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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Tecnologias: nem proibidas, nem obrigatórias. Por um uso consciente e humanizado

Por Michelle Prazeres*

Vivemos numa era em que as telas são aparatos cada vez mais pessoais e fazem parte das nossas vidas cada vez mais cedo. Não dá para ser contra as tecnologias, porque elas estão aí e fazem parte de nossas vidas; mas também não precisamos nos entregar aos delírios de consumo e nos fazermos reféns. Especialmente para lidar com as relações entre a infância e as tecnologias, enquanto mães e pais, precisamos exercer nosso papel de mediadores e guardiões destas crianças. Mas como?

No campo da educação (especialmente a educação formal escolar) é recorrente o discurso de que as tecnologias são inevitáveis e que vem adentrando os espaços educativos “naturalmente”, na medida em que as novas gerações (que seriam “nativos digitais”) estão estabelecidas nas escolas.

Mais do que o ideário sobre a inserção “natural” das tecnologias, paira no ar uma crença de que as tecnologias podem “salvar” a educação, aproximando a linguagem e os métodos educacionais do que seria um universo discursivo mais “próximo” das crianças e jovens, pelo fato de ser algo que traz, para o ambiente “chato e hostil” da educação algo “lúdico” e que “faz parte do universo infantil”.

Coloquei entre aspas nos dois primeiros parágrafos deste texto as expressões e ideias que – a meu ver – são passíveis de problematização. Mas é fato que este é o discurso comum para vários setores da sociedade que veem com muita naturalidade as tecnologias adentrando os espaços educacionais formais.

Fiz uma pesquisa e entre os achados dela, está o fato de, por exemplo, a mídia, as empresas, o poder público e a Universidade estão falando sobre as contribuições (positivas, sempre) que as tecnologias podem oferecer aos processos educacionais.

É comum vermos este discurso de “idolatria” das tecnologias em outros setores da sociedade. Na medicina, por exemplo, é muito comum ver uma espécie de endeusamento das tecnologias “que salvam vidas”. E, em nome das que salvam vidas, “tecnologiza-se” tudo.

De que tecnologia estamos falando?

Talvez seja importante a gente conversar sobre o que é tecnologia. São muitas as correntes científicas que buscam definir o que elas são. Mas aqui, para nós, e para esta conversa sobre as relações entre tecnologia e infância, talvez seja bacana pactuarmos que estamos falando especialmente das tecnologias de telas.

Porque sim, nossas crianças nasceram em um momento que algumas pessoas chamam de Era da Informação, em meio ao que outras chamam de Cultura digital ou de Cibercultura. São as tais crianças “nativas digitais” (não gosto muito deste termo, tá?). Se formos falar de qualquer tecnologia, estamos todos convivendo com elas desde a Idade Média, então, seria legal a gente combinar aqui que esta discussão específica é sobre as telas. ;)

É fato que hoje, vivemos num momento de exacerbação tecnológica, com a proliferação dos aparatos móveis e pessoais. Cada um tem um celular e alguns ainda têm um tablet e um computador pessoal. O consumo da tecnologia se individualizou. Além disso, ele se expandiu pelas diversas faixas etárias. E é cada dia mais precoce.

Imagem: Freepik

Mas qual seria a idade ideal para começar a consumir tecnologias? Existe isso?

Olha... eu li o texto que a Anne Rammi publicou por aqui  e me senti bem contemplada pela leitura sensata que ela traz com base na experiência cotidiana de quem tem filhos e consegue promover um uso consciente das tecnologias.

Penso que nós (mães e pais) precisamos entender que estamos em um mundo povoado por estas tecnologias. Que nossos filhos – especialmente aqueles em idade escolar e que já tem contato com outras instâncias de socialização que se relacionam com as tecnologias – estão o tempo todo em contato com estes aparatos e telas. Não podemos tentar “salvá-los” deste contato. Então, talvez o modo mais bacana de olhar para isso seja reconhecendo nosso papel de mediação.

E esta mediação vai desde buscar entender qual a idade certa para eles terem aparelhos próprios (e aí, entra a decisão de cada família); e passa por estar sempre por perto para mediar conteúdos (assistir junto, problematizar, comentar sobre o que viram, não deixar entrar em contato com conteúdos não classificados para a idade). Passa também por entender qual o tempo ideal de exposição das crianças às telas.

E, passa, sobretudo, pelo que, para mim, é uma das principais questões em jogo quando a criança passa a consumir tecnologia (e os conteúdos que circulam pelas telas) sozinha: a segurança.

