quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cólica: a “dor de parto” do bebê

 

Um relato sobre como lidamos com as cólicas do pequeno Miguel
Por Michelle Prazeres*


Miguel começou a ter cólicas com três semanas de vida. O comportamento era característico: pernas se mexendo freneticamente, choros sem fim, irritação, mamadas interrompidas, sono que não vinha nunca. Todos os dias, pontualmente às 18h, a crise começava. E pontualmente às 23h ela ia embora. 

Durante as crises, eu e o papai Fernando fazíamos de tudo: mudávamos as posições, fazíamos bolsa de água quente, dávamos banho, tentávamos entreter o pequeno... nada funcionava. Só o relógio. Quando dava a hora de terminar, ela passava.

Passamos uma semana bem desesperada. E lembro que o desespero aumentou quando ouvi do Cacá: “Quem descobrir a causa e uma cura para a cólica do bebê, fica milionário”. O bebê passa por estas dores, porque seu organismo está se adaptando ao mundo humano. Neste sentido, seria como as dores do parto para as mães. Uma dor necessária, um rito de passagem. Segundo o próprio Cacá, quando sai da barriga, o bebê sai de um estado de divindade e precisa virar humano. Achei linda esta explicação. Mas na hora da dor de cabeça e do cansaço por conta das crises, a gente só queria que tivesse um remedinho...

Tentamos a funchicórea. Tomei regularmente, a cada quatro horas, diariamente, até as crises passarem. Mas sabia que toda tentativa de medicamento era mais no sentido de me tranqüilizar, por sentir que estava fazendo o que podia, do que efetivamente para fazer algum efeito no pequeno Miguel. Cheguei também a oferecer o dedo mindinho para sucção, que o acalmava. Por alguns segundos, até a crise voltar a falar mais alto...

Conexão: alimento, contato e comunicação

O que buscamos como solução tem a ver com o modo como pensamos a dor em nossa sociedade. Em geral, não buscamos o motivo da dor e a enxergamos como um sintoma que deve ser calado, curado. Mas a dor quer nos dizer algo. E a arte de lidar com as dores é justamente a de entender o que ela quer nos dizer. Lembro de ter lido no livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, uma psicóloga argentina fantástica, sobre as dores e seus motivos.

As dores de cólica não nos diziam, mas nos gritavam que precisávamos nos comunicar com nosso filho, estabelecer diálogo com ele, nos conectarmos. Buscamos então, uma conexão menos pragmática e mais emocional conosco mesmos e com nosso bebê.

Nos demos conta de que durante o primeiro mês de vida do Miguel, ficamos dando conta de demandas. Trocas, banhos, dormidas, mamadas: tudo era encarado como algo a ser resolvido. Nos demos conta de que estávamos vivendo uma experiência muito racional com a chegada do bebê, preocupados, claro e sempre, com o bem estar dele e com sua saúde. Eu e Fernando tivemos que fazer o exercício de nos vincularmos ao nosso bebê, nos conectando também com nosso lado mais “selvagem”, com nossa experiência emocional.

E para isso, precisávamos de tempo. Tempo sozinhos com nosso filho. E especialmente tempo JUNTO com o bebê.

Então, mudamos a sintonia. Começamos a encarar cada um destes momentos (que eram das “demandas”) como instantes de interação, vivência e conexão com nosso filho. E buscamos viver nossa vida com o menor grau de intervenções externas possível.

Optamos por um “pacote” que pensamos que ia nos ajudar neste sentido. Em lugar de deitar ele no berço, no carrinho ou no bebê conforto para dormir, mantivemos ele em nosso colo sempre que possível. À noite, estamos até hoje na cama compartilhada; passamos a usar os carregadores (slings) durante boa parte do dia, inclusive dentro de casa; aumentamos as vezes em que damos banhos de balde ou mesmo banhos de bacia, banheira e chuveiro, mas banhos com o intuito de relaxar o bebê e nos aproximar dele, não necessariamente banhos de higiene.

Além disso, fizemos um curso de shantala e começamos a fazer as massagens diariamente. Isso tudo sem contar, claro, a amamentação, estabelecida desde o começo por nós como um ritual de amor e de carinho da família. Na hora da troca, buscávamos contato com o corpo do bebê (no frio de São Paulo, isso demandou um investimento em um aquecedor...) e, sem pressa, interagíamos, brincávamos com as partes do corpo, pezinhos, mãozinhas, barriga... isso fez com que nossa experiência ficasse mais deliciosa. Passamos a curtir nosso filho e não mais a encará-lo como um serzinho que demandava de nós todo o tempo. Passamos a brincar com ele, a interagir, a nos conectarmos com ele e entre nós, na nossa família.

