segunda-feira, 25 de julho de 2016

Relato de Pós Parto - Por Fabiolla Duarte

** Por Fabiolla Duarte **

quando no meu pós parto eu passava dias em casa porque o mundo era barulhento e meu bebê ia acordar, fiz muito mal para meu filho, porque fazia mal para mim o isolamento.

quando eu não ia tomar cerveja na Augusta (eu nem gostava de cerveja, mas queria mesmo assim), ou não tirava um dia sem rotina alguma, só para flanar pela cidade como eu gostava, eu fiz muito mal para meu filho, porque fazia mal para mim.

eu demorei um tempo longo para entender a fala do Carlos Eduardo Correa quando veio na visita pós parto me dizer, quando eu perguntei, para não ler livro algum, escrever o meu.

eu li uma porcaria de um livro antroposófico (que não era em nada porcaria. mas foi para mim) que eu usava como roteiro para maternar, porque me sentia caindo em queda livre, altura abissal, como nos pesadelos que tive a gravidez toda.

tornar-me mãe era muito assustador. era um encontro marcado com muitos fantasmas da minha infância.

algum momento larguei o livro, porque ele me disse que eu tinha que parar de amamentar. uma pediatra fulana também disse.

eu tinha calafrios. tremores na cama enquanto tentava decidir o que fazer. decidi sozinha claro, porque o pai do meu filho, ainda (des)companheiro na época, deixou para mim a decisão, já que eu sou a mãe e isso é coisa de mulher.

foi ali que comecei a sacar que maternar é soltar a linha da pipa e arriscar, e afinar a escuta, e uma aventura dentro de si mesmo. não sem angustia, venho tentando essa maternagem sem receita, usando a antena e procurando quem me deixa livre para fazer da minha maternagem um caminho AUTORAL.

tudo isso para dizer que: no Colher de Pau falamos de criação de filhos e filhas também, e muitas vezes as pessoas contam de seu pediatras. eu gosto muito quando escuto que o pediatra é parceiro. não gosto quando escuto que o pediatra gosta de jogar o jogo do medo e do controle. 

Desenho por Sascalia


resumo: 
1) a gente precisa ser feliz e pós parto precisa ser a busca pela leveza. tá muito trágico? reveja alguma escolha. atenda seu bebê e se atenda também. 

2) tenha médicos parceiros. meio antropólogos, meio terapeutas, que sejam humanos, que gostem de gente e que te façam mais perguntas do que te dê respostas.

3) faça parte de um grupo de pós parto. existem de mães, e agora de pais também. no Espaço Nascente tem.

4) comam simples, mas com prazer. curtam seus bebês sem essa porra de smartphone na mão o tempo todo. meu filho tem hoje 6 anos e sei que depois de amanhã terá 10. tô arrasada. e eu não tinha smartphone na época, mas eu vivia nas redes sendo muito ativista. 

amor, parceria e sigamos

#colherdepaufabiolladuarte
#doulafabiolladuarte

segunda-feira, 18 de julho de 2016

6 sites carinhosos com a infância.

Vocês reconhece o papel de influência da internet nas questões relacionadas à infância? 

De acordo com uma pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a internet, junto com o Pediatra ou profissional de saúde e outras mães que já passaram pelas mesmas experiências, formam as maiores fontes de informação para pais e mães da atualidade.

Então faz-se necessário sempre questionar a fidedignidade das suas fontes no mundo digital. Sabemos que muitas iniciativas, inclusive jornalísticas, atuam muitas vezes com financiamento de marcas que podem apresentar algum conflito com seus valores. Por exemplo, se você optou por amamentar, não é sábio procurar informações sobre filhos e maternidade em sites de empresas que fabricam leite artificial.

O mesmo vale por exemplo, se proteção da infância é um valor para a sua família. Hoje resolvi recomendar cinco sítios virtuais que tratam de temas variados da infância e que são boas fontes para reflexão e informação de pais e mães. Aproveitem!


É um projeto completo de registro da infância por todos os cantos do Brasil. Selecionei aqui a parte que vem mantendo vivas as brincadeiras tradicionais, tão importantes para crianças de qualquer tempo ou lugar. 




É um movimento surgido na internet e feito por mães que discute a publicidade infantil e seus malefícios. Atualmente, essas mães participam das esferas políticas, levando a voz das mães e crianças para audiências no legislativo que decidem nossas políticas para a infância.  Um excelente lugar para ampliação de consciência sobre a proteção da infância, além de formação para a cidadania.



