quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Tenho alergia a drama"

**Por Anne Rammi**

Sabe o que acontece quando você é amiga do pediatra dos seus filhos, e ele, mais do que zelar pela saúde da criança, zela pelo coração e mentes da família toda? Você comenta numa postagem de uma amiga em comum e ele aparece serenamente na sua mensagem dizendo: vamos desenvolver esse tema?

A alérgica a drama sou eu. Mãe de três, pessoa adulta e, para tornar esse desenvolvimento um pouco mais fácil, pessoa de capricórnio (sim, eu vou começar culpando o meu signo para falar desse assunto espinhento que é o turbilhão emocional ao qual estamos constantemente expostos quando criamos e educamos crianças pequenas - e me parece que as grandes também e os adolescentes, deus nos ajude! -  e quem sabe, pessoas de áries, sagitário, escorpião e um monte de lua em câncer).

Cabe contar que desde que eu tive meu primeiro filho, me enveredei pelas práticas mais humanizadas de criação. Sempre gostei de um chamego intenso, muito colo, muito peito (suspiros em homenagem). E sempre me permiti, apesar da minha casca grossa, estar nesse lugar emocional, meio que sem me preocupar com qualquer conseqüência, boa ou ruim.

Acontece que a vivência da maternidade tem me levado a tirar conclusões interessantes sobre a tal "criação com apego" ou seja lá qual for o nome para essa tendência que vivemos no nosso micro-universo (que devo registrar aqui, um universo de privilegiados) de estar em plena fusão de emoções. E sei lá, ou a gente anda fazendo isso muito errado, ou o apego tem mesmo um prazo de validade.

Serei sincera: há um limite em mim de acolher qualquer tipo de emoção alheia, e ele está diretamente ligado ao tamanho dos meus bebês. Vou chutar que deve ser em quilos. Eu aguento drama forte até uns 12/ 15kg. Começou a passar disso, me empipocam as alergias. E há dramas que eu não consigo lidar.

Claro que essa é uma metáfora para falar do que preciso aqui: estou conhecendo o meu limite, como mãe e gente, para dar conta do que é minha emoção e do que é a deles e quais são os assuntos onde devo me meter e onde não devo. Quando serei a mãe do Caillou e quando serei a mãe do Charlie Brown. 

Um bebê inconsolável que está totalmente frustrado porque eu tirei o garfo que ele enfiava na tomada encontrou em mim um porto de conforto. Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, mamãe sabe que você queria muito, mas realmente não será possível. Quer mamar? Olha esse outro brinquedo? Vamos invocar a Margarita Valência e criar umas barreiras físicas para essas tomadas. Totalmente Mary Poppins.

Agora uma mini pessoa que já pode limpar a bunda sozinho entra numa disputa de horas de choro ardido e sem lágrimas, por um pedaço do resto do adesivo que descolou da parede velha, com a outra criatura que já calça quase trinta e tem chulé... Caramba, minhas colegas, será que foi o excesso de colo? São mimadas essas criaturas? Vamos jogar essa tralha no lixo? Precisam mesmo da minha ajuda para resolver esse tipo de dilema? Vai logo minha gente, argh! Às vezes baixa a diretora da escola da Matilda.

Os grandes estudiosos da educação levantarão teorias sobre os pedidos deslocados "há alguma coisa incomodando, é preciso saber ler o que está por trás". "O objeto é a extensão da criança" e não importa que seja um bagulho catado no lixo, se é importante para ele, deve ser tratado com respeito. "Os adultos precisam estar centrados para não despejar sua frustração nas crianças". E todas as sugestões de psicoterapia, vai fazer yoga, consuma alimentos macrobióticos, aceita jesus e outras indicações de vida-zen (que eu finjo não escutar, porque... né? aqui é punk-rock-anarquia)

Ok, eu concordo com os estudiosos, eles são ótimos e devem ter ficado muito tempo lendo e escrevendo seus livros enquanto alguém arrumava espaço emocional para lidar com os mais variados dramas, como "ele pegou o azul que tem bolinhas e minha cor favorita é o rosa então eu preciso desse e ele falou semana passada que meu cabelo era feio porque a pulseira do pokemon sumiu".


via GIPHY (eu quando começa o drama)

O que seria da teoria sem a prática não é mesmo? 

Quando os dramalhões dessa estirpe acontecem eu vejo um claro limite no meio do meu peito, uma agonia de não dar conta dessa intensidade, é tão nítido que eu não tenho espaço para lidar com aquele drama, que me baixa a criação com desapego: olhar fuzilante, cara de desprezo para o pedaço de resto de adesivo, e de vez em quando um sermão ao estilo anos oitenta: VOCÊS VÃO PARAR OU QUEREM QUE EU PARE!??

