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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A culpa é dos pais!

Assim que eu terminei de ler sobre o mal que as telas faziam para as crianças, desliguei a televisão que eles já assistiam há mais de duas horas, o bebê inclusive, enquanto eu terminava de responder alguns emails alongando prazos,  e pedi que fossem tirando a roupa para o banho. 

Eles jogaram no chão. Eu pedi que colocassem no cesto. Oito vezes.

Paguei algumas contas enquanto dava as ordens do esfrega a cabeça, tira a mão do olho do seu irmão e amamentava. Deixei algumas contas vencerem, por que né? Décimo terceiro é para os fortes. O aviso do celular me alertou de um novo artigo no portal de mães: "A importância do contato olho no olho no momento da amamentação".

Um bateu no outro, eu dei um grito, o bebê me mordeu, eu dei um grito, ele chorou, os dois choraram. Eu dei um grito para o pai fazer a janta. Rapelamos a despensa. Amanhã tem que fazer mercado.

É bom cozinhar. Comida de verdade, né? Faz bem para a criança. E cozinhar é um ato de amar.
Que bom. 

Nos produtos do mercado não está escrito isso. Uma pena. Nem tampouco colocaram o feijão na altura das crianças. O que eles vêem são aqueles produtos que não se cozinha. Que não tem amor. Que matam, entopem as artérias e viciam! São os que tem desenhos infantis. Isso é estranho.

Fico parada na frente dos produtos que matam e tem desenhos infantis enquanto o bebê derruba todas as caixas de suco. Recolho. O mais velho some. Grito. Estava com o pai. Ufa. Cozinhar é amar. Não tinha ninguém mesmo para ficar com eles. Sabem como é... férias escolares.

Nos últimos dias ficaram um pouco com as avós, enquanto precisávamos trabalhar. Trabalhamos quase nada. Trabalhos de madrugada. Trabalhar de madrugada é uma coisa muito ruim. E os direitos dos trabalhadores? Ninguém se importa. Não pense, trabalhe. Foi golpe? 

Estou no mercado com três crianças. Foco.

Os personagens que estampam os sucos de caixinha que recolhi são os mesmos dos gibis que a escola, quando está funcionando, insiste em usar para alfabetizar meu filho. Dos 365 dias no ano, 60 das férias ele não terá contato com os gibis. Nos outros terá. Ele gosta desses personagens. 

Li no facebook que tem que ler o rótulo. Do lado do personagem tem uma laranja. Deve ter laranja nisso. Laranja é bom, espremer laranja é melhor, mas que legal se eu não precisar lavar aquele monte de louça hoje!

Açúcar, água, xarope, aroma igual de laranja.
Vão beber água.

Choram na mesa porque queriam suco. Qual? Da personagem. Era para eu fazer o Baby Led Weaning, mas varrer o chão 3x por dia não é amor. Diferente de cozinhar, né? Eu parei de tomar refrigerante. "A gente educa pelo exemplo". Mas tomo água com gás. O bebê já sacou que é diferente da água normal, e quer a minha. Só tem esse copo, eu não comprei porque não dava para carregar.

O bebê cospe o restinho de comida que tinha na boca no meu copo. Nojo. Tchau último copo de água com gás. Entram 4 WhatsApps urgentes, uma corrente de Whole 30 e oito mensagens desejando que uma senhora morra porque é esposa do ex-presidente que essas pessoas não gostam. Eu não gosto dessas pessoas. 

Divago: foi golpe.

Não querem comer o verde. Carlos Gonzalez falou que tudo bem. Pode sair da mesa. Não querem sair da mesa, querem comer. O bebê taca coisas no chão. Baby Led Weaning da depressão.

Viram um restinho de batata palha na geladeira. Quem comprou isso cheio de sódio? É gostoso. Se espalhar em cima do verde eles comem o verde. Espalha. Eles separam. Traição. E tem sobremesa mãe? Tem fruta. Quero banana. Comprei maçã. Eu quero abacaxi. Tem maçã. Não quero nada.

Comeram petit suisse na casa da avó. Viram propaganda de petit suisse na casa do avô. O melhor amigo adora esse petit suisse. 

Mãe, me dá? 
Não. 

Mãe e o suco?
Não.

Mãe compra a nave?
Não.

Mãe, posso ir brincar na chuva de pijama depois do banho?
Não.

Mãe, posso ir na casa do Marcelo agora?
Não.

Pega aquele quebra cabeça de mil peças?
Não.

Comprou o suco da Turminha?
Não.

Você tá brava? 
Não.

Bebê puxou a tampa do forno e bateu na cabeça. Não deu tempo de falar não. Eu estava ali, falando não. Gelo. Não tem gelo. Porque não enchemos a forma de gelo nessa casa? Use o milho congelado ou a placenta. Era para fazer um ritual mas não deu tempo. Milho transgênico. Mamãe ruim. Pode milho no Whole 30? Comida de verdade, bicho e planta. Mas tem que ser orgânico. Poxa vocês nem recolhem os pratos?

Pode ligar a TV?
Pode. Depois dos pratos.

O prefeito anuncia que vai fazer parcerias com o setor privado para pintar a cidade de novo. Tinha ficado feia mesmo. Em troca vai fazer publicidade. De que hein? Vai ter coisa para criança? Vai ter publicidade nos brinquedos do parque? Vai ser só para adulto? O mais velho se interessa pelo paraciclo. Achou bonito aquele formato de coração. Na propaganda, uma marca. 

É refrigerante mãe?
Não.

Posso experimentar?
Não.

É gostoso?
Não.

Você já tomou isso?
Não.

Como você sabe se você não tomou?
Eu tenho super poderes.

Eu penso quantos dias falta para acabarem as férias. Me arrependo, porque se fosse semana de aula, meia noite já era hora de estar todo mundo dormindo há horas. Três pessoas para levar em três escolas diferentes no mesmo horário. Não pode flexibilizar horário para se adequar à rotina da criança. Estamos criando gente extremamente mimada. Eu ouvi no rádio a psicóloga falar. Adaptemos, ainda bem que é férias. Cadê seu aparelho? Esqueceu na avó. Problemas de arcada, entrou barata em casa os dois choraram como eu, traumatizaram já. O bebê quis pegar na mão. Alguém deve estar desejando que eu morra, não é possível. Deve poder comer barata no Whole30. Bebê Whole30. Gonzalez deixaria.


O Pai levou o lixo para fora. Volta com uma revista, a vizinha jogou no lixo. 



As crianças estão acima do peso e a culpa é dos pais.
Pela primeira vez uma geração vai morrer antes que a precedente. Quem mandou não cozinhar com amor? A culpa é dos pais.
As indústrias fabricam comida que faz mal para a criança, e a culpa é dos pais.
Os governos deixam essas indústrias anunciarem seus produtos sem nenhuma regulação, inclusive na cidade, e a culpa é dos pais.
Os supermercados colocam os produtos ao alcance das crianças, e a culpa é dos pais.
Os licenciadores fingem que fazem gibis, enquanto o que fazem é mover uma indústria multibilionária que explora a ingenuidade da infância para ampliar mercado. E a culpa? É dos pais.
As escolas se isentam. Educação vem de casa. Mas salgadinho vem da cantina. E a culpa é dos pais.

Vamos dormir meninos?
Choram. Não querem. Carinho, colinho, estão estafados. Vamos contar história. A gente tem bons livros. Eles tem camas e cobertores. Somos privilegiados. Passa a raiva. O cansaço fica. O bebê mama a noite inteira. Vamos desmamar. Mulher cruel. Amanhã começa de novo. Vou tatuar no braço:

NÃO ASSUMA A CULPA POR ALGO QUE NÃO DEPENDE APENAS DE VOCÊ

Amanhã começa de novo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Tenho alergia a drama"

**Por Anne Rammi**

Sabe o que acontece quando você é amiga do pediatra dos seus filhos, e ele, mais do que zelar pela saúde da criança, zela pelo coração e mentes da família toda? Você comenta numa postagem de uma amiga em comum e ele aparece serenamente na sua mensagem dizendo: vamos desenvolver esse tema?

A alérgica a drama sou eu. Mãe de três, pessoa adulta e, para tornar esse desenvolvimento um pouco mais fácil, pessoa de capricórnio (sim, eu vou começar culpando o meu signo para falar desse assunto espinhento que é o turbilhão emocional ao qual estamos constantemente expostos quando criamos e educamos crianças pequenas - e me parece que as grandes também e os adolescentes, deus nos ajude! -  e quem sabe, pessoas de áries, sagitário, escorpião e um monte de lua em câncer).

Cabe contar que desde que eu tive meu primeiro filho, me enveredei pelas práticas mais humanizadas de criação. Sempre gostei de um chamego intenso, muito colo, muito peito (suspiros em homenagem). E sempre me permiti, apesar da minha casca grossa, estar nesse lugar emocional, meio que sem me preocupar com qualquer conseqüência, boa ou ruim.

Acontece que a vivência da maternidade tem me levado a tirar conclusões interessantes sobre a tal "criação com apego" ou seja lá qual for o nome para essa tendência que vivemos no nosso micro-universo (que devo registrar aqui, um universo de privilegiados) de estar em plena fusão de emoções. E sei lá, ou a gente anda fazendo isso muito errado, ou o apego tem mesmo um prazo de validade.

Serei sincera: há um limite em mim de acolher qualquer tipo de emoção alheia, e ele está diretamente ligado ao tamanho dos meus bebês. Vou chutar que deve ser em quilos. Eu aguento drama forte até uns 12/ 15kg. Começou a passar disso, me empipocam as alergias. E há dramas que eu não consigo lidar.

Claro que essa é uma metáfora para falar do que preciso aqui: estou conhecendo o meu limite, como mãe e gente, para dar conta do que é minha emoção e do que é a deles e quais são os assuntos onde devo me meter e onde não devo. Quando serei a mãe do Caillou e quando serei a mãe do Charlie Brown. 

Um bebê inconsolável que está totalmente frustrado porque eu tirei o garfo que ele enfiava na tomada encontrou em mim um porto de conforto. Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, mamãe sabe que você queria muito, mas realmente não será possível. Quer mamar? Olha esse outro brinquedo? Vamos invocar a Margarita Valência e criar umas barreiras físicas para essas tomadas. Totalmente Mary Poppins.

Agora uma mini pessoa que já pode limpar a bunda sozinho entra numa disputa de horas de choro ardido e sem lágrimas, por um pedaço do resto do adesivo que descolou da parede velha, com a outra criatura que já calça quase trinta e tem chulé... Caramba, minhas colegas, será que foi o excesso de colo? São mimadas essas criaturas? Vamos jogar essa tralha no lixo? Precisam mesmo da minha ajuda para resolver esse tipo de dilema? Vai logo minha gente, argh! Às vezes baixa a diretora da escola da Matilda.