Nem sempre é necessário um textão ou longos vídeos para promover reflexões e mudanças profundas. O Armandinho é um personagem carismático que coloca a criança em lugar de protagonista frente aos dilemas do mundo atual. Simples e impactante.




Um blog detalhado sobre alternativas de brincadeiras para pais e filhos de todas as idades. Desde sugestões de coisas para fazer juntos até reflexões do porque nós adultos temos dificuldades na entrega para o brincar. 




O Catraquinha é fruto de uma parceria entre o Instituto Alana e o Catraca Livre. Funciona como um portal de curadoria, pescando muitas referências interessantes e progressistas do nosso universo, que são divididas em abordagens como Cuidar, Defender, Família e Economia.




Além de matérias interessantes sobre a mater-paternidade contemporânea, o guia tem trazido muitas dicas de atividades gratuitas em São Paulo. Vale conferir!!




terça-feira, 5 de julho de 2016

O papel do homem no pós parto: Cacá na revista Crescer

Na matéria publicada em 16/06, Cacá tratou com a revista Crescer do papel do pai na construção das novas famílias e chegada dos bebês. Aqui no blog você confere a entrevista na íntegra!



Os pais costumam se preparar para a chegada de um filho preparando o enxoval, arrumando o quarto, lendo livros... Mas na maioria das vezes se esquecem da avalanche de emoções que os aguardam. Como eles podem se preparar para isso? 

Como costumo dizer, quando nasce um bebê, nasce uma família. Nascem o pai, a mãe, os avós e todos que se relacionam com essa criança. Esse nascimento nem sempre é fácil. Às vezes vamos nos deparar, como você disse ,com uma avalanche de situações e emoções para as quais nem sempre estamos preparados. A principal dificuldade inicial costuma ser a privação de sono. Os bebês costumam ser seres muito noturnos no começo, o que para muitos é assustador. Nem todos os bebês acordam só para mamar e dormem e, principalmente nem todos obedecem o relógio e mamam a cada 3 hs. Saber disso antes já ajuda a entender que é natural aos bebês solicitarem muito contato físico, colo e mamadas freqüentes principalmente a noite. Essa família vai lidar com sono, frustração, medos e tantas emoções que vão muito alem da alegria de ter um filho. Alguns encontros de pré-natal tem por objetivo, além de preparar para o parto, avisar que o pós parto pode ser um momento difícil, mas que passa. Com certeza irá passar. 

Nesse sentido, qual o papel do pai no período do puerpério (vamos contar os 3 primeiros meses do bebê)? 
O homem também está nascendo para um novo lugar. Agora é pai ! E aí, o que que eu faço ? Esta é a pergunta mais difícil de responder. Me preocupo muito em mostrar aos homens que eles podem trocar fraldas, podem dar banhos, que eles não vão quebrar o pescoço da criança apesar de todos ao redor, inclusive sua mulher dizerem: -cuidado com o pescoço ! geralmente os homens estão muito despreparados para cuidar de um bebê e se sentem muito incapazes. Mostrar como cuidar do umbigo,trocar fraldas, carregar o bebê, dar banho já ajuda muito e favorece a formação de vínculos entre o pai e seu filho. A preocupação com isso é mundial. A Suécia tem garantido a licença paternidade de 90 dias com essa preocupação com a participação ativa dos pais no cuidado de um bebê e indiretamente fortalecendo vínculos familiares. Hoje no Brasil conquistamos a licença paternidade de 20 dias para as empresas cidadãs ,desde que haja um preparo dos homens para poderem participar ativamente desta fase. Lidar com questões emocionais intensas das suas mulheres também pode ser uma surpresa. As vezes simplesmente oferecer água para a mulher que esta amamentando ou facilitar que ela coma e tome banho podem ser de grande ajuda. 