Hoje, fazemos a leitura de que nosso filho, com as crises de cólica, além de se adaptar ao mundo dos humanos, nos dava um recado. O de que precisávamos chegar mais perto. Ficar mais juntos. Sentir nosso calor. Um do outro. Ele o nosso e nós o dele também.

O Cacá nos advertiu também de que o comum, quando temos qualquer problema com o bebê, é nos afastarmos e procurarmos uma solução externa para o problema, seja ela uma mamadeira, uma chupeta ou um remédio, entre outras coisas.

Nós vimos que a solução está o mais dentro de nós possível: no peito, no colo, na voz, no cheiro, no calor. A nossa solução estava na nossa permissão para deixarmos de lado o controle, nos entregarmos à experiência da maternidade/paternidade e entrarmos em contato com nosso lado mais selvagem, mais puro, mais próximo do nosso filho. E de experimentarmos isso juntos.

Claro que não existe fórmula. E que outras crises de cólica virão. E eu não sou a pessoa que vai ficar milionária porque descobriu a solução e a causa das dores. Mas se posso deixar um recado a partir de nossa experiência eu diria para mamães e papais conversarem com seus filhos, buscarem entender o que as dores querem dizer. E buscarem estar a sós, a família, para encontrar, dentro de cada um e em contato com o outro, um estado de harmonia. Este estado deve fazer do bebê um ser humano mais feliz, mais tranqüilo e mais confortável para chegar a este mundão.


* Michelle e Fernando são pais de Miguel Prazeres Gameiro, que nasceu de parto normal humanizado em São Paulo, na maternidade São Luiz, no dia 28/04/2011, às 22h59, pesando 3kg735g e medindo 51cm, depois de 21 horas de Trabalho de Parto ativo. Era a 39ª semana de gestação pela ultrassonografia e a 40ª pela DUM.
 
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Neurociências em Beneficio da Educação

Por Roberta Pimentel
Para Professores, Pais e Profissionais Clínicos.
Se ainda existem salas de aula onde os professores ensinam prioritariamente conteúdo, cuidado! Mudanças de paradigmas já se concretizaram. Quanto mais algumas salas de aula demorarem para colocarem essas mudanças em práticas, mais dificuldades professores e alunos apresentarão no processo de ensino e aprendizagem.
Nossa geração precisa aprender conteúdo ou aprender a aprender?
Comentei em outros posts sobre as diversas mudanças metodológicas que as nossas escolas já passaram. Das propostas tradicionais às atuais tendências conexionistas, passando pela Escola Nova, Socioconstrutivismo e outras. Em todas as mudanças nunca se deixou de valorizar o olhar atento do processo individual de aprendizagem e o todo de cada aluno – emocional, físico e intelectual. No entanto, nunca estivemos tão perto das possibilidades científicas de entendermos essas singularidades e não apenas de valorizá-las.
Em um passado não muito distante entendíamos que os professores não podiam ser os únicos detentores do conhecimento e por isso almejamos mudanças e fizemos muitas alterações. Inserimos em nossas escolas propostas pedagógicas diversas para superar algumas barreiras impostas nas antigas escolas, absolutamente tradicionais.
No entanto, vejo muita contradição ainda, pois, de certa forma, vejo em quantidades bem significativas, aulas tradicionais sim, e bem tradicionais, onde os professores tentam a todo custo conquistar a atenção dos alunos, motivá-los de alguma forma, mas pouco resultado conseguem. Nunca presenciamos tantos professores afastados por justa causa como nos dias atuais.
O que podemos assumir como nossas responsabilidades diante disso tudo? Existem inúmeros problemas burocráticos – como se diz de modo informal – que interferem diretamente nas possibilidades de avanços por parte dos professores, que acabam se sentindo de mãos atadas, é uma verdade. Entre tais problemas aponto o número de alunos por sala e as exigências de grade curricular.
Mesmo com os problemas impostos no cotidiano escolar, o que é possível mudar? Ir além das dificuldades é algo que me fascina.
Se você entende melhor o que está acontecendo no cérebro de uma criança, você pode mediar esse conhecimento para chegar até seu filho ou aluno com mais facilidade. Nessa perspectiva deposito as atuais possibilidades e necessidade de mudanças nas práticas pedagógicas.
 
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Slingada e Fraldada especial de dia das crianças

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No próximo sábado, dia 6 de outubro, o Espaço Nascente realiza uma slingada especial comemorativa do mês das crianças. Além das tradicionais slingada e fraldada, haverá atividades gratuitas para pais, mães, bebês e crianças.

