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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Minha filha apanha na escola!

Pretendo começar hoje uma reflexão a partir do relato de uma mãe sobre as relações de sua filha na escola e com a escola. a difícil arte de educar filhes !

"Fulana apanhava na escola. Da primeira vez, eu pedi que falasse com a professora. Eu nunca ensinei filha minha a bater, sempre achei muito errado responder com violência. Da segunda vez que bateram na fulana, eu mesma fui falar com a professora. Ela disse que fulana é carinhosa e doce, e colocou nos pais do menino que bate a culpa por não dar limites. Fico me perguntando qual é o limite que os pais tem que dar para as crianças que batem, que não passe por alguma violência - mesmo que não seja física, a qual eu condeno. A professora escreveu um bilhete na agenda e conversou com o garoto sobre o valor das amizades e como devemos ser amigos de todos na escola, dando por cumprida sua tarefa, 'fez sua parte'. Da terceira vez que bateram na fulana eu olhei bem fundo nos olhos dela e disse: revide."



Crescer é de fato um desafio para todo mundo que se dispõe a pensar no assunto.

Não há teoria que sustente a prática cotidiana de criar, amar e educar os filhos, de modo que quem não vê nessa trilogia um dos maiores desafios da existência humana pode ter encontrado um lugar de conforto daqueles de onde nunca se alcança o crescimento.

Na prática, muitas vezes crescer está em lidar com o confronto, e não com o conforto.

Todo mundo leu nos livros e escutou nos discursos humanizantes que não devemos jamais ensinar a criança a revidar violência com violência. "Se alguém machucar você na escola, diga que não gostou e procure a professora!" - a gente repetiu ad eternum essa máxima, sempre torcendo para que o machucado fosse suportável, a professora fosse justa, a escola fosse equilibrada com um número correto de adultos (bem formados) por crianças e os pais do agressor fossem como a gente, celebrassem os nossos valores. Ou seja, repetimos a máxima do ideal, dos lugares de conforto, quando dia após dia, o crescimento nos apresenta lugares de confronto.

É a vida desafiando os livros!

É o real desafiando o ideal!

É o possível desafiando o melhor!

Tenho visto muitos relatos de um grupo de mães e pais lidando com essas questões: como se as teorias das boas relações humanas passassem por ideais romantizados de paz, onde os coletivos de crianças pudessem crescer sem nenhum conflito, verbal ou físico. Como se, na hipótese do conflito estabelecido, chamar a professora fosse a solução definitiva (e em uma única vez) para todos problemas. Ainda como se, o adulto que media essas questões, esteja ele na escola, na festa de aniversário ou em casa, fosse sempre algum exemplo a ser seguido, e tivesse naquele momento todos os recursos necessários para lidar com os conflitos que se apresentam.

E principalmente como se tivéssemos sempre a melhor solução para o conflito, nem sequer conhecendo que desejos e pensamentos povoam o universo desta criança, ora vitima, ora vilã !



O mais difícil para mim é dar voz a essa criança. Nesse relato dessa mãe fica faltando a criança. 

Como ela viveu a agressão, como foi procurar a professora e o que lhe foi respondido, qual seu desejo de reação diante desta agressão. Ela não deveria ter sido ouvida? Ação e reação, agressor e vitima não são proposições parciais desta situação? Para toda situação de violência física há uma unica resposta possível?

"Fulana voltou para casa e disse que bateu de volta no menino. Peguei a agenda e lá estava o bilhete, dessa vez condenando a ela por atitude agressiva e a mim 'por falta de limite'. A professora pedia que eu conversasse com ela sobre não agredir o colega, e me passou um sermão escrito sobre como a violência não é a solução. Acho engraçado uma pessoa que trabalha com educação de crianças negar a violência que existe nas relações humanas, do alto do entendimento de que bilhetes na agenda e culpabilização dos pais resolveriam esse 'problema'."

Do mesmo modo que nos aproximamos de nossa humanidade nas atitudes desumanas e temos nelas a oportunidade de crescimento, superação, evolução, poderíamos enxergar nos conflitos infantis um caminho para sua própria solução? Quando deveríamos intervir ?

Será que vale teorizar sobre a não violência para uma criança que está sendo agredida? Qual é a resposta que se espera de uma criança que foi agredida? Qual o acolhimento que se espera dos adultos em torno de uma criança que agride? O que fazer com essa horda de pais que é responsabilizada por absolutamente tudo que se passa na vida dos filhos, quando têm (com sorte) duas ou três horas ao dia de convivência com eles?

Qual a responsabilidade de gerir os conflitos vividos na escola pela própria escola?



Já escutei familiares sustentando orgulhosamente a antítese da máxima humanizante - "eu ensino a mirar no nariz e socar com força". E já escutei pais e mães que, em nome da teoria, isentam-se também, como um bilhete na agenda e as frases prontas sobre amor e amizade, de construir com a criança e os demais envolvidos formas vividas, e não teorizadas, sobre viver no conflito.

Nem uma coisa nem outra me parece sadia. Ambas atitudes isentam os adultos de efetivamente mediar. De seu trabalho como pais, mães e educadores. Mas podemos mediar quando definimos agressor e vitima? 

Ensinar a revidar não precisa significar ensinar a bater de volta. Pode significar não abrir mão do seu brinquedo, sem com isso virar pancadaria, por exemplo. Ensinar a revidar não precisa ser um ato condenável. É preciso munir as crianças, e quanto mais vão saindo da primeira infância, maior parece ser essa necessidade, de recursos para que sim, se defendam. Quais os espaços de crescimento que vamos criar?

Sabemos reconhecer em nós mesmos esta dificuldade? Um texto cheio de perguntas para uma situação extremamente difícil !

"E então ela voltou para casa contando de novo que eles brigaram na escola. Na saída do dia seguinte me plantei no portão e pedi que me mostrasse quem era a criança que a estava agredindo. Uma mãe tem seus limites. Com fulana do meu lado, abaixei e olhei firme para os dois: eu sou mãe da Fulana, tudo bem? Ela e eu estamos muito tristes porque vocês andam brigando na escola. Eu estou te pedindo que não encoste mais nela. Vocês não precisam ser amigos. Vocês não tem obrigação nenhuma de brincar juntos. Vocês podem ficar a vida toda cada um brincando no seu canto, não precisa nem dar bom dia, caso vocês não gostem um do outro. Está liberado não gostar do outro. Mas vocês dois NÃO PODEM (e nessa hora eu fui bastante firme) se bater. Tratem-se com respeito, e se ela fizer algo que você não goste, pode falar comigo também. Eu não quero que você bata na minha filha. Estamos combinados?" 

Será que esta mãe conseguiu resolver este conflito definindo que ninguém precisa gostar de ninguém, mas podem viver/coexistir nesse espaço?

