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segunda-feira, 24 de julho de 2017

O desmame pertence à mulher e ao bebê, e não ao médico

O assunto que me tocou foi aleitamento materno prolongado.
Hoje estava lendo que uma médica famosa "recomendou que as mulheres não usassem o peito como forma de confortar seus filhos e que o peito fosse oferecido como forma de alimentar as crianças". 

Imediatamente pareceu que essa seria uma boa estratégia da industria do leite artificial, criar uma campanha assim : 

"Aleitamento materno como forma de alimentar (nutrir fisicamente) seu filho e todo malefício que outras funções da amamentação trariam, como causar dependência emocional e, portanto, um filho inseguro! Ha risco para mulheres que amamentam criarem filhos dependentes e inseguros!"

Que confusão imensa esta criada mais uma vez!

Desvalorizar esta corporalidade que está envolvida desde a concepção, gestação e parto, que naturalmente se prolonga através da amamentação é a grande sacada da industria do leite. 

Se for possível desqualificar esse colo que nutre emocionalmente e fisicamente fica mais fácil banalizar a importância do aleitamento materno como estratégia de fortalecimento de vínculos entre a mãe e seu bebe. 

E quando definimos que há uma idade cronológica na qual esta relação prejudica o desenvolvimento da criança, como se as mulheres que não amamentam não passassem pela dificuldade de encorajar o desligamento de seus filhos e de suas conquistas de autonomia simplesmente por não darem o peito. 

Estamos desqualificando este aleitamento.

Foto: Various Brennemens

A outra dificuldade que aparece na formação médica é a idade em que esse aleitamento tem que acabar. Como é frequente encontrar falas de médicos definindo tempos cronológicos para o desmame. 

Aniversario de 1 ano. Presente ? Desmame.

Aniversario de 2 anos. Presente ? Desmame.

Amamentar continua sendo um ato heróico e revolucionário!

É muita pressão contra e o TABU da amamentação prolongada ainda povoa o imaginário das populações urbanas como causa de todos os males da humanidade.

Deixo aqui minha sugestão de que o desmame pertença a mulher e a criança no momento que para um dos 2 ou para ambos não fizer mais sentido. 

Deixo também a reflexão que marcadores cronológicos como 6 meses, 1 ano, 2 anos ou seja la qual for, não deveriam permear a relação desses 2 indivíduos (mãe/ bebê) nas suas singularidades. 

E deixo aqui a sugestão que médicos famosos não deem palpites sobre assuntos tão difíceis e delicados como a qualidade da relação de uma mulher com seu bebê.





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"Quinze minutos em cada peito a cada três horas"

A Livre demanda é uma necessidade fisiológica do amamentar.

Mas de onde surgiu a ideia de que os bebês tem hora e quantidade certa para mamar?

Não podemos ignorar o fato de que a regulação do tempo de mamada de um bebê ou a hora que ele precisa ser alimentado tem estreita relação com a indústria de leites artificiais - e não com a amamentação natural.

Há quase um século a indústria de leites artificiais começou a fabricar substitutos ao leite materno - "alimentos" infantis que variaram de leites de vaca condensados, à farinhas engrossantes chegando hoje às fórmulas ultra tecnológicas - e a cultura em torno da amamentação hoje ainda se pauta pelos paradigmas que essa indústria criou. 

Profissionais de saúde infantil nem sempre são especialistas em amamentação, e podem estar reforçando esses paradigmas que favorecem em primeiro lugar a cultura da fórmula, em detrimento de bebê e mãe.

"Quinze minutos em cada peito a cada três horas" - essa só pode ser uma recomendação para um processo de lactação massificado, onde supostamente o profissional de saúde saberia calcular a quantidade de nutrientes, o tipo de absorção, o tempo de digestão e o volume que um bebê precisa. Impossível saber exatamente quanto o bebê está mamando quando está no peito.



O leite da mãe é um organismo vivo. Ao longo da mamada, o bebê não recebe um único tipo de leite - isso ocorre apenas no leite industrializado, que possui uma única fórmula do começo ao fim, em todas as latas.