Como ele pode ajudar a mulher nesse começo, principalmente a lidar com as emoções? Distúrbios afetivos ocorrem freqüentemente durante o período pós-parto. A primeira delas é conhecida como baby blues, que acomete cerca de 50 a 80% das mães e caracteriza-se por labilidade emocional e variações de humor. Há também diminuição do apetite, dificuldade de concentração e insônia . Os sintomas se iniciam ao terceiro ou quarto dias após o parto, tendem a aumentar em torno do quinto ao sétimo dia, e tendem a começar a melhorar em duas semanas. Principalmente a privação de sono deve contribuir diretamente para este mal estar comum entre as mulheres. Acredito muito no poder do abraço e da escuta e me parece a melhor ajuda compartilhar as surpresas e se fazer presente neste momento. Todo o apoio e ajuda pratica nesta fase serão bem vindos, conforme citei acima.

Como o pai pode ajudar na amamentação e toda a pressão que a mulher sofre nesse sentido? 
Todos podem se sentir incapazes inicialmente. A mulher com duvidas da sua capacidade de nutrir e dar colo, o homem se sentindo incapaz de ajudar por não ter peito e o bebê descobrindo um universo de novas sensações sem saber como lidar. A amamentação no inicio costuma ser difícil e a sugestão de dar outro leite ,sugerindo que a mulher tem pouco leite ou leite fraco é comum. A pressão pode ser muito grande. Ajudar a mãe a acreditar na sua capacidade natural, biológica para a amamentação é uma coisa importante a fazer. Eu diria para tentar ser menos pratico e mais sensível a essas dificuldades ajuda bastante. Procurar ajuda pratica com especialistas como consultores, pediatras que entendam de aleitamento ou bancos de leite humano onde tem profissionais especializados . Fazer o que é possível como trocar fraldas, cuidar do umbigo, dar banho. Oferecer água e comida frequentemente. E muitos abraços.

Como o pai pode observar e ajudar no caso de depressão pós-parto? 
Quando se trata de pós-parto é difícil: tudo fica com cara de depressão. Mas quando o vinculo da mulher com seu bebê esta comprometido, levando a mulher a se afastar do seu bebê, está na hora de procurar um profissional da área de saúde mental para ajudá-los. Mães indiferentes ou muito agressivas quanto as necessidades do bebê podem estar mais gravemente comprometidas. Virar pai não é fácil e poder contribuir para a construção de harmonia familiar talvez seja o maior desafio. Mais do que ser o provedor financeiro. Poder contribuir para o bem estar de todos formando vínculos fortes com seu filho é a mágica desta situação. A licença paternidade estendida é uma grande conquista neste caminho de fortalecimento de laços familiares.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Medo de cuidar

Um bebê pequeno desperta na gente uma série de emoções. É muito surpreendente acompanhar o nascimento da vida, a gênese da existência. Surge uma força de cuidado e proteção, que talvez pudesse ser explicada pela nossa programação para sobrevivência da espécie. Nasce um ser delicado e dependente que mexe muito com os adultos ao seu redor.






Mas também não precisa ir muito longe:  um filhote de cachorro pode ser alvo de olhares de afeto e atenção. E há quem conte ter preservado a lagartixa de uma vassourada apenas porque ela era um bebê.

Fato, a gente sente coisas inexplicáveis quando se trata de um filhote.

Os filhotes humanos nascem frágeis, é bem verdade. Como os marsupiais que dependem dos genitores após a saída do útero.

Há um desejo de proteger, fazer vingar, preservar. Mas que dentro do universo dos cuidados com bebês na contemporaneidade caminha na fina linha entre o cuidado e o controle.



Os desejos de cuidar bem de um bebê podem se desenrolar para sonhos de perfeição: qual é o jeito certo de fazer dormir? A maneira perfeita de fazer a introdução alimentar? A melhor fralda do mundo? A posição correta no sling? 

É claro que todos queremos o melhor para nós, para os pequenos e para o mundo. Isso não está em discussão.

Mas é preciso buscar o lugar interno onde caminhamos em paz no trato com as crianças. O cuidado desperta amor e afeto, do cuidar nascem os vínculos.  Enquanto o controle é terreno fértil para a paranóia e o medo. 

E medo nos afasta. Nos paralisa.


Há muitas formas de fazer o bem, fazer o melhor, tomar boas escolhas e cuidar gentilmente e com afeto de nossos bebês sem que as escolhas sejam baseadas exclusivamente no medo de perdê-los ou prejudicá-los.

E é extremamente necessário ter consciência de que existem muitos discursos sobre o cuidado de bebês que - em nome de "melhores escolhas" - são construídos a partir do medo.