Acho pouco provável e, pior, imagino o tanto de outros conflitos que vão nascer a partir desta atitude. Imagino a escola a desqualificando, a família desta outra criança exigindo providências pelo absurdo da atitude desta mãe.

Quando se trata de intervenção de adultos, parece que a confusão não tem fim. Particularmente não acho justo que essa mãe se dê ao direito de ter uma conversa de adulto com criança sem que seja sua filha, ou que a outra mãe ou pai estivessem presentes.

Mas gostei de nomear aqui o imenso universo contido numa rixa de escola e seus desdobramentos. E que soluções mágicas e estereotipadas sobre solução de conflitos negam a inteligência e complexidade humana. 

A confusão começa em negar o conflito e imaginar um mundo no conforto da falta de conflito. Como se este mundo fosse vivo. A falta de conflitos denuncia um mundo morto e vazio das inúmeras possibilidades que as interações humanas trazem em si. 

Tentando desfazer certos e errados muito fáceis. Deixando de acreditar que onde há respeito pela singularidade não cabem respostas prontas. Não cabe o modelo vivo! Mas será que a tal conversa resolveu o problema?









segunda-feira, 20 de março de 2017

Crianças francesas apanham dos pais

Crianças apanham dos pais em todos os lugares do mundo, não é só na França. A ideia de que se pode ensinar limites e respeito através de castigo físico (principalmente para meninos) é comum. Se mostrar mais forte e causar dor ou sofrimento nas crianças: quando nos vemos no limite é isso que permeia o imaginário dos adultos no mundo todo. E às vezes não é só na imaginação. 

Constitui-se um modelo de preparação para a vida e para o mundo:

- Aprender a apanhar desde muito cedo, para perder o medo da dor! Reforço aqui : isso acontece principalmente para os meninos! Parece natural que adultos possam bater em seres socialmente incapazes e manipuladores.

Mas hoje não estamos propondo pensar aqui neste ou naquele modelo de criação.

A provocação de hoje vem na crista da onda, o que me parece estar mais na moda :
O de valorizar comportamentos "maduros" em gente pequena. E consequentemente elogiar os pais desses mini adultos! Enquanto uma legião de adultos passa pela vida sem reconhecer que uma das tarefas mais difíceis de gente grande é a busca - contínua e coletiva - pela maturidade. 

Ou seja: a maioria de nós não sabe o que é maturidade e busca conquistar "esta idade" com o tempo! Uma aquisição natural para determinada idade. A maturidade não é uma consequência, muito menos uma herança. É na melhor hipótese uma conquista!

Nessas últimas semanas foi divulgada uma notícia que trata da naturalização da agressão contra crianças, em países que muitas vezes servem de inspiração de conduta. Conduta nos melhores padrões de civilidade (segundo os que ditam boas condutas!). Como seria bom para nossa consciência limitada poder usar o filho de troféu, mostrando para a sociedade o exemplar trabalho que fazemos, quando aquela criança cumpre na tenra idade os protocolos que se exigem dela, não é mesmo? Que seres civilizados nos mostramos quando exibimos uma família sem conflitos! Todos exercendo sua tolerância e pseudo-potência diante do espetáculo que é estar em grupo. E minha família sabendo se portar!

Mas basta um piti em público para que se escancare aos olhos de todos a nossa suposta falência: meu filho não me obedece, então eu sou um pai ou mãe incompetente. Então eu falhei. Sou Impotente!

Na sociedade do produto, é inaceitável que nossos frutos deponham contra nós. É urgente que usemos - e naturalizemos - artifícios quaisquer para passar a imagem que queremos: adultos! sob controle! bem sucedidos! bons pais e mães! maduros! Embutidos do senso comum do que é maturidade! Sujeitos geralmente insatisfeitos e ansiosos ou deprimidos ou os três!

Mas somos maduros? Enquanto indivíduos ou coletivamente? Maturidade existe?

Todos aqui crescemos dentro das bolhas de privilégios que favoreceram nossas conquistas pessoais, como se fosse apenas mérito nosso, o lugar em que nos encontramos agora. Esquecemos que, a busca pela maturidade, pela consciência, é uma vivência processual, contínua, e jamais estaria exemplificada como forma de produto. 

Não é um sinal de falência ter filhos "mal educados". Ao contrário pode ser o primeiro sinal de que a salvação esta próxima! (hehehe)

Sinal de alerta é quando violentar os filhos fica banalizado. Vítimas da falta de maturidade dos pais e acima de tudo, da sociedade. Sinal de falência, é na idade adulta, não termos ainda acordado para a necessidade de um contínuo e coletivo processo de aprimoramento da nossa condição humana!

Essas crianças "mal educadas" que dão piti e incomodam vivem o estado de liberdade que fomos também ensinados a cercear. E quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor, não é assim? Alguém que apanha, aprende a bater, alguém que bate, aprende a normalizar a violência.

Não existe educação de crianças para a maturidade, assim como não existe educação libertadora que coíba a manha de uma criança. As francesas podem não fazer manha, mas isso é sinal de falência social, cultural, global. É claro que se pudermos nos liberar do peso que nos foi imposto  por uma educação exageradamente conservadora já teremos dado um enorme passo.

Imagem: Public Domain Photos


Existe educação de si mesmo. Quando eu proponho a busca pela emancipação dos meus próprios sentimentos e práticas cotidianas, com foco na ampliação de vivências humanas - que passam por querer se jogar no chão e gritar até que alguém te pegue no colo e diga que tudo vai ficar bem, independente da idade que seu calendário natal aponta - eu me educo, e demonstro em mim essa busca. A tal maturidade !

Sem necessidade de bater em meu filho, para calar nele tudo aquilo que não aguento em mim.
Reflexo em mim de uma surra permanente neste pseudo civilizado adulto que quero ser!

Essa é uma baliza esquecida, e usada de forma tão equivocada, nas relações de todo tipo: respeito.

Da mesma maneira, respeito não se ensina, se pratica. O maior desafio na educação para o respeito, para a dignidade, para a maturidade e para a cidadania é deixar-se participar do ciclo de conquistas individuais e coletivas, em prol desse bem comum.

Diminuir a distância entre o que se fala e o que se faz, encontrando os pontos de convergência entre nossa bagunça interna e o caos que nos cerca. Esse é o exercício da vida adulta, que deveria estar longe de buscar nas crianças, seus índices de sucesso. É tudo muito difícil e pode demandar uma energia que não dispomos neste momento (ou não achamos dispor). 

Encontrar em nos mesmos esta borda, esse limite já é sinal de muita maturidade!


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Tenho alergia a drama"

**Por Anne Rammi**

Sabe o que acontece quando você é amiga do pediatra dos seus filhos, e ele, mais do que zelar pela saúde da criança, zela pelo coração e mentes da família toda? Você comenta numa postagem de uma amiga em comum e ele aparece serenamente na sua mensagem dizendo: vamos desenvolver esse tema?

