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sábado, 12 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Não considero a hipótese de ter papéis definidos dentro de casa"

Por João Carlos

Paternidade e Masculinidade: O título desta reflexão surgiu de um convite do querido Cacá, amigo e pediatra dos meus filhos e de toda a família.

Fico feliz de não ser um especialista em nenhum dos temas, o que me dá a liberdade de escrever uma reflexão na primeira pessoa. Fico ainda mais feliz de viver no século XXI, período em que as “verdades” subjetivas dos outros não precisam mais ser acatadas. O que é masculinidade e paternidade? Certamente a minha experiência se parece com a de muitos e se difere da de tantos outros, e é assim mesmo.

Imagem da revista Elle 


Meu primogênito nasceu quando eu já acumulava 43 anos de vida e onze de casado. Parecia apenas mais uma etapa na vida, na relação, só que não (adoro o século XXI). Aprendi há pouco com a impressionante coach israelense, Shiri Ben-Arzi, o conceito de estado liminar. É um período em que deixamos de ser algo conhecido e ainda não somos algo novo. Uma cerimônia de formatura, o noivado são estados liminares. O estado liminar da primeira gravidez não me preparou em nada para o que veio depois, a paternidade.

Tornar-me pai, processo em que me encontro há cerca de dez anos e no qual devo permanecer até o fim da vida, mudou praticamente tudo na minha vida, desde as pequenas coisas, como ir com menos vontade à mostra de cinema, até as grandiosas, como a forma de pensar a vida, a saúde e a morte. A família tornou-se o centro da minha vida, o principal condicionante da minha agenda. Não precisa ser, é claro, mas para mim foi e é. 

Não creio que exista a forma melhor de ser pai. Ausente, presente, neuroticamente onipresente, cada um propicia um conjunto de experiências a serem depuradas pela prole em meio a outras tantas influências, resultando em um legado que é deles, os filhos, não nosso. Logo, mantenho minha forma de ser, torcendo que o legado seja positivo (seja lá o que for um legado positivo). Em momentos perco as estribeiras, em outros ouço com atenção. Em momentos sou 100% presença, em outros peço que “me deixem trabalhar/conversar/ir ao banheiro.. em paz”.

Ouvi que ser pai/mãe é como jogar vídeo game, cada nova fase é mais difícil que a anterior. Não é a minha experiência. Cada dia tem se tornado mais natural e fácil que o anterior. Às vezes temos que lidar com grandes novidades, nem sempre boas, como correr para um pronto socorro, mas a média é um dia a dia cada vez mais simples e interessante. Ou seja, a paternidade se torna parte da minha forma de ser, junto com a carreira, a vida social, a vida afetiva...

Em parte, tento influenciar a vida de meus filhos, manifestando meus valores em atos e palavras. Eles que se virem para interpretar e formar seus próprios valores. E se forem muito diferentes dos meus? Não sei. Se vier a acontecer, espero ter a serenidade de perceber e conseguir buscar um equilíbrio.

Já a masculinidade, o que diabo é isto? Há tantas masculinidades a nosso redor. Desde o assassino que mata a Dandara a pauladas até a própria Dandara (será que ela concordaria comigo?) Adoro ser como sou, com todas as imperfeições e qualidades que tenho. Nada contra outras formas de ser, mas não considero a hipótese de haver papeis definidos dentro de casa. Se falta comida, vou ao supermercado, compro e faço. Se a Irene está com vontade de cozinhar, desfruto e, eventualmente, elogio a comida. Se nenhum dos dois esta a fim, sempre há lugares para se comer fora de casa. O mesmo pensamento vale para o envolvimento com a educação dos filhos, com a arrumação da casa, com os investimentos, com a alocação de tempo. Em alguns casos é necessário negociar, em outros é recomendável, em outros basta comunicar ao outro, em outros nem comunicar é preciso. Somos indivíduos compartilhando grande parte de nossas vidas.

Ainda há a masculinidade exercida fora da família. Sigo sem me apegar a rótulos e papéis pré-definidos. Para mim, no masculino cabe quase tudo que cabe no feminino, exceto o papel principal na concepção. Se você discorda, ótimo, teremos assunto para longas horas de conversa.