E para fazer esta mediação (seja do consumo dos aparatos, seja dos conteúdos) precisamos estar minimamente apropriados deste universo.

E como se apropriar para mediar?

Talvez o primeiro passo seja reconhecer a tecnologia em todas as suas dimensões. As telas são aparatos ‘concretos’, mas carregam consigo conteúdos (todo um universo simbólico) e modos de percepção (esquemas lógicos, por exemplo, que dependem de programas e softwares que usamos).

Para mediar, é preciso ter em mente que as potencialidades das tecnologias não são apenas negativas. Existem usos bacanas e possíveis da tecnologia, para melhorar processos em casa, para brincar e para estudar. Costumo dizer que precisamos olhar para o potencial humanizante das tecnologias.

Aqui em casa, por exemplo, evito telas ao máximo (o mais novo nem sabe o que é isso ainda, claro). Mas desde muito cedo, Miguel usa os celulares e telas para conversar com a família, que está longe, espalhada pelo Brasil. Desde muito pequeno, ele pede para fazer “Facetime” com a vovó e com os tios. Há como recriminar este uso da tela mesmo que seja por uma criança de 2 anos?

Precisamos de menos julgamentos. Precisamos que cada família se sinta confortável como mediadora da experiência de cada criança com as telas e seus conteúdos. Mas precisamos também que estas escolhas sejam feitas com consciência e informação.

Nesse sentido, e avançando no argumento de que, enquanto pais e mães, precisamos conhecer para mediar, devemos entender quais os possíveis riscos envolvidos no consumo de telas tecnológicas.

A pesquisa do Cetic.Br chamada TIC Kids online  nos traz algumas informações preciosas nesse sentido.

Segundo este levantamento (que abrange as crianças e jovens de 9 a 17 anos), a maioria delas usa telas e internet “todos os dias ou quase todos os dias”, acessando especialmente do celular e de tablets e fazendo isso a partir de suas casas. Os principais usos são para “rede social, trabalho da escola, pesquisas e mensagens instantâneas”.

De posse desta informação, seria interessante pensarmos nos riscos que estes acessos podem envolver. E a pesquisa enumera três exemplos: (1) tratamento ofensivo; (2) contato com mensagens de ódio; e (3) exposição de informações pessoais. Pensando nos riscos, conseguimos pensar também nas principais medidas de segurança de que podemos lançar mão.

Claro que estas são questões para crianças mais velhas. Para crianças mais novas, penso que devemos fazer um uso mediado e consciente, na linha do que a Anne Rammi propõe em seu texto, ajudando-as a problematizar alguns conteúdos e evitando que estejam muito expostas a outros. Aqui em casa, por exemplo, eu costumo obedecer à classificação indicativa do Ministério da Justiça, evito televisão aberta (por conta da propaganda abusiva) e invisto em desenhos e musicais, tentando filtrar conteúdos mais violentos. Jogos são mais raros.

No caso de bebês e crianças mais novas, existem uma série de estudos que mostram que muita exposição às telas trazem consequências para o brincar (mais restrito), para a criatividade e para a construção de raciocínio destas crianças. Eu acredito que temos um vasto trabalho de conscientização e informação sobre acesso e uso de telas para que as escolhas de mediação sejam escolhas informadas.

O que eu acho importante é a gente entender que enquanto mães e pais, somos mediadores; que esta mediação deve ser consciente e informada e que cada família deve ter tranquilidade para decidir o que é melhor para suas crianças, ainda que pense igualmente que o Estado tem um papel fundamental na construção de políticas de informação e proteção à infância (este item rende um texto à parte sobre a ausência do Estado na regulamentação do setor da comunicação).

Acredito também que cada família tem direito à paz interior e a não ser julgada socialmente por oferecer telas a seus pequenos.

Vale lembrar que a tecnologia nem nos salva, nem nos condena. A chave são os usos que fazemos dela. Os usos são de cada um e cada uma. De cada coletivo. De cada família. De cada grupo, cada sociedade. Cada grupo conhece seu contexto e suas possibilidades e limitações. Avancemos nos apoiando e nos informando, sem julgamentos. E estas escolhas tendem a ser muito mais saudáveis para nós, para nossas crianças e para a sociedade.





* Michelle Prazeres é jornalista, professor e Doutora em Educação, mas sua melhor credencial é a de mãe do Miguel (5 anos) e do Francisco (5 meses).

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Crianças e Tecnologia: usando bem que mal tem? Mas eu sei usar bem?