A alérgica a drama sou eu. Mãe de três, pessoa adulta e, para tornar esse desenvolvimento um pouco mais fácil, pessoa de capricórnio (sim, eu vou começar culpando o meu signo para falar desse assunto espinhento que é o turbilhão emocional ao qual estamos constantemente expostos quando criamos e educamos crianças pequenas - e me parece que as grandes também e os adolescentes, deus nos ajude! -  e quem sabe, pessoas de áries, sagitário, escorpião e um monte de lua em câncer).

Cabe contar que desde que eu tive meu primeiro filho, me enveredei pelas práticas mais humanizadas de criação. Sempre gostei de um chamego intenso, muito colo, muito peito (suspiros em homenagem). E sempre me permiti, apesar da minha casca grossa, estar nesse lugar emocional, meio que sem me preocupar com qualquer conseqüência, boa ou ruim.

Acontece que a vivência da maternidade tem me levado a tirar conclusões interessantes sobre a tal "criação com apego" ou seja lá qual for o nome para essa tendência que vivemos no nosso micro-universo (que devo registrar aqui, um universo de privilegiados) de estar em plena fusão de emoções. E sei lá, ou a gente anda fazendo isso muito errado, ou o apego tem mesmo um prazo de validade.

Serei sincera: há um limite em mim de acolher qualquer tipo de emoção alheia, e ele está diretamente ligado ao tamanho dos meus bebês. Vou chutar que deve ser em quilos. Eu aguento drama forte até uns 12/ 15kg. Começou a passar disso, me empipocam as alergias. E há dramas que eu não consigo lidar.

Claro que essa é uma metáfora para falar do que preciso aqui: estou conhecendo o meu limite, como mãe e gente, para dar conta do que é minha emoção e do que é a deles e quais são os assuntos onde devo me meter e onde não devo. Quando serei a mãe do Caillou e quando serei a mãe do Charlie Brown. 

Um bebê inconsolável que está totalmente frustrado porque eu tirei o garfo que ele enfiava na tomada encontrou em mim um porto de conforto. Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, mamãe sabe que você queria muito, mas realmente não será possível. Quer mamar? Olha esse outro brinquedo? Vamos invocar a Margarita Valência e criar umas barreiras físicas para essas tomadas. Totalmente Mary Poppins.

Agora uma mini pessoa que já pode limpar a bunda sozinho entra numa disputa de horas de choro ardido e sem lágrimas, por um pedaço do resto do adesivo que descolou da parede velha, com a outra criatura que já calça quase trinta e tem chulé... Caramba, minhas colegas, será que foi o excesso de colo? São mimadas essas criaturas? Vamos jogar essa tralha no lixo? Precisam mesmo da minha ajuda para resolver esse tipo de dilema? Vai logo minha gente, argh! Às vezes baixa a diretora da escola da Matilda.

Os grandes estudiosos da educação levantarão teorias sobre os pedidos deslocados "há alguma coisa incomodando, é preciso saber ler o que está por trás". "O objeto é a extensão da criança" e não importa que seja um bagulho catado no lixo, se é importante para ele, deve ser tratado com respeito. "Os adultos precisam estar centrados para não despejar sua frustração nas crianças". E todas as sugestões de psicoterapia, vai fazer yoga, consuma alimentos macrobióticos, aceita jesus e outras indicações de vida-zen (que eu finjo não escutar, porque... né? aqui é punk-rock-anarquia)

Ok, eu concordo com os estudiosos, eles são ótimos e devem ter ficado muito tempo lendo e escrevendo seus livros enquanto alguém arrumava espaço emocional para lidar com os mais variados dramas, como "ele pegou o azul que tem bolinhas e minha cor favorita é o rosa então eu preciso desse e ele falou semana passada que meu cabelo era feio porque a pulseira do pokemon sumiu".


via GIPHY (eu quando começa o drama)

O que seria da teoria sem a prática não é mesmo? 

Quando os dramalhões dessa estirpe acontecem eu vejo um claro limite no meio do meu peito, uma agonia de não dar conta dessa intensidade, é tão nítido que eu não tenho espaço para lidar com aquele drama, que me baixa a criação com desapego: olhar fuzilante, cara de desprezo para o pedaço de resto de adesivo, e de vez em quando um sermão ao estilo anos oitenta: VOCÊS VÃO PARAR OU QUEREM QUE EU PARE!??

Dentro dessa ótica, de descobrir limites, tento manter a minha consciência clara: não endosso violência física, mas sou humana também nessa relação. Se o drama me faz mal, eu tento me afastar dele. A consciência do limite - meu e do que eu acredito ser certo - é o que segura a forte emoção de apelar paras as estratégias mais eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas como: ENGOLE ESSE CHORO! ME DÁ AQUI ESSA PORCARIA DUAS SEMANAS SEM TEVÊ! e coisas do tipo.

Longe de mim dar dicas, mas eu peço com recorrência que se acalmem, tomem uma água e tentem falar comigo sem miar. "Mamãe não entende nada quando você fala desse jeito, melhor me explicar sem chorar para ver o que eu posso fazer". Firme e gentil, enquanto por dentro eu me vejo arranhando minha própria cara "para, para, para de miar, fala direito peloamordedeus!! onde foi que eu errei!!!"

Outra coisa que tenho percebido é que mandar resolver sozinho, acaba resolvendo mesmo. Demora mais tempo e às vezes são soluções tortas (tipo, um soco na cara do irmão e pronto! peguei o que eu queria, resolvido!). Mas poxa vida camarada, eu mesma não sei resolver todos os meus problemas com maestria, deveria esperar que eles soubessem? 

A última coisa que quero deixar registrado é que, apesar da minha consciência de limites quanto às minhas atitudes, eu escorrego direto para as emoções e estratégias eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas. Gente do céu, o mais velho tem sete anos, eu já devo ter gritado uns dois mil decibéis somados! Também não ignoro as minhas próprias falhas, vou lá e peço desculpas. Fazer o que né? Às vezes, imediatamente depois do meu xilique: "errei galera, perdi completamente a paciência, vocês sabem que a mamãe não reage bem a esses dramas. Vou tentar ser mais gentil, mas por favor, colaborem vocês também."

E sigo eu a tentar me acalmar, também, a regra tem que valer para todos. Bebo uma água, desapego do que não parece importante e tento resolver comigo mesma, sem causar mais drama. Afinal, tenho alergia! 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Tecnologia Feliz

** Por Paulo Schor ** 

Frequentemente recebo crianças para avaliação no consultório e uma das queixas bem frequentes diz respeito a pouca distância entre a televisão ou o ipad, e os olhos dos pequenos. Sim. esse pode ser um sinal de alta miopia, principalmente se houver real dificuldade de reconhecer objetos a certa distância (mais de 2 metros), mas na maioria das vezes trata-se de um comportamento de "aproximação" do foco de atenção, e não um sinal de doenças nos olhos. Porém o mais difícil não é diagnosticar esse ou aquele aspecto oftalmológico, mas sim explicar aos pais que ficar perto dos monitores não causa mal algum aos olhos. 