Dito isto, em que a paternidade afetou a masculinidade? Certamente a enriqueceu com experiências novas e marcantes. Exacerbou algumas facetas, como a participação dentro de casa, suavizou outras, como o papel do trabalho na vida, e não mudou a essência.

Feliz dia dos pais

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Paternidade e Masculinidade: "Solitário, como um menino"

Por Thiago Cascabulho

A paternidade é um mundo...
Mas, definitivamente, um fato.
Um jato que mirando o céu, descontrolado,
Volta-se para o outro lado, o seu,
E em ti penetra de dentro para dentro.
Assim uma paternidade cresce no meu centro.
Gestaciono-a solitário, como um menino
A esconder a bola sob a camiseta...
O que ela espera de mim e eu dela?
Nada além da banal liberdade
A qual desfrutam as borboletas amarelas.

Arte de Susan Spiritus

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Alimentação, Higiene e Sono: quem está cuidando do bebê?

A pediatra húngara Emmi Pikler é mundialmente reconhecida por seu trabalho emancipante e respeitoso com crianças. Um dos pilares de toda a sua práxis - que data do fim da segunda guerra e se estende até os dias de hoje no Instituto Lóczy, coordenado por sua filha e sucessora Anna Tardos - além da livre motricidade, é o poder do vínculo respeitoso entre criança e cuidador.

Para Pikler, o crescimento emancipado da criança acontece apenas dentro de uma área de segurança que ela tem sobre o mundo que a cerca e sobre si mesma. Essa segurança existe à partir das condições ambientais e emocionais.

Não há crescimento sem afeto. E dela não vamos discordar. 

A abordagem Pikler é muito categórica sobre o conceito de segurança afetiva: aos adultos cabe respeitar a criança como uma pessoa completa, com expectativas próprias, com peculiaridades intransferíveis. 

E o desenvolvimento dessa relação de respeito se dá através de nada mais nada menos do que cuidado. Para Pikler, é nos rituais cotidianos de cuidado com o bebê que mora a oportunidade de desenvolvimento de segurança através do afeto e portanto oportunidade de crescimento sadio. 

E vejam que interessante: todo o trabalho base de Emmi Pikler aconteceu com crianças órfãs da guerra. A necessidade de fazer um grupo de crianças muito pequenas superar desafios de forma empoderada era maior do que ficar discutindo se o pai troca as fraldas, se a mãe cozinha com orgânicos e amor e de quem era a função de lavar a roupa.

Não havia pai, não havia mãe. Mas havia quem cuidasse, e através do cuidado muito respeitoso, quase metódico, havia afeto. Fica nítido nesse trabalho que não existe outra forma potente de crescer que não seja através do balanço delicado entre liberdade e segurança. E o meio? Cuidado afetuoso.

Porque estamos contando tudo isso? Pensamos que a abordagem Pikler pode servir de fomento para as reflexões que temos feito atualmente sobre os novos paradigmas familiares. 

Muito temos debatido sobre "papéis" de pais e mães, dentro das novas organizações familiares. Enquanto revemos o jeito que parimos, alimentamos, comemos, compramos, queremos também que as relações familiares sejam equânimes, com possibilidades de vivências verdadeiras para todos. O paradigma da mãe que cuida e do pai que provê já não sustenta tantos núcleos familiares e não contempla necessidades individuais de muita gente.

Um bebê precisa ser trocado de 6 a 8 vezes ao dia. Precisará de embalo para o sono por volta de 6 vezes ao dia nos primeiros meses e diariamente pelo menos até que consiga dormir sozinho, o que pode acontecer apenas no fim da primeira infância. Precisa ser banhado e ter roupas limpas diariamente, por muitos anos. Precisa ser alimentado até 6 vezes ao dia, ou até 12+ vezes, se estiver mamando em livre demanda. À exceção do leite da mãe, todos os cuidados básicos com a vida humana nos primeiros anos podem ser desenvolvidos por qualquer pessoa que lhe tenha afeto. 

