de Helsinque. "Incluir a caixa no kit serviu como um incentivo para os pais colocarem os bebês para dormir separados deles."

Em um certo momento, mamadeiras e chupetas foram removidos para incentivar o aleitamento materno.

"Um dos principais objetivos de todo o sistema era fazer com que as mulheres amamentassem mais", diz Pulma,"e funcionou".

Ele também acha que incluir livros infantis teve um efeito positivo, encorajando as crianças a segurar os livros, e, um dia, lê-los.

Pulma acredita que a caixa é um símbolo. Um símbolo da ideia de igualdade, e da importância das crianças.



quarta-feira, 5 de junho de 2013

O não fazer pode ser tão técnico como o fazer!

Foto: arquivo
Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, pediatra e neonatologista.

Foi mágico em São José dos Campos/SP, um Simpósio de Humanização de Parto e Nascimento.

Pude falar pela primeira vez que a escolha informada de não pingar colírio, de não aspirar bebês e de não dar vitamina k injetável pode ser tão técnica quanto o de fazer. Quem inventou que humanização dos cuidados do bebê é isso?

Socorro! Tem tanta coisa maior.
Será que às pessoas não percebem que a sagração maior está em facilitar a construção de uma família?
Mas vamos lá!
Continuo na luta...

Minha paixão pelos bebês me deu um novo olhar sobre o nascimento. Entendo cada vez mais quantas sensações e emoções surgem para um bebê após o parto e como suas mães podem ficar envolvidas com este início de vida de seus filhos. Mulheres assustadas com suas emoções no pós-parto poderiam ouvir e aprender que o caminho para a construção de vínculo entre os dois pode passar por uma conexão mágica que ira permitir sentir o que seu bebe sente para compreender e ajudar melhor.as vezes nao sao emocoes tao prazerosas
portanto acho que quando surgem emocoes intensas no pos parto surge um forte vinculo entre os dois que merece ser celebrado, quando nao é combatido.
nasce uma mae, nasce um bebe, consagra-se o amor
isso nao é lindo?
irá permitir que seu bebê sinta para compreender e ajudar melhor. Às vezes não são emoções tão prazerosas portanto, acho que quando surgem emoções intensas no pós-parto surge um forte vínculo entre os dois que merece ser celebrado, quando não é combatido.

Nasce uma mãe, nasce um bebê!
Consagra-se o amor! Não é lindo?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Hoje um dia cheio de tantas emoções...

Imagem: Google 
Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, Pediatra e Neonatologista. 

Hoje um dia cheio de tantas emoções... 

Volto ao encontro com mulheres empenhadas e empoderadas numa maternidade cheia de surpresas que levam a um questionamento saudável. Há, contudo, o perigo quando abrimos o coração de entrar qualquer coisa. Tipo coisa ruim, que não deveria fazer parte. As inúmeras verdades sobre quem deveria ser este bebê, seu bebê, e quem deveria ser esta mãe, sua mãe. E para variar o apego, o aconchego como o grande vilão. É como se cada mulher amorosa escondesse dentro de si uma vila implacável e egoísta que merece castigo e punição. O que será que elas não estão vendo? E vem a balança poderosa desmascarar a verdade. 

Não viu que não engordou o bastante? 

Não ver que este colo agora pode virar uma cascata de incapacidades depois? 

Eu sei qual será seu destino... 

E assim se desconstrói uma família, uma mãe e uma criança que teima em ser fora da média.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Maternidade...

Foto/Espaço Nascente: Sylma e o seu  filho o "Cacá"

Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, Pediatra e Neonatologista.

Sempre desconfiando das datas com mais cara de shopping que de coração, hoje pensando na minha mãe e na de todos, pensando no trabalho que da ajudar a construir um indivíduo capaz de dizer adeus e ganhar o mundo. 

Trabalho que da se dar tanto para não ser mais necessária. Receber a gratidão de ser capaz de ser livre e viver pelas próprias pernas. Coisa esquisita essa de ser necessária para se tornar desnecessária. 

Para poder se tornar uma lembrança forte, amorosa, um exemplo de amor coisa engraçada essa de ser mãe. 

E ainda assim o maior exemplo do que é o verdadeiro amor. 

Então, que todos possam nesses dias ter a lembrança do que é ser generosa e pensar com carinho em todas as boas memorias que possam ter dessa que foi sua maior inspiração um dia. 

Minha mãe! 
Sua mãe! 