Essa não é a resposta e nem o (des)incentivo esperado da maioria dos pais. Nesse cenário a tecnologia entristece e não ajuda os pais a lidarem com a "adição" das crianças aos aparelhos que produzem som e audio. Deve ser clara a distinção entre "fazer mal para a vista" e "não ser adequado para a criança", e nós, oftalmologistas, precisamos fazer parte dessa discussão. 

Imagem: Freepik

Perder oportunidades de socialização e descobertas, com individualização excessiva não parece construtivo para as crianças. Mesmo "não fazendo mal para os olhos", essas atitudes exacerbadas não trazem "o bem". Por outro lado incentivamos a leitura, desenho e atividades lúdicas "para perto", e hoje sabemos que ha uma tendência secular, que vem aumentando ao longo das gerações (e já se fala em passar "de pai para filho"), de uma miopização da população. 

A mudança de hábitos na Coreia do Sul parece explicar um aumento da taxa de míopes de 20 para 80% em algumas gerações, e estudos mostram miopia de quase meio grau (a mais) em crianças que leem mais. O que fazer com essa informação? Evitar a leitura para perto e colocar óculos bifocais nas crianças? Alguns estudos mostram que essas medidas restringem o crescimento ocular, mas a que custo e em que medida isso se da? Vale a pena tal "sacrifício"? Lidar com a tecnologia de modo "neutro" e ter as informações corretas é o primeiro passo para não exagerar seu uso e nem demonizar seus malefícios. A ciência continua nos mostrando fatos, e cabe a sociedade fazer o melhor uso possível deles. O equilíbrio ainda parece ser o melhor remédio.

Me chamo Paulo Schor, estudei na classe do caca na USP de ribeirão preto. Sou pai da já crescida Marina e agora a Luiza cresce. Hoje estou como professor chefe do departamento de oftalmologia da escola paulista de medicina da Unifesp.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Tecnologias: nem proibidas, nem obrigatórias. Por um uso consciente e humanizado

Por Michelle Prazeres*

Vivemos numa era em que as telas são aparatos cada vez mais pessoais e fazem parte das nossas vidas cada vez mais cedo. Não dá para ser contra as tecnologias, porque elas estão aí e fazem parte de nossas vidas; mas também não precisamos nos entregar aos delírios de consumo e nos fazermos reféns. Especialmente para lidar com as relações entre a infância e as tecnologias, enquanto mães e pais, precisamos exercer nosso papel de mediadores e guardiões destas crianças. Mas como?

No campo da educação (especialmente a educação formal escolar) é recorrente o discurso de que as tecnologias são inevitáveis e que vem adentrando os espaços educativos “naturalmente”, na medida em que as novas gerações (que seriam “nativos digitais”) estão estabelecidas nas escolas.

Mais do que o ideário sobre a inserção “natural” das tecnologias, paira no ar uma crença de que as tecnologias podem “salvar” a educação, aproximando a linguagem e os métodos educacionais do que seria um universo discursivo mais “próximo” das crianças e jovens, pelo fato de ser algo que traz, para o ambiente “chato e hostil” da educação algo “lúdico” e que “faz parte do universo infantil”.

Coloquei entre aspas nos dois primeiros parágrafos deste texto as expressões e ideias que – a meu ver – são passíveis de problematização. Mas é fato que este é o discurso comum para vários setores da sociedade que veem com muita naturalidade as tecnologias adentrando os espaços educacionais formais.

Fiz uma pesquisa e entre os achados dela, está o fato de, por exemplo, a mídia, as empresas, o poder público e a Universidade estão falando sobre as contribuições (positivas, sempre) que as tecnologias podem oferecer aos processos educacionais.

É comum vermos este discurso de “idolatria” das tecnologias em outros setores da sociedade. Na medicina, por exemplo, é muito comum ver uma espécie de endeusamento das tecnologias “que salvam vidas”. E, em nome das que salvam vidas, “tecnologiza-se” tudo.

De que tecnologia estamos falando?

Talvez seja importante a gente conversar sobre o que é tecnologia. São muitas as correntes científicas que buscam definir o que elas são. Mas aqui, para nós, e para esta conversa sobre as relações entre tecnologia e infância, talvez seja bacana pactuarmos que estamos falando especialmente das tecnologias de telas.

Porque sim, nossas crianças nasceram em um momento que algumas pessoas chamam de Era da Informação, em meio ao que outras chamam de Cultura digital ou de Cibercultura. São as tais crianças “nativas digitais” (não gosto muito deste termo, tá?). Se formos falar de qualquer tecnologia, estamos todos convivendo com elas desde a Idade Média, então, seria legal a gente combinar aqui que esta discussão específica é sobre as telas. ;)

É fato que hoje, vivemos num momento de exacerbação tecnológica, com a proliferação dos aparatos móveis e pessoais. Cada um tem um celular e alguns ainda têm um tablet e um computador pessoal. O consumo da tecnologia se individualizou. Além disso, ele se expandiu pelas diversas faixas etárias. E é cada dia mais precoce.

Imagem: Freepik

Mas qual seria a idade ideal para começar a consumir tecnologias? Existe isso?

Olha... eu li o texto que a Anne Rammi publicou por aqui  e me senti bem contemplada pela leitura sensata que ela traz com base na experiência cotidiana de quem tem filhos e consegue promover um uso consciente das tecnologias.

Penso que nós (mães e pais) precisamos entender que estamos em um mundo povoado por estas tecnologias. Que nossos filhos – especialmente aqueles em idade escolar e que já tem contato com outras instâncias de socialização que se relacionam com as tecnologias – estão o tempo todo em contato com estes aparatos e telas. Não podemos tentar “salvá-los” deste contato. Então, talvez o modo mais bacana de olhar para isso seja reconhecendo nosso papel de mediação.

E esta mediação vai desde buscar entender qual a idade certa para eles terem aparelhos próprios (e aí, entra a decisão de cada família); e passa por estar sempre por perto para mediar conteúdos (assistir junto, problematizar, comentar sobre o que viram, não deixar entrar em contato com conteúdos não classificados para a idade). Passa também por entender qual o tempo ideal de exposição das crianças às telas.

E, passa, sobretudo, pelo que, para mim, é uma das principais questões em jogo quando a criança passa a consumir tecnologia (e os conteúdos que circulam pelas telas) sozinha: a segurança.

E para fazer esta mediação (seja do consumo dos aparatos, seja dos conteúdos) precisamos estar minimamente apropriados deste universo.

E como se apropriar para mediar?