No seio da mãe, o bebê demanda com sucção em diferentes intensidades, leva diferentes tipos de anticorpos. Pode estar mamando uma vacina biológica natural para uma gripe que pegaria. Pode estar mamando aquele leitinho que vai ajudar a combater uma infecção. Como saberemos estimar o quanto, o como e o quando esse bebê vai mamar? 

Não saberemos.

Para além do combustível para a saúde do bebê, o leite materno, a sucção e o colo da mãe representam prazer e satisfação para um bebê, especialmente recém nascidos, nesse momento sensível e peculiar que é a chegada à vida. Como é que os profissionais que praticam as recomendações rígidas de horário esperam satisfazer as necessidades de um ser humano que experimenta pela primeira vez sensações como frio, calor, fome, medo. Bebês não passam pelas coisas com hora marcada, assim como nós.

Fica claro que é uma recomendação pautada pela indústria, que acima de tudo prefere e precisa que os bebês mamem o mínimo possível. Só não declaram que preferem que os bebês não mamem, porque felizmente há leis que coíbem algumas práticas abusivas que levam ao desmame.




Quando o bebê cresce e se inicia a introdução alimentar, os mesmos profissionais que recomendam horário fixo para as mamadas, sugerem data limite para começar a comer. Para todos: exatamente no dia que completar seis meses. Sem observar os sinais, sem proporcionar a exploração sensorial do alimento, sem permitir um encontro prazeroso com a comida. Bebês e mais bebês, amarrados com data marcada em seus cadeirões, com colheres mágicas que os abastecem sem sujeira!


Seguindo nessa onda, o mesmo grupo vai sugerir que "agora que come já pode desmamar". Contrariando as evidências incorruptíveis de que o leite materno e a amamentação seguem oferecendo proteção à saúde mental, física e emocional para a criança e para a mãe - enquanto estiver bom para os dois. O curioso é que, para o desmame à partir da alimentação, o argumento mais utilizado é a independência do bebê.

Autonomia do bebê.
Respeito à liberdade da criança.

Mas ora, um bebê que desde os primeiros dias segue horários fixos, não tem suas necessidades fisiológicas atendidas se elas acontecerem fora do prazo estipulado pelos adultos, é alimentado com data marcada, cardápio marcado, local marcado... Teve por acaso algum tipo de respeito em autonomia ou liberdade?

Por que de repente essas questões viram argumentos?

A resposta é bem pragmática: porque interessa à indústria. Aquela, que determinou a cultura da amamentação em hora marcada precisa dessa "autonomia fictícia" de crianças bem pequenas, porque o ciclo de vida de um produto que competia com a amamentação (leite em pó por exemplo) já está chegando ao fim e é preciso levar esse pequeno consumidor ao próximo ítem da linha: papinhas. 

As indústrias tem um produto alimentício "adequado" para todas as fases da vida de um ser humano. Da amamentação ao fim da vida.  Dos 0 aos 100 anos. E o marketing dessas empresas sabe exatamente como, através da cultura, publicidade e interferência na formação dos profissionais, ir levando o consumidor fidelizado à marca a depender, querer e precisar cada vez mais daquela indústria.

Esse é o negócio deles.


E qual é o nosso negócio? Como pais, mães, cuidadores de bebês e crianças, pediatras focados em humanidade e não em comércio?

Questionar os paradigmas, olhar atentamente para mães e bebês como universos exclusivos, complexos. Acreditar no processo fisiológico do corpo feminino, acreditar no leite materno. E nos empoderar através de informação e prática que de fato favoreçam nossas necessidades e liberdades.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pergunte ao Pediatra no Catraquinha

No Catraquinha - sessão do Catraca Livre dedicada a mater-paternidade - está acontecendo o Pergunte ao Pediatra. Semanalmente, o Cacá responde algumas dúvidas de leitores.

Uma pitada de reflexão acerca dos temas escolhidos pelos internautas e com o nosso olhar humanizado característico. Acompanhem pelo Facebook do Catraquinha!



"O desmame deve acontecer quando não estiver agradando a mulher ou já não interessar a criança mamar. A decisão de desmamar pertence unicamente aos dois. Não há prazo ou momento ideal dele acontecer. O desmame será natural quando não contribuir mais para fortalecer o vinculo entre a mulher e seu filho.