Dentro dessa ótica, de descobrir limites, tento manter a minha consciência clara: não endosso violência física, mas sou humana também nessa relação. Se o drama me faz mal, eu tento me afastar dele. A consciência do limite - meu e do que eu acredito ser certo - é o que segura a forte emoção de apelar paras as estratégias mais eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas como: ENGOLE ESSE CHORO! ME DÁ AQUI ESSA PORCARIA DUAS SEMANAS SEM TEVÊ! e coisas do tipo.

Longe de mim dar dicas, mas eu peço com recorrência que se acalmem, tomem uma água e tentem falar comigo sem miar. "Mamãe não entende nada quando você fala desse jeito, melhor me explicar sem chorar para ver o que eu posso fazer". Firme e gentil, enquanto por dentro eu me vejo arranhando minha própria cara "para, para, para de miar, fala direito peloamordedeus!! onde foi que eu errei!!!"

Outra coisa que tenho percebido é que mandar resolver sozinho, acaba resolvendo mesmo. Demora mais tempo e às vezes são soluções tortas (tipo, um soco na cara do irmão e pronto! peguei o que eu queria, resolvido!). Mas poxa vida camarada, eu mesma não sei resolver todos os meus problemas com maestria, deveria esperar que eles soubessem? 

A última coisa que quero deixar registrado é que, apesar da minha consciência de limites quanto às minhas atitudes, eu escorrego direto para as emoções e estratégias eficientes, incríveis, terapêuticas duvidosas. Gente do céu, o mais velho tem sete anos, eu já devo ter gritado uns dois mil decibéis somados! Também não ignoro as minhas próprias falhas, vou lá e peço desculpas. Fazer o que né? Às vezes, imediatamente depois do meu xilique: "errei galera, perdi completamente a paciência, vocês sabem que a mamãe não reage bem a esses dramas. Vou tentar ser mais gentil, mas por favor, colaborem vocês também."

E sigo eu a tentar me acalmar, também, a regra tem que valer para todos. Bebo uma água, desapego do que não parece importante e tento resolver comigo mesma, sem causar mais drama. Afinal, tenho alergia! 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Amamentação: Precisamos falar de prazer

Quando observamos a Amamentação sob a luz da ciência nos deparamos com impressionantes dados sobre a superioridade nutricional do leite materno, sobre o favorecimento do desenvolvimento cognitivo do bebê amamentado, sobre os benefícios para a saúde da mãe e todo o rol de proteção e prevenção também para a saúde do bebê.

As descobertas acerca da composição do leite, processos fisiológicos de sua produção, tipos de leite perfeitamente elaborados para cada situação de cada bebê são surpreendentes. É tecnologia de ponta, essa coisa de amamentar. 

Tanto que não há fórmula no mundo que chegue perto dessa qualidade, por mais avançada que seja a indústria. E sobre isso, todos nós lactivistas, nunca iremos discordar. As campanhas dos órgãos públicos ficam focados em difundir este conceito : Benefícios do aleitamento para a mãe, o bebe e a sociedade !

Mas temos observado que quando as discussões sobre amamentação são encabeçadas pela "superioridade do leite" e outros tantos benefícios, perdemos a chance de debater, e em especial de VIVER, aspectos humanos desse processo, transformando o ato de amamentar em uma meta a ser atingida e o próprio leite em um produto. "A escolha pelo melhor". 

Mas quem irá praticar este aleitamento ? Conhecemos as necessidades desta produtora de leite materno? Sequer ela existe? Tem medos, fantasias ou uma historia de vida? Estamos interessados em conhecer esta mulher?

Ilustração por Paulien Maria
Tratar esta questão de aleitamento na forma de que é o melhor para todos, faz de nós consumidores, apenas. Não estamos falando de indivíduos e das possibilidades de encontro entre um bebê e sua mãe. Não estamos falando da vida humana pulsante que queremos e acreditamos ver num recém nascido e numa mulher que acaba de se descobrir mãe. É bastante possível que ela conheça todos estes benefícios de amamentar, mas será que ela confia na sua capacidade e está em condições de viver com potência este papel?

Amamentação sob a luz da humanidade é acima de tudo um lugar no tempo-espaço de descoberta ou continuidade de PRAZER para os dois principais envolvidos, mãe e bebê. Nunca deveria ser "vendido"como obrigação, como uma necessidade extrema. Quando conseguimos olhar para este tema como uma oportunidade de encontro mútuo, como uma possibilidade de viver uma experiencia de prazer entre a mulher e seu bebê, poderemos melhor ajuda-la a conseguir superar as imensas dificuldades que irão aparecer durante esta jornada.