Os grandes estudiosos da educação levantarão teorias sobre os pedidos deslocados "há alguma coisa incomodando, é preciso saber ler o que está por trás". "O objeto é a extensão da criança" e não importa que seja um bagulho catado no lixo, se é importante para ele, deve ser tratado com respeito. "Os adultos precisam estar centrados para não despejar sua frustração nas crianças". E todas as sugestões de psicoterapia, vai fazer yoga, consuma alimentos macrobióticos, aceita jesus e outras indicações de vida-zen (que eu finjo não escutar, porque... né? aqui é punk-rock-anarquia)

Ok, eu concordo com os estudiosos, eles são ótimos e devem ter ficado muito tempo lendo e escrevendo seus livros enquanto alguém arrumava espaço emocional para lidar com os mais variados dramas, como "ele pegou o azul que tem bolinhas e minha cor favorita é o rosa então eu preciso desse e ele falou semana passada que meu cabelo era feio porque a pulseira do pokemon sumiu".


via GIPHY (eu quando começa o drama)

O que seria da teoria sem a prática não é mesmo? 

Quando os dramalhões dessa estirpe acontecem eu vejo um claro limite no meio do meu peito, uma agonia de não dar conta dessa intensidade, é tão nítido que eu não tenho espaço para lidar com aquele drama, que me baixa a criação com desapego: olhar fuzilante, cara de desprezo para o pedaço de resto de adesivo, e de vez em quando um sermão ao estilo anos oitenta: VOCÊS VÃO PARAR OU QUEREM QUE EU PARE!??

Dentro dessa ótica, de descobrir limites, tento manter a minha consciência clara: não endosso violência física, mas sou humana também nessa relação. Se o drama me faz mal, eu tento me afastar dele. A consciência do limite - meu e do que eu acredito ser certo - é o que segura a forte emoção de apelar paras as estratégias mais eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas como: ENGOLE ESSE CHORO! ME DÁ AQUI ESSA PORCARIA DUAS SEMANAS SEM TEVÊ! e coisas do tipo.

Longe de mim dar dicas, mas eu peço com recorrência que se acalmem, tomem uma água e tentem falar comigo sem miar. "Mamãe não entende nada quando você fala desse jeito, melhor me explicar sem chorar para ver o que eu posso fazer". Firme e gentil, enquanto por dentro eu me vejo arranhando minha própria cara "para, para, para de miar, fala direito peloamordedeus!! onde foi que eu errei!!!"

Outra coisa que tenho percebido é que mandar resolver sozinho, acaba resolvendo mesmo. Demora mais tempo e às vezes são soluções tortas (tipo, um soco na cara do irmão e pronto! peguei o que eu queria, resolvido!). Mas poxa vida camarada, eu mesma não sei resolver todos os meus problemas com maestria, deveria esperar que eles soubessem? 

A última coisa que quero deixar registrado é que, apesar da minha consciência de limites quanto às minhas atitudes, eu escorrego direto para as emoções e estratégias eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas. Gente do céu, o mais velho tem sete anos, eu já devo ter gritado uns dois mil decibéis somados! Também não ignoro as minhas próprias falhas, vou lá e peço desculpas. Fazer o que né? Às vezes, imediatamente depois do meu xilique: "errei galera, perdi completamente a paciência, vocês sabem que a mamãe não reage bem a esses dramas. Vou tentar ser mais gentil, mas por favor, colaborem vocês também."

E sigo eu a tentar me acalmar, também, a regra tem que valer para todos. Bebo uma água, desapego do que não parece importante e tento resolver comigo mesma, sem causar mais drama. Afinal, tenho alergia! 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Introdução alimentar, chiclete e muitos filhos


No consultório, uma roda de conversa se estabelecia sobre a introdução alimentar.

- A introdução alimentar nas variadas culturas do mundo está muito ligada à oferta de alimento daquela região - dizia o pediatra. No Brasil usamos muitas raízes. Cereal, já é mais um costume europeu. O que pode ser uma opção de alimento para um bebê de uma família, pode não ser para a outra.

Aquele pediatra não era muito de tecer julgamentos ou oferecer receitas, e sim de provocar reflexões que levassem cada família a encontrar seu ponto de confiança para as práticas do criar filhos. Algumas pessoas levantaram dúvidas sobre o baby-led-weaning (aquele método de introdução alimentar todo focado no protagonismo do bebê). 

- E o que nessa lógica poderia ser então uma boa opção de alimento para a introdução alimentar de um bebê? - perguntou para o grupo todo.
- Uma cenoura orgânica cozida?
- Isso. Ou crua também. Vocês sabem que o que a mãe come influencia no paladar do leite materno? Portanto o alimento que a mãe come pode ter alguma relação com o alimento que o bebê vai começar a comer. 

Alguém fez o favor de nos lembrar que muitas vezes, famílias tem mais de uma criança na mesa.

- E o que seria então interessante de deixar à disposição do bebê, no caso dele ser o segundo filho?
- A mesma comida do irmão?
- Isso. Pode ser. E se for o terceiro filho?

Uma moça meio desacreditada das teorias levantou a mão meio com medo dos julgamentos, e arriscou:

- Bubaloo?

---

Essa moça era eu.

Eu tenho três filhos, sabe. E muitas vezes, nas rodinhas de conversa, nos debates de internet ou nos grandes alfarrábios de estratégias geniais para cuidar de filhos me sinto presa em universo paralelo. A palavra que me vem à cabeça? Impraticável. E olha que eu não sou de arrumar desculpa não, para falar a verdade tenho pavor de racionalizações. Mas fato é que o que se pratica idealmente com um bebê dificilmente é levado à cabo com o restante da prole. E o oposto, em termos de benefício, é verdadeiro também: é mais fácil parir um filho depois de um primeiro, ou segundo parto normal, por exemplo.

Eu sou ruinzinha de cuidar de bebê seguindo a cartilha do apego, olho no olho, entrega e alimentação orgânica, mas você precisava me ver corrigindo a pega da terceirinha. Foi um estouro de sucesso!

Não queria ser leviana, mas vou dizer uma piadinha infame cuja simbologia se repete na casa de quem tem filhos em série: 



Ainda que sim (sim!sim!), cada novo filho traga uma experiência inédita diferente, e emoções maravilhosas vindas das relações de afeto peculiares que surgem, há algo de ser calejado, preparado, escaldado, do segundo filho em diante. 

Não é qualquer coisa que nos abala, não é qualquer teoria que nos serve. E não conheço mãe nenhuma de muitos filhos que esteja apegada ainda às crenças que tinha na chegada do primeiro. Me parece que mães de várias crianças tendem a perceber que realmente precisam gastar energias com aquilo que importa. E quanto mais filhos, melhores vão ficando em entender o que exatamente isso significa. 

A práxis, um nome bonito para teoria colocada em prática, salva aqui em casa. Claro que sigo me informando e fazendo as melhores escolhas possíveis dentro das conjunturas que se apresentam. Apenas que, quanto mais filhos, mais desafiadoras são as conjunturas. E mais descolada a gente fica.

---

Não se aflija.

O bebê não comeu Bubaloo de verdade, mas não foi por falta de tentativa do irmão do meio.
A introdução alimentar do terceiro teria começado aos quatro meses, sinceramente, se fossem apenas observados os sinais de prontidão - e o meu nível de tolerância a muito barulho e gritaria nas horas das refeições: ah!! mas tem coisas que só a ponta dura do pão italiano faz por um bebê gritão!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Duas mães: assuntos da maternidade para além do sono ou colo

** Texto por Joana **

Ser mãe é extraordinário. Desde o primeiro dia de gravidez. Tudo muda de assalto e continuamente: o corpo, o lugar social e familiar, a intensidade das emoções, a organização do pensamento. E todas essas transformações são acompanhadas inevitavelmente de muitas dúvidas. 

Diante delas mergulhamos num mundo de informações sobre gestação, parto, amamentação, alimentação, educação... Existe uma infinidade de sites e palpites sobre todos esses assuntos, que prometem responder todas as perguntas e apontar os caminhos certos e principalmente os melhores: Pra que você seja a melhor mãe do mundo, seus filhos sejam perfeitos, geniais e principalmente capazes de ganhar muito dinheiro quando crescerem. Sim, assim que nascem os bebês já tem que ser competitivos!

Bom diante disso, percebemos que não queríamos esse mundo, esses conselhos, essa perspectiva. Então começamos a procurar pessoas, encontros - menos informação e mais troca de experiências. Primeiro encontramos a Caza da Vila, as consultas coletivas de gestantes organizadas pela Betina foram fundamentais para entendermos de forma singular meu processo de gestação. Essa troca criava um espaço possível de exposição das diferenças e semelhanças dos processos, que aos poucos ia gerando um lugar de cumplicidade muito delicado, potente e acolhedor. Éramos o único casal de mulheres do grupo e estranhamente esse dado não fazia assim tanta diferença. Graças a esse espaço consegui a segurança e o apoio necessário para fazer meu parto do jeito que eu queria. Cercada de amor e cuidado. Minha filha nasceu e eu renasci com ela. 

Achamos ingenuamente que o mais difícil tinha passado mas é claro que nossa nova vida tava só começando...

Dois meses depois tive uma mastite, nossa filha perdeu peso e de novo uma enxurrada de informações e conselhos protocolares nos assaltaram. Procuramos o Espaço Nascente e com Cacá reencontramos a escuta, um olhar atento, preciso e afetivo. As crises são muito reveladoras se a gente não foge delas. E de novo se não fosse pela vivencia de um espaço de troca acho que teríamos cedido às fórmulas e perdido a chance de olhar pra gente e pras transformações em curso. 

Agora nossa filha tem um ano e os desafios continuam! Dois meses atrás começamos a experimentar no Espaço Nascente, com Cacá, consultas pediátricas em grupo de famílias constituídas por duas mães. Esses encontros nos fazem pensar no tempo em que os conhecimentos eram passados de mãe pra filha, de avó pra neta, num tempo onde a ciência não era tão tirânica e que a intuição não era sinônimo de ignorância. A experiência da dupla maternidade por ser algo ainda novo, pouco experimentado parece que nos abre uma fresta para as sensibilidades singulares. Estamos apostando nesse caminho.

Fonte da Imagem : Etsy
Parece que este grupo de "mamães e papaias" pode ser um lugar para encontrar essa sensibilidade, um lugar de troca sobre os problemas gerais da infância e os problemas específicos da nossa condição de duas mães. Mas isso nos faz pensar que nem sempre é claro onde está a fronteira que cria as nossas diferenças, se um casal homossexual tem especificidades que merecem ser tratadas num grupo particular, etc. 