**Por Anne Rammi** 

Eu olhava com empáfia todos os casais que eu via nos restaurantes neutralizando a criança atrás da tela do celular. Achava aquilo o cúmulo do absurdo, onde já se viu, num momento de família como a refeição preferir ou permitir que o filho se aliene dessa maneira, correndo todos os riscos que as pesquisas já comprovam, desde transtornos alimentares até todo o derretimento do cérebro! (ok eu não lembro exatamente o que versam as pesquisas, mas que tela faz mal para a criança, isso ninguém vai contestar).

Acontece que minha empáfia passou no dia em que eu desejei que meu carro fosse equipado com televisões no banco de trás, dessas que a gente vê nos carros da riqueza, depois de algumas horas da viagem farofenta onde meus três filhos alternaram entre brigas, socos, pontapés, choros, catarses, tédio, vômito e cocô na calça, presos em um congestionamento interminável.

(Trecho do meu diário)

Aquelas cenas que só acontecem no carro dos outros. Ou nas propagandas.

Hoje vou contar um pouco, sob minha experiência como mãe, artista plástica, comunicadora, documentadora pedagógica, pesquisadora da infância e ativista pela proteção da criança contra a publicidade infantil, de como enxergamos a relação entre infância e tecnologia.


  • Não existe dissociar a criança da tecnologia para as famílias que optaram por criar seus filhos nos ambientes urbanos e, per se, tecnológicos.
  • Até porque, a teconologia bem aplicada é uma ferramenta de linguagem maravilhosa e poderosa. 
  • O que existe é a necessidade (e a urgência) de uma profunda reflexão sobre quantidade, qualidade e finalidade da interação entre crianças e tecnologia.
  • Tipo, escola com televisão para "distrair"a criança. Ou escola que apresentra trechos de filmes ou vídeos contextualizados nos processos que as crianças estão vivendo? Ou ainda, escola que oferece o audio visual como linguagem curricular. Tem uma baita diferença né?
  • Eu entendo tecnologia desde o celular, passando pelos tablets e TVs, produtos culturais ou games, porventura aquelas aulas de robótica das escolas contemporâneas, passando pelas câmeras fotográficas e o espremedor de laranja.
  • Mas a regulação que me interessa em casa é em especial relacionada às telas, e em algum tempo (meus filhos ainda não foram impactados por essa demanda) às redes sociais.
  • A melhor prática que eu adotei quanto às telas foi: adiar o contato o máximo possível. O quanto mais tarde o contato melhor. Telas são realmente viciantes e as crianças precisam se esforçar bastante para cumprir os combinados de tempo e conteúdo. Não é fácil para eles, não sendo fácil, é preferível que estejam mais maduros para lidar.
  • Uma vez apresentados às telas sempre fazemos combinados claros.
  • Um deles é que não se usa tela para nada além de se usar a tela. Ou seja: a tela não é acompanhante de sono, banho, comida, nada disso. Se está jogando, está jogando e só.
  • Isso alimenta minha ilusão de que estou fazendo o melhor possível no quesito mindfulness com crianças abaixo dos seis anos que super curtem uma Tv e um joguinho.
  • Quanto aos horários: em casa, Tv à noite funciona melhor que Tv de manhã hoje em dia. Mas houve um tempo em que se assistissem televisão à noite, não dormiam. 
  • Quanto ao tempo de exposição: descobrimos um limite e aqui em casa gira em torno de 2h. Mais do que isso a criança azeda, estraga, fica duríssimo de lidar depois. 
  • Quanto ao conteúdo: temos (sem dó nem piedade, num esquema nada democrático) proibido alguns temas de acordo com os valores de nossas famílias. Por exemplo, conteúdos machistas são imediatamente banidos das listas "do que assistir". E haja sermão da mãe explicando que aquele desenho está equivocado quando diz que menina gosta de arrumar a casa e menino gosta de jogar bola.
  • Em casa tem um calendário semanal marcado quando são os horários das telas. Atualmente eles respeitam bem o calendário e sempre pleiteiam mudar as regras, o que eu acho construtivo e fofo. Às vezes eles ganham, e eu apelo para a finalidade: A Tv nesse momento é muito importante para a mamãe conseguir descansar (mentira, arrumar a cozinha, quem eu estou enganando?).
  • A mesma regra do "adiar" vale para o tipo de conteúdo. Se aos dois anos você já liberar os "Avengers" não há "Pokemon" que sustente os quatro anos. Vá devagar, e perceba que quanto mais estimulante, mais estímulo a criança demanda.