Vale ressaltar que o Ministério da Saúde recomenda dar somente leite materno para os bebês até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento. A partir dos seis meses, a orientação é que se ofereça de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais".

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desmame Noturno

Foto: Luana e a Felipa de 1 ano (Arquivo)
Nosso desmame noturno (meu e da Felipa)
 
Felipa nunca foi um bebe que dormia muitas horas seguidas, sempre mamou muito, de dia e de noite, mas com uns três meses começou a dormir umas 4 a 6 horas seguidas. Isso durou até os cinco meses quando de repente ela começou a acordar de hora em hora.
 
Aí comecei a pesquisar sobre o sono dos bebês, já que estava muito difícil passar as noites todas em claro e trabalhar no dia seguinte.
 
Li muito conversei com muita gente e no começo achei que era fase, que podia ser os dentes, que podia ser salto... Sei lá, mas os meses passavam e ela continuava acordando de hora em hora.
 
Com uns 8 meses ela começou a não querer mais nem ir pro berço, aí resolvemos tirar o berço! Compramos um colchão de casal e ela passou a dormir lá. Só isso já ajudou bastante, já que podia ficar do lado dela nos dias mais difíceis, mas ainda assim eu precisava dormir, estava muito cansada e com a imunidade no pé.
 
Quando entramos de ferias eu e meu marido decidimos tentar o desmame noturno. Detalhe, já havíamos tentado uma vez, mas não deu certo. Ela chorou muito e desistimos. Acho que nenhum de nós estávamos prontos.
 
Antes de começar o processo li umas 10 vezes as mensagens de uma amiga, que me contou como foi o desmame deles e então elaboramos o nosso plano, pensamos como seria, quais as expectativas, quem faria o que e começamos... Acho que o mais importante foi estar certa de que é isso queríamos  e de que seria melhor pra todo mundo, inclusive pra  Felipa. Eu repetia pra mim mesma e pra pequena o tempo todo. Isso é bom, é um aprendizado necessário, tem um objetivo e você consegue dormir a noite toda. Decidimos que o melhor pra gente seria: ela dorme as 20h e não sou eu que coloco ela na cama, pois estou trabalhando, então, decidimos que no começo como era eu estava de férias colocaria ela pra dormir (mama e dorme no peito), toda vez que acordasse até as 23h0 eu  daria peito, depois disso, até as 6h, meu marido que iria consola-la e peito só depois das 6h. As três primeiras noites meu marido pegava no colo e ninava, nas 3 seguintes, só abraçava e depois só conversava sem tocar muito... A idéia era ir distanciando cada vez mais, para que ela entendesse que não precisava da gente pra pegar no sono toda vez que acordava.
 
Algumas noites foram difíceis, ela chorou bastante, mas sempre acompanhada, sempre consolada. Nunca tivemos duas noites ruins seguidas, então fomos ganhando confiança. Até que ela começou a dormir a noite toda.
 
Durante o processo, tivemos algumas interferências e regredimos um pouco, uma porque ela ficou doente e outra porque meu marido ficou internado, mas assim que a coisa acalmava retomávamos o processo.
 
Hoje ela dorme às 20h, mama às 23h (dormindo mesmo) e acorda às 7h ou 8h. Quando eu saio às 6h dou mama pra ela dormindo, quando não tenho que trabalhar ela acorda e vem engatinhando até o nosso quarto. 
 
Apesar do medo do desmame, hoje sei que valeu muito a pena. Estamos todos descansados e ela mais disposta e sorridente do que nunca.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Diga NÃO ao desmame abrupto

Por Dra. Andréia Cristina Karklin Mortensen, neurocientista e membro da nossa comunidade.

Diante a tantos relatos de desmames abruptos e precoces que não resultam em melhoria no sono, pelo contrário, resolvi agrupar informações sobre desmame abrupto e possíveis consequências para a mãe e a criança. Espero que sirvam para reflexões gerais na comunidade. O desmame abrupto é extremamente traumático para toda a família e isto infelizmente ainda é comum: algumas mães deixam de dar o peito de uma hora para outra, com soluções drásticas como dormir fora e deixar a criança aos cuidados de parentes, aplicar produtos desagradáveis nos seios para que a criança os rejeite pelo gosto ou ainda com mentiras, enganações e choques visuais, como exemplo usar um band-aid nos seios e dizer à criança que estão machucados.