No entanto, são tantos paradigmas como esse a serem quebrados, que muitas vezes deixamos de lado o olhar cauteloso para a importância do cuidado básico. Com nossos filhos, conosco, com nossas casas. Nossa geração parece ter estabelecido uma relação milagrosa com as coisas: roupas que se lavam sozinhas, bebês que dormem num passe de mágica, comida que aparece no prato. 

Cuidar de um filho é também estar presente, brincar, contar história, passear. Os filhos são nossa responsabilidade inclusive na hora de pagar a escola, mas não é a isso que se resume a mater-paternidade.

Quantas de nossas questões sobre dificuldades em nossas relações, inclusive com os filhos, estão vindo da falta de um olhar atento, tempo e disponibilidade para o cuidado básico, com eles e com a vida?

Voltando a Pikler, uma preciosa contribuição: o investimento afetivo nos momentos de cuidado alimenta a criança de segurança para se desenvolver melhor e mais independentemente em outros momentos. E isso se resume a alimentação, higiene e sono.

Fica aqui a reflexão: como está a nossa disposição para o cuidado básico afetuoso para com nossos filhos? E para apimentar um pouquinho: como é a disposição para o cuidado básico geral da nossa existência - desde a casa que sujamos até a comida que comemos? Estamos olhando para esses momentos como algo integrado à vida, e portanto importantes, ou estamos fugindo dos cuidados para exercer apenas uma parte do pacote de ser adulto?





 Neste sábado no Espaço Nascente temos a Roda de Pais, com o tema Tirania X Autoridade 
A roda de Pais é uma proposta de tempo e lugar para debater questões da paternidade contemporânea, mediada pelo Cacá e a dupla do BebêGrafia, Victor Farat e Rodrigo Bueno.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Paternidade ativa: o melhor presente de dia dos pais

Num momento que se discute as relações entre o masculino e o feminino como relação de poder. Mulheres e homens vivendo um conflito. Gente vivendo um conflito entre o masculino e o feminino.

Num momento em que vivemos uma olimpíada em que dois casos de tentativa de estupro vem à tona, numa cidade recém marcada por uma história de extrema violência contra a mulher. Somos todos vítimas. Vítimas da nossa sexualidade. 

Uma sexualidade que define o que temos que ser e o que fazer.
Neste momento vamos reviver o emblemático festejo de um dos papéis do masculino sagrado pouco reverenciado e pouco sacralizado. 

O Dia dos Pais !

O mercado de consumo se organiza pelas efemérides. As datas comemorativas representam muitas vantagens para o mercado de consumo, pois geram argumentos de venda à partir das relações humanas de afeto, ou manifestações expressivas da cultura.

A oportunidade de viver troca de afetos reais e não de presentes fica esquecida em meio a um grande estímulo ao consumo. É mais significativo demonstrar carinho dando um presente que dando um abraço. Um evento cultural como o carnaval que pertence a todos passa a ser controlado por alguns que visam lucrar com ele. Uma comemoração de algo a celebrar se transforma num clichê de shopping center.

Print da pesquisa de imagem do google

Reparem: saltamos de um dia especial para outro. Começa com "à volta às aulas" e depois o carnaval. Logo vem a páscoa, dia da mulher, dia das mães, dia dos namorados, festa junina e entram as férias (excelentes oportunidades para campanhas de viagem de avião). 

Dia das avós, dia dos amigos e  as caixas de e-mail nesse momento já estão lotadas de sugestão de que? Presentes para o dia dos pais. 

É surpreendente o quanto as relações humanas estão traduzidas por relações de consumo, e datas que seriam marcos de nossa resistência, registros de nossa história ou homenagens reais ao que amamos estejam esvaziadas de significado e substituídas por: Compre mais! Dê presentes! Demonstre seu amor dando um presente!

Chega a ser uma grande ironia - em um momento onde a paternidade necessite de espaço grande de discussão perante a sociedade - que presente seja sinônimo daquilo que mais nos faz falta:
presença. 