Por nossa experiência no encontro, entendemos que a maioria das nossas preocupações da dupla maternidade têm a ver com o futuro das nossas filhas, como elas irão ser recebidas na escola ou pelos amigos. Nossos assuntos específicos têm mais a ver com visibilidade e relação com a sociedade do que com os nossos problemas atuais de alimentação, sono ou colo.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"Eu chorei amamentando"

Minha mãe sempre contou, com ares dramáticos, como eu mastigava seu peito ao invés de sugar, fazendo seus mamilos sangrarem. Desmamada, diz ela, recusei mamadeira e chupeta. Tomo pingado no copinho desde que aprendi a pegar e levar à boca. “Você era a sensação na padaria”. 

Sempre vi graça nessa história. Até engravidar. 

O Tomé nasceu no hospital em um lindo parto humanizado. Mas ali, na sala de parto, ele não mamou. Tentou, chegou a pegar o peito, mas não parava de chorar. Eu até fiz piada: pode reclamamar, filho. Reclamame, temos todo o tempo do mundo para você. Mas não rolou. No primeiro dia inteiro ele não mamou. À noite, ele vomitou mecônio e a enfermeira veio me acalmar. “Ele tem uma grande reserva de energia, fique tranquila, amanhã vai ficar tudo bem”. 

No dia seguinte veio a Andrea Santos, consultora de amamentação, fazer visita. Ela viu a pega dele, ensinou umas posições, ele mamou bastante e ficamos todos felizes. Foi um dia de mamação, conexão e emoção. Na manhã seguinte, eu estava deitada, com o Tomé estatelado em cima de mim, meio mamando meio dormindo, quando uma maldita enfermeira entrou no quarto e saiu me dando o maior sabão: "Quanto tempo faz que ele tá assim? Você não foi o-rien-ta-da? Seu filho tá te fazendo de chupeta! São 20 minutos de cada lado e depois ber-ço."

Eu estava em outro planeta e aquilo me deixou zonza. Não entendi nada, não entendi que poderia estar fazendo alguma coisa errada. Fiquei amuada. Ah se fosse hoje... eu teria tocado ela do quarto na porrada. Mas naquele momento eu estava meio desfeita, meio dissolvida, sei lá. Voltamos pra casa e um dia depois o leite desceu. Era uma sexta-feira e a Andrea veio em casa ver como estava as coisas. Estava tudo bem, Tomé mamando direito, leite à vonts, sem empedrar, uma beleza. O Tomé se revelou um mamão. Mamava por muito tempo e várias vezes, intervalos curtos, uma intensidade enfim. E as palavras da enfermeira ficaram ressoando em algum canto da minha cabeça. 

Meu filho estaria me usando? 

Fonte da Imagem: Etsy


Sorte que o Cacá ligou e perguntou como estávamos. Conversamos um monte, contei da enfermeira, ele falou falou, falou e eu achei que tinha feito as pazes com a decisão de amamentar em livre demanda. Mas meu peito começou a rachar. E tudo começou a ficar muito penoso. Eu pensava na cena que a enfermeira estragou, o Tomé estatelado em mim, eu totalmente relaxada, e não conseguia imaginar como aquilo tinha acontecido. Agora, amamentar era uma coisa que fazia com que meu corpo ficasse tenso, todo retorcido. Era algo que eu tentava encerrar logo. “Vai, acho que ele terminou”, e tirava o menino do peito. E ele reclamava. E eu voltava ele pro peito um pouco de má vontade, um pouco com pena, me sentindo um pouco culpada e um pouco usada. Tudo muito confuso. 

Na segunda-feira, pela primeira vez eu chorei amamentando. Então fui ver a Andrea. Ela olhou a mamada e chegou à conclusão que a pega estava errada. O meu temor se concretizou: assim como eu-bebê, o Tomé estava mascando meu mamilo. (Minha mãe, que no geral é ótima, super respeitosa e entendeu bem seu papel e vó e tal, mandou uma puta bola fora quando eu contei pra ela. Disse: “Háááá, puxou a mãe. Viu como é?”. Eu senti como se o Tomé estivesse servindo para ela se vingar da dor que eu causei nela. Fiquei puta, xinguei ela e falei, com o claro intuito de magoar, que ela não tinha me amamentado porque não tinha informação e não insistiu. Estávamos as duas erradas, é claro. Normal, acontece.) 

Enfim, a Andrea ensinou um jeito de ensiná-lo a mamar: ele ficava de cavalinho e eu empurrava o queixo dele para trás em todas as mamadas. Foi assim durante uma semana. A coisa foi se acertando, veio a consulta de um mês e ele tinha perdido peso para chuchu. O Cacá acalmou a gente e disse: deixa ele pendurado no seu peito. Ele deve estar querendo compensar os dias em que você regulou as mamadas por conta da dor. E assim foi, o bichinho passou a ficar pendurado em mim. “Alimentação permanente”, meu marido dizia, achando graça e fazendo carinho. Eu aprendi (ou melhor, achava que tinha aprendido) a fazer ouvido mouco para as “perguntas-palpites”, aquelas que disfarçam um julgamento. 

“Mas por que ele não mama normal? Por que fica sentado? Por que ele mama tanto? Você precisa regular os horários dele, se não ele vai tomar conta da sua vida! Seu peito não machuca? Mamando desse jeito, ele vai acabar esfolando seu mamilo.” 

Segunda-feira

A lua-de-leite durou uma semana. Na segunda-feira eu acordei com mastite. Com a queda na resistência, a candidíase mamária, que sempre esteve por ali, mas moderada, atacou com força total. No meio da manhã, eu explodi. Chorei que nem bebê, gritando. O meu marido ligou pro consultório do Cacá e protagonizou uma das conversas que viraram piada aqui em casa. 

- A Helô está chorando muito, não parou de chorar a manhã inteira, queria ver se a gente conseguia um encaixe. (silêncio) 
- Hãn? (silêncio) 
- Não, Helô é a mãe. 

A dor era tanta que eu não cogitava dar o peito pro Tomé. Mas era tanta que eu não sentia medo de que ela ficasse mais intensa. Então me fechei no quarto com um copo esterilizado e ordenhei os dois peitos, entreguei o copo pro meu marido e pedi que ele desse o leite pro Tomé. Foi outro marco. Ele ficou emocionado de poder alimentar o filho, ou apaimentar como eu prefiro. Chamou para a si a responsabilidade de dar leite pro Tomé sempre que eu estivesse cansada ou dolorida, e isso foi fundamental nos dias que seguiram. 

Fomos ao consultório do Cacá e ele e a Andrea confirmaram que era mastite, deram remédios e a recomendação: repouso total. Eu estava tão cansada, dolorida e fragilizada que repousei totalmente. Um detalhe: na semana anterior, eu tinha lido o livro da Laura Gutman e estava com ele na cabeça. Tinha achado ele meio over. Faço análise há dez anos e nutro (ou nutria) um pouco de preguiça dessa abordagem meio quase mística. 

Pois bem. 

Fonte da Imagem: Etsy


Terça-feira 

Dia de grupo de amamentação no Espaço Nascente, que eu frequentei por algumas semanas, religiosamente. Nesta semana o Cacá ia conduzir a conversa. E tinha pedido pra eu ir pra ver como a mastite estava. Eu fiquei o tempo inteiro ali quieta, à beira das lágrimas. Estava exausta e frustrada. O Cacá me perguntou, no meio de todo mundo, como estava minha situação. Contei a história e pela primeira vez notei que era tudo num peito só. O Cacá chamou a atenção para uma leitura possível, nem lembro da onde, de que cada lado do corpo simboliza um ramo da família, um lado é do pai e o outro da mãe. 

Eu voltei pra casa e enfiei na cabeça que ia decifrar esse enigma. O meu marido estava dando conta de cuidar da casa, de mim e do Tomé, então eu me permiti ficar quieta e mergulhar. Vou tentar descrever aqui a linha de pensamentos, é uma brisa, meio papo de maluco, mas vamos lá. 

Comecei pensando na história que abre esse relato. Sangue com leite. Isso tinha transformado a amamentação em uma coisa “nojenta” na minha cabeça. Leite com sangue, que nojo. Fui me entregando para essa ideia do nojo e percebi que sentia um incômodo quando escorria leite do meu peito - sentia nojo do meu leite jorrando. Comecei a tentar retraçar minha relação com meu peito e me lembrei que quando eles começaram a brotar, na adolescência, meu pai fazia uma “piada” que me deixava desconfortável: ele chamava meus peitinhos de “espinhas inchadas”. Espinha tem pus. Era leite, sangue e pus. 

Quando eu fui me levantar para receber uma amiga, senti uma dor absurda na virilha. Era um abcesso gigante. Na verdade eram dois, enormes e interligados. Pensei: meu corpo está me dizendo pra eu ficar quieta, deitada. Era impossível andar. Ouvi o recado e fiquei deitada por três dias (levantava só pra tomar banho). E me deixei levar pelas sensações que aquelas descobertas sobre a minha relação com o meu peito despertavam em mim. Fiquei triste triste triste, por perceber como meu corpo não tinha sido muito bem elaborado na minha cabeça adolescente. Fiquei angustiada, porque o meu peito doía demais e eu não conseguia pegar o Tomé no colo. Fiquei frustrada, porque amamentar deveria ser bom. Fiquei desmontada, porque tudo era desconforto. E fiquei entregue aos cuidados do meu marido, que me acalmava e me acolhia. Em algum momento, cheguei no meu limite e decidi: se até a semana que vem isso não resolver, vou parar de amamentar. É melhor ele tomar leite artificial e poder ser ninado, do que tomar leite materno mas não ter colo materno. 

Sexta-feira 

O Rafa tinha uma reunião de manhã. Ficamos sozinhos, eu e o Tomé. Eu só conseguia andar se afastasse muito a perna, tipo hipermanca. Fui assim até o banheiro trocar o Tomé pela manhã. E o abcesso rompeu. Não vou descrever, só digo que foi muito forte e era muito... sangue e pus. Foi doido e doído. Eram exatamente as coisas que vieram à minha cabeça quando eu tentei achar os meus obstáculos. Eu chorei de emoção e alívio. Sem a dor do abcesso, eu consegui perceber que não sentia mais a dor da mastite (afinal, estava tomando antibiótico e analgésico). E a dor da candidíase também havia melhorado. E meu espírito era outro. Tiramos o fim de semana para descansar os três bem juntos e recompor a harmonia da família. Finalmente eu consegui sentir prazer em amamentar e me entregar às longas mamadas. Finalmente - e graças ao muito apoio, muito apoio mesmo - eu consegui me entregar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Felicidade é o grande remédio

Texto de Cíntia Dalpino

(...)