Muita coisa contribui para a amamentação não acontecer. Tem muito para não dar certo. mas enquanto sobrecarregarmos as mulheres com mais esta obrigação, tarefa, função, mais distantes estamos de atingir um lugar aonde mãe e bebê vivam com prazer e alegria este encontro tao especial e mágico.

Precisamos repensar a forma de falar sobre aleitamento materno !
Precisamos falar desse encontro e de prazer!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Classismo e comida de verdade

Todo mundo que quiser participar de um debate precisa ter a habilidade de transitar entre verdades individuais e verdades coletivas. Entre a nossa casa e o mundo. E em cima disso, reconhecer que é possível que várias verdades caibam em um só lugar. Individualmente vivemos embates a cerca de possíveis verdades. Imaginem quantas possibilidades surgem num debate.

A alimentação é um tema sensível dentro da mater-paternidade contemporâneas . Desde que a Bela Gil deu voz a uma reflexão antiga que trata da importância da comida de verdade, estamos vendo uma escalada desse assunto e com ele uma suposta polêmica: comer bem é um privilégio? Comida de verdade é classista? Inúmeros famosos pela arte de cozinhar ou simplesmente por serem famosos povoam os canais de televisão divulgando alguma marca verdadeiramente melhor e mais saudável. O que seria a comida de verdade? Ela é definida pelo poder de compra e portanto pela classe social do consumidor ?

Oras mas é claro que sim. Vamos exercer nossa habilidade de viajar pela amplitude e compreender que talvez na nossa mesa não seja lá um grande desafio substituir a feijoada em lata pelo feijão jalo banhado por 24h e cozido com sal do himalaia. Mas vivemos em um mundo onde pessoas morrem de fome, correto? Comer, em si é um privilégio. Comer bem então... 


No entanto essa reflexão não precisa ser usada para atacar qualquer um que tenha como objetivo ou vontade a alimentação sadia. Dar um novo significado ao prazer de comer repensando a cultura alimentar da própria família, principalmente quando nascem os filhos pode ser muito rico.

A quem serve problematizar a prática da comida de verdade a ponto de "validar" a comida enlatada na mesa de pessoas que, como nós, teriam toda a possibilidade de fazer uma escolha melhor apenas baseado em 1) informação 2) vontade? A quem interessa apresentar uma profissional da TV como dona de casa preocupada em descongelar a comida pre-preparada mais adequada como se ela fosse consumidora deste tipo de alimento?

É certo de que o efeito colateral de criticar a alimentação infantil baseada na chia orgânica (que convenhamos, merece sim alguma crítica) pode ser favorecer o outro lado do pêndulo. E talvez seja essa a tônica desse debate: como refletir e melhorar nosso conhecimento individual sobre isso de modo a não prejudicar conquistas da sociedade? Nossa casa, nosso mundo? Compreendemos que o que comemos e como comemos é o aspecto cultural que mais nos define ?

A indústria de alimentos ultra processados vem perdendo espaço para essa ampliação de consciência e anda sedenta exatamente por esse tipo de embate: é muito interessante para a indústria que estejamos com raiva da colega do lado porque ela dá conta, quer, escolhe, ama, pode, prefere uma comida toda trabalhada na saúde enquanto por nossas próprias condições e peculiaridades andamos escolhendo "o que dá". 

Trago um exemplo do universo vegano. A acusação de que o Veganismo é elitista - porque supostamente substitui alimentos de origem animal por alimentos processados ou mais raros, e portanto caros, como os cogumelos sei-lá-o-que ou o hambúrguer de soja - é bastante plausível. De fato, o acesso à produtos veganos é de um privilégio sem fim, em um mundo (novamente, para a gente não se acostumar com esse absurdo) em que crianças morrem de fome. No mesmo tempo essa crítica é equivocada que só ela, e parte de um lugar de algum desconhecimento da prática. Primeiro porque a vida vegana é extremamente acessível e é a falta de informação que faz as pessoas acreditarem que precisarão trocar a linguiça de porco pela linguiça de soja. Não é exatamente essa a proposta. Além disso, no grande espectro, o Veganismo é um fator de economia sem precedentes. Porque invoca uma utilização absolutamente sustentável da natureza. Portanto uma crítica rápida como "Veganismo é classista" acerta em cheio em um panorama e é completamente errada em outro. 