A amamentação é algo TÃO importante na vida da mãe e da criança, foi o início de comunicação entre mãe e filho, foi fonte de nutrição, de afeto e não deve terminar de uma maneira brusca, com artifícios, enganações, mentiras, fazendo com que a criança talvez se sinta culpada por ferir sua mãe. Essa é uma responsabilidade e culpa enormes que são transferidas para o filho no evento de um desmame repentino. Quando perde o peito de repente, a criança se sente desolada, sofrendo uma perda, pode se sentir rejeitada pela mãe, gerando insegurança e muitas vezes rebeldia. A perda repentina do seio materno pode causar trauma emocional na criança, já que amamentação não é somente fonte de nutrição para o bebê, mas fonte de segurança e conforto emocional também. Não há absolutamente como explicar a um bebê que repentinamente não pode mamar mais.

Desmames abruptos não permitem que ambas partes físicas e emocionais de mãe e filho sejam trabalhadas gradualmente. Por outro lado, ao promover um desmame gradual podem-se compensar aos poucos outros tipos de atenção para compensar a perda do contato íntimo da amamentação. Na mãe, o desmame abrupto pode resultar em ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por mudanças hormonais. Depressão pode surgir por um decréscimo abrupto dos níveis hormonais maternos, portanto mães com história anterior de DPP devem especialmente atentar para as consequências de um desmame abrupto.

O desmame deve ser natural, consensual, em acordo entre mãe-filho, isto é, haverá um tempo e um ritmo próprio, um período da vida da mãe e do filho em que ambos aprendem a dar e receber alimento, aconchego e a se comunicarem de uma maneira nova, que não com os seios. São, portanto, três elementos a serem considerados de grande importância na amamentação: nutrição, afeto e comunicação. Quando ambos três itens estão plenamente supridos sem a amamentação num processo de autonomia e maturidade vindo da criança, um desmame gradual pode ser promovido. Em outras palavras, deve ser resultado de uma maturidade da criança e não uma imposição da mãe ou de outros familiares ou conhecidos, ou ainda médicos.

No segundo ano de vida a criança necessita de vários estímulos, brincar, cantar, dançar, adquire destrezas motoras, e começa o linguajar, que é uma forma poderosa de comunicação. Quando uma criança está em um ambiente seguro, rico em estímulos recebe carinho e atenção também do pai, ela está mais apta ao desmame total com facilidade.

Em termos de desenvolvimento, um desmame antes de 2-3 anos é precoce, o bebê ainda precisa mamar, ainda está em processo de individualização, ainda está na fase oral, os benefícios são muitos, enquanto que a troca por objetos para saciar a necessidade oral não apresenta vantagem alguma. As consequências para o cérebro em desenvolvimento de um bebê que é submetido a mudanças permanentes e abruptas, com interferência de estranhos, choro sem consolo, negação de afeto e as violência emocional podem ser drásticas.

Fonte: http://gaama.bebeblog.com.br/86653/Diga-NAO-ao-desmame-abrupto/






terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Desmame

Elsa Regina Justo Giugliani*

*Pediatra, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, presidente do Departamento de Aleitamento Materno da SBP, Especialista em Aleitamento Materno pelo IBLCE (International Board of Lactation Consultant Examiners)

O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores socioculturais. Hoje, ao contrário do que ocorreu por pelo menos dois milhões de anos, ao longo da evolução da espécie humana, a mulher opta (ou não) pela amamentação e, influenciada por múltiplos fatores, decide por quanto tempo vai (ou pode) amamentar. Muitas vezes, as preferências culturais (não amamentação, introdução precoce de outros alimentos na dieta da criança, amamentação de curta duração) entram em conflito com a expectativa da espécie.