Talvez o primeiro passo seja reconhecer a tecnologia em todas as suas dimensões. As telas são aparatos ‘concretos’, mas carregam consigo conteúdos (todo um universo simbólico) e modos de percepção (esquemas lógicos, por exemplo, que dependem de programas e softwares que usamos).

Para mediar, é preciso ter em mente que as potencialidades das tecnologias não são apenas negativas. Existem usos bacanas e possíveis da tecnologia, para melhorar processos em casa, para brincar e para estudar. Costumo dizer que precisamos olhar para o potencial humanizante das tecnologias.

Aqui em casa, por exemplo, evito telas ao máximo (o mais novo nem sabe o que é isso ainda, claro). Mas desde muito cedo, Miguel usa os celulares e telas para conversar com a família, que está longe, espalhada pelo Brasil. Desde muito pequeno, ele pede para fazer “Facetime” com a vovó e com os tios. Há como recriminar este uso da tela mesmo que seja por uma criança de 2 anos?

Precisamos de menos julgamentos. Precisamos que cada família se sinta confortável como mediadora da experiência de cada criança com as telas e seus conteúdos. Mas precisamos também que estas escolhas sejam feitas com consciência e informação.

Nesse sentido, e avançando no argumento de que, enquanto pais e mães, precisamos conhecer para mediar, devemos entender quais os possíveis riscos envolvidos no consumo de telas tecnológicas.

A pesquisa do Cetic.Br chamada TIC Kids online  nos traz algumas informações preciosas nesse sentido.

Segundo este levantamento (que abrange as crianças e jovens de 9 a 17 anos), a maioria delas usa telas e internet “todos os dias ou quase todos os dias”, acessando especialmente do celular e de tablets e fazendo isso a partir de suas casas. Os principais usos são para “rede social, trabalho da escola, pesquisas e mensagens instantâneas”.

De posse desta informação, seria interessante pensarmos nos riscos que estes acessos podem envolver. E a pesquisa enumera três exemplos: (1) tratamento ofensivo; (2) contato com mensagens de ódio; e (3) exposição de informações pessoais. Pensando nos riscos, conseguimos pensar também nas principais medidas de segurança de que podemos lançar mão.

Claro que estas são questões para crianças mais velhas. Para crianças mais novas, penso que devemos fazer um uso mediado e consciente, na linha do que a Anne Rammi propõe em seu texto, ajudando-as a problematizar alguns conteúdos e evitando que estejam muito expostas a outros. Aqui em casa, por exemplo, eu costumo obedecer à classificação indicativa do Ministério da Justiça, evito televisão aberta (por conta da propaganda abusiva) e invisto em desenhos e musicais, tentando filtrar conteúdos mais violentos. Jogos são mais raros.

No caso de bebês e crianças mais novas, existem uma série de estudos que mostram que muita exposição às telas trazem consequências para o brincar (mais restrito), para a criatividade e para a construção de raciocínio destas crianças. Eu acredito que temos um vasto trabalho de conscientização e informação sobre acesso e uso de telas para que as escolhas de mediação sejam escolhas informadas.

O que eu acho importante é a gente entender que enquanto mães e pais, somos mediadores; que esta mediação deve ser consciente e informada e que cada família deve ter tranquilidade para decidir o que é melhor para suas crianças, ainda que pense igualmente que o Estado tem um papel fundamental na construção de políticas de informação e proteção à infância (este item rende um texto à parte sobre a ausência do Estado na regulamentação do setor da comunicação).

Acredito também que cada família tem direito à paz interior e a não ser julgada socialmente por oferecer telas a seus pequenos.

Vale lembrar que a tecnologia nem nos salva, nem nos condena. A chave são os usos que fazemos dela. Os usos são de cada um e cada uma. De cada coletivo. De cada família. De cada grupo, cada sociedade. Cada grupo conhece seu contexto e suas possibilidades e limitações. Avancemos nos apoiando e nos informando, sem julgamentos. E estas escolhas tendem a ser muito mais saudáveis para nós, para nossas crianças e para a sociedade.





* Michelle Prazeres é jornalista, professor e Doutora em Educação, mas sua melhor credencial é a de mãe do Miguel (5 anos) e do Francisco (5 meses).

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Crianças e Tecnologia por Ana Cristina Duarte

Eu tenho visto as crianças crescendo, não só as minhas, mas várias que fui atendendo como doula e parteira nos últimos 12 anos. Fui observando e entendendo diferentes formas de criar os filhos em tempos de tecnologia.

Precisamos antes de tudo pensar em faixas etárias. Crianças pequenas precisam ter contato com o mundo real, com os objetos, com panelas, com potes de plástico e colheres de pau. Precisam ir para os parques e praças e seus pais precisam fazer um esforço especial de prover a eles o espaço e o tempo de brincar. Esse esforço vai se compensar no futuro com crianças criativas e capazes de se entreter com coisas muito simples.

Crianças maiores já podem começar a ter contato paulatino com as tecnologias, mas não haverá nunca o tempo em que os pais vão se descuidar dessa questão. Porque as telas encantam, sugam a atenção, porém limitam a imaginação. O conteúdo vem formatado, desenhado, colorido e sonorizado. Não sobra espaço para pensar muito. Por outro lado existem outros tipos de tecnologia que são muito interessantes de serem apresentados para as crianças, como os brinquedos de aprendizado, para fabricação de robôs, circuitos elétro-eletrônicos e assim por diante.

Não vamos achar que crianças vão ver os pais o dia todo no celular e vão se encantar com um banco de areia. Por isso é imprescindível que os pais dediquem tempo seus filhos, para brincar junto, para estar junto e para criarem juntos.

Ana Cristina Duarte
Obstetriz



Imagem: Freepik

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto antes da hora



É possível alfabetizar uma criança com menos de 7, 6 ou até 5 anos de idade? Sim, é possível alfabetizar muito cedo uma criança. Mas será uma alfabetização significativa? Que comprometimentos podem advir do que entendemos como aceleração da alfabetização? Qual é o ganho efetivo para a criança?

Ouço muitas vezes no consultório os pais preocupados com o futuro caminho profissional definido pelo vestibular de seu filho ou filha de apenas 3, 4, 5 anos. Quando pergunto aos pais o que eles entendem do brincar de sua criança, geralmente respondem que é apenas um passatempo, exceto pelos jogos de raciocínio. Eles consideram importante preparar a sua criança para a vida, para a competição do mundo, para uma profissão que lhe dê “felicidade” – palavra quase sempre atrelada a “dinheiro”.

No entanto, se olhamos a criança quando ela está brincando, fantasiando, subindo em árvores ou correndo com outras crianças, verificamos um universo muito particular no qual ela desenvolve capacidades e uma confiança que, muitas vezes, não encontramos no universo dos adultos bem sucedidos. É por esse motivo que nas escolas Waldorf nós defendemos que até pelo menos os 6 ou 7 anos a criança simplesmente… brinque. O tempo que alguns julgam que ela “perde” por não ser rapidamente alfabetizada, ela na verdade ganha, acumulando forças internas para poder enfrentar o mundo que às vezes tanto preocupa os adultos.