Duas verdades no mesmo lugar.
Nao podemos esquecer que os altos preços praticados quando se retira um elemento como lactose, glúten, ou mesmo a carne levam a uma confirmação de que é para poucos comer sem isso ou aquilo.

Concluindo: alimentação saudável é classista sim. Precisamos tomar um cuidado enorme para que não se aumente essa distância entre aquele que come quando tem e aquele que pode optar por não comer. Mas ainda assim é de suma importância que comer bem esteja na pauta e que as pessoas que levam essas reflexões para frente possam atuar com liberdade, possibilizando informação. 

O contrário disso, não nos favorece, nem em casa nem no mundo.  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

“Destruam todas as rocas”

*Por Bianca Santana

“Destruam todas as rocas”, ordenou o pai de Aurora para livrar a filha da maldição de furar o dedo e adormecer. Sabemos como segue o conto de fadas: anos mais tarde, a princesa fura o dedo em um fuso escondido em uma das torres do castelo. Bela Adormecida, encantada com o instrumento desconhecido, faz cumprir a profecia.

Sempre lembro da história quando o assunto é criança e tecnologia. Proibir o uso das telas – seja de celular, tablet, computador ou da televisão – me parece pouco estratégico, porque perdemos a oportunidade de educar para o uso destes dispositivos. Podemos até ter a sensação de pleno controle em determinada idade. Mas com o passar do tempo, e o acesso a mundos que pouco controlamos (mais conhecidos como a casa de parentes ou de amigos), nossas possibilidades de controlar vão diminuindo. 

O que fica é o que ensinamos e as relações de confiança de construímos. E como ensinar um uso saudável e seguro das tecnologias? Se você mesmo passar horas e horas em mais conexão com as telas que com as pessoas, qualquer discurso vai perder força frente ao exemplo. Estabelecermos nós mesmos relações de equilíbrio com o digital me parece essencial. Além disso, oferecer a oportunidade de brincar ao ar livre em praças, parques ou no quintal vai ser sempre muito interessante, nem precisa colocar como contraponto à tecnologia. 

Cena da versão Disney para o clássico da Bela Adormecida

Convidar para a leitura no papel, cozinhar, conversar, pintar, moldar, os jogos de tabuleiro... Apresentar inúmeras possibilidades de diversão constrói um repertório no qual o aplicativo do celular é apenas uma delas. Aqui em casa, quando o pai apareceu com um tablet, delimitamos dois horários semanais para utilizar o aparelho. Semanas depois percebemos que não era necessário porque o uso livre estava equilibrado nos cerca de 30 minutos a cada dois ou três dias, como havíamos pensado. Mas seguimos observando se estamos na medida. 

Vale ressaltar aqui que respeito e compreendo quem defende que crianças não tenham acesso às tecnologias ou quem acha que o uso livre indiscriminado é válido. Se responsabilizar pela educação de alguém implica tomar as decisões que julgar mais pertinentes, em realidades que são sempre distintas. Esta é minha visão, depois de alguns anos trabalhando com esta temática em escolas e projetos educacionais, e da relação com meus filhos, de 8 e 6 anos, e minha filha de 4. 
Temperança. 
Equilíbrio. 
Busca pela medida. 

Passar o dia na frente da tela é evidentemente nocivo. Mas presenciar minha filha filmando a peça de teatro dos irmãos no quarto de casa com o celular, ou encontrar o filho do meio fazendo buscas sobre os animais da Floresta do Congo me mostram como os usos do digital podem ser interessantes. Fico incomodada quando o mais velho fica vidrado em um jogo na tela, mas melhora bem quando percebo a mesma concentração para montar um lego ou terminar de ler um gibi. Usos ativos e criativos dos dispositivos tecnológicos podem ser mais uma, das muitas brincadeiras das crianças urbanas. 

*Bianca Santana é jornalista e professora. Doutoranda em Ciência da Informação e mestra em Educação pela USP.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Que bom que ninguém sabe se é importante ou não aprender a escrever à mão livre."

*Por João Carlos Ferreira

Daniel Kahneman é um psicólogo que ganhou um prêmio Nobel em... economia. Ele escreveu um livro denso e excelente sobre como nós, humanos, funcionamos chamado Thinking, Fast and Slow (Rápido e Devagar - Duas Formas de Pensar). Quando me pediram algumas linhas sobre infância e tecnologia, o livro de Kahneman veio imediatamente à mente: o tema é quente, as opiniões são fáceis, mas as certezas não passarão de ilusões, nosso cérebro se convencendo de algo não provado e que não se pode provar.