Ser presente e estar presente deveriam ser os temas a se discutir nesta celebração. Quanta falta faz a uma família a participação mais ativa de um pai! 

Mães, em seu dia, já articulam muito bem o que precisam, para além das quinquilharias mundanas das propagandas de televisão. Equidade social, igualdade salarial, licença maternidade adequada, apoio à amamentação, fim da violência obstétrica, para citar apenas algumas das causas levantadas todos os anos, quando se comemora o dia especial das mulheres que têm filhos.

E os homens que tem filhos ?
Do que precisam os pais? Certamente não de mais camisas e gravatas, ou máquinas especiais de fazer café com cápsulas em formatos inovadores.
Precisam acreditar que podem cuidar! Precisam acreditar que tem o que dar e que nessa troca vão ganhar muito!

Pais precisam de mais presença.
E menos presente.

Precisam entender que o papel de provedor financeiro não satisfaz as necessidades de sua família. Nao é de um membro que se responsabilize unicamente pelas finanças a maior necessidade, embora tenha sua importância. 

É de um membro que tenha um lugar mais amoroso e participativo no dia a dia. De alguém que possa dar colo, acolher a noite um filho, principalmente quando doente, alguém que possa amparar seu filho nas suas dificuldades e medos. Um pai que tenha um colo fofo sem com isso ser menos masculino!

O masculino tem sido repensado cada vez mais na sua pseudo autoridade desmedida e se tem procurado um novo lugar para esse homem que quer poder viver sua delicadeza e fragilidade sem ter compromisso com um único arquétipo de guerreiro feroz. "O destruidor"!

Imagem daqui
Esse papel social equivocado não condiz com a necessidade de um homem insatisfeito com seu lugar.
Esse homem que cuida e que dá colo é uma necessidade do homem contemporâneo. É sua possível nova realidade !

Se tornar pai e viver uma paternidade ativa pode ser transformador e libertador numa sociedade machista. Todos ganham com isso. 

As mulheres em viverem relações construídas a partir do companheirismo. Os filhos por conhecerem seus pais, não por serem pais biológicos, mas por serem pais presentes e reais. Os homens por não viverem uma máscara de agressiva disposição a falta da capacidade de amar e por poder ter compaixão. A sociedade que começa a aprender a se relacionar de forma menos violenta.

O que podemos festejar nesse dia dos pais é ter um pai que faça parte de fato do dia a dia da sua família de forma mais leve. Menos engravatado e formatado para matar um leão por dia!

Menos comércio e mais celebração!
Menos presentes e mais presença!
Para que ninguém possa ser vítima!
Feliz todos os Dias dos Pais!

terça-feira, 5 de julho de 2016

O papel do homem no pós parto: Cacá na revista Crescer

Na matéria publicada em 16/06, Cacá tratou com a revista Crescer do papel do pai na construção das novas famílias e chegada dos bebês. Aqui no blog você confere a entrevista na íntegra!



Os pais costumam se preparar para a chegada de um filho preparando o enxoval, arrumando o quarto, lendo livros... Mas na maioria das vezes se esquecem da avalanche de emoções que os aguardam. Como eles podem se preparar para isso? 

Como costumo dizer, quando nasce um bebê, nasce uma família. Nascem o pai, a mãe, os avós e todos que se relacionam com essa criança. Esse nascimento nem sempre é fácil. Às vezes vamos nos deparar, como você disse ,com uma avalanche de situações e emoções para as quais nem sempre estamos preparados. A principal dificuldade inicial costuma ser a privação de sono. Os bebês costumam ser seres muito noturnos no começo, o que para muitos é assustador. Nem todos os bebês acordam só para mamar e dormem e, principalmente nem todos obedecem o relógio e mamam a cada 3 hs. Saber disso antes já ajuda a entender que é natural aos bebês solicitarem muito contato físico, colo e mamadas freqüentes principalmente a noite. Essa família vai lidar com sono, frustração, medos e tantas emoções que vão muito alem da alegria de ter um filho. Alguns encontros de pré-natal tem por objetivo, além de preparar para o parto, avisar que o pós parto pode ser um momento difícil, mas que passa. Com certeza irá passar. 