Algumas conseqüências dessa divergência já puderam ser observadas, como desnutrição e alta mortalidade infantis, sobretudo em áreas menos desenvolvidas. Porém, as conseqüências a longo prazo ainda não são totalmente conhecidas, já que transformações genéticas não ocorrem com a rapidez com que podem ocorrer mudanças de hábitos. Começam a ser mostradas evidências de que o não amamentar segundo as expectativas da espécie pode ter repercussões negativas ao longo da vida dos indivíduos.

Assim, a não amamentação ou amamentação sub-ótima pode favorecer o aparecimento de doenças alérgicas, diversas doenças do sistema imunológico, alguns tipos de cânceres, obesidade, diabete e doenças cardiovasculares, além de interferir negativamente no desenvolvimento oro-facial. Provavelmente, com o aparecimento de novas pesquisas nessa área, outros males serão relacionados com os hábitos “modernos” de alimentação infantil, mas alguns aspectos dificilmente podem ser quantificados, especialmente os relacionados com a psique humana.

Atualmente, em especial nas sociedades ocidentais, a amamentação é vista primordialmente como uma forma de alimentar a criança, sob o controle total dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da amamentação como um processo mais amplo, complexo, envolvendo intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, além de repercussões para a saúde física e psíquica da mãe. Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar.

Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”.

Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc.

Segundo diversas teorias, o período natural de amamentação para a espécie humana seria de 2,5 a sete anos. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde recomenda aleitamento materno por dois anos ou mais, sendo exclusivo nos primeiros seis meses. Apesar dessa recomendação, muito poucas mulheres no Brasil amamentam por mais de dois anos. As razões para a não amamentação prolongada variam desde dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades, até crença de que aleitamento materno além do primeiro ano é danoso para a criança sob o ponto de vista psicológico.

Uma parcela de mães, apesar de demonstrar desejo em continuar a amamentação, sente-se pressionada a desmamar por profissionais de saúde, seus maridos, parentes, vizinhos e amigos. Pois, para a manutenção do paradigma que sustenta a afirmação de que amamentação prolongada não é natural, foi necessário criar vários mitos tais como o de que uma criança jamais desmama por si própria, que a amamentação prolongada é um sinal de problema sexual ou necessidade materna e não da criança e que a criança que mama fica muito dependente. Algumas mães, de fato, desmamam para promover a independência da criança. No entanto, é importante lembrar que o desmame provavelmente não vai mudar a personalidade da criança. Além disso, o desmame forçado pode gerar insegurança na criança, o que dificulta o processo de independização.

O desmame pode ser agrupado em quatro categorias básicas: abrupto, planejado ou gradual, parcial e natural. Sob a ótica de que o desmame é um processo de desenvolvimento da criança, parece razoável afirmar que o ideal seria que ele ocorresse naturalmente, na medida em que a criança vai adquirindo competências para tal. No desmame natural a criança se auto-desmama, o que pode ocorrer em diferentes idades, em média entre dois e quatro anos e raramente antes de um ano.

Costuma ser gradual, mas às vezes pode ser súbito, como por exemplo em uma nova gravidez da mãe (a criança pode estranhar o gosto do leite, que se altera, e o volume, que diminui). A mãe também participa ativamente no processo, sugerindo passos quando a criança estiver pronta para aceitá-los e impondo limites adequados à idade.

O Quadro 1 apresenta os sinais indicativos de que criança pode estar pronta para iniciar o desmame:

Quadro 1. Sinais sugestivos de que a criança está madura para o desmame

• Idade maior que um ano

• Menos interesse nas mamadas

• Aceita variedade de outros alimentos

• É segura na sua relação com a mãe

• Aceita outras formas de consolo

• Aceita não ser amamentada em certas ocasiões e locais

• Às vezes dorme sem mamar no peito

• Mostra pouca ansiedade quando encorajada a não amamentar

• Às vezes prefere brincar ou fazer outra atividade com a mãe ao invés de mamar

É importante que a mãe não confunda o auto-desmame natural com a chamada “greve de amamentação” do bebê. Esta ocorre principalmente em crianças menores de um ano, é de início súbito e inesperado, a criança parece insatisfeita e em geral é possível identificar uma causa: doença, dentição, diminuição do volume ou sabor do leite, estresse e excesso de mamadeira ou chupeta. Essa condição usualmente não dura mais que 2-4 dias.