E, não surpreendentemente, muitas vezes arraigados em interpretações de pesquisas com ares de ciência. Porque há muitas abordagens médico-científicas que atuam exatamente assim, estimulando medo. Difundindo que ha um risco de perda e morte continuamente e que esse ou aquele jeito de cuidar os afastam.



Tomem por exemplo a cama compartilhada. Haverá sempre quem opte por não dormir com seu bebê por uma única razão: medo.

Oras, a cama compartilhada facilita a amamentação, promove vínculo e é narrada como uma experiência prazerosa para tantas pessoas! Eu sinto desejo de passar por essa experiência, parece certo para mim e mesmo assim eu escolho não fazê-la? Não porque não me parece adequada. Mas porque em mim está instalado o medo. Que pena.



Outro exemplo é o carregamento de bebês no Sling. Atualmente um espaço vivendo uma tentativa de controle. Em nome de boas práticas supostamente apoiadas na ciência - está acontecendo a criação de um manual de regras construído no medo.

Medo de sufocar o bebê, medo de estragar suas pernas, medo de alguém dizer para mim que eu estou fazendo errado. Acreditem se quiserem, tenho reparado no consultório que coisas básicas do cuidado com bebês - como um banho de balde, um momento de sono compartilhado ou um carregamento no colo estão tão permeados de regras e ameaças que muita gente prefere nem tentar. 

Que oportunidades estamos perdendo?
Quando é exigido treinamento, técnica e seguir regras para validar as vivências? Estamos fazendo curso para viver. Ou o que é o pior. Nao podemos experimentar para poder decidir.

As relações são construídas também no não saber as coisas. Os bebês e seus pais crescem juntos, e a vida é aquilo que acontece entre uma teoria e outra. 

No fazer de um jeito em um dia e diferente no outro. No tentar e tentar outra vez. Mudar de lado, mudar de cama, mudar de posição. 



Permitamos-nos aprender pelas vivências. Confiemos nos vínculos e na vida. E estejamos atentos para escolher o que é melhor para nossos filhos através também das nossas vivências.

É preciso sabedoria para distinguir o que é o cuidado através do afeto. E o que é uma tentativa frustada de controle, através do medo. 

Não tenhamos medo de cuidar. 





Todas as imagens dessa postagem são do livro Baby-Gami, uma publicação poética que trata dos casulos, amarrações, carregamentos e enrolamentos de bebês com panos e sacola de papel ;)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Século XXI - A odisséia das novas famílias

Ter um papel em uma família. De filho, de pai, de primeira ou segunda mãe, é sempre uma jornada por um céu misterioso. Somos colocados constantemente em confronto com nosso universo particular, nossas gênesis. Ao passo que construímos novas pontes para o infinito da vida humana quando nos relacionamos com quem amamos. A reflexão sobre quem somos (e se gostamos de quem somos) ganha uma nova dimensão e nos faz perguntar se estou sendo o adulto que gostaria de ser como exemplo. Não importa se na qualidade de pai ou mãe ou tio. Mas na qualidade de ser humano e cidadão.

Essas reflexões são para lembrar que existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Roda de Pais

Na roda de pais percebo que há um lugar interno lembrado da infância de delicadeza e sensibilidade tão mal aceito na vida de um homem adulto. Através de um bebê, reencontrar este lugar pode não ser fácil, já que no processo de educação que cada um desses meninos viveu havia uma proibição para essas duas condições. fica difícil achar a possibilidade de ser leve e autoridade ao mesmo tempo. as memorias que trazemos de uma educação onde nada se explica , não pode porque não pode, atravessa a experiencia de lidar com uma criança muito verdadeira nas suas emoções.

Não cai bem educar um filho para sensibilidade muito menos para delicadeza. Delicadeza e sensibilidade "não são coisas de homem".

Muitos viveram uma violência em se mostrar delicados e sensíveis, como se isso definisse qualquer sexualidade. 

Qual tem sido o nosso olhar para a formação do pai, ou do pai em potencial? Se estamos clareando nossa consciência sobre a problemática da maternidade compulsória para meninas, podemos observar quais outros arquétipos estamos impondo também aos meninos. Heroísmo e agressividade certamente. Essa confusão sobre o que é coisa de menino ou de menina. Quem pode chorar. Quem pode experimentar seu corpo pela masturbação. Quem é essa criança vista como frágil quando evita disputas por brinquedos.