As atividades começam às 10h30 com Isadora Canto e uma vivência do projeto Acalanto, de música na gestação e para bebês. Em seguida, haverá contação de histórias, com Elenira Peixoto, da CiaZin. Para encerrar, a música toma conta do espaço novamente, desta vez, com músicas e brincadeiras de Edisangela Holanda.

Após a slingada, a partir das 15h30, haverá um encontro sobre desmame que contará com a coordenação do Dr Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá. Veja informações aqui (
http://espaco-nascente.blogspot.com.br/2012/09/encontro-orienta-maes-e-pais-sobre-o.html).

Slingada e Fraldada especial do mês das crianças
Dia 6 de outubro de 2012
No Espaço Nascente. Rua Grajau, 599 - Próximo ao metrô Sumaré - São Paulo
Horário: das 10h30 às 15h


Programação:

10h30: Vivência musical para gestantes e bebes, com Isadora Canto do projeto Acalanto.

11h30: Contação de histórias, com Elenira Peixoto.

13h30: músicas e brincadeiras com Edisangela Holanda.


Informações:

(11) 3672-6561 / (11) 2548-6383

espaconascente@gmail.com
 
 

Encontro orienta mães e pais sobre o desmame

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No próximo dia 6 de outubro, logo após a slingada (http://espaco-nascente.blogspot.com.br/2012/09/slingada-e-fraldada-especial-de-dia-das.html), o Espaço Nascente realizará um encontro para discutir um tema que inspira muitos questionamentos, dúvidas e angústias para mães, pais e bebês: o desmame. Como ele deve acontecer? Em que momento? Sob que cuidados? Que informações são necessárias para conduzir um desmame tranquilo?

Estas e outras questões serão abordadas pelo pediatra e neonatologista Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá, que vai coordenar o encontro. Na atividade, pais, mães e interessados poderão fazer as suas perguntas e receber dicas e orientações sobre o desmame.

O encontro acontece a partir das 15h30 e tem duração de duas horas.

Encontro no Espaço Nascente: Desmame: quando e como?

Com Dr. Carlos Eduardo Corrêa (Cacá) - Pediatra e neonatologista

Dia 6 de outubro das 15h30 às 17h30

Investimento: R$ 20

No Espaço Nascente: Rua Grajaú, 599 - Próximo ao metrô Sumaré - São Paulo

 
Informações e inscrições

(11) 3672-6561 / (11) 2548-6383

espaconascente@gmail.com
 
 
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Por que deixar chorar até que se durma realmente funciona? - ou "CÉUS! PARI O DARTH VADER!"

 

A mãe passou 9 meses sonhando com a chegada do filho, preparando o ambiente para recebê-lo. Comprou um berço lindo, seguro e confortável, pronto para aquecê-lo quando chegasse, onde ele dormiria como anjo em suas sonecas diurnas e no longo e profundo sono noturno. Providenciou um pijaminha quentinho, que o ajudaria a dormir mais relaxado. Ganhou CDs de músicas para bebês, que sonhava em colocar para embalar o sono da cria.
Ela sonhava com uma rotina pós-nascimento linda: banhos de sol todos os dias (já reparou como nos sonhos não chove?), mamadas frequentes e abundantes, brincadeirinhas fofas, beijos, abraços, muito amor, o banhinho de fim de tarde, o pijaminha quentinho, o embalar para dormir, a música tranquila, a mãe cantando uma suave canção de ninar enquanto embala docemente seu bebê que, aos poucos, fecha os olhinhos e simplesmente dorme. Sonho perfeito: o bebê relaxa, dorme, tranquilo e feliz, até o dia seguinte, enquanto sua mãe aproveita o horário noturno para um tratamento de beleza, um retoque nas unhas, um livrinho bacana, um filme divertido, um estudo mais profundo ou um chamego com o companheiro.
Então, enfim, chegou o bebê.
E, junto com o bebê, chegou a vida real, pra acabar com tudo.
Tchau, sonho, um beijo pra você!
Por que raios a vida insiste em se meter nos nossos sonhos?! Nunca dá muito certo isso.