Há quase 100 anos da fundação da primeira escola Waldorf na Alemanha, baseada em uma concepção de mundo denominada de Antroposofia, elaborada por Rudolf Steiner, confiamos cada vez mais nos resultados dessa prática, hoje disseminada em mais de 3 mil instituições em todo o mundo (com cerca de 25 escolas no Brasil, e dezenas de jardins de infância) orientando educadores quanto a essa questão. A antropologia antroposófica reconhece a importância do desenvolvimento físico, anímico e espiritual do ser humano em formação. Os sete primeiros anos da criança, por exemplo, representam uma fase de grande dispêndio de energia para preparar toda uma condição física. Isso se evidencia em um desenvolvimento neurológico e sensorial que tem sua expressão no domínio corporal, na linguagem oral, na fantasia, na inteligência.

Contudo, é na atividade do brincar que essas capacidades são desenvolvidas com alegria e seriedade, com atenção e responsabilidade, com segurança e confiança em um mundo bom, que não exige da criança além de suas possibilidades, ou seja, uma entrada precoce no mundo adulto. E alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto (para o qual ela não está preparada, portanto) antes da hora, um gasto de energia que poderá fazer falta na vida futura dela.

Em minha experiência docente, assim como psicopedagógica, sempre constato que, para uma criança pequena, o código alfabético é estéril, sem cor, sem beleza, pois é abstrato e desconhecido. Mesmo depois de alfabetizada, é o desenho que representa tão significativamente as suas vivências. Podemos verificar tal condição quando estudamos a escrita gráfica de nossos antepassados longínquos e a forma de comunicação de nossas crianças, o desenho. A escrita do povo egípcio, os hieróglifos, é a representação objetiva da realidade, ou seja, a re(a)presentação do mundo sensório pelo desenho. Mas quando em 3.000 a.C. surgiu a escrita fonética dos fenícios, ocorreu um distanciamento dessa forma de expressão, porque as letras não tem mais relação direta com os elementos do mundo circundante.

O desenho da criança é a forma de comunicação natural, semelhante aos antigos egípcios, que revela seu universo infantil com o código que lhe é caro e próprio. Quando a sua criança lhe mostra um desenho que tenha feito, ela está lhe contando como vê o mundo, como se sente, se está alegre ou triste. Não é só a escrita que é capaz disso.

Nas escolas Waldorf a alfabetização pelo código fonético inicia-se pelo desenho, de forma lenta e gradual, a partir dos 6 1/2 ou 7 anos, mas o desenho e a pintura correm em paralelo por toda a escolaridade, como uma forma de comunicação tão importante quanto nossa linguagem escrita.

A pedagogia Waldorf pressupõe que o professor, realizador dessa pedagogia, conheça o ser humano em seu desenvolvimento geral, respeite o contexto sociocultural em que o aluno está inserido e sua individualidade, saiba organizar seu ensino privilegiando a brincadeira, o canto, a dança, para que a alfabetização (e qualquer outro conteúdo de ensino) tenha significado e seja efetiva.

O brincar da criança, seu desenho, sua imaginação e sua criatividade, fazem parte de seu aprendizado sobre o mundo e sobre si mesma. O brincar representa o princípio lúdico que embasa as atividades dinâmicas e artísticas e pode orientar toda a prática docente, mas que também dá significado ao ensino-aprendizado, pois pode expressar o motivo, assim como, o vínculo afetivo com o professor e com o conteúdo.

Termino com uma frase do filósofo Friedrich Schiller: “O homem só brinca ou joga enquanto é homem no pleno sentido da palavra, e só é homem enquanto brinca ou joga”.

Texto de Sueli Pecci Passerini, publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, p. J8, 30/9/12. (Versão revista em 9/11/12). Retirado do grupo Pedagogia Waldorf para a Família, no Facebook.

Sueli Passerini é Doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), professora da FAAP e autora de O Fio de Ariadne – um caminho para a narração de histórias, 3a. ed., São Paulo: Editora Antroposófica, 2011. Integra a Aliança pela Infância e é professora dos cursos de pós-graduação em Pedagogia Waldorf no Centro Universitário Italo Brasileiro de São Paulo e Universidade Santa Cecília de Santos.


Saiba mais: 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Desenvolvimento do Ser Humano na Primeira Infância

A Antroposofia é uma corrente filosófica fundada por Rudolf Steiner, que tem uma abordagem holística na leitura espiritual, física e social do ser humano. Uma ciência espiritual, conforme seus estudiosos.

Steiner definiu a antroposofia como "um caminho de conhecimento para guiar o espiritual do ser humano ao espiritual do universo." 

Para os amantes da puericultura, a antroposofia tem contribuições incontestes. Veja um resumo da abordagem de Steiner para os pequenos, de acordo com a Biblioteca Virtual da Antroposofia



Primeiro Setênio – 0 a 7 anos

É na primeira infância, mais precisamente durante os primeiros 7 anos, que as forças da individualidade estão localizadas na cabeça, e a tarefa neste período, é crescer, desenvolver os órgãos físicos que estão sendo formados, "independizar" o pólo superior do corpo, do pensar.

Com o nascimento, tem início o trabalho da individualidade, daquele ser cósmico que começará uma vida terrestre de transformação do invólucro corpóreo recebido dos pais, apto às suas necessidades. Portanto, neste período, a individualidade se ocupará em se apropriar do corpo herdado, moldando-o e reestruturando-o conforme suas peculiaridades interiores.

A criança, por assim dizer, reforma, refina seu instrumento físico, que é a corporalidade. Essa transmutação significa, aos poucos, eliminação das substâncias herdadas, desde as células mais microscópicas, que se tornam cada vez mais individualizadas, até os dentes, que são as mais duras do corpo, quando no final dessa etapa, a criança perde a dentição de leite, substituindo-a pela permanente, que é aquela que construiu a partir de sua interioridade.

Olhando, para os nossos sentidos, que, com exceção do tato que permeia todo o corpo, estão localizados na cabeça, podemos ter uma idéia dos aspectos que devem ser cuidados neste período inicial, para que a criança possa gostar de estar na Terra, dentro de seu próprio corpo.

Assim, para a construção do corpo físico de forma equilibrada, a criança deveria ter vivências permeadas por situações e circunstâncias que a levassem a perceber que o mundo é bom.

À essa criança, deveriam ser providas oportunidades de movimento livre no espaço, na medida em que vai se apropriando dele ao longo de seu desenvolvimento, desde possibilitar o engatinhar quando é bebê, até trepar em árvores e correr no campo quando é maior.