  • Os games são outra relação de interface, bem diferente dos desenhos, e se requintam na dificuldade de fazer os combinados. Exatamente porque demanda uma interação e estão programados para fazer a criança consumir (vidas, águia poderosa, sei lá mais o que). A relação com os games é segunda fase, módulo avançado. Eu acredito que, idealmente, quanto mais tarde melhor. Imagino que isso deva acontecer também com as redes sociais, mas ainda não cheguei lá.
  • Uma coisa legal de saber é que quanto menor a tela, mais alienada a criança fica. Então, para viver no inferno sem abraçar o diabo, prefira video games ligados na Tv, por exemplo, que a família possa brincar junta, ao joguinho no celular. 
  • Mas é aquilo, normal, se no meio de uma viagem farofenta você sentir o desejo incontrolável de usar a tecnologia para manter sua sanidade. Só saiba que uma vez aberta, essa porta é um saco para fechar.
  • Aqui em casa as crianças não mexem no meu celular, e um dos grandes motivos, além da alienação, é que se trata de um equipamento do meu trabalho. Mentira, eu não ligo para a alienação, eu só não posso comprar um celular novo caso um dos pentelhinhos derrube o troço na privada. Essa é uma regra clara que eu consigo bancar, o pai tem menos apego, e um celular bem mais pobre. Então tende a liberar de vez em quando.
  • As minhas grandes preocupações e motivos pelos quais eu acredito que é preciso sim refletir, discutir, regular e mediar o contato com a tecnologia na verdade não estão ligadas ao que dizem "as pesquisas" sobre o desenvolvimento infantil, muito embora eu acredite nelas. Minhas preocupações são: publicidade infantil e pedofilia.
  • A tecnologia do jeito que nos é dada, da forma como chega naturalmente na vida das crianças é muito perniciosa. Ela é uma ferramenta da publicidade para coagir a criança e formar um comportamento consumidor. Seja no boneco licenciado que conta lindas histórias no desenho animado mas vende carne que provoca câncer no supermercado ou seja no joguinho aparentemente inofensivo que monitora comportamento de consumo e trajetos da criança e repassa dados para as corporações.
  • É com essa tecnologia que eu me preocupo, que serve para atuar na mente dos meus filhos para formá-los para o consumo antes que estejam formados para a cidadania. Por isso eu sempre vou sonhar com (e defender com unhas e dentes) a regulação efetiva da publicidade infantil. 
  • O Brasil é campeão mundial em pedofilia. 70% da internet de conteúdo pedófilo é hospedada no Brasil. O uso das redes e da tecnologia precocemente e sem acompanhamento coloca as crianças em risco, é simples assim. 
  • Além dos casos graves de estupro e assédio contra menores de idade via web, uma criança mal assistida no uso da tecnologia pode ser alvo fácil para conteúdo impróprio: pornografia, ainda que defendida pelo liberalismo, é uma ferramenta de construção de uma masculinidade opressora e violenta. Não é ok nenhuma criança em nenhuma idade (nenhuma pessoa na verdade) ter acesso à pornografia nos modelos que conhecemos, que são degradantes à mulher e ameaçam a segurança física e emocional de todos os envolvidos. 
  • Infelizmente a tecnologia que nos proporciona aprender, compartilhar, criar e ampliar nossos horizontes, também nos expõe a problemas reais na vida contemporânea.
  • Enquanto não há regulação efetiva - por exemplo, a proibição da publicidade infantil, contemplando sanções para infrações digitais também - teremos que regular em casa mesmo.



Claro que eu estou propositadamente resumindo uma longa reflexão de mais de seis anos sobre infância e tecnologia em tópicos sucintos. Existem muitas vertentes que podem ser contempladas nesse cenário. Mas hoje consigo me afastar do julgamento individual contra a família que alimenta a criança atrás da Peppa - ainda que eu continue achando isso um absurdo. Consigo encontrar onde estão os pontos inegociáveis dessa relação aqui na minha casa, como para mim é o caso do celular ou dos conteúdos machistas e violentos. E consigo acompanhar o desenvolvimento de meus filhos no mundo em que vivem, e não naquele que eu acho que seria melhor para eles. E claro, sigo sonhando com DVDs no banco de trás do carro. Mas só para os casos de acidentes na pista.

PS: Não posso deixar de registrar meu desprezo total por penico com tablet, mas o texto era sobre crianças e tecnologias e não sobre as fronteiras da estupidez humana. ;)