E então os planos não saem bem como o esperado e, de repente, o bebê não quer dormir.
Ele simplesmente quer ficar acordado com sua mãe, em seu colo quente e confortável, porque, afinal, ela é seu porto seguro e ele ainda não sabe que depois do dormir vem o acordar, que o devolverá a mãe que o sono levou. Ele sabe, apenas, que "DORMIU = SEPAROU".
Com a recusa do bebê em dormir, lá se foi para a Terra do Nunca o sonho feliz de Pollyanna.
Polly - vou chamá-la carinhosamente, porque acredito que ela habite em quase todas nós, ainda que se esconda bem - começa a se questionar sobre o que está fazendo de errado.
Será que mamou demais?
Será que mamou de menos?
Será que é a fralda?
Cólicas?
Coceira?
Dor em algum lugar?
Ansiedade?
Será um "bebê high need"? - não gosto muito desse nome, mas voilá.
"O que está acontecendo com meu filho?!"
Então, aquela amiga super experiente em assuntos de maternidade, ao saber que o filho de Polly não quer saber de dormir no horário e na rotina estabelecida (no sonho), que não quer saber de se comportar e de aceitar a rotina da família, prepara sua voadora, pega impulso, sai correndo e PÁ!, acerta em cheio, com os dois pés, o peito cheio de leite de Polly. E dispara (sem nem que alguém tenha pedido sua opinião): "Polly, amiga, meus filhos dormiam a noite IN-TEI-RI-NHA! Isso é MANHA, minha filha. Você precisa ensinar esse menino a dormir!".
E então, Polly se sente ainda pior...
Outras amigas, na tentativa de ajudá-la (todo mundo quer ajudar), também palpitam: "Polly, amiga, esse menino está te manipulando! Está de manha, de birra! Você não pode ceder, com o risco de estar criando um pequeno tirano".
Além de se sentir culpada e de pegar trauma da palavra "amiga" dita logo após seu nome, Polly entristece...
Puxa vida, com que facilidade seu bebezinho se transformou de um bebê normal em um manipulador de adultos! Será mesmo seu filho um pequeno tirano? Um serzinho perverso? Que usa de manhas e artimanhas para manipulá-la? Que fica confabulando sobre qual a melhor estratégia para manipular a tonta da mãe?
Polly entra em crise:
"Céus! Terei parido Darth Vader?!"
Polly se deprime...
Passa a achar que seu filho não é "como os demais", afinal "os demais" (os de suas amigas) dormem a noite toda. De duas uma: ou ela está fazendo alguma coisa errada mesmo, ou terá que admitir: pariu o rei do lado negro da força. Um bebê indisciplinado, manhoso, birrento, manipulador.

Polly então começa a busca por aprender a fazer o filho dormir. E descobre que existem algumas técnicas divulgadas em livros que GARANTEM que o bebê dormirá facilmente em poucas noites.
Polly ouve e lê alguns comentários sobre esses livros, gente dizendo que "Funcionou! É um milagre!", enche-se de esperança, o compra, lê e começa a "domar o seu bebê", no melhor estilo "Como domar o seu dragão".
Então ela aprende que tudo bem deixar seu bebê chorar até aprender a dormir porque, afinal, "por trás de um filho que dorme tranquilo, há uma mãe que dorme tranquila". Polly já tinha ouvido algumas mulheres falando sobre os prejuízos de se deixar chorar para que se "aprenda" a dormir. Gente que pesquisava sobre o assunto e que sabia da existência de muitos trabalhos científicos comprovando os prejuízos do choro como forma de treinamento. Mas Polly não as conhece, como pode dar ouvidos a gente que não conhece?

"E essa história de ciência, vocês vão me desculpar, mas isso não serve pra cuidar de filho, não. E olha: até aquela grande revista já mostrou que não tem problema deixar criança chorar. Até parece que essa mulherada vai saber mais que essa revista, né? Estou tranquila, estou respaldada, vou continuar com meu plano. Afinal, o doutor pedí diz aqui no livro que é infalível e minha amiga disse que funciona, que é um milagre!".

Então Polly começa a colocar em prática o método de treinamento.
Mas aí acontece algo pelo qual ela não esperava: ela não se sente bem.
Não se sente bem porque aquilo, para ela, não parece natural.
Não faz sentido, considerando seus próprios valores, fazer um bebê "aprender" com base no choro. Porque o choro, oras, é um sinalizador de que algo não está bem! Como ignorá-lo? Ler é uma coisa, fazer é outra. Dói em seu coração saber que seu bebê está chorando na tentativa de mostrar que precisa dela, e ela não o atender.
Então Polly decide abandonar as regras ditadas e seguir seu coração.
Vai até o berço, olha para seu filho e sente: não, você não é Darth! Vem com a mamãe, Luke!
O pega com carinho, o aninha em seus braços, junto ao seu peito, e dá seu colo a ele. E então, Luke para de chorar...
Luke queria o colo da mãe, a presença física da mãe, seu calor e as batidas do seu coração. Nesse momento, Polly percebe que, ainda que Luke não durma no horário que ela havia planejado, nem da maneira como havia pensado, uma coisa valiosa acontece: ela está tranquila com sua decisão.
 