É por experimentação que a criança aprende, por tentativa e erro, e pelo princípio da imitação. O que não queremos que ela faça, não deveríamos também fazer, pois ela seguramente imitará gestos, fala, atitude dos adultos ao seu redor.

Rapidamente as faculdades humanas vão sendo adquiridas, quando, aos 3 anos a criança já conquistou o espaço físico com o andar, o espaço social com o falar, e o espaço espiritual, com o pensar.


Em síntese, neste primeiro setênio os princípios são :

• imitação

• bondade

• órgãos dos sentidos

• desenvolvimento do pensar

• processo de individuação física

Leia o artigo completo - que trata dos próximos oito setênios - no site Antroposofy

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Que pressa é essa?

Imagem: Google 

Por Rosely Sayão - Publicado em 11/06/2013 - Folha de São Paulo

Tenho recebido muitas mensagens de mães e de pais com dúvidas sobre qual é a melhor época para começar a tirar as fraldas dos filhos e como dar o primeiro passo. Vamos conversar a esse respeito, já que essa parece ser uma questão aflitiva para quem tem filho pequeno.

Uma mãe me escreveu dizendo que ela gostaria de esperar a filha dar sinais de que está pronta, mas a escola a chamou para informar que eles já vão começar a tirar a fralda e a instruíram sobre o que ela deve fazer em casa.

Uma leitora, cujo primeiro filho tem agora dois anos, conta que não aguenta mais ouvir tanta gente perguntar quando ela vai tirar a fralda do garoto. Por outro lado, uma avó confidencia que acha os métodos atuais para ensinar a criança a ir ao banheiro inadequados. São boas as questões, não? Então vamos a elas.

O que eu li, nas linhas e nas entrelinhas das mensagens desses pais, é que eles se sentem pressionados. Fiz até uma comparação entre eles e quem tem filhos em época de entrar em faculdade. Parece, caro leitor, que são os pais que estão em prova nesse momento. Vamos manter a calma porque, nos dois casos, trata-se da vida dos filhos e de situações que eles devem resolver --com a nossa ajuda, claro!

Não há tempo certo nem para começar nem para terminar esse processo; não há método mais ou menos adequado; não há receita. E sabe por quê? Porque não se trata apenas de controlar alguns músculos do corpo para conter o xixi ou o cocô; trata-se também de desenvolvimento pessoal, disponibilidade para o crescimento, tipo de relacionamento com a mãe e muito mais.

A criança costuma dar sinais claros de que ela quer aprender a usar o banheiro. Os pais não precisam se preocupar tanto. O que não podemos é antecipar o processo. Recentemente eu assisti a uma reportagem em que pais colocavam o filho de meses para fazer xixi fora das fraldas. Será que essa criança irá debutar --me perdoe usar esse conceito antigo-- aos cinco anos? Que pressa é essa? Vamos respeitar o desenvolvimento de nossas crianças!

Bem, mas quando a criança costuma dar esses sinais? Quando já controla melhor os músculos de seu corpo, o que podemos observar, por exemplo, quando ela consegue correr ou subir alguns degraus de escada. Além disso, quando ela se interessa pelo uso do banheiro.

Talvez esse seja o melhor indicativo para iniciar o processo com a criança. Quando ela pergunta do uso do banheiro, pede para ir, quer ficar por lá mais tempo, por exemplo. Quanto mais natural for o processo, melhor para a criança.

Os pais não devem atrapalhar. Para isso, precisam munir-se de calma e paciência. A criança nem sempre vai acertar, e, mesmo depois de os pais acharem que ela já aprendeu, ela vai querer usar o banheiro quando tiver vontade, não quando os pais quiserem. E mais: ganhar prêmios por fazer a coisa que os pais julgam certa confunde a criança.

Esse é um momento importante, quando a criança conquista mais independência em relação ao seu corpo e adere de modo ativo ao estilo de vida adulto e de sua família.

Quando a criança se nega a largar a fralda, embora nada em seu organismo a atrapalhe, é interessante refletir sobre quais motivos ela tem para recusar o estilo de vida que ela observa em casa e na escola.


Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bebês dormem em caixa de papelão na Finlândia

Bebês de todas as classes sociais dormem em caixas de papelão na Finalândia
Há 75 anos, todas as mulheres grávidas na Finlândia recebem um kit de maternidade do governo. O kit inclui uma caixa com roupas, lençóis e brinquedos, e a ideia é que a própria caixa seja usada como cama durante os primeiros meses de vida do bebê.

Muitos acreditam que o kit ajudou a Finlândia a alcançar uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo.

É uma tradição com origem na década de 1930, e desenvolvida para dar a todas as crianças na Finlândia um começo de vida igual, independente da classe social.

O kit de maternidade é um presente do governo, e está disponível para todas as gestantes.

Ele contém macacões, um saco de dormir, roupas de inverno, produtos de banho para o bebê, assim como fraldas, roupas de cama e um pequeno colchão.

Com o colchão no fundo, a caixa torna-se a primeira cama do bebê. Muitas crianças, de todas as classes sociais, têm seus primeiros cochilos dentro da segurança das quatro paredes da caixa de papelão.

Acompanhamento pré-natal para todos

As mães podem escolher entre receber a caixa, ou uma ajuda financeira, que atualmente é de 140 euros (390 reais), mas 95% optam pela caixa, pois vale muito mais.

A tradição começou em 1938, mas inicialmente o sistema só estava disponível para as famílias de baixa renda. Mas isso mudou em 1949.

"A nova lei diz que para receber o kit ou o dinheiro, as gestantes têm que visitar um médico ou uma clínica pré-natal municipal antes do quarto mês de gestação," disse Heidi Liesivesi, que trabalha no Kela, o Instituto de Seguro Social da Finlândia.

Na década de 1930, a Finlândia era um país pobre e a mortalidade infantil era alta - 65 em 1.000 bebês morriam. Mas os números melhoraram rapidamente nas décadas que se seguiram.

Mika Gissler, professora do Instituto Nacional para Saúde e Bem-Estar em Helsinque, acredita que o kit de maternidade e os cuidados pré-natal para todas as mulheres introduzido na década de 1940, um sistema de seguro de saúde nacional, e um sistema central da rede hospitalar na década de 1960 foram fundamentais para reverter essa situação.

As mães mais felizes do mundo

Aos 75 anos de idade, o kit é agora uma parte estabelecida do rito finlandês de passagem para a maternidade, unindo gerações de mulheres.

"É fácil saber em que ano os bebês nasceram, porque as roupas do kit mudam um pouco a cada ano. É bom comparar e pensar: 'Ah, aquele menino nasceu no mesmo ano que o meu'", diz Titta Vayrynen, de 35 anos, mãe de dois filhos pequenos.

Para algumas famílias, o conteúdo da caixa seria inviável se não fosse gratuito.