É mais fácil prescrever um remédio para a dor de cabeça do que saber porque aquela pessoa está preocupada. É simples e rápido dar um diagnóstico com uma prescrição. O sintoma some, a pessoa se sente curada. Mas o problema continua lá.

Porque o problema, na maioria das vezes não é a doença. E sim o que a causou.

Na vida temos essas descobertas. E com a maternidade, talvez isso tenha ficado tão evidente que seja difícil não enxergar. A felicidade, o bem estar, a conexão humana.. está tudo intimamente ligado com a saúde.

Me lembro que quando a Eva era pequena fui ao nosso pediatra, o Carlos Eduardo Correa, carinhosamente chamado de Cacá. Eu tinha o hábito de colocá-la numa piscininha com água gelada no fim de tarde com uma amiguinha do prédio. Era o meu ‘happy hour’. Elas brincavam na água, se divertiam, saiam peladas correndo e, mesmo no frio, aquilo tinha um efeito mágico no nosso dia.
Quando relatei aquele fato para o Cacá, com medo de que aquilo fosse usado contra mim caso ela ficasse resfriada, ele deu uma sonora gargalhada. “Mas que delícia! Pode ir na piscininha! Se faz vocês felizes, faça isso!”. E fizemos por meses seguidos, até a amiguinha se mudar de prédio e perdermos a companhia.

Ela nunca ficou resfriada por conta disso.

Mas aquela não foi a primeira vez que ele prescreveu felicidade. No pós parto da Eva ele me fez perceber que eu estava incomodada com as visitas e prescreveu uma viagem para que a Eva parasse de chorar todo fim de tarde. Funcionou. Na praia por 20 dias, não houve um choro sequer.

E assim, cada vez que eu ia numa consulta, aprendia um pouco. Enquanto entendia a mim mesma, percebia como a resolução dos meus problemas, das minhas carências, da minha confusão, estava relacionada com a saúde da minha filha.

Os sintomas eram tratados, mas o olhar cuidadoso daquele médico com a nossa família é que curavam de verdade. Era ele quem me fazia contar sobre como eu me sentia em relação à maternidade, à falta de tempo, desabafar sobre meus medos, minhas angústias e as inseguranças que me afligiam.



Posso afirmar com todas as letras que nunca houve uma doença na minha casa que não estivesse relacionada com nosso estado de espírito. Porque quando eu enxergava as semanas que antecediam os sintomas físicos, podia ver tristeza, podia ver medo. Podia ver algo que não estivesse relacionado à felicidade.

Felicidade cura. Ela está relacionada à imunidade. Hoje existem até mentores da felicidade que levam o conceito de felicidade para ‘curar’ crises em grandes empresas. Segundo o empresário Maurício Patrocínio, criador do programa Discutindo a Felicidade, esse é o grande ‘remédio’ atual. Por isso faz palestras por todo o Brasil, ajudando a levar felicidade nas empresas. O impacto? Imediato. Reflete nas vendas, reflete na produtividade. reflete no lucro. reflete em tudo.

Porque agora as pessoas perceberam que não adianta ser perito nisso ou naquilo. No dia a dia, se o cara mais capacitado do mundo não estiver bem consigo mesmo, não consegue desenvolver um bom trabalho.
Talvez seja por isso que tenhamos tantas pessoas doentes. Tanta gente infeliz.

Falta felicidade. Faltam referências que nos libertem para que possamos olhar com amor para nós mesmos, e para as nossas relações. Para a nossa vida. E possamos olhar para a manutenção da felicidade de uma maneira real. Sabendo que é um antídoto para tudo.
Que saibamos perceber que mais importante que fazer desse ou daquele jeito, é mais eficaz a maneira como fazemos. O amor que colocamos nas relações e no cuidado com as crianças e com nós mesmos.

Como diz o Cacá, nosso Patch Adams brazuca, citando sabiamente Jung “Por mais que eu conheça técnicas, por mais que eu domine técnicas. Diante de um ser humano, que eu seja outro ser humano”.

É isso.



quarta-feira, 22 de maio de 2013

A alergia alimentar do João – meu relato

Marcella, Adriano e o João.

Depois que o João nasceu, nosso pediatra disse: “Bebês são muito perebentos, tá? Não se preocupem e nem queiram resolver isso, eles precisam se acostumar ao meio aéreo depois de tanto tempo mergulhados”. Logo vimos o João ficar perebento. E pela aparência, eram as famosas brotoejas. Mas depois veio um ressecamento na pele do rosto. Continuamos tranquilos, achando que aquilo não era nada. Éramos tão sossegados que nos esquecemos de marcar consulta de um mês pra ele. E na de dois meses descobrimos que havia algo errado. 

Cacá olhou pra ele e disse: “Isso está com cara de alergia alimentar”. Hein? Nunca tínhamos ouvido falar nisso. Ele só mamava no peito, muito e sempre, eu jorrava leite, e leite materno não é a coisa mais maravilhosa do mundo pra um bebê? Sim, é. Mas alguma coisa que eu comia e era repassada ao João por meio dele causava esses ressecamentos. E uma dor de barriga que eu já havia classificado como cólica de bebê, coisa normal, e medicado com luftal. Numa ligação, antes dessa consulta, já havíamos perguntado o que fazer e ele sugeriu que eu parasse de ingerir leite e derivados por uns dias. Na ocasião eu parei, por 4 dias, mas pra mim era tão difícil ficar sem meu café com leite de manhã, que isso eu tomava, achando que não faria diferença. 

Na consulta de dois meses, o pediatra nos disse, então, que eu precisava fazer testes com a minha alimentação, excluindo algumas coisas e depois retomando. Que tavez fosse bom começar com leite e derivados ou com algum alimento que eu ingerisse todos os dias, mas também tentar o gluten, os ovos, as castanhas e outros. Explicou que não adiantava eu cortar por apenas 4 dias, nem ingerir em pequenas quantidades. Que algumas alergias não são dose-dependentes, ou seja, são deflagradas mesmo com um pouquinho só do alérgeno. 

Lá fomos nós pra casa, meio assustados, achando tudo aquilo meio estranho. Nunca tínhamos ouvido falar daquilo. Mas comecei com os testes, pelo mamão – única coisa que eu comia todos os dias. Nada aconteceu. João continuava chorando, nervoso, sem conseguir dormir, com a pele super seca. Passei pro leite. Nada (ufa, era meu maior medo a essa altura, eu amo leite e queijos). Farinha branca. Ele pareceu melhorar um pouco. Gluten. Pronto, sentimos uma melhora considerável. Na consulta dos três meses, fomos animados, achando que o problema estava resolvido. Se foi um mês desafiador para pais recém-chegados ao mundo, vocês podem imaginar, então, pra um bebê também recém-chegado, cheio de coceiras (sendo que só descobrimos que coçava depois, quando ele já conseguia levar os bracinhos pra cabeça e pro rosto), dor de barriga, cansaço (porque não conseguia dormir). Eu o levava comigo para todo lugar, no sling, amamentava em livre demanda (como faço até hoje), tentando acalmá-lo. Mas eu também precisava de calma. Estava perplexa com tudo aquilo. E se já era chato escutar na rua as perguntas de gente que nem me conhecia (do tipo: “Nossa, o que ele tem no rosto????”), imaginem passar o dia tentando explicar pras pessoas queridas – visitas, parentes, amigos – o que o João tinha e porque eu não podia comer isso e aquilo. Que não, não tinha nenhum remédio pra ele tomar. Que não, não era melhor dar leite de fórmula. Que não, não existia nenhum exame de sangue definitivo que resolveria a situação. Que não, não era melhor consultar outro pediatra. Que não, aquilo não era normal de bebê recém-nascido e logo ia passar. Eu tinha vontade de chorar a cada pergunta e comentário, e me segurava. Ao menos no começo, eu ainda me segurava. Mas chegou uma hora em que parei de me segurar, porque não dei mais conta. 

Mesmo depois de identificarmos o gluten e de eu retirá-lo completamente da minha alimentação, o João piorou novamente. O ressecamento chegou a ponto de tomar as perninhas e bracinhos, além do rosto e da cabeça. Ele era todo vermelho. Não parava de berrar. E num dia assim, de crise, liguei pro Cacá e disse que precisava de um antialérgico urgente praquele momento. Ele me passou Polaramine e uma pomada pra ressecamentos mais sérios. Fui comprar na hora, enquanto pensava que aquilo era reação ao shoyu: eu havia comido nos três dias anteriores. 

Depois de alguns dias, o João melhorou um pouco, mas não sarou. Mesmo sem shoyu. Se antes chegou a dormir três horas seguidas à noite (nunca foi de dormir de dia nesse início), não ficava mais dez minutos de olhinhos fechados. Nem no berço, nem na nossa cama, nem no colo. Só duas coisas o acalmavam um pouco: o peito e um pandeiro que até hoje fica no quarto dele, apesar de não ser exatamente um brinquedo. Detalhe: Polaramine dá muito sono. Cortamos e percebemos que talvez o João estivesse reagindo ao próprio remédio. Seguimos com a medicação antroposófica que também já estávamos administrando e pareceu que ele melhorou um pouco. 

Cacá nos indicou uma médica antroposófica que fazia um exame no cabelo do alérgico e identificava alimentos que estivessem “em excesso” no organismo. E claro, como se tratava de antroposofia, ela dava atenção a questões emocionais de nós três. Pesquisei um pouco a respeito antes de marcar a consulta, que no começo achamos cara – e pensávamos que ainda poderíamos fazer mais testes de alimentação. Ouvi umas duas opiniões a respeito do exame e da médica e decidimos esperar mais um pouco. Mas as coisas só pioravam. Não conseguíamos curtir, porque estávamos sempre com sono, tristes, nervosos. Ouvíamos o João berrar mesmo quando ele estava quieto. Não aguentávamos mais falar do assunto. Não queríamos mais encontrar as pessoas. Eu já começava a ter reações irracionais, como sentir raiva do meu marido por ele ter histórico de alergia – porque eu não tinha, e muitas vezes essa tendência é hereditária. Mas fazia todo o esforço do mundo pra arejar minha cabeça, ia ao Cine Materna com ele, usava e abusava do apoio incondicional da minha mãe (mas até ela duvidava do diagnóstico do João, e ficava quieta na maior parte do tempo porque via como eu ficava arrasada de ter que falar no assunto). 