Aquela velha história de "o caminho escolhido tem um coração?"...
E por trás de uma mãe tranquila com sua decisão, há, com certeza, um bebê tranquilo.
Polly, então, passa a rever o seu percurso e chega à conclusão de que o erro estava no sonho. Porque embora fosse um sonho lindo, ele pecava em um ponto: desconsiderava totalmente o próprio bebê e sua personalidade. Em nenhum momento se pensou que aquele bebê não conhecia a rotina do lar onde ele chegou, como acontece exatamente com todos os bebês. Ele poderia se adaptar. Ou não. E o fato de se adaptar rapidamente não o torna um super bebê expert pró-master versão uploaded. Ou, ao contrário, o fato de não se adaptar não faz dele um bebê-problema.
Ele apenas é assim. Não quer dormir, quer ficar com a mãe, quer colo. Eu o entendo: colo de mãe é mesmo coisa boa demais.
Mas como é que fica aquele papo de que deixar chorar até que durma funciona mesmo?
Se funciona?
Claro que funciona!
Funciona sim.
E eu vou te explicar porque funciona.
Para isso, façamos algumas analogias.
  1. Um amigo seu pede para que você faça um grande favor a ele, coisa que vai demandar tempo, esforço e deixar suas próprias coisas de lado para ajudá-lo. Você faz de bom grado. Terminada a tarefa, seu amigo dá tchau e vai-se embora, sem sequer agradecê-la ou abraçá-la. Qual a chance de você ajudá-lo novamente?
  2. Você conquista uma grande vitória no trabalho, chega em casa animada, feliz, e compartilha com seu companheiro a sua alegria. Conta tudo, nos mínimos detalhes. Assim que termina de contar, seu companheiro diz: "Dá um passinho pro lado, por favor? Tá passando Palmeiras e Santos". Qual a chance de você fazer a mesma coisa no dia seguinte, e no outro, e durante toda a semana?
  3. Uma amiga querida combina de te ligar para um café, já que faz tempo que quer te reencontrar. Ela liga uma vez, liga duas, liga três, liga quatro, liga cinco, mas você nunca pode. Qual a chance dela continuar tentando?
  4. Um aluno de 8 anos, em meio à aula, cria coragem e levanta a mão para fazer uma pergunta à professora. Ele pergunta e, na sequência, a professora vira as costas e continua falando sobre o que estava falando antes. Qual a chance dessa criança perguntar novamente?
  5. Você votou em um candidato político. Durante seu mandato, ele foi condenado pela justiça, teve seu impeachment decretado e ficou sem poder se candidatar por anos, por ter roubado uma imensa quantia de dinheiro que era destinada para projetos que ajudariam a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos brasileiros. Qual a chance de você votar nele novamente? (Ok, Brasil, pule para a próxima questão, não precisa responder...)

Ok. Acho que deu pra entender a semelhança em todos esses casos, não?
Sabe por que a chance de que esses mesmos comportamentos aconteçam novamente é mínima?
Porque aconteceu o que chamamos de EXTINÇÃO do comportamento.
A extinção de um comportamento acontece quando uma resposta deixa de ser reforçada, ou seja, quando há OMISSÃO do reforço. No caso do aluno de 8 anos que fez uma pergunta, por exemplo, o reforço para que ele continuasse participativo e interessado seria a professora ter dedicado atenção e empatia para responder ao seu questionamento. Como o reforço não aconteceu, então aquele comportamento tende a ser EXTINTO. Ou seja, é um procedimento eficaz para obter a diminuição gradual de algo. "Ahhh, olhaí! Viu?! Então, se eu quero que meu filho pare de chorar e aprenda a dormir, o processo de EXTINÇÃO do comportamento, por meio de não acalentá-lo, não pegá-lo no colinho, está certo mesmo! Ele vai parar de chorar e, enfim, irá dormir!".
Calma, amiga, ainda não terminamos. É preciso saber tudo sobre o processo...

Volte aos exemplos de 1 a 5 e responda: o que terá sentido aquela pessoa cujo comportamento não obteve resposta e que, provavelmente, também será extinto?

Como essa pessoa se sentiu? O que sentiu no momento em que a resposta que ela esperava que acontecesse, não aconteceu? É bom esse sentimento? Ele dá origem a boas coisas?