Nesse sentido, qual o papel do pai no período do puerpério (vamos contar os 3 primeiros meses do bebê)? 
O homem também está nascendo para um novo lugar. Agora é pai ! E aí, o que que eu faço ? Esta é a pergunta mais difícil de responder. Me preocupo muito em mostrar aos homens que eles podem trocar fraldas, podem dar banhos, que eles não vão quebrar o pescoço da criança apesar de todos ao redor, inclusive sua mulher dizerem: -cuidado com o pescoço ! geralmente os homens estão muito despreparados para cuidar de um bebê e se sentem muito incapazes. Mostrar como cuidar do umbigo,trocar fraldas, carregar o bebê, dar banho já ajuda muito e favorece a formação de vínculos entre o pai e seu filho. A preocupação com isso é mundial. A Suécia tem garantido a licença paternidade de 90 dias com essa preocupação com a participação ativa dos pais no cuidado de um bebê e indiretamente fortalecendo vínculos familiares. Hoje no Brasil conquistamos a licença paternidade de 20 dias para as empresas cidadãs ,desde que haja um preparo dos homens para poderem participar ativamente desta fase. Lidar com questões emocionais intensas das suas mulheres também pode ser uma surpresa. As vezes simplesmente oferecer água para a mulher que esta amamentando ou facilitar que ela coma e tome banho podem ser de grande ajuda. 

Como ele pode ajudar a mulher nesse começo, principalmente a lidar com as emoções? Distúrbios afetivos ocorrem freqüentemente durante o período pós-parto. A primeira delas é conhecida como baby blues, que acomete cerca de 50 a 80% das mães e caracteriza-se por labilidade emocional e variações de humor. Há também diminuição do apetite, dificuldade de concentração e insônia . Os sintomas se iniciam ao terceiro ou quarto dias após o parto, tendem a aumentar em torno do quinto ao sétimo dia, e tendem a começar a melhorar em duas semanas. Principalmente a privação de sono deve contribuir diretamente para este mal estar comum entre as mulheres. Acredito muito no poder do abraço e da escuta e me parece a melhor ajuda compartilhar as surpresas e se fazer presente neste momento. Todo o apoio e ajuda pratica nesta fase serão bem vindos, conforme citei acima.

Como o pai pode ajudar na amamentação e toda a pressão que a mulher sofre nesse sentido? 
Todos podem se sentir incapazes inicialmente. A mulher com duvidas da sua capacidade de nutrir e dar colo, o homem se sentindo incapaz de ajudar por não ter peito e o bebê descobrindo um universo de novas sensações sem saber como lidar. A amamentação no inicio costuma ser difícil e a sugestão de dar outro leite ,sugerindo que a mulher tem pouco leite ou leite fraco é comum. A pressão pode ser muito grande. Ajudar a mãe a acreditar na sua capacidade natural, biológica para a amamentação é uma coisa importante a fazer. Eu diria para tentar ser menos pratico e mais sensível a essas dificuldades ajuda bastante. Procurar ajuda pratica com especialistas como consultores, pediatras que entendam de aleitamento ou bancos de leite humano onde tem profissionais especializados . Fazer o que é possível como trocar fraldas, cuidar do umbigo, dar banho. Oferecer água e comida frequentemente. E muitos abraços.

Como o pai pode observar e ajudar no caso de depressão pós-parto? 
Quando se trata de pós-parto é difícil: tudo fica com cara de depressão. Mas quando o vinculo da mulher com seu bebê esta comprometido, levando a mulher a se afastar do seu bebê, está na hora de procurar um profissional da área de saúde mental para ajudá-los. Mães indiferentes ou muito agressivas quanto as necessidades do bebê podem estar mais gravemente comprometidas. Virar pai não é fácil e poder contribuir para a construção de harmonia familiar talvez seja o maior desafio. Mais do que ser o provedor financeiro. Poder contribuir para o bem estar de todos formando vínculos fortes com seu filho é a mágica desta situação. A licença paternidade estendida é uma grande conquista neste caminho de fortalecimento de laços familiares.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Século XXI - A odisséia das novas famílias