Beijos e parabéns a todas as mães.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mães sozinhas

Foto: google / imagens
Tradução do texto de LAURA GUTMAN para o Português de Natalia Salvo
 
Somos muitas no mundo, as mães que criamos sozinhas nossos filhos, ou seja, sem conviver com mais ninguém além da criança. A maioria de nós a princípio não desejou esta situação, e frequentemente a assumimos sem saber muito bem como nos arranjaríamos. Pode ser que tenhamos engravidado estando em uma relação ocasional e, mesmo assim, sentimos que por algum motivo misterioso, esse ser tinha sido gerado e estávamos em condições de abrigá-lo, nutri-lo e levar adiante a gravidez e o parto. Ou de repente pode ter acontecido que a gravidez tenha sido planejada dentro de um relacionamento estável, mas o projeto de continuar juntos não seguiu adiante e portanto, assumimos continuar com a gravidez apesar da perda do homem amado, a dor ou o desamparo. Em muitas outras ocasiões, quem sabe sejam as mais frequentes ocorrem uma separação ou um divórcio com os filhos já nascidos. Pode acontecer do pai abandonar definitivamente a cria, por diversos motivos, e as mães não só assumam a criação, mas também a sobrevivência dos filhos, no sentido econômico da questão. A maioria das mulheres, ainda em situação de risco, de falta de dinheiro ou de maturidade emocional, ou mesmo na solidão, permanece com seus filhos.
 
Para abandonar uma criança, o desespero, o fato de nos sentir à beira de um abismo, a solidão extrema e o medo inundaram nossas vidas. Em compensação, se temos o mínimo de consciência de nossas capacidades de nutri-lo, se temos confiança em nós mesmas e principalmente, se recebemos de alguma forma apoio e acolhimento, permaneceremos com nosso filhos ainda que seja em condições muito desfavoráveis.
 
A solidão é, quiçá, o pior panorama para criar uma criança. No entanto, mais além de todas as dificuldades reais e muito concretas, ser uma “mãe sozinha” tem sim, algumas vantagens. A principal vantagem é que sabemos que estamos sozinhas. E os outros também sabem disso. O fato de que a solidão seja palpável e visível, nos permite pedir ajuda a quem estiver ao nosso redor com relativa facilidade. Este fato, que aparenta ser uma obviedade, não é quando estamos vivendo com alguém. Às vezes, o sentimento de solidão é imenso estando dentro de um casamento, mas nesses casos não é fácil reconhecê-lo, nem muito menos que o nosso entorno nos entenda como alguém sozinho e necessitado de receber companhia e apoio.
 
Quando criamos nossos filhos sozinhas, e além disso, quando trabalhamos porque somos as únicas provedoras do dinheiro, não temos outra opção a não ser contar com os outros. Algumas mulheres recebemos apoio de nossas famílias, onde o apoio se constitui naturalmente: podem ser nossas mães ou nossos pais que estejam presentes, que ofereçam ajuda econômica ou inclusive, na sua função de avós, cuidem diretamente das crianças. Às vezes tem uma irmã que atua como um apoio, um grupo de amigas solidarias, ou uma rede laboral que equilibra a solidão e a resolução de problemas domésticos. Há circunstâncias onde não temos condições de pagar uma ajuda doméstica ou um berçário muitas horas por dia. Ou existe uma madrinha da criança que se compromete uma vez por semana a cuidar dele. O chefe no trabalho se torna especialmente solidário porque sabe que somos uma “mãe sozinha”. Nossas amigas se organizam os finais de semana, nos convidam a reuniões e preparam as comemorações de aniversário de nossos filhos. Longe disso ser uma situação ideal, mas resgatemos o fato de que a “solidão” é clara para todos, principalmente para nós mesmas. E dada esta clareza, podemos atuar logo na sequência.
 
Quase todas as pessoas se tornam solidárias com uma mãe sozinha que cria seus filhos, porque todos podemos imaginar o enorme esforço que isso demanda, além dos obstáculos que tem na vida cotidiana uma mãe que precisa cumprir a diversidade de papeis, e para que as crianças estejam bem cuidadas e bem atendidas. Essa solidariedade coletiva, é possivelmente, uma das principais vantagens. E se essa é a nossa realidade, vale a pena considerá-la.
 