Como você se sentiu quando seu amigo não te agradeceu ou abraçou e como ficou sua relação com ele depois?

Como você se sentiu quando seu companheiro ou companheira não te deram o retorno emocional que você esperava nesse momento importante da sua vida? Será que rolou um DR depois?

Como será que sua amiga se sentiu - ou se sente - sabendo que você não consegue destinar um tempo a ela?

Como se sentiu o gurizinho de 8 anos quando a professora virou as costas à sua dúvida?

Como você se sentiu quando o seu candidato te roubou, e aos seus amigos, e aos seus filhos, e àqueles que passam dificuldades?
Não. Não são bons sentimentos...

Essa é a dimensão do problema.
Se deixar chorar funciona? Claro que funciona. Um comportamento realmente se extingue quando a resposta esperada não vem. Quando um bebê chora por algumas horas, por alguns dias, querendo o colo da mãe e a mãe, porque está colocando em prática um método que promete salvá-la, não dá aquilo que o bebê pede, ele tende a parar de chorar mesmo.
Agora, como será que ele se sente? O que te faz crer que a frustração e chateação que você sente quando não recebe resposta é diferente da dele?
Onde entra a Regra de Ouro nessa relação? Aquela, que sugere que tratemos os outros da maneira como queremos ser tratados (sádicos, vão dar uma voltinha agora, essa pergunta não é para vocês).

Os métodos baseados na extinção do comportamento realmente são válidos. Quase sempre.
Mas será mesmo que devem ser utilizados sempre, como um "guia"?
Pollyana não conseguiu. Ela se sentiu ferida por imaginar que os sentimentos do seu filho também poderiam estar sendo feridos.

Nesse método baseado em tentar extinguir o comportamento de chorar daquele bebê, podem acontecer alguns problemas, totalmente previstos pela teoria psicológica.

Um exemplo: se a mãe decidiu (mesmo que ela mesma esteja sofrendo com isso) ignorar o choro, ou não pegá-lo no colo, deixando o bebê chorar até que durma, mas o pai não conseguiu, ou a avó, ou a amiga, ou qualquer pessoa por perto que se sentiu aflita com o choro, e essa pessoa invadiu o quarto e pegou a criança no colinho, PREVEJA O EFEITO DISSO. A criança sabe que pode ser acalmada por um colinho, a família sabe que pode acalmar o bebê com o colinho, e o bebê sabe quem deu e quem não deu o colinho. E se você acha que, assim, está criando um tirano: desculpe, mas não é ele quem está no lado negro da força. Não acho muito coerente demonizar as crianças quando somos nós quem estamos negando acolhimento para que "aprendam o que queremos que aprendam, com base no nosso sonho ilusório".

Outra questão: a própria teoria afirma que, em algumas situações, pode ser cruel privar aquele indivíduo da atenção da qual precisava - e o CHORO é uma dessas situações. Porque o choro é um claro sinalizador de que algo não vai bem, indica dor, sofrimento emocional ou outra necessidade. Se uma criança está chorando e já é possível dialogar com ela, então que façamos isso. Mas um bebê tem no choro sua principal forma de comunicação. Não parece muito razoável que os ensinemos a deixarem de se comunicar quando precisam de algo, não é?

Uma última questão: o método da extinção do comportamento apresenta mais um ponto delicado. O processo de extinguir um comportamento (em nosso caso, o choro que antecede o dormir sozinho) pode produzir agressividade. Ah vá, que ninguém te contou?!

Por agressividade não estamos considerando somente a violência em si, mas a amplificação do comportamento que se quer extinguir. Ou seja: se o bebê foi deixado chorando, com a esperança de que, omitindo o acolhimento físico, ele vá se acostumar e finalmente dormir, esteja preparada para o fato de que ele pode, SIM, chorar ainda mais, no lugar de simplesmente dormir. Essa é uma situação prevista pela teoria.

É isso.
Se o método funciona?
Claro que funciona.
Ele para de chorar por extinção do comportamento e, com o tempo, dorme sem chorar - ainda que sua mãe não o embale - por condicionamento. A mãe o condicionou a isso. E ele não chora mais quando colocado para dormir sozinho porque aprendeu que não adianta chorar que sua mãe não vai pegá-lo no colo. Se alguém te disse que o que ele aprendia era "a dormir", te enganaram...
As teorias psicológicas não são mera teorização. Nossos comportamentos cotidianos, dos mais simples aos mais complexos, podem ser explicadas por elas.
Mas há que se ter sempre em mente os resultados das escolhas.
Sempre.