Marcamos a consulta com a dra. Regina. Saímos de lá com a certeza de que valia muito mais do que ela cobrou. Conversamos muito, falamos de tudo, fomos muito acolhidos. Fizemos o exame e saí de lá com uma lista enorme de restrições alimentares. Carne vermelha, feijões, uva, pêssego, leite e derivados, industrializados e muuuito mais. Apesar da tristeza, eu me sentia firme para tentar cortar tudo aquilo e, depois, voltar aos poucos com alguns itens. Confiei no tratamento, porque ela realmente parecia saber do que estava falando. E sabia. Mas nós sabíamos muito também, e mais, porque éramos os pais dele. E àquela altura não tínhamos essa consciência ainda. 

No mesmo dia liguei pro Cacá pra contar da consulta. E concluí que não valia a pena ficar sem leite e derivados. Eu já tinha certeza de que não era esse o alérgeno e, se pudesse ao menos mantê-lo na lista, sofreria um pouco menos. Ainda assim, eu aprendi a fazer leite de amêndoas e tomávamos, Adriano e eu, com gosto. 

Nos primeiros dias, apesar de já sofrer com as restrições (e de ter que falar pra minha mãe o tempo todo: “não mãe, não posso comer isso”), resolvi aprender com aquilo. Mudar nossos hábitos alimentares, experimentar coisas novas, acrescentar ao nosso cardápio semanal coisas que não consumíamos sempre. Troquei os feijões por lentilha (que eu adoro mas só comia no Ano Novo), o pão por tapioca, os industrializados por frescos. Minha diversão era buscar opções em mercados especializados, tentar adaptar receitas. A fome ainda era grande, por causa da amamentação. Então eu tinha muito que inventar. E minha mãe foi incrível: fez muitas receitas adaptadas para me agradar. Lembro do dia em que ela conseguiu fazer um bolo de chocolate com calda e tudo. Não tinha açúcar, industrializados, glúten (e acho que nem leite). Comi três pedaços, feliz da vida. O Adriano comia o que eu podia comer. Dizia sempre: “Estamos juntos nisso, Má. Vamos lá, vamos jamais era muita coisa de uma vez só. Passou uma semana e o João não melhorou nada. Eu, que já não podia nem ter vida social – porque tinha fome o tempo todo e só podia comer em casa, além de não querer mais falar do assunto com ninguém -, também não podia cozinhar o que mais gostava. Tomar um vinho. E nem assim via meu filho bem. Ninguém dormia. Se não fosse pelas minhas amigas Laura, Natália e Tatiana, que vieram em casa cozinhar pra mim um menu delicioso que eu podia comer – e pela Bianca, que me chamava pra ir na casa dela e fazia um almoço tão gostoso também, dentro da minha dieta – eu não teria tido nada de vida social nessa fase, mesmo. Cheguei a ir numa festinha infantil na qual a única coisa que eu podia consumir era água. 

Liguei pra médica e ela se surpreendeu por ele não ter melhorado nem um pouquinho. Sugeriu mais um medicamento antroposófico (ele já estava tomando vários e nós também). Não me lembro se eu dei, mas acho que não. 

Numa quarta-feira, hora do almoço, estava sozinha com o João. Acho que ele tinha uns três meses e meio, quatro (me perdi completamente nessa conta). Coloquei ele no carrinho para esquentar minha comida e ele começou a berrar. Eu comecei a sentir raiva dele. Ignorei o choro. Continuei esquentando a comida. Comi, com raiva, rápido, sem nem sentir o gosto. Ele berrando. Mandei uma mensagem pro Adriano: “Chega, pra mim não dá mais”. Ele ligou desesperado e disse que estava indo pra casa. Assim que ele entrou, eu saí da cozinha e fui pro quarto. João berrando. Eu estava meio que em um transe. Deitei e cochilei. O Adriano pegou o João e depois entrou no quarto perguntando se podíamos ir no Cacá. Ele tinha ligado lá. Eu não queria nem responder. Por mim, tanto fazia. Naquela hora, senti vontade de morrer. Juro. Era como se eu estivesse amarrada e sem previsão de ser solta. Como se o meu maior sonho, o da maternidade, tivesse se tornado um pesadelo horrível, no qual eu já tinha dificuldades de amar meu filho. Não queria mais acolhê-lo, queria apenas ser acolhida – em algum lugar bem distante dele. Não queria mais amamentá-lo. Não queria mais nada. 

Fui levada pro Cacá. Não tocava no João. Na sala de espera, me joguei no sofá segurando o choro. Assim que ele apareceu, me disse: “Essa é a Fernanda. Vocês podiam conversar”. Era a mãe do Tomás, que também sofria de alergia. Ali trocamos algumas ideias e contatos. Depois nos encontramos e descobri que aquilo era o mais importante para nós: trocar experiências. 

Na consulta, eu não falava. Até que, depois de alguma pergunta do Cacá, eu disse que não ligava pra mais nada. Ele me olhou sério e falou que era melhor eu buscar terapia. Que aquele discurso era depressivo e que eu precisava me cuidar. Falou pra eu parar com a dieta, devagar, reinserindo os alimentos aos poucos na minha rotina e observando as reações do João. Mas o glúten eu não retomaria. E nos mandou pra praia. 

Adriano ligou pro irmão dele, João Claudio, que nos emprestou a casa. Até hoje acho que ele nem imagina o quanto aquilo foi importante pra nós! Foram 4 ou 5 dias de alívio. O João seguia sem dormir (àquela altura só havia um jeito de dormirmos um pouco: nos revezando a madrugada toda, cada hora um com o João no braço), mas eu comi um brigadeiro. Olhamos o mar, ficamos em silêncio, falamos um monte, nos lembramos o quanto nos amávamos. O quanto desejamos aquele bebê, o quanto estávamos aprendendo com aquilo tudo. Tínhamos certeza da nossa força. Sabíamos que não tínhamos recebido aquilo tudo à toa. Era, certamente, porque dávamos conta de suportar. E pensávamos: tem tanta coisa pior… 

Infelizmente, a volta pra São Paulo era necessária. O Adriano, que tem sua empresa própria, já não trabalhava direito havia meses. E precisava estar presente. Estávamos bem melhores, mas o primeiro dia em São Paulo já foi mais difícil de novo. 

Mas era muita coisa de uma vez só. Passou uma semana e o João não melhorou nada. Eu, que já não podia nem ter vida social – porque tinha fome o tempo todo e só podia comer em casa, além de não querer mais falar do assunto com ninguém -, também não podia cozinhar o que mais gostava. Tomar um vinho. E nem assim via meu filho bem. Ninguém dormia. Se não fosse pelas minhas amigas Laura, Natália e Tatiana, que vieram em casa cozinhar pra mim um menu delicioso que eu podia comer – e pela Bianca, que me chamava pra ir na casa dela e fazia um almoço tão gostoso também, dentro da minha dieta – eu não teria tido nada de vida social nessa fase, mesmo. Cheguei a ir numa festinha infantil na qual a única coisa que eu podia consumir era água. 

Liguei pra médica e ela se surpreendeu por ele não ter melhorado nem um pouquinho. Sugeriu mais um medicamento antroposófico (ele já estava tomando vários e nós também). Não me lembro se eu dei, mas acho que não. 

Numa quarta-feira, hora do almoço, estava sozinha com o João. Acho que ele tinha uns três meses e meio, quatro (me perdi completamente nessa conta). Coloquei ele no carrinho para esquentar minha comida e ele começou a berrar. Eu comecei a sentir raiva dele. Ignorei o choro. Continuei esquentando a comida. Comi, com raiva, rápido, sem nem sentir o gosto. Ele berrando. Mandei uma mensagem pro Adriano: “Chega, pra mim não dá mais”. Ele ligou desesperado e disse que estava indo pra casa. Assim que ele entrou, eu saí da cozinha e fui pro quarto. João berrando. Eu estava meio que em um transe. Deitei e cochilei. O Adriano pegou o João e depois entrou no quarto perguntando se podíamos ir no Cacá. Ele tinha ligado lá. Eu não queria nem responder. Por mim, tanto fazia. Naquela hora, senti vontade de morrer. Juro. Era como se eu estivesse amarrada e sem previsão de ser solta. Como se o meu maior sonho, o da maternidade, tivesse se tornado um pesadelo horrível, no qual eu já tinha dificuldades de amar meu filho. Não queria mais acolhê-lo, queria apenas ser acolhida – em algum lugar bem distante dele. Não queria mais amamentá-lo. Não queria mais nada. 

Fui levada pro Cacá. Não tocava no João. Na sala de espera, me joguei no sofá segurando o choro. Assim que ele apareceu, me disse: “Essa é a Fernanda. Vocês podiam conversar”. Era a mãe do Tomás, que também sofria de alergia. Ali trocamos algumas ideias e contatos. Depois nos encontramos e descobri que aquilo era o mais importante para nós: trocar experiências. 

Na consulta, eu não falava. Até que, depois de alguma pergunta do Cacá, eu disse que não ligava pra mais nada. Ele me olhou sério e falou que era melhor eu buscar terapia. Que aquele discurso era depressivo e que eu precisava me cuidar. Falou pra eu parar com a dieta, devagar, reinserindo os alimentos aos poucos na minha rotina e observando as reações do João. Mas o glúten eu não retomaria. E nos mandou pra praia. 

Adriano ligou pro irmão dele, João Claudio, que nos emprestou a casa. Até hoje acho que ele nem imagina o quanto aquilo foi importante pra nós! Foram 4 ou 5 dias de alívio. O João seguia sem dormir (àquela altura só havia um jeito de dormirmos um pouco: nos revezando a madrugada toda, cada hora um com o João no braço), mas eu comi um brigadeiro. Olhamos o mar, ficamos em silêncio, falamos um monte, nos lembramos o quanto nos amávamos. O quanto desejamos aquele bebê, o quanto estávamos aprendendo com aquilo tudo. Tínhamos certeza da nossa força. Sabíamos que não tínhamos recebido aquilo tudo à toa. Era, certamente, porque dávamos conta de suportar. E pensávamos: tem tanta coisa pior… 

Infelizmente, a volta pra São Paulo era necessária. O Adriano, que tem sua empresa própria, já não trabalhava direito havia meses. E precisava estar presente. Estávamos bem melhores, mas o primeiro dia em São Paulo já foi mais difícil de novo. 