Ter um papel em uma família. De filho, de pai, de primeira ou segunda mãe, é sempre uma jornada por um céu misterioso. Somos colocados constantemente em confronto com nosso universo particular, nossas gênesis. Ao passo que construímos novas pontes para o infinito da vida humana quando nos relacionamos com quem amamos. A reflexão sobre quem somos (e se gostamos de quem somos) ganha uma nova dimensão e nos faz perguntar se estou sendo o adulto que gostaria de ser como exemplo. Não importa se na qualidade de pai ou mãe ou tio. Mas na qualidade de ser humano e cidadão.

Essas reflexões são para lembrar que existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Roda de Pais

Na roda de pais percebo que há um lugar interno lembrado da infância de delicadeza e sensibilidade tão mal aceito na vida de um homem adulto. Através de um bebê, reencontrar este lugar pode não ser fácil, já que no processo de educação que cada um desses meninos viveu havia uma proibição para essas duas condições. fica difícil achar a possibilidade de ser leve e autoridade ao mesmo tempo. as memorias que trazemos de uma educação onde nada se explica , não pode porque não pode, atravessa a experiencia de lidar com uma criança muito verdadeira nas suas emoções.

Não cai bem educar um filho para sensibilidade muito menos para delicadeza. Delicadeza e sensibilidade "não são coisas de homem".

Muitos viveram uma violência em se mostrar delicados e sensíveis, como se isso definisse qualquer sexualidade. 

Qual tem sido o nosso olhar para a formação do pai, ou do pai em potencial? Se estamos clareando nossa consciência sobre a problemática da maternidade compulsória para meninas, podemos observar quais outros arquétipos estamos impondo também aos meninos. Heroísmo e agressividade certamente. Essa confusão sobre o que é coisa de menino ou de menina. Quem pode chorar. Quem pode experimentar seu corpo pela masturbação. Quem é essa criança vista como frágil quando evita disputas por brinquedos.

Este documentário põe luz em algumas questões sobre as máscaras sob as quais estamos construindo as noções de "masculinidade". 





Maternidade Lésbica

Na roda de maternidade lésbica percebo que é mais importante se preparar para as questões que a criança lidará por ser filh@ de duas mães do que para as questões ligadas a maternidade em si. As mulheres trazem uma consciência de que as preocupações ordinárias da maternidade não são para elas a única preocupação. Precisam se preparar internamente para lidar com questões sociais.

"Entendemos que a maioria das nossas preocupações da dupla maternidade têm a ver com o futuro das nossas filhas, como elas irão ser recebidas na escola ou pelos amigos. Nossos assuntos específicos têm mais a ver com visibilidade e relação com a sociedade do que com os nossos problemas atuais de alimentação, sono ou colo."

Há que se pontuar categoricamente que uma educação inclusiva para as crianças precisa partir do princípio de que "questões" da maternidade não são universais. Estamos contemplando o maior número de mães possível nos nossos discursos ou agimos de forma excludente quando delineamos "o que é ser mãe" à partir da vivência de um grupo exclusivo? Existe um modelo certo ? Existe errado ? Não deveria ser uma questão de amor?




Leia nesse link mais histórias sobre as famílias de dupla maternidade

Exercício de gerar e manter a vida

Uma mãe uma vez  relatou que ao descobrir que seu filho era gay respondeu que precisava de um tempo. Não de um tempo para lidar com a sexualidade dele. E sim para encontrar um lugar interno para lidar com as pessoas e as situações que viriam à partir desta nova descoberta. Ela queria se preparar para o mundo, no qual seria mãe de um rapaz gay.

O exercício consciente da mater - paternidade está também na habilidade de reinventar-se à partir dos filhos. À partir do exercício criativo que começa ao gerar vida e ao auxiliar em mantê-la, pode-se encontrar internamente as possibilidades do novo que nos moverá para outros lugares inesperados. E muitas vezes tão desejados.