Não é ético ignorar uma parte do processo apenas porque ele não é tão bonito quanto você esperava que fosse. Também não adianta fingir que não existe.

O ideal é conhecer a fundo tudo, para que se possa escolher.
Polly não nasceu sabendo ser mãe - assim como todas as suas amigas. E as amigas das amigas.

Mas Polly preferiu ouvir seu coração que, de certa forma, é muito mais coerente com o que acontece no íntimo do seu bebê. Polly pegou para si a RESPONSABILIDADE de ser guiada por seu sentimento em relação ao filho. E pegar para si a responsabilidade disso é assumir os riscos inerentes. Porque uma coisa é dizer: "Mas eu só fiz o que o livro mandou" e outra bem diferente é dizer: "Sim, eu fiz porque eu quis, porque assim senti que devia fazer". Ainda assim, para Polly, foi muito mais tranquilizador do que simplesmente seguir um método que - SIM! - funciona.

Às custas de que? Aí é outra história. Que não é todo mundo que quer contar não...

Hoje, Polly e Luke (ou Padmé) vivem mais conectados. Luke sabe que, na hora de dormir, pode contar com o colinho de sua mãe.

Ainda que ele não durma do jeito que ela sempre sonhou...


E quem disse que nossos sonhos contêm aquilo do que realmente precisamos para sermos felizes?
Afinal, é na vida - e não no sonho - que vivemos.
Cuidado você deve ter, com fórmulas e métodos que salvadores se dizem. E também com os que, de manipuladores, as crianças chamam .
Já diria Mestre Yoda.

Fonte: http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/09/por-que-deixar-chorar-ate-que-se-durma.html

Espaço Nascente oferece consultas em grupo sobre cuidados com bebês

A ideia é tirar dúvidas de gestantes, pais e mães recentes e oferecer demonstrações práticas de cuidado relacionadas às principais questões e inseguranças que chegam à família junto com o bebê recém-nascido.
 
Cólicas, choros indecifráveis, pintinhas aqui e acolá, trocas de fralda, banhos... a rotina de um recém-nascido é cercada de mistérios e de um clima de (re)conhecimento. Junto com um bebê, nasce uma mãe, nasce um pai e nasce uma família. Os primeiros dias, os primeiros meses são recheados de dúvidas e questões que muitas vezes parecem pequenas aos de fora, mas que para os recém-pais são gigantes. Isso vai desde as manchinhas na pele, os pelos pelo corpo às primeiras tosses e engasgos. A chegada de um novo ser é um evento que carrega muitas informações e moções.
 
Pensando nisso, e de forma inovadora, o Espaço Nascente a partir de setembro passa a oferecer consultas em grupo para gestantes e acompanhantes, mães, pais e casais com bebês. “Nossa intenção é criar um ambiente acolhedor para esta família recém-formada, que precisa de informação e atenção para se sentir mais segura no cuidado com o seu filho”, explica o pediatra e coordenador-geral do espaço, Carlos Eduardo Corrêa, o Cacá.
 
Segundo ele, que é idealizador da atividade, o objetivo é entender a situação de cada família, acolhê-la e promover um reconhecimento para a criação e manutenção do vínculo tão necessário neste momento. “Este vínculo acontece pela emoção, pela pele, pelo toque, pelo banho prazeroso, pelo aleitamento, pelo colo. E é destas coisas que vamos conversar”, informa.
 
O fundamental, para Cacá, é que o sintoma seja compreendido para que a família saiba lidar com ele e não para calá-lo ou mascará-lo. “A principal questão ara um bebê recém-nascido é o choro. Vamos entender este choro e saber lidar com ele. Porque bebês choram. Mas o choro é um sintoma, e a causa dele é que é muito particular. Em grupo, falaremos do choro. Com cada família, buscaremos as diversas formas de como lidar com ele”, explica.
 
São dois tipos de encontros. Um primeiro grupo (de preparo para o nascimento) atenderá gestantes (e acompanhantes), casais e famílias no pós-parto até 6 meses. Um segundo grupo (de atendimento em puericultura) será focado ara pais e mães de bebês de 6 meses a um ano de idade.
 
Os encontros serão semanais e terão duas horas de duração. A ideia é que cada encontro possa trazer ao grupo uma contribuição a respeito de algum aspecto da maternidade / paternidade recente e as necessidades de um recém-nascido: comida, conexão, comunicação e carinho, mas também que possam tirar dúvidas corriqueiras, com demonstrações práticas, como banhos, trocas de fralda, limpeza de umbigo, etc.
 