Algumas passagens da história estão bem confusas na minha cabeça. Não me lembro exatamente quando fomos a uma terapeuta específica fazer nossa constelação familiar – um método que muito nos impressionou e que nos fez tratar de questões essenciais que certamente muito tinham a ver com a alergia do João. Também não me lembro quando ele começou a melhorar, nem quando me dei conta de que o glutamato monossódico, que está presente no shoyu e causava alergia no João, estava presente em vários outros temperos prontos que, por mais que não entrassem em minha casa, eram usados em restaurantes e bares onde, a certa altura da dieta, eu já podia comer. E claro, na casa das pessoas. Também não me lembro quando exatamente decidimos que eu não ia mais amamentar e que tentaríamos dar um leite específico para alérgicos – decisão imediatamente revista quando o pediatra disse: “Mas se não sabemos nem identificar tudo o que causa alergia nele, vamos trocar o seu leite por um cheio de química?”. Por mais estranho que pareça, mesmo no meio daquele furação, eu senti um certo alívio por não ter essa saída. Na real, eu queria muito continuar amamentando. 

O que sei é que, quando o João fez seis meses, muita coisa mudou. Ele já estava bem melhor e era hora de começar a introdução alimentar. Isso tudo era motivo pra muita alegria: eu havia conseguido chegar aos 6 meses de amamentação exclusiva e feito o melhor pro meu filho e pra mim, com isso; por conta disso, já começaria uma fase em que eu poderia ter mais tempo pra mim, porque ele logo não precisaria mais mamar tanto assim; seria um prazer enorme oferecer comida pra ele, vê-lo experimentar os legumes; eu contaria, a partir de então, com a ajuda da Marly, que o Adriano contratou para cuidar do João de segunda a sexta. 

Terapia começada, esquema montado, vida nova. Ainda não dormíamos, mas criamos coragem para tentar fazer o João dormir no berço de novo – e não só porque não aguentávamos mais dividir o espaço com aquele bebezão (que, com tudo isso, nunca teve problemas de ganho de peso), mas porque eu sofria de dores terríveis nas costas e percebemos que, com o peito por perto, ele nem sequer queria cochilar. Não foi imediato, mas logo ele se acostumou novamente a dormir no berço e o sono durava bem mais do que quando estava entre nós. 

João demorou muito para dormir uma noite inteira. E mesmo quando isso aconteceu, foram apenas 5 seguidas: foi só viajarmos no Natal e no Reveillon que ele voltou ao ritmo anterior. Vimos que, ao contrário do que havíamos planejado (nota mental: não dá pra planejar o comportamento de um outro ser, gente rs), o João só dormia com silêncio absoluto, escurinho, peito e no quartinho dele. Ok, filho. Faremos assim então, pra você aprender a dormir. 

Ele aprendeu (mas ainda acorda, uma ou duas vezes, dependendo da fase). Hoje, ainda não temos coragem de levá-lo pra viajar. Mas logo tentaremos. A introdução alimentar foi um sucesso e ele é um comilão. Reagiu à banana, ao ovo e a leite e derivados – coisas que, se eu consumo, não causam nada a ele pelo meu leite. Um mistério? Sim. Alergia é assim mesmo, e sinceramente, não queremos nem saber porque. No começo, fizemos como na preparação para o parto: lemos de tudo, conversamos com muita gente, pesquisamos pra valer. Com o tempo, percebemos que precisávamos relaxar, também. Que não existem respostas prontas pra tudo na vida. E a libertação: que não precisamos dessas respostas todas. A situação, hoje, já está sob controle. Então, se ele reage a algo, simplesmente não damos mais. Daqui a um tempo testamos novamente. E pronto. 

Eu já como gluten. João não reage mais, mas percebi que eu fico bem melhor sem. O plano é fazer “desintoxicações” quando eu sentir necessidade, porque cortar da vida já é um passo mais difícil que não quero dar agora. Nossos hábitos alimentares, que já eram bons, melhoraram muito. Sou a louca do rótulos, olho tudo o que tem em um produto antes de comprá-lo. E aprendemos um monte com isso. Somos mais leves (eu emagreci um monte, inclusive) e sinto um orgulho imenso quando vejo meu guerreirinho comendo o pratão de abobrinha, bifum, batata, peixe, lentilhas, couve, cenoura e tudo o mais que colocarmos. Ele come muito bem. 

Não demos vacinas até hoje, decisão super tranquila, e só o tratamos com homeopatia (mas até aqui foi só um resfriado e umas febrinhas de dente). Não posso nem imaginar o que poderia ter acontecido com o João se ele tivesse sido vacinado nas primeiras horas de vida, como acontece com a grande maioria dos bebês. E defendo, também por isso, a vacinação a partir dos 6 meses de idade (é o tempo que temos para conhecer melhor nossos bebês e entender do que eles precisam nesse começo de vida). 

São muitas as lições que tivemos até aqui. O João já tem um ano e parece que vivemos dez. Somos pais muito mais seguros. Tenho a sensação de ser inabalável. E a certeza de que as melhores pessoas para entenderem do que o João precisa somos nós. Mas de que, pra chegarmos nisso, precisamos ter em nosso caminho o apoio do melhor pediatra desse mundo (sim, ele é, temos certeza ), que nunca nos deu uma resposta pronta. Agradeço muito a ele por isso. 

E as conexões e conclusões que fazemos sobre tudo o que passamos são constantes. Tenho certeza de que, ouvindo os relatos de mais pais, isso acontecerá mais e mais vezes. Que riqueza ser mãe de um bebê alérgico. Não achei que um dia fosse dizer isso. 

Marcella 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cólica: a “dor de parto” do bebê

 

Um relato sobre como lidamos com as cólicas do pequeno Miguel
Por Michelle Prazeres*


Miguel começou a ter cólicas com três semanas de vida. O comportamento era característico: pernas se mexendo freneticamente, choros sem fim, irritação, mamadas interrompidas, sono que não vinha nunca. Todos os dias, pontualmente às 18h, a crise começava. E pontualmente às 23h ela ia embora. 

Durante as crises, eu e o papai Fernando fazíamos de tudo: mudávamos as posições, fazíamos bolsa de água quente, dávamos banho, tentávamos entreter o pequeno... nada funcionava. Só o relógio. Quando dava a hora de terminar, ela passava.

Passamos uma semana bem desesperada. E lembro que o desespero aumentou quando ouvi do Cacá: “Quem descobrir a causa e uma cura para a cólica do bebê, fica milionário”. O bebê passa por estas dores, porque seu organismo está se adaptando ao mundo humano. Neste sentido, seria como as dores do parto para as mães. Uma dor necessária, um rito de passagem. Segundo o próprio Cacá, quando sai da barriga, o bebê sai de um estado de divindade e precisa virar humano. Achei linda esta explicação. Mas na hora da dor de cabeça e do cansaço por conta das crises, a gente só queria que tivesse um remedinho...

Tentamos a funchicórea. Tomei regularmente, a cada quatro horas, diariamente, até as crises passarem. Mas sabia que toda tentativa de medicamento era mais no sentido de me tranqüilizar, por sentir que estava fazendo o que podia, do que efetivamente para fazer algum efeito no pequeno Miguel. Cheguei também a oferecer o dedo mindinho para sucção, que o acalmava. Por alguns segundos, até a crise voltar a falar mais alto...

Conexão: alimento, contato e comunicação

O que buscamos como solução tem a ver com o modo como pensamos a dor em nossa sociedade. Em geral, não buscamos o motivo da dor e a enxergamos como um sintoma que deve ser calado, curado. Mas a dor quer nos dizer algo. E a arte de lidar com as dores é justamente a de entender o que ela quer nos dizer. Lembro de ter lido no livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, uma psicóloga argentina fantástica, sobre as dores e seus motivos.

As dores de cólica não nos diziam, mas nos gritavam que precisávamos nos comunicar com nosso filho, estabelecer diálogo com ele, nos conectarmos. Buscamos então, uma conexão menos pragmática e mais emocional conosco mesmos e com nosso bebê.

Nos demos conta de que durante o primeiro mês de vida do Miguel, ficamos dando conta de demandas. Trocas, banhos, dormidas, mamadas: tudo era encarado como algo a ser resolvido. Nos demos conta de que estávamos vivendo uma experiência muito racional com a chegada do bebê, preocupados, claro e sempre, com o bem estar dele e com sua saúde. Eu e Fernando tivemos que fazer o exercício de nos vincularmos ao nosso bebê, nos conectando também com nosso lado mais “selvagem”, com nossa experiência emocional.

E para isso, precisávamos de tempo. Tempo sozinhos com nosso filho. E especialmente tempo JUNTO com o bebê.

Então, mudamos a sintonia. Começamos a encarar cada um destes momentos (que eram das “demandas”) como instantes de interação, vivência e conexão com nosso filho. E buscamos viver nossa vida com o menor grau de intervenções externas possível.

Optamos por um “pacote” que pensamos que ia nos ajudar neste sentido. Em lugar de deitar ele no berço, no carrinho ou no bebê conforto para dormir, mantivemos ele em nosso colo sempre que possível. À noite, estamos até hoje na cama compartilhada; passamos a usar os carregadores (slings) durante boa parte do dia, inclusive dentro de casa; aumentamos as vezes em que damos banhos de balde ou mesmo banhos de bacia, banheira e chuveiro, mas banhos com o intuito de relaxar o bebê e nos aproximar dele, não necessariamente banhos de higiene.

Além disso, fizemos um curso de shantala e começamos a fazer as massagens diariamente. Isso tudo sem contar, claro, a amamentação, estabelecida desde o começo por nós como um ritual de amor e de carinho da família. Na hora da troca, buscávamos contato com o corpo do bebê (no frio de São Paulo, isso demandou um investimento em um aquecedor...) e, sem pressa, interagíamos, brincávamos com as partes do corpo, pezinhos, mãozinhas, barriga... isso fez com que nossa experiência ficasse mais deliciosa. Passamos a curtir nosso filho e não mais a encará-lo como um serzinho que demandava de nós todo o tempo. Passamos a brincar com ele, a interagir, a nos conectarmos com ele e entre nós, na nossa família.

Hoje, fazemos a leitura de que nosso filho, com as crises de cólica, além de se adaptar ao mundo dos humanos, nos dava um recado. O de que precisávamos chegar mais perto. Ficar mais juntos. Sentir nosso calor. Um do outro. Ele o nosso e nós o dele também.

O Cacá nos advertiu também de que o comum, quando temos qualquer problema com o bebê, é nos afastarmos e procurarmos uma solução externa para o problema, seja ela uma mamadeira, uma chupeta ou um remédio, entre outras coisas.

Nós vimos que a solução está o mais dentro de nós possível: no peito, no colo, na voz, no cheiro, no calor. A nossa solução estava na nossa permissão para deixarmos de lado o controle, nos entregarmos à experiência da maternidade/paternidade e entrarmos em contato com nosso lado mais selvagem, mais puro, mais próximo do nosso filho. E de experimentarmos isso juntos.