Há também outras vantagens menores: quando o bebê é pequeno, as mães podem ter – se forem emocionalmente capazes – toda a disponibilidade afetiva para a criança. Isso porque não haverá demanda por parte do companheiro, de atenção para ele: nem de cuidados, nem ter que ouvi-lo, nem requerimentos domésticos. Ou seja, se formos capazes de nos fundir nas demandas e necessidades do outro, será completamente em benefício da criança pequena, em vez de nos dividir entre os pedidos de uns e outros. Este também não é um ponto menos importante – ainda que não estejamos acostumadas a falar abertamente sobre as ambivalências na hora de atender nosso companheiro – quando ele reclama atenção e carinho, enquanto o pequeno bebê aguarda sua vez. Este “esgotamento” que sentimos quando desejamos satisfazer as necessidades alheias, costuma ser frequente quando estamos acompanhadas, e muito mais leve quando nos ocupamos ”somente” do bebê.
 
Outro fato que se dá muito mais naturalmente quando estamos sozinhas, é o se deixar fluir no contato corporal com a criança, principalmente à noite. Quando o cansaço nos aflige, quando somente queremos dormir e não temos mais forças, quando a criança chora pedindo contato e carinhos… e então não há ninguém para nos dizer o que é certo fazer, e o quê não se deve fazer. Não há ninguém para opinar a favor ou contra, ninguém para dar conselhos, ninguém para ajudar – mas ao mesmo tempo, ninguém para colocar-se no meio disso tudo. Simplesmente deitamos na cama com a criança em nossos braços, tentando dormir o quanto antes. Isso com a criança agarrada em nosso corpo e sem incomodar ninguém.
 
Parece uma obviedade, mas não é. A maioria de nós, mães que vivem acompanhadas e querem tentar dormir de noite, trazem seus filhos para a cama e se deparam frequentemente com a negação do companheiro, seja por se sentir prejudicado, ou por medo, por incômodo ou por sentir que não é parte desse vínculo. No entanto, as mães sozinhas – em circunstâncias semelhantes – podem decidir unilateralmente a melhor maneira de atravessar as noites, que – isso todas nós sabemos – podem constituir a parte mais dura da criação de nossos filhos.
 
É lógico que estar sozinha na criação e na vida cotidiana não é maravilhoso. Todos precisamos de uma companhia, interação e diálogo. Ainda mais se estamos criando filhos pequenos. Por isso, se temos alguém, nos veremos na obrigação de imaginar outros tipos de apoio e ajudas, para que nossa experiência maternal seja o mais feliz possível, e para que as crianças recebam o amor e o acolhimento que merecem.
 
Pessoalmente, acredito que a melhor opção quando não há um companheiro ou alguém que dê apoio, é a rede de mulheres. Tenho certeza que fomos criados como espécie de mamíferos para viver em comunidade, e que ao longo da história constituímos tribos ou aldeias para compartilhar a vida. Hoje em dia os centros urbanos se converteram no pior sistema para criar as crianças, já que as mães estão cada vez mais sozinhas e isoladas, portanto as crianças têm poucas pessoas às quais recorrer em seus rituais cotidianos.
 
Precisamos reinventar um esquema antigo, mas com parâmetros modernos, sempre que haja um conjunto de mulheres criando filhos. Não importa quantas, já que uma só mãe não consegue criar uma criança. Mas cinco mães juntas podem criar cem crianças. O segredo está no conjunto, na solidariedade, na companhia e no apoio mútuo.
Nenhuma mulher deveria passar os dias sozinha, com uma criança nos braços. A maternidade é fácil quando estamos acompanhadas. Não julgadas, nem criticadas, nem aconselhadas. Simplesmente junto de outras pessoas, e na medida do possível, junto de outras mulheres que estejam experimentando o mesmo momento vital. Quando as mulheres estão trocando conversas, brincadeiras, choros ou lembranças com outras mães, resulta muito mais leve permanecer com nossos filhos.
No entanto, se estamos sozinhas, acreditamos que não somos capazes, e supomos que deveríamos deixar as crianças aos cuidados de outras pessoas para poder “ocupar-nos de nós mesmas”. Frequentemente não percebemos que o problema está na solidão de permanecer junto à criança. Não em nossa incapacidade de amá-los. Por isso, insisto: é responsabilidade das mulheres reconhecer que precisamos voltar a nos reunir, que se funcionamos coletivamente e dentro de círculos femininos, a maternidade pode resultar em algo muito mais suave e doce. E que uma “mãe sozinha” é aquela que não é compreendida, apoiada, nem incentivada, ainda que ela conviva com muitas pessoas. E “mãe acompanhada” pode ser uma mulher que não tenha alguém a seu lado, mas que, no entanto, conte com o aval de sua comunidade.