Algumas vantagens do desmame natural encontram-se no Quadro 2:

Quadro 2. Vantagens do desmame natural

• Transição tranqüila, menos estressante para a mãe e a criança

• Preenche as necessidades da criança até elas estarem maduras para o desmame

• Fortalece a relação mãe-filho

• Ajuda a mãe a ser menos ansiosa com relação aos estágios de desenvolvimento de seu filho

O desmame abrupto é desencorajado, pois se a criança não está pronta, ela pode se sentir rejeitada pela mãe, gerando insegurança e muitas vezes rebeldia. Na mãe, o desmame abrupto pode precipitar ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por mudanças hormonais.

Muitas vezes a mulher se depara com a situação de querer ou ter que desmamar antes de a criança estar pronta. Nesses casos, o profissional de saúde, em especial o pediatra, deve respeitar o desejo da mãe e ajudá-la nesse processo. O quadro 3 apresenta os fatores que facilitam o encorajamento do bebê para o desmame.

Quadro 3. Encorajando o bebê a desmamar: facilitadores

• Mãe segura de que quer (ou deve) desmamar

• Entendimento da mãe de que o processo pode ser lento e demandar energia, tanto maior quanto menos pronta estiver a criança

• Flexibilidade, pois o curso é imprevisível

• Paciência (dar tempo à criança) e compreensão

• Suporte e atenção adicionais à criança – mãe não deve se afastar neste período

• Ausência de outras mudanças ocorrendo: Ex.: controle dos esficteres

• Sempre que possível, desmame gradual, retirando uma mamada do dia a cada 1-2 semanas.

A técnica utilizada para fazer a criança desmamar varia de acordo com a idade da mesma. Se a criança for maior, o desmame pode ser planejado com ela. Pode-se propor uma data, oferecer uma recompensa e até mesmo uma festa. A mãe pode começar não oferecendo o seio, mas também não recusando. Pode também encurtar as mamadas e adiá-las. Mamadas podem ser suprimidas distraindo a criança com brincadeiras, chamando amiguinhos, entretendo a criança com algo que lhe prenda a atenção. A participação do pai no processo, sempre que possível, é importante. A mãe pode também evitar certas atitudes que estimulam a criança a mamar, por exemplo, não sentar na poltrona em que costuma amamentar.

Algumas vezes, o desmame forçado gera tanta ansiedade na mãe e no bebê, que é preferível adiar um pouco mais o processo, se possível. A mãe pode, também, optar por restringir as mamadas a certos horários e locais.

As mulheres devem estar preparadas para as mudanças físicas e emocionais que o desmame pode desencadear, tais como: mudança de tamanho das mamas, mudança de peso e sentimentos diversos tais como alívio, paz, tristeza, depressão, culpa e arrependimento.

Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje. Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança. Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida, “ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade”.

Fonte: http://www.sbp.com.br

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Desmame: o paredão da amamentação



Este foi o video que me auxiliou na participação que tive no ENAM 2010, na mesa redonda que debateu o desmame como questão cultural ou social. Agradeço às mães do meus pacientes que participaram dele nas entrevistas e na realização! ;)

terça-feira, 8 de junho de 2010

DESMAME: UMA QUESTÃO PESSOAL OU SOCIAL?

No próximo sábado, dia 12 de junho, estarei em Santos, na sala Cicely Williams, do Mendes Convention Center, onde às 9:45hs, começará a Mesa Redonda que discutirá, "Desmame: uma questão pessoal ou Social?" Estarei na mesa, para contar as experiências no meu consultório. Também participarão Sueli Ichisato, que falará sobre o desmame através de recortes da história, e Ximena Pamela Bermudez que dará uma visão antropológica da questão. A moderação será por conta de Fabiola Cassab, uma das organizadoras do evento e coordenadora da Matrice.

A atividade, faz parte da ampla programação do 1º Encontro Nacional de Alimentação Complementar Saudável (I ENACS), no marco do XI Encontro Nacional de Aleitamento Materno, que começa, na proxima quinta-feira, dia 9 de junho.

Espero poder participar, também de outras atividades.