Claro que não existe fórmula. E que outras crises de cólica virão. E eu não sou a pessoa que vai ficar milionária porque descobriu a solução e a causa das dores. Mas se posso deixar um recado a partir de nossa experiência eu diria para mamães e papais conversarem com seus filhos, buscarem entender o que as dores querem dizer. E buscarem estar a sós, a família, para encontrar, dentro de cada um e em contato com o outro, um estado de harmonia. Este estado deve fazer do bebê um ser humano mais feliz, mais tranqüilo e mais confortável para chegar a este mundão.


* Michelle e Fernando são pais de Miguel Prazeres Gameiro, que nasceu de parto normal humanizado em São Paulo, na maternidade São Luiz, no dia 28/04/2011, às 22h59, pesando 3kg735g e medindo 51cm, depois de 21 horas de Trabalho de Parto ativo. Era a 39ª semana de gestação pela ultrassonografia e a 40ª pela DUM.
 
 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dança das águas - Universo maternal



Rompida a bolsa que o envolvia, saiu do universo único das águas para um mundo mais seco, terreno, com ar e muitos desafios e belezas. Um choque, uma mudança muito intensa, que até hoje o deixa assustado.

Está vivendo entre dois mundos, como diria o pediatra Cacá, o espiritual e o físico, o que cabe a mãe, nessa passagem, é banha-lo com muito carinho, colo, calor, olhar, mostrando que aqui vale a pena, que a vida é uma bênção e merece entrega.

Ele adentrou no planeta água e a mãe que nasceu, penetrou no universo das águas. Seu corpo a banha de leite, lágrimas e sangue, uma mistura que convida ao mergulho em si, a quebra de caprichos e padrões enraizados na alma. O pequeno precisa que mergulhe também no seu universo, a fusão mãe-filho faz com que isso ocorra naturalmente, mas é preciso deixar tudo fluir, seguir seu curso natural. Há de se estar conectado, navegar sem que o medo paralise o processo, fluidez das águas de um rio, águas que banham e alimentam essa chance de viver o amor, um lindo presente do universo, viver a criação, participar da vida, com o amparo da mãe terra, que acolhe em seu seio.

Certeza de que a vida flui, embalar e dançar com o universo, Shiva Nataraja. Fluindo bem aventurança, permitindo possibilidade de aprendizado, conquistando a Luz ofuscada.

Como é lindo ver e passar horas a contemplar o ser que inicia uma jornada. Há vida e brilho em seu olhar, força espiritual e garra para estar aqui. Quantos amigos o acompanham e estão tão próximos, caminhando junto, sem pressa, com olhar de quem entende e ampara.

Viva o vinculo que se fortalece a cada dia, viva o presente de estar presente vivendo com carinho.

Amor Lucidez

Mãe Vivi

Vivi Mãe

Viviane Cabral

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Relato de amamentação da Pat e Lis



Relato da Patrícia, mãe da Lis.

Puxa, como é difícil admitir, mas eu cometi sim alguns erros ao amamentar. E só estou compartilhando porque acho que vale como desabafo e talvez para pensarmos um pouco mais nesse tema.

O primeiro erro foi não seguir a minha intuição. De repente, depois do parto eu emburreci. Comecei a ouvir todas as milhões de opiniões alheias e dancei. Isso inclui amigos e família também. Por mais amor que eles tenham, só a gente sabe o que é melhor para a nossa cria. Isso eu não faço mais.

O segundo erro foi querer achar que a minha filha tinha horário e tempo para mamar. Eu achava que era uma seqüencia: mamar, trocar fralda, dormir, mamar, trocar fralda, dormir. Naaaaddaa disso. Os bebes, principalmente quando tem menos de 2 meses passam dia e NOITE ou mamando ou dormindo. Isso mesmo, a gente nem consegue fazer xixi, por que eles querem peito e isso é super normal. Eles são praticamente piercing de seios e é isso mesmo. A gente tem que dar o seio o tempo todo. E quando digo o tempo todo, digo inclusive à noite. Nada de querer por horário, por exemplo, de 3 em 3 horas! Tem que se aceitar isso: bebes com menos de 2 meses ficam 24 horas no seio e isso é normal, não tem nada de errado com isso!

Dá para entender que o terceiro erro foi tentar controlar o tempo da mamada. Se eles não tem horário para mamar, vão saber o tempo? Claro que não!

E esses dois erros me atrapalharam muito. Eu suspeito que se não fosse por eles, eu teria tido mais leite e teria sido menos neurótica na amamentação - pois todo mundo sabe, quanto mais estímulo, mais leite se produz. Que burra eu fui.

O quarto erro foi querer ter o peito cheio o tempo todo. Não, não acontece assim! A gente produz, principalmente na hora que o bebezinho mama. Por isso se o bebê mama o tempo todo, a gente não fica com a sensação de peito cheio. E é normal. Sim, é normal o leite não vazar. Por mais que todas as outras mães, tias, vizinhas, amigas digam: "Ahhh, o meu peito vivia vazando", o meu não vaza e pronto. E ainda assim eu tenho leite para dar para a minha filha.

O quinto erro foi tentar medir a produção de leite com bombas. Kkkk. Esse foi um fiasco. O meu leite simplesmente não saia. Com bomba manual cheguei a ferir o peito sem sair. Aliás na minha opinião as bombas manuais são coisas do mal. Tenho duas em casa e não dou para ninguém porque gosto das pessoas. Deus que me livre. Bom, o leite não sai enquanto ficamos nervosas. O sistema simplesmente trava. E o pior, a gente fica desesperada. Sabe quando o leite sai? Quando a gente tá assistindo uma bela comédia na televisão, enquanto uma boa bomba elétrica vai sugando os peitos como se fosse um nenezinho. Só assim.

Meu sexto erro foi não procurar ajuda de cara. Mania burra de tentar resolver as coisas sozinhas! Resultado: meu peito machucou na primeira semana e eu chorava pois saia sangue enquanto a Lis mamava e depois ela punha tudo para fora por causa do sangue. Imagine a dor. Com a bendita pega correta e muita pomada de lanolina tudo passou. Amém!

Eu também deveria ter preparado melhor o mamilo antes. A minha pequena sugava com uma bruta força desde o primeiro minuto e o meu peito era muito sensível. Eu deveria ter tomado sol, luz, esfregado mais, para tirar mais a sensibilidade do seio. Hoje eu faria diferente na preparação. A minha sorte é que eu deixei de ser teimosa e procurei o grupo de amamentação da Andréa no Cacá. Puxa!!! Como me ajudou. Foi tudo de bom. Consegui tirar minhas dúvidas, a corrigir meus erros. Maravilha. Recomendo a todas!

Meu sétimo erro foi achar que a amamentação é igual para todas mulheres. Para mim foi e ainda é uma experiência única. Passei por muitos momentos diferentes; neuras sobre ganho de peso; quantidade de leite; horários; fórmulas mágicas. E cada uma de nós passa por outros tantos momentos. O importante é achar com quem compartilhar e como enfrentar as questões e internalizar tudo isso para ir se tornando mais mãe. :D

Beijos de luz

Pat Angelini mãe da Lis de quase 6 meses.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Meu relato de amamentação

Especial para mães cujos bebês não se encaixam nas curvas de peso!

Aviso aos leitores: esse texto é sobre minhas experiências e minhas verdades. Como li certa vez nas palavras de um monge budista: “não há verdade que mereça esse nome que não seja a que vem de dentro”.

Meu nome é Graziela e sou farmacêutica homeopata e terapeuta floral. Me orgulho de não ser vacinada e de praticamente nunca ter feito uso de drogas químicas (medicamentos alopáticos) para qualquer alteração no meu estado de saúde. Minha filha nasceu de parto natural, em casa após uma gestação tranquila regada com muita meditação, prática de ioga, terapia floral e muito, muito estudo sobre a melhor forma de trazê-la ao mundo. Nunca sequer questionei minha decisão de ter um parto sem intervenções: minha confiança na minha natureza de fêmea feita para a maternidade sempre foi maior do que qualquer medo ou dúvida que pudesse ter.

Sobre amamentação, achava que sabia tudo que importava: que não havia mulher sem leite e que era balela o papo do leite fraco. Lia mensagens de alguma mulheres com dificuldades mas achava que se tratava de despreparo, falta de confiança, e até um pouco de preguiça eu confesso! Tinha a mais absoluta certeza que bastava a vontade de amamentar, colocar o bebê no peito e pronto a mágica estava feita! Aliás, tinha o sonho e a pretensão de ajudar a abastecer algum banco de leite (tinha até as instruções e uma lista dos bancos guardada). É, não foi bem assim que aconteceu...

Carina nasceu pesando 3,575kg. Depois de 4 dias apresentava uma perda de 395g. Se não me engano foi aí a primeira vez que ouvi falar de complemetação. Ao que parece o leite ainda não havia descido... levei um pequeno susto mas nada a ponto de me perturbar. Ao contrário de muitas mulheres não estava tendo grandes dificuldades: o peito só doeu um pouquinho nos primeiros dias, o leite não empedrou, não tive febre, o peito não rachou (passava uma pomada feita pela minha mãe também farmacêutica com azeite, mateiga de cupuaçu e báslamo do peru – o ó). Depois de três dias já estava de volta ao 3,275kg e agora o leite descia de fato. Tudo calmo e tranquilo, até que...

Com 18 dias resolvi começar o acompanhamento homeopático da minha pequena. Não havia nada errado, mas como homeopata sei que quanto mais conhecimento o médico tem a respeito de seu paciente mais assertivo ele é no momento de medicar e mais rapidamente o organismo volta ao equilíbrio. Não consigo imaginar um jeito melhor de estabelecer esse vínculo do que começando no berço! E aí veio a surpresa: A Carina havia perdido peso: estava com 3,250kg. A primeira suspeita foi de infecção urinária e não vou me ater aqui à complexidade de colher urina de um bebê de menos de um mês. O que importa é que a hipótese foi descartada. Bom, então talvez eu estivesse fazendo alguma coisa errada: oferecia o peito e depois de algum tempo (não olhava para o relógio para ver quanto), quando ela soltava achava que já tinha esvaziado aquele e oferecia o outro. Naquele dia fiquei sabendo sobre leite anterior (o leite magro, cheio de imunoglobulinas mas de baixa caloria) e leite posterior (com mais gordura, sem gosto - eu experimentei - e mais difícil de sugar). Fui embora disposta a corrigir o erro e ver tudo entrar no eixos. Voltei no dia seguinte ao consultório e... nada! Nem 1g!!! Mais instruções, mais expectativa. No dia seguinte mais uma pesagem e nada de novo. Foram 5 dias de pesagem sucessivas e só 10g de ganho. O "normal" é cerca de 30g por dia...