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O que se ganha é poder relembrar momentos da sua própria história e resignificá-los, através das demandas que surgem da colisão desses universos. Mães, pais e filhos. Todo um complexo de planetas, corpos celestes e super novas. Ligados pelas mesmas estrelas.

via GIPHY

terça-feira, 10 de maio de 2016

#MaisPresença: Cacá no Catraquinha

Para conscientizar a todos sobre a importância da presença dos pais nos primeiros momentos de vida do bebê e ao longo de toda a infância, o Catraquinha fomenta o debate à favor do aumento da licença maternidade e paternidade para todas as famílias com a campanha “Licença (M/P)aternidade”

Nesse vídeo você confere a entrevista com o Cacá, publicada em 27/04/2016

quarta-feira, 16 de março de 2016

Papel de pai

Vamos direto ao ponto:  se uma pessoa nunca estará plenamente preparada para ser mãe, também não está para ser pai.

Não é difícil achar um homem que só se depara com uma fralda depois do momento que tem filhos. Muitos sequer tiveram um bebe no colo alguma vez na vida. Um recém nascido parece um ser de outra galáxia para a maioria.

Esse cenário é mais raro de encontrar no caso das mulheres, cuja socialização para a maternidade acontece desde cedo. A cultura em torno do ser mãe coloca homens e mulheres que escolhem ter filhos, muitas vezes, em lugar de desigualdade. Que não é boa para nenhum dos dois. 

Ainda que essa seja uma área que necessite de muito debate - acerca das liberdades de escolha da mulher e toda a opressão que a socialização pode oferecer para as mulheres principalmente - olhamos hoje para o homem. O papel do pai na construção das novas famílias. O significado que este homem dará a sua nova condição de pai.

Inclusive como uma forma de propor o inevitável confronto: quantos pais conhecemos que literalmente passaram a vida sem nunca ter sido o cuidador principal de seus próprios filhos?  Alguns até que não participaram dos cuidados e da educação de seus filhos.

É evidente que para uma fatia - ainda tímida, mas expressiva - da paternidade, esse lugar de afastamento dos cuidados básicos, provisão de recursos financeiros  e último recurso na hora da "disciplina" não serve mais.

Pai não é mais ajudante de mãe.
Mas há um papel para ele definido? 
Ele sabe que papel pode ocupar ?

A nova geração de homens que tem filhos está procurando espaços de participação ativa, reflexão e empoderamento. Saber que não esta sozinho e que outros homens estão nesta mesma situação já e tranquilizador. Alguns homens sentem-se muito solitários ao se tornarem pais e não tem onde compartilhar suas angústias. 

No último fim de semana nos reunimos com  pais - para abrir esse debate. 




Por iniciativa dos queridos Rodrigo Bueno e Victor Farat (autores do livro Bebegrafia) realizamos um encontro com a presença de mais de 30 pais.




Como uma forma de mediar o debate, formaram-se grupos de discussão a respeito das nossas heranças, nossos medos e nossos desafios e alegrias.


Vocês acreditam que o grupo sobre alegrias não se formou no início? 
Evidenciou de imediato o quão importantes são as outras questões. 


Falou-se das historias de cada um como filhos. Do desafio de romper com modelos. Das dúvidas em se tornar um homem doméstico. Das dificuldades de administrar isso tudo em parceria com sua mulher. De como lidar com o choro sem ter peito. De uma infinidade de situações difíceis que passamos a viver a partir do nascimento de um filho.


Não era nosso objetivo definir o que é paternidade, mas perceber que o grande desafio está dentro de cada um, em seus múltiplos contextos. 

Ficou claro para mim que passamos por um turbilhão de emoções que expõe as magoas que cada um traz da sua história pessoal de ser filho. E que poder reconhecer estas mágoas nos aproxima de curá-las. De perdoar .

O perdão é a porta por onde deve-se passar para que cada um possa ser o pai que quer ser.

Sem esteriótipos. Sem modelos.
Podendo apenas ser pai. 

Faremos outros encontros para os pais aqui com o mesmo propósito. Um espaço de trocas e de reconhecimento mútuo da difícil e deliciosa tarefa de crescer como homens com filhos.