Este documentário põe luz em algumas questões sobre as máscaras sob as quais estamos construindo as noções de "masculinidade". 





Maternidade Lésbica

Na roda de maternidade lésbica percebo que é mais importante se preparar para as questões que a criança lidará por ser filh@ de duas mães do que para as questões ligadas a maternidade em si. As mulheres trazem uma consciência de que as preocupações ordinárias da maternidade não são para elas a única preocupação. Precisam se preparar internamente para lidar com questões sociais.

"Entendemos que a maioria das nossas preocupações da dupla maternidade têm a ver com o futuro das nossas filhas, como elas irão ser recebidas na escola ou pelos amigos. Nossos assuntos específicos têm mais a ver com visibilidade e relação com a sociedade do que com os nossos problemas atuais de alimentação, sono ou colo."

Há que se pontuar categoricamente que uma educação inclusiva para as crianças precisa partir do princípio de que "questões" da maternidade não são universais. Estamos contemplando o maior número de mães possível nos nossos discursos ou agimos de forma excludente quando delineamos "o que é ser mãe" à partir da vivência de um grupo exclusivo? Existe um modelo certo ? Existe errado ? Não deveria ser uma questão de amor?




Leia nesse link mais histórias sobre as famílias de dupla maternidade

Exercício de gerar e manter a vida

Uma mãe uma vez  relatou que ao descobrir que seu filho era gay respondeu que precisava de um tempo. Não de um tempo para lidar com a sexualidade dele. E sim para encontrar um lugar interno para lidar com as pessoas e as situações que viriam à partir desta nova descoberta. Ela queria se preparar para o mundo, no qual seria mãe de um rapaz gay.

O exercício consciente da mater - paternidade está também na habilidade de reinventar-se à partir dos filhos. À partir do exercício criativo que começa ao gerar vida e ao auxiliar em mantê-la, pode-se encontrar internamente as possibilidades do novo que nos moverá para outros lugares inesperados. E muitas vezes tão desejados.

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O que se ganha é poder relembrar momentos da sua própria história e resignificá-los, através das demandas que surgem da colisão desses universos. Mães, pais e filhos. Todo um complexo de planetas, corpos celestes e super novas. Ligados pelas mesmas estrelas.

via GIPHY

terça-feira, 14 de junho de 2016

Todos os humanos são dignos de felicidade e amor

Hoje eu iria postar um artigo sobre introdução  alimentar como uma experiência  sensorial. É um artigo antigo, que se chama "As cores do mundo". Mas acabei mudando de ideia, diante dos últimos acontecimentos.


Estou estarrecido com o acontecido no último fim de semana: o genocídio (ou generocídio) ocorrido em Orlando. Mais chocante ainda observar a reação das pessoas. Há quem pense que as vítimas mereceram o castigo. Afinal eram gays e estavam fazendo "coisa errada". 



"Coisa errada" esta que mora no imaginário das "pessoas de bem" para quem é natural que uma criança de dez anos seja assassinada pela polícia. Porque roubava um carro? Porque alguém suspeitou que roubava um carro? Uma criança merecedora da pena capital sob justificativa de estar fazendo "coisa errada". 

Muito parecido com a reação quanto a outra barbárie: o estupro coletivo de uma adolescente que gerou a opinião de que a culpa é da mulher por se colocar numa situação vulnerável. Ignorando convenientemente que a vulnerabilidade nesses crimes é uma questão de gênero, raça e classe, e não uma escolha. Ser mulher não é uma escolha. Ser criança pobre não é uma escolha. Ser gay tampouco. 



Esse tipo de violência nos deixa perplexos, mas não é nenhuma novidade. Desde sempre, minorias são atacadas em seus direitos, muitas vezes, lhes custando a vida.

Me impressiona, a facilidade em aceitar esse tipo de violência contra crianças pobres, mulheres e homosexuais. A violência contra algumas minorias não parece tão absurda. 

Quando se trata das violências sofridas pela comunidade gay, o assunto fica ainda mais morno do que de costume. Menos relevante, atinge menos a compaixão das pessoas. Suponho, porque se trata sexualidade, como se fosse um assunto menos digno. Porque estar na boate gay era uma livre expressão de sexualidade. Ser quem somos, pode ser um crime passível de penalidade máxima. 