Os extremos são fáceis de condenar. Uma criança que passe as tardes em frente à televisão (meu caso nos anos 1970), computador ou vídeo game pagará preços altos de saúde e socialização. Uma criança sem acesso algum à tecnologia terá um déficit de conhecimento e de capacidade de lidar com o mundo contemporâneo, talvez irreversível.

Qual então o meio do caminho aceitável? "Dosis sola facit venenum" (“Só a dose faz o veneno"), Paracelsus, dritte defensio, 1538.

Já li especialistas condenando o acesso a smartphones por crianças pequenas. Meu filho mais novo já deslizava o dedo na tela antes de caminhar. Aos cinco anos, ele assiste a cerca de 60 minutos de filmes (Youtube e Netflix) por dia e fica satisfeito, sai imediatamente para brincar com as ideias desenvolvidas ao assistir os vídeos.

Fonte da Imagem 

A formação de uma pessoa não é um evento repetitivo e de curta duração que nos permita apreender muitas regras absolutas por mera observação ou, mesmo, com sofisticados protocolos de pesquisa. Por isto, felizmente, no acesso à tecnologia durante a infância ainda temos um espaço privilegiado de experimentação, um espaço no qual pais e educadores podem atuar de acordo com seus valores e princípios, sabendo que não errarão muito, nem acertarão por completo.

E por que “felizmente”? Você já parou para refletir sobre quanto do nosso comportamento deixou de ser uma decisão individual e passou a ser uma imposição da sociedade? Do uso do cinto de segurança à idade de ingresso na educação formal, do leite pasteurizado ao conteúdo que se pode ter acesso, somos cercados por regulação abrangente e crescente. Que bom que ninguém sabe nos dizer o que acontecerá de diferente entre uma criança que passe duas ou quatro horas fazendo uso de gadgets por dia, que bom que ninguém sabe se é importante ou não aprender a escrever à mão livre. Aproveitemos esta rara liberdade das famílias escolherem seus caminhos.

* Membro da International Coach Federation, capítulo São Paulo

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"É natural o uso da tecnologia e da linguagem midiática na infância." - por Rosa Bertholini

AS CEM LINGUAGENS DA CRIANÇA

Loris Malaguzzi


A criança é feita de cem.

A criança tem uma centena de línguas,

cem mãos, uma centena de pensamentos,

uma centena de maneiras de pensar, de brincar, de falar.


Uma centena. 

Sempre de uma centena de modos de escutar

de admiração, de amar, cem alegrias

para cantar e compreender, 

cem mundos para descobrir,

cem mundos para inventar,

cem mundos para sonhar.


A criança tem uma centena de línguas

(E um cem cem cem mais)

mas eles roubam 99.

A escola e a cultura separa a cabeça do corpo.


Dizem-lhe:

de pensar sem as mãos,

fazer sem cabeça

para ouvir e não falar,

de compreender sem alegria,

de amar e de maravilhar-se

só na Páscoa e no Natal.


Dizem-lhe:

para descobrir o mundo já está lá

e do cem

eles roubam 99.


Dizem-lhe:

que trabalho e lazer

realidade e fantasia

ciência e imaginação

o céu e a terra

razão e sonho

são coisas

que não pertencem juntos.


E assim eles dizem que a criança

que o cem não existe.

A criança diz:

De jeito nenhum. O cem é lá.




INFÂNCIA E TECNOLOGIA


*por Rosa Bertholini

Como educadora os assuntos que permeiam a infância em seu território poético e potente me chamam a atenção e me levam quase que por impulso vital correr atrás de informações, opiniões, estudos que possam colaborar em minhas reflexões e, principalmente, que possam permitir ações equilibradas que não se reduzam a discursos morais e politicamente corretos. 

O uso das tecnologias na infância ultimamente vem ocupando espaços significativos nas rodas de conversa, desde as acadêmicas, científicas e profissionais que atuam diretamente ou não com a infância e profundamente nas famílias.

A tecnologia na sociedade contemporânea passou a ocupar um lugar de referência na vida profissional, na aquisição de conhecimento, no lazer, nas relações e, as crianças nascidas nesse novo século, onde a tecnologia é o alicerce da modernidade e das ações do meio social, crescem sustentadas pelos tabletes, celulares, computadores, games, netflix, redes sociais, etc.

Os nossos temores na verdade, perpassam pelo impacto que o uso indiscriminado das tecnologias pelas crianças possa atingir o seu desenvolvimento emocional, cognitivo e a sua saúde física e mental. 