A essa altura a médica, super incentivadora da amamentação, também já estava falando em complemento. E eu estava pirando: meu parto foi uma reafirmação de quem eu sou, das minhas crenças e daquilo ao qual dedico minha vida de trabalho. Dar leite artificial para minha filha era uma descontrução muito grande. Fugi do consultório, pedi socorro na lista de amamentação e para minha terapeuta floral. O apoio que recebi foi fundamental para me colocar no eixo de novo, em especial das outras mulheres que me relataram experiências parecidas com a nossa (e bem sucedidas). Passados alguns dias a médica veio nos ver em casa e fizemos nova pesagem. Ela havia ganho 70g em três dias, o que tanquilizou um pouco os ânimos.

EXISTEM MIL MANEIRAS DE MAMAR...

...INVENTE A SUA!

Só voltei ao consultório mais de um mês depois. Tudo na minha filha me dizia que ela estava bem: era um bebê ativo, suas funções fisiológicas estavam em perfeito funcionamento e quando se punha a chorar esbanjava energia: a vizinhança inteira a conhecia pelo choro, o que para mim era um indício muito claro de que ela não estava passando por nenhuma privação! Na nova pesagem ela estava com 3,680kg. Um ganho de pouco mais de 100g mais de 2 meses depois do nascimento. A pediatra estava preocupada, me pediu para voltar em 15 dias. E apesar de nesse meio tempo a pequena ter engordado mais 110g ela não estava convencida. Ainda recomendava a complementação.

Foi nessa fase que a família também entrou em ação. Começaram os telefonemas de parentes preocupados pois a Carina estava muito pequena, ninguém via meu peito cheio, eu sofria de um problema genético: nenhuma das mulheres mais próximas a mim teve êxito na amamentação. Sei que a preocupação era legítima, sei que a intenção era ajudar. Mas ninguém ali tinha conhecimento profundo sobre o assunto e acabou que as intervenções foram extremamente tóxicas e prejudiciais ao nosso processo. Nos momentos mais difíceis corri para a Matrice, e novamente e sempre o apoio das mulheres Maternas foi fundamental. Uma dica das mais preciosas que recebi que abro parênteses para comentar foi a de tirar o leite e derivados da minha alimentação. Eliminou completamente os gases estomacais que estavam se tornando tão constantes que a pequena em alguns momentos desistia de mamar - era um arroto a cada três sugadas...

Por outro lado eu comia tudo o que diziam que dava leite. Canjica, mingau de aveia (feito com água de ameixa), salada de escarola crua, um tal de pirão de fubá e galinha caipira pra mulher parida do qual não posso nem lembrar o cheiro - o frango já não fazia parte do meu cardápio há algum tempo... O resultado disso foi que eu, que havia ganho apenas 12kg na gestação e que em 15 dias já havia eliminado 9 voltei a engordar: um total de 18kg...

O que de fato fez alguma diferença? Tomar cerca de 5L de água ao dia. Aí sim senti meu peito encher. Mas em relação ao peso, muito pouco impacto. Mas agora não era porque não tinha leite, e sim porque o leite era fraco! Cheguei a ouvir de médicos da família (que são otorrinos) que ela teria deficiências auditivas devido ao baixo peso. Sim, nessa hora as pessoas esquecem a diferença entre baixo peso e desnutrição! Meu marido mede 1,69m e pesa (depois de ter engordado com o casamento) 60kg. Eu brigo com a balança desde os 8 anos de idade e nesse período ouvi um dos comentários mais dolorosos de toda a minha vida: que eu não queria complementar a amamentação pois tinha medo que minha filha fosse gorda (só faltou a pessoa dizer: "como você")! Ok, sei que o número de células adiposas que vamos carregar vida afora se formam na primeira infância, mas daí a achar que eu valorizaria isso mais do que a saúde da minha filha...

Nesse ponto tomei também outra decisão importante. Resolvi trocar de pediatra, e voltar ao pediatra que atendeu meu parto e que é considerado especialista em amamentação. Além da pressão da família por uma segunda opinião achava que não era justo colocar a colega homeopata em tamanha saia-justa: ela não se sentia segura em nos acompanhar da maneira que eu estava conduzindo o processo. Ao procurar o novo pediatra, em momento algum tive a intenção de tranferir a ele a responsabilidade sobre minhas decisões. Queria alguém que olhasse o quadro sem preconceitos, tivesse sensibilidade suficiente para perceber o desenvolvimento que estava além da curva de pesoXaltura e que tivesse tranquilidade suficiente para nos acompanhar. E aqui preciso dizer: para isso o Dr.Cacá é o cara!

Ele foi muito claro comigo: menos de 10% da população brasileira tinha uma curva como a da Carina. Pra quem tem uma dessa em casa (eu cheguei a fazer uma xerox mas nunca preenchi), ela estava naquela temida área vermelha, lá embaixo (quase encostando na linha de baixo). A altura também estava abaixo (não tanto quanto o peso). Mas no mais ela apresentava um desenvolvimento perfeitamente normal. Foi nesse dia que descobri que ela já brincava - pra mim bebês até começar a engatinhar sómamavam, faziam cocô, choravam e dormiam... Perguntei se ele topava nos acompanhar e a resposta foi algo como "vambora!"! Chegamos a falar em tentar tirar o leite com uma bomba elétrica (eu já havia tentado duas manuais sem sucesso) mas no final da consulta ele achou que isso poderia me deixar mais neurótica se de repente eu tivesse dificuldade. Pela força das circunstâncias dei um desconto para o "mais"....

Bom, aqui a Carina estava com 3 meses e pouco e não havia ganho ainda 1kg desde o parto. Aliás, isso só aconteceu do quarto para o quinto mês. E ela usou roupas de recém-nascida até os 6 meses. Hoje quando vejo as fotos entendo porque as pessoas na rua me perguntavam se ela era prematura... Mas na época isso quase me enlouquecia. E eu tinha que recorrer as minhas lições de homeopatia, que enfatizam a INDIVIDUALIDADE como única referência para a saúde. As curvas são médias coletadas sabe-se-deus em que tipo de população, levando-se em conta quais viéses. Servem para dar uma idéia, mas usá-las como verdade suprema é um erro. Minha filha é prova disso.

Mas por ironia do destino foi justamente no congresso de homeopatia do qual participei quando a Carina estava com 5 meses é que "apanhei" mais. Fui questionada à exaustão por colegas que não se convenciam de que não iriam me convencer a complementar a amamentação. Também insistiam muito na introdução de alimentos. Tempos difíceis.

Faltavam cerca de 10 dias para a Carina completar 6 meses quando meu carro quebrou no Ipiranga (moro em Perdizes). Era hora do almoço e eu estava longe da minha filha. Quando finalmente consegui chegar minha mãe havia dado uma pêra para ela. Foi quando cedi. Comecei a introdução. Sem regras, sem pressa, e sem restringir nem um pouquinho a amamentação: se ela queria mamar e era hora do almoço, o mamar era prioridade. Não cheguei à perfeição dos 6 meses exclusivos como ansiava, mas dadas as circusntâncias fui longe, muito longe.

Algumas pessoas podem pensar que pra mim foi mais fácil: sou profissional de saúde, ainda mais da área alternativa. Mas para os desavisados: acima de tudo sou mãe de primeira viagem. A minha insistência, minha teimosia foi pautada pela minha certeza de estar fazendo o melhor para ela, mas essa certeza foi extremamente questonada e pressionada ao longo de 6 meses. Se estou certa ou não, só um futuro longínquo vai dizer. O que posso dizer, agora corujando um pouquinho, é que o desenvolvimento intelectual da minha filha deixa a todos preplexos. Amante da música, recita o "pato pateta" inteiro desde 1 ano e meio. Já reza para o anjo da guarda e com menos de 1 ano e 11 meses canta "como é grande o meu amor por você" (cantava pra ela desde o útero), além de já saber calçar os sapatos. O peso? Agora está um pouquinho acima da curva, assim como a altutra. É uma magrela de coxas grossas. Quando se enquadrou? Não tenho muita certeza, acho que lá pelo oitavo mês. Sumi do consultório quando ela estava com 9 meses e só voltei com 1 ano e 10m para trocar uma idéias com o queridíssimo Dr.Cacá.

E a Carina ainda mama no peito. Livre demanda, inclusive nas madrugadas (quase 2 anos sem dormir uma noite inteira - porque nas raríssimas vezes que a pequena não acordou para mamar eu acordei mais vezes que o usual para ver se estava tudo bem). Só agora começo a colocar algumas regrinhas, como não mamar andando pela rua pois ela está pesada e já não aguento mais carregá-la (engraçado, devido às Carina com 4 meses e 12 dias (e menos de 4,5 Kg)minhas lutas com a balança meu peito já era caído antes e achava que ia ter vergonha de amamentar em público - mas virei a rainha do peito-de-fora pelas ruas de Perdizes)...

Mas é tudo explicado, e ela já é capaz de entender as restrições. Quando me perguntam até quando vou amamentar digo que pelo menos até os dois anos, como recomendado pela OMS (embora a maioria considere exagero é difícil arrumar argumentos para contestar a OMS...). E depois? Não sei, vamos ver juntas.

Amamentar para mim vai muito além de alimentar, de doar anticorpos. É um ato de amor, é um ato de doação de alma, de criar um vínculo de afeto e segurança que esse serzinho vai levar pela vida afora. Embora tenha sido um começo difícil, passaria por tudo novamente pois não há nada no resultado que me faça questionar se valeu ou não a pena. Quando olho para minha filha hoje, o único arrependimento é não ter me informado mais para enfrentar a tempestade com mais tranquilidade. Espero sinceramente que meu relato sirva para tranquilizar outras mães e seus familiares, e que tire um pouquinho do peso das costas daquelas que ousam assumir a responsabilidade de nadar contra a corrente.

Não vou nunca cansar de dizer (e agradecer) que o relato e o apoio de outras mães foi fundamental para que eu chegasse até onde cheguei. A terapia floral também foi uma pedra muito importante nessa construção, assim como os cuidados incríveis do Dr.Cacá. Também não poderia deixar de agradecer à minha própria mãe, que embora não tenha conseguido nos amamentar ficou firme do meu lado, aguentou muita pancada da família e dos amigos da área da saúde e filtrou o quanto pode para que as preocupações gerais não chegassem a mim, mesmo estando ela mesma bastante insegura.

Para as que gostam de números seguem abaixo os que tenho. Deixo ainda meu contato pessoal para que aquelas que precisarem se sentirem à vontade em me procurar: pra trocar idéias, desabafar, pedir um colo:

gragarbi@hotmail.com

E muito leite para todas!


Graziela Garbi, em 14/03/2011