Fiquei refletindo sobre quem esses homens eram. E me deparei com o eco de um artigo que li. Era sobre a adoção de crianças mais velhas por casais homosexuais (eu insisto em  homosexuais porque homoafetivos acredito que todos possam ser, esta palavra tirou a sexualidade do cerne da questão). 

Crianças que em geral não são aceitas por "famílias tradicionais" por serem mais velhas, encontram acolhimento e amor em lares que estão dispostos a demonstrar que o mundo não está construído contra as diferenças. Mas à partir delas. Que, de fato, nós podemos nos amar de qualquer maneira. 


Ainda que sejam crianças mais velhas, que tenham passado muitos anos em instituições, que sejam acolhidas por casais que não se encaixam no esteriótipo "família comum", todos os humanos dessas histórias são dignos de felicidade e amor. 

Não receberam, as crianças, de suas famílias  biológicas o que lhes era de direito universal, social e, (porque não) divino. Escaparam dos tiros da polícia. Sobreviveram. Lutaram durante toda a vida, os pais, pelo reconhecimento de seu amor, validação de sua existência. Sobreviveram também, quem sabe, aos tiroteios nas boates. Para generosamente devolver aos filhos que escolheram - e ao coletivo - a lição da saída pelo afeto. Da cura pelo amor. Da possibilidade de mudar o mundo através do acolhimento, e não do julgamento. 

Os casais gays e suas crianças grandes  estão nos dando lições diárias sobre o amor. Como plantar amor. Como ser família. Como transmutar o ódio e abandono que receberam e devolver mais cores ao mundo.  




As cores do mundo a gente ensina para as crianças também. 

É um momento terrível de luto. Reflitamos em silêncio pelas pessoas que sobrevivem ao preconceito e as injúrias da vida, para sucumbirem nas mãos de homofóbicos e justiceiros armados, em nome de sua religião ou defesa de um tipo de moral que de moral nada carrega. Em nome de um Deus que incentiva o ódio. Um Deus que esta bem longe do que todos os livros sagrados tentam ensinar !

terça-feira, 7 de junho de 2016

Siaparto 2016 - Nascimento e Humanidade



Na terceira edição do Siaparto, Cacá teve espaço de destaque para falar das práticas recorrentes dentro da sala de parto. Muito embora as recomendações baseadas em evidências científicas para o nascimento de bebês normais há muito tempo já apontem que o melhor a se fazer é não fazer nada, ainda estamos caminhando na árdua luta de espalhar a informação, e especialmente, sensibilizar profissionais da área sobre essas condutas.


Desde 2005, o Ministério da Saúde  reitera que “Com os RN normais, nada mais deve ser realizado além de enxugá-los, aquecê-los, avaliar as suas condições e entregá-los às suas mães para estabelecer um contato precoce e íntimo. As manobras de reanimação devem ser realizadas apenas em situações necessárias, sendo desaconselhável empregar estes procedimentos de forma rotineira.” Corroborando a ideia da não intervenção sem necessidade, estão também em alinhamento os textos da organização Mundial de Saúde e da Academia Americana de Pediatria. Em todos os casos, a premissa básica é: entregar o bebê saudável à mãe.

                              

O atendimento humanizado ao Recém Nascido no Brasil é lei. A portaria 371 de 2014 preconiza o contato imediato com a mãe, clampeamento tardio do cordão e estímulo ao aleitamento, além de recomendar que os procedimentos de rotina como pesagem e medições antropométricas e profilaxias sejam postergados.

Mesmo assim, o cenário de recepção ao recém nascido ainda aplica condutas invasivas e dolorosas, como aplicação sistemática de colírio, massagens vigorosas em busca de vitalizar bebês, vacinas e aspirações, em detrimento a aspectos naturais e inestimavelmente mais importantes, como a amamentação na primeira hora, contato pele a pele e o imediato reconhecimento de mãe e bebê. 




  "Minha grande questão atualmente sobre a recepção ao recém nascido normal é o não fazer. Me interesso em observar, e à partir da observação, a confirmação, que a vida começa nesse espaço onde não fazemos nada."

No Siaparto, a reflexão de Cacá se ampliou para todos os profissionais presentes, mostrando a possibilidade de humanização na prática, com seu jeito afetuoso peculiar. Uma palestra de extrema importância, para nos lembrar sempre que a ciência não pode se perder da humanidade.



“Entendo por HUMANIZAÇÃO o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.

Antônio Cândido