Esses dias tive acesso a uma pesquisa interessante realizada pela AVG Technologies, com famílias de todo o mundo, onde mostrou que 66% das crianças entre 3 e 5 anos de idade conseguiam usar jogos de computador, 47% sabiam como usar um smartphone, mas apenas 14% eram capazes de amarrar os sapatos sozinha. No caso das crianças brasileiras, o levantamento apontou que 97% das crianças entre 6 e 9 anos usam a internet e 54% têm perfil no Facebook.

Parto então por um caminho que considero mais seguro, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, pois penso e venho em minha prática educativa, cada vez mais me aproximando do “caminho do meio”, todo exagero faz mal. 

Em maio participei de um grupo de estudos nas escolas de infância em Reggio Emilia, cidade ao norte da Itália, onde uma das mesas o tema foi “Natureza digital – investigação da creche à escola primária”, onde a pedagogista Maddalena Tedeschi trouxe algumas reflexões. A criança desde cedo brinca com o imaginário, o digital permitiu de maneira mais próxima, mais natural a realização disso, o potencial de imagens da criança se expande, o digital casa bem com mente complexa. Somos hoje naturalmente digitais.

Penso então que é natural o uso da tecnologia e da linguagem midiática na infância. Me reporto ao poema de Loris Malaguzzi “As cem linguagens da criança” onde poeticamente descreve a potência da infância através das centenas de linguagens que ela possui. O conhecimento não pode estar separado do mundo, e para ter significado e gerar aprendizado precisa estar contextualizado com a realidade das crianças, e os recursos tecnológicos, midiáticos e digitais também entram nesse contexto.

Fonte da Imagem

As indagações que nos inquietam é conjugar essa linguagem com todas as infinitas possibilidades das outras linguagens. É preciso abrir o debate sobre a relação entre as linguagens midiáticas e a infância, além de como os recursos tecnológicos, digitais e as mídias estão presentes e sendo utilizados.

Não é tarefa fácil encontrar a medida certa no uso das ferramentas tecnológicas pelas crianças, mas é responsabilidade nossa, dos adultos, cuidar dos nossos meninos e meninas para que possam significar suas investigações, levantar suas hipóteses, criando e recriando seus significados. 

Permitir ou não permitir, limitar ou não limitar o tempo de uso, não é necessariamente a solução. 

Cabe sim estarmos presentes nas descobertas da infância, cabe sim exercitarmos o diálogo respeitoso, cabe sim desenvolvermos uma escuta atenta, e isso só é possível no contato humano, tarefas que nenhuma tecnologia poderá substituir!

* Pedagoga, fundadora da Escola Teia Multicultural e diretora pedagógica da Educação Infantil. Pesquisadora dos encantos da primeira infância – de 0 a 6 anos. Mãe de 4 filhas que já foram crianças, vó de 6 e tutora de umas 100 crianças que alegram e dão sentido a minha missão de educadora.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Infância e Tecnologia: resistir numa bolha ou sucumbir?

* Por Courtnay Guimaraes Jr.

Ao receber o convite para escrever sobre tecnologia e crianças (Das pequeninas às maiores), bateu uma esquizofrenia existencial. Desde que me entendo por gente, tecnologia sempre fez parte da minha vida (e olha que lá se vão 46 solstícios de vida). Mas antes, ela vinha disfarçada de cotidiano e não me impedia de viver um universo físico mais amplo do que se dispõem as crianças, em especial as habitantes das grandes cidades… Como cientista e tecnólogo (trabalho com ciência da computação há 31 anos), tendo a ser extremamente pro-tecnologias. Como pai de três infantes de menos de 4 anos, reflexões mais profundas me atormentam… O debate é amplo, mas geralmente falamos de tecnologia num contexto restrito às telinhas e telonas (Com ou sem joysticks) da tão propalada sociedade digital. Mas não se limita apenas a este contexto. Dentre devaneios, conversas intensas de pais, filosofanças vãs e discussões apaixonadas e acaloradas, enfrentamos dilemas e escolhas sobre umas tantas, como por exemplo: 

Imagem: Freepik
• Remédios são tecnologias. Assunto mais que polêmico atualmente, mas a alopatia é a parte mais aguda dessa crise tecnológica. Hipermedicação já deveria ser considerada até epidemia, uma vez que as superbactérias estão ai para provar o efeito nefasto. Mas e aquela dipirona mágica que resolve a febre insistente? Claro, há alternativas. Mas vale a pena? Ou porque não valeria? Debate amplo… • Vacinas são tecnologias. Correntes pró, correntes contra, vão se digladiando diariamente (de preferência apenas em meios virtuais). Um debate importante mercê um espaço mais amplo do que existe atualmente, afinal, qualquer inovação que não passou de um século ainda não tem seus efeitos completamente mapeados. Neste aspecto, meu lado tecnólogo e cientista pesa muito mais, portanto, sou pró-vacinas neste aspecto. 

• Comida industrializada é tecnologia. Para alimentar os bilhões de seres humanos que pululam nosso limitado planeta, foi desenvolvida uma gigantesca massa de conhecimento para industrializar e transformar alimentos para todos. Com benefícios e malefícios (estes últimos ainda desconhecidos), sabemos que hora ou outra cedemos a um “industrializado”. A vida moderna quase que impõe praticidade e é quase impossível fugir desta tecnologia, principalmente nos países de primeiro mundo. Mas aqui venceu o neto de cacauicultores, criado quase que no mato: Comida só feita na hora, de preferência com alimentos organicamente cultivados, ao máximo possível (item do próximo tópico). 

• Agroindústria alimentícia é tecnologia. Meus primeiros anos de trabalho com tecnologia foram justamente na agroindústria. De melhoramento de rebanhos lá nos anos 80, a gestão financeira de fazendas, sempre acompanhei de perto esta evolução. Perdi a inocência neste sentido muito cedo. De sementes transgênicas a todo tipo de fertilizante, de pesticidas de efeitos completamente desconhecidos a rações com todo tipo de enriquecimento químico, há de tudo. Técnicas de clonagem (animal e vegetal) são a única maneira de se produzir abundante e economicamente a quantidade necessária de alimentos. Peixes confinados, a base de rações, complementam a lista. Mas, impossível esquecer a moderna tecnologia de pesca, devastando espécies. Novamente, o menino criado no mato fala mais forte. Ao máximo, evitamos, mas confesso que 100% da carne bovina, ovina, suína e aves, são industriais. Peixes ainda conseguimos alguma produção ribeirinha, mas ou vêm de pesca industrial, ou de cativeiro (camarões, salmão, etc). Aqui, somos reféns humanos das limitações que nós mesmos produzimos para sobreviver em nossas enormes concentrações. 

• Transporte é tecnologia. Como vivo em São Paulo, impossível viver sem carro. Mas já incutimos nas crianças a inviabilidade de andar em coisas anteriormente cotidianas. Andar de ônibus foi uma aventura (antes só vista nos desenhos da BBC). Metrô, contados nos dedos de um dos gêmeos. 99% do tempo, caro, movido a petróleo. Num conjunto de outros, que geram a inversão térmica, o clima seco e as famigeradas bronquites de inverno. Novamente, me sinto vítima. Adoraria umas pedaladas com as crias, mas, mais que segurança (atropelamento mesmo), tudo é distante aqui nesta cidade. 

• Controles de ambiente são tecnologia. Estou falando de ar-condicionado, humidificadores, aquecedores e afins. Quase não questionamos ligar nossos aparelhos e “harmonizar” o ambiente. Mas a que custo? Será que a longo prazo seremos seres biologicamente melhores, vivendo sempre a 24º e 70% de humidade? Isso cria resistência e adaptabilidade nos pequenos? Por força de saúde, não abrimos mão do humidificador. Do resto, roupas quentes no inverno e crianças peladas no verão, vamos tocando. 

• E o que dizer de mídia? A incrível e manipuladora tecnologia do marketing e da propaganda nos invadem totalmente a inconsciência, coletiva e individual, propalando consumo amplo e irrestrito, se possível, no mais imediato impulso. Veja, clique, pague, mais uma inutilidade é sua. Só que com os pequenos, a proporção é cruel. Quem não ouviu 10398123030123813 vezes a famosa “Lérigou”, não imagina como é cruel uma criança de 3 anos assistir uma peça de aliciamento mental e nunca mais esquecer daquilo, para em seguida ser enxurrada de merchandising. Mas há os lados positivos (ou males menos danosos), como as séries de desenho educativo (Turma Umizoomi é o primeiro exemplo que me vem à mente). E ai? Resistir numa bolha, sucumbir? 

• Fechando uma longa lista de exemplos, a medicina humana é tecnologia pura atualmente, mas existem 3 grandes capítulos neste tema, que valem ser citados. o Médicos x Médicos x Médicos x Médicos: Médicos “tecnocratas”, se é que podemos usar uma expressão tão pesada, nos impressionam com centenas de especializações, cursos, workshops e técnicas revolucionárias de benefícios garantidos. Remédios de última geração, intervenções cirúrgicas à lazer e por robôs, tudo para garantir cura quase imediata e sequelas quase zero. Mas, humanidade, tendendo a zero idem. Numa outra linha de pensamento, médicos mais “humanizados” (mais uma expressão estranhíssima na minha opinião) usam de menos pirotecnia e mais de acolhimento, conforto, viram amigos íntimos, mas deixam áreas cinzentas aos cuidados da natureza. Para pais principiantes, estes dois extremos apavoram igualmente. Já aos naturistas, homeopatas, tratamentos milenares e alternativos (acupuntura e afins), abrem um outro leque imenso de possibilidades, a maioria sem comprovação científica (e mais debates religiosos acirrados), mas com estatísticas de cura crescentes. Finalmente, avôs e avós de fazenda, cheios de ervas, chás e outras ditas “curandeirices” acharam espaço em uma diminuta mas seleta turma de médicos naturistas e integralistas. Muitas opções, divergências, conflitos de interesse e gigantescas industrias a se beneficiar de cada uma das linhas. Resta a nós, cuidadores, escolher o caminho de maior conforto ao casal. 

Aqui, temos muitos conflitos, minha alma de cientista grita e esperneia pelas provas práticas da medicina alopática (afinal, a mãe natureza é apenas justa e cruel, mantendo apenas os mais aptos vivos e foi para isso que construímos a ciência, para sobreviver como espécie e contra as limitações a nós impostas), mas as vivências mais naturais e as experiências com a medicina humanizada trouxeram outros alentos. Ponto muito em aberto… o Hospitais x tratamentos naturais domésticos: Qualquer ida ao pronto socorro demonstra a aguda crise que a praticidade da vida urbana nos impõe. Filho doente é empecilho, buscamos a cura rápida, no pronto socorro mais próximo, via intravenosa de preferência. Diagnósticos de amplo espectro (é uma virose) direcionam quase que imediatamente a uma profilaxia idem. Antibióticos, anti-inflamatórios e lá se foi uma chance de ouro de se criar um pouco mais de imunidade nos novos humanos. 

Mas quem tem disponibilidade para ficar 6, 8 horas acompanhando o/os filhos, vendo evolução / involução de febres, tratando com métodos caseiros ou não? Hoje, tenho a sorte de a minha esposa olhar para uma das crianças e saber com grande certeza se é hora de ir ao hospital ou não. De resto, crises mais graves vêm sido tratadas em casa. Afinal, ledo engano e ingenuidade de quem acha que ambiente hospitalar tem baixo risco… Ao contrário. o Reprodução: Tivemos filhos por inseminação e as amplitudes de tratamento (de escolha do sexo ao infinito possível para garantir o nascimento dos bebes perfeitos), nos traz uma imensa lista de debates éticos. Em breve, numa clínica perto de você, clonagem de órgãos. Você deixaria seu filho morrer podendo clonar um órgão dele? A lista destas e de outras tecnologias já imperceptíveis, mas não menos polêmicas, é quase infindável, mas parece que ultimamente a discussão tem muito mais foco atual em telas, aparelhos e seus aplicativos viciantes. 

Mas antes de chegar às crianças em efetivo, já chegaram em poluição sócio-ambiental. Como rejeitar algo a uma criança que vê, ao vivo e a cores, em quase todos os lugares, adultos (e muitas crianças) consumindo telas a todo instante? Limitamos em casa, buscamos escolas limitantes, mas em qualquer reunião humana, celulares já são onipresentes (smarwatches começam a ser idem). O singelo ping do whatsup em aparelhos android já passa a ser parte da cotidiana poluição sonora assim como buzinas e roncos de motor… O que dizer aos pequenos? Em breve, geladeiras, fogões, aspiradores e robôs domésticos passarão a pulular nossas casas. E ai? Pra onde fugir? Em resumo, dos derivados de petróleo (tecnologia petroquímica) aos avanços da biotecnologia, tecnologias, seus avanços, seus debates éticos e suas consequências infindáveis nos permeiam e intensificarão nossa realidade próxima (e das crianças, em qualquer idade). Responsabilidade nossa, adultos em teoria conscientes, dosar e equilibrar os benefícios frente às consequências nefastas. Arregacem as mangas, sejamos ativos e conscientes, afinal, temos filhos! 

* Courtnay Guimaraes Jr. Antes, executivo com 30 anos de mercado, economista especializado em mercado de capitais, diretor de tecnologias da informação para mercado financeiro na Hewlett Packard Enterprise e professor de gestão estratégica da inovação na Business School São Paulo.