Cada encontro contará com a participação de um convidado, para tratar de temas centrais, como amamentação, uso de carregadores, banhos e massagem e aspectos psicológicos.
 
 
Inscrições e informações: Espaço Nascente
Rua Grajau, 599 - São Paulo
 (11) 3672-6561 / (11) 2548-6383     

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Crianças nas costas - Texto bonito e sensível sobre as crianças peruanas

Por Diana Lichtenstein Corso
 
 
A psicanalista Diana Lichtenstein Corso, colunista do jornal Zero Hora, viajou recentemente conosco para o Perú e escreveu hoje na sua coluna de ZH, este bonito e sensível texto sobre as crianças peruanas. 

O Viajando com arte transcreve aqui a coluna para aqueles que por alguma razão não leram no jornal:

Com o filho nas costas

Tenho uma espécie de brincadeira comigo mesma, um desafio pessoal, que consiste em adivinhar a idade dos bebês. Deixei a prática com crianças com certa tristeza e, assim, fico testando se esqueci o que sabia a respeito delas. Recentemente errei feio: em viajem ao Peru, encontrei um garotinho simpático e participativo, ao qual atribui cinco meses, quando tinha apenas dois.

Até os três meses, um bebê luta para controlar o movimento da cabeça, de forma que possa focar seus olhos no ponto desejado. A direção do olhar, que lhe permite fundamentais trocas e aquisições, é uma longa conquista. Àqueles olhos negros não havia detalhe que escapasse. Essa precoce destreza motora, que me confundiu, provavelmente deve-se ao fato de que muitos bebês daquele país costumam acompanhar as atividades da mãe enrolados num pano amarrado às suas costas. Como marsupiais, eles precisam esforço para brotar das entranhas de tecido que os aconchegam, mas também exigem muito de sua musculatura.

Esse foi apenas um dos vários encontros que tive com crianças, principalmente em idade pré-escolar, em Cuzco. Elas estavam com os pais nas lojas, banquinhas de rua, restaurantes, e não se resignavam a ficar mudas, fingindo de mobília. Em geral, contribuíam com sua alegria para o sucesso das vendas. Conversavam, se apresentavam aos turistas, brincavam de esconde-esconde, gargalhavam muito. Quando se agitavam um pouco mais, um olhar severo, uma palavra da mãe ou do pai, bastavam para limitar a exuberância, que sinceramente não incomodava.

Para nós, país de curta memória, o contato com a história pré-colombiana é transformadora, descobri quanto o velho mundo também é deste lado do oceano, meu senso de passado se alargou. Voltei maravilhada, mas a lembrança desses pequenos descendentes de Incas, Mochicas, Nazcas e Paracas disputa espaço entre a beleza das imponentes ruínas e da natureza da região.

Aprendi que para os Incas, os antepassados mais recentes dessas crianças, o ócio, a preguiça, figura entre os pecados capitais. É, aliás, o pior deles. Não me pareceu estranha essa informação, pois trata-se de um povo que surpreende pelo bom humor com que executa suas tarefas. Trabalhar os orgulha, não é sinônimo de servidão ou alienação.

Por isso, a presença de famílias que se harmonizavam com o ambiente de trabalho, deixou-me pensativa. Revela uma forma peculiar de encarar a questão da transmissão de valores e do espaço das crianças em uma cultura. Esses pais incutem respeito em seus filhos pelo que fazem. A educação das crianças espelha o sistema de valores dos pais: o que pensam, diferente do que dizem. Os filhos sempre sabem a verdade.

Em nossa cultura, diferenciamos muito bem o território dos adultos e crianças. Para nós, o local de trabalho é impróprio para os filhos, onde atrapalhariam e ficariam descuidados. Essas crianças peruanas que conheci, vivem seu começo longe da nossa dita sabedoria psicológica e pedagógica. O espaço é partilhado, mas os limites e exigências são bem claros. Precisam desenvolver a envergadura física e moral, modos e músculos, para viabilizar o convívio. O que provam ter, por vezes bem mais do que as nossas. Isso dá o que pensar em termos de clichês e invenções educativas, para as quais vivemos em busca de fórmulas, critérios, conselhos. Como os valores e as balizas são internos, refletem as convicções de uma família, de uma cultura, nossos esforços práticos nem sempre são recompensados. A infância espelha a ética de um povo, o que fazem, diferente do que dizem. As crianças revelam nossas verdades.

Fonte:
http://wp.clicrbs.com.br/viajandocomarte/2012/05/23/criancas-nas-costas-texto-bonito-e-sensivel-sobre-as-criancas-peruanas-de-diana-lichtenstein-corso/