"Um relatório publicado recentemente dizia que as mães finlandeses são os mais felizes do mundo, e na hora eu pensei na caixa. Somos muito bem cuidados pelo governo, mesmo agora, que alguns serviços públicos sofreram pequenos cortes", diz ela.

O conteúdo da caixa mudou muito ao longo dos anos, refletindo a mudança dos tempos.

Símbolo de igualdade

"Os bebês costumavam dormir na mesma cama que os pais, e foi recomendado que esse costume acabasse", disse Panu Pulma, professor de História Finlandesa e Nórdica da Universidade de Helsinque. "Incluir a caixa no kit serviu como um incentivo para os pais colocarem os bebês para dormir separados deles."

Em um certo momento, mamadeiras e chupetas foram removidos para incentivar o aleitamento materno.

"Um dos principais objetivos de todo o sistema era fazer com que as mulheres amamentassem mais", diz Pulma,"e funcionou".

Ele também acha que incluir livros infantis teve um efeito positivo, encorajando as crianças a segurar os livros, e, um dia, lê-los.

Pulma acredita que a caixa é um símbolo. Um símbolo da ideia de igualdade, e da importância das crianças.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Bebês fazem leitura labial durante o processo de aprendizado da fala

As primeiras palavras do bebê podem não ser totalmente articuladas, mas são capazes de fazer qualquer pai e mãe chorar. E não é à toa, a fala é um complexo processo e envolve uma importante interação entre você e seu filho.
Um estudo realizado no Florida Atlantic University, nos Estados Unidos, por exemplo, acaba de revelar que para aprender a falar, a criança faz (imagine!) a leitura labial dos seus interlocutores. Isso significa, que seu filho não só escuta, como também presta muita atenção nos movimentos dos seus lábios quando você conversa com ele - algo que talvez você já tenha percebido.

Segundo a pesquisa, esse processo se inicia aos 6 meses de idade, quando a atenção do bebê deixa de estar voltada para os olhos e passa a ser dirigida à boca dos pais. Os cientistas chegaram a essa conclusão com a análise de 180 crianças expostas a gravações de vídeos, nos quais uma mulher dizia frases tanto na língua materna das crianças (no caso, o inglês), como em um idioma estrangeiro (no caso, o espanhol).
Nas falas em inglês, as reações dos bebes revelaram que aos 4 meses de idade, a atenção das crianças é focada nos olhos, aos 6, ela é dividida entre a boca e o olhar, já dos 8 aos 10 meses, a boca se torna o principal foco. Aos 12, a atenção volta novamente aos olhos.
Mas nas gravações em espanhol, todos os bebês se concentraram na boca durante a exibição das imagens. O que isso significa? Para os pesquisadores, esse resultado demonstra que as crianças precisam de informações extras quando ainda não reconhecem o significado dos sons, por isso, a importância da leitura labial no desenvolvimento da linguagem.

“Ao ler os lábios, as crianças fazem um resgate na memória dos sons que já ouviram e que têm sentido para ela”,explica a fonoaudióloga Adriana Souza Martins.

Mais um motivo, destaca a especialista, para você buscar a interação com o bebê a fim de incentivar o aprendizado da linguagem, de forma que ele entenda que ao falar, pode satisfazer desejos e outras necessidades. “Ler ou contar histórias, cantar, brincar e conversar são ótimos meios de interação”, sugere Adriana. “Durante essas atividades, mostre os objetos, as cores, pessoas e seus respectivos nomes.” Assim, com o estímulo dos pais, logo ele vai perceber que, além de apontar os objetos, há maneiras mais fáceis de conseguir o que quer!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Programação Cultural

Clique na imagem para ampliar
Cia Pés Pequenos 
da Cooperativa Paulista de Teatro 
apresenta:

O Jardim de Caicara

Teatro para a primeira infância 3 meses à 3 anos


Teatro Distrital João Caetano
18 de maio a 02 de junho
sábados e domingos - 11h


Endereço: 
Rua Borges Lagoa, 650 - Vila Mariana - São Paulo - SP
(11) 5573-3774 / 5549-1744


Reservas somente por email:


Cia Pés Pequenos: (11) 3297-0456 / (11) 99616-7275

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre os nascimentos!

Foto: Simone Novato

Por Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, Pediatra e Neonatologista.

Tem sido intenso estes dias com nascimento de vários bebês com a força da lua e um sol de touro. Que sejam bem vindas essas novas vidas. Tomara que eu tenha podido trazer conforto na sua chegada, trazendo respeito e amor nas minhas poucas e necessárias intervenções. Espero que essas mulheres encontrem o caminho do coração para construir um vínculo forte e íntimo com seus bebês. Que a Andrea e eu possamos auxiliar na construção de um aleitamento pleno de prazer e troca entre estes que estão se conhecendo sem fantasmas e novas intervenções.
Que a natureza humana se expresse suave e ao mesmo tempo intensa e imensamente.

Muita alegria por tantos nascimentos!

Hoje, pleno “sabadão” estou aqui no batente. Recebi a visita de pais que tentam construir uma família regida pelo principio do amor e respeito. Como às vezes fica difícil saber como expressa-los. Ainda pensando em aleitamento materno, principalmente no começo, encontrar um lugar de prazer e conforto pode ser tarefa bem difícil. Repenso a importância e ajudar e apoiar as decisões desta família e não... Construir mitos, idolatrias, que só servem para desestabilizar. Como uma balança ou uma fala inadequada podem destruir uma relação em construção. O poder de destruir a formação do vinculo familiar parece ser maior que o de construir.

Não pode dar colo!
Não pode dormir junto!
Esta criança tá passando fome!
Ele chora demais! Tem algo errado!
E ai se constrói uma mãe insegura, incapaz, um pai distanciado, incapaz e uma criança defeituosa e incapaz.
Deus nos livre disto, já anda tão difícil conseguir ser feliz!
São tantos NÃOS!

Hoje reencontrei três recém-chegados há poucos dias. Nasce um bebê causando o nascimento de um novo mundo. Nasce uma família, com mãe, pai, avós, tios e tantos mais. Que impressionante é à força do nascimento! E renasço, eu como pediatra, como ser humano, como alguém que faz uma reflexão sobre a grandiosidade da vida.

Obrigado, a cada bebê que me trouxe isto. Que me trouxe aqui, muito obrigado!

Eu luto por um parto onde a mulher é protagonista do seu caminho. Suas escolhas são conscientes e as intervenções são as mínimas necessárias e pedidas. O pós-parto dessa mulher deve seguir esse mesmo caminho. Dentre essas escolhas: a amamentação, se assim escolhida, deve acontecer com as mínimas intervenções e apetrechos. Onde a balança não é o condutor dessa relação.

Nestes últimos dias tenho pensando por que essas mulheres não aceitam intervenções no seu parto, mas tem uma amamentação tão cheia de intervenções, tão cheia de apetrechos. O que vocês